Poemas neste tema

Humor e Ironia

Tatiana Faia

Tatiana Faia

alguns sons antes da manhã

às vezes harmonia e desarmonia ganham fôlego
para se somarem em algo
que parece raro, definitivo, surpreendente
um cavalo ferido em contraluz
nos campos de nevoeiro
ergue-se finalmente diante dos olhos

não exactamente música
mas um pedaço da minha vida
cifrado no estrépito de uma voz
que desce em ângulos
de ironia e esperança
alegria e indiferença

e rebate na luz dos olhos baixos
acendendo-se apagando-se

trouxe-me aqui uma memória
que insistiria em atravessar um continente
por poucas horas, uma garrafa de vinho
a vitalidade de uma certa
quantidade de conversa fiada
numa sucessão de acontecimentos
que não conjuram exactamente uma ordem
embora tu ao contrário de mim
acredites que há no universo uma ordem
eu regressei mesmo pela extrema necessidade
de um pouco de caos

é preciso queimar este tempo
antes de entrarmos de novo na realidade
diz cinco minutos cinco horas

ou talvez a mais adequada forma fossem
as coisas mais imediatas mais fáceis
a espessura de um licor escuro e amargo
num copo minúsculo e raso
ou de uma chávena cheia de café
de manhã, no estômago vazio
os meus ouvidos atentíssimos
plantados entre os leões
assaltados pelo tilintar de colheres em chávenas
facas e garfos contra os pratos
famílias inteiras rindo
e enchendo as mesas para jantar
enquanto sobre mim se abate
a absurda ideia de que nem sequer
ouvi os teus passos afastarem-se
que devemos ser agora um pouco
menos misteriosos mas mais reais
em algum ponto da cidade
os sinos da catedral maceram o ar
e aquele martelo que ouvi
trabalhar ao longe
os golpes desferidos a intervalos regulares
sobre a pedra
foi-se silenciando
mas vai daqui a algumas horas ou dias ou meses
acertar-me em cheio no centro do torso
esmagar-me o peito no mais absurdo
tropeço de ternura

todo o vidro desta atmosfera é febril
tilinta nas conversas
que se vão distanciando
mas não há mais nenhum rosto
para além do teu
e não há já ninguém
não resta quase resíduo nenhum
de tudo o que existe e é real
a estas horas toda a cidade está vazia

daqui tu observas já
os pontos da cronologia
a que se hão-de agarrar
as garras e os ganchos desta madrugada
a fixação destes instantes
na história da vida de alguém

não sei como é que
à medida que o tempo acelera
à minha frente só a promessa
do incêndio da manhã
ainda a algumas horas de distância
é evidente

o girar cada vez mais rápido
de cada vez mais e mais cor
colando-se a cada minuto
de um carro que acelera a toda velocidade
para romper a primeira barreira da escuridão
quando ainda não percebo ao certo
se é noite ou manhã
e finalmente a abertura definitiva
um archote deflagrando entre dois instantes
precipitando-se da mão
de um anjo muito com os copos
e muito em desequilíbrio
que contra a harmonia do mais celeste dos coros
encena por apoteose
a tarefa de se atirar do alto da primeira arcada do céu
trazendo com ele fiapos de penas, confusão e desarmonia
como uma teimosa diva no último acto de uma ópera
de olhos fechados, de braços cruzados sobre o peito
para um tráfego de rolls royces lá em baixo

mas é ainda mais cómica a evidência
agora indisputada:
através do nevoeiro
despenhando-se contra os faróis:
a noite transformada em manhã


Roma, 19 de Dezembro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
681
Georges Emmanuel Clancier

Georges Emmanuel Clancier

Surrealismo: Revolta e Conquista

O surgimento dos poemas destrutivos e visionários de Rimbaud e Lautréamont coincide com guerra de 1870 e a insurreição da Comuna, do mesmo modo que o novo cataclisma guerreiro de 1914-1918 e a Revolução de Outubro de 1917 ensangüentam e iluminam o tempo que trará a revolta dos poetas adolescentes guiados pelos apelos, blasfêmias e cóleras, além dos entusiasmos bradados outrora no deserto, através das lluminations e dos Chants de Maldoror.
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
886
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

O essencial é ter o vento

O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.

1 486
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Ela, a Poesia de hoje

Ela, a Poesia de hoje,
Como que foge
De si mesma e se dói
De ter sido algum dia
Meramente poesia.

Erra,
Solitária e solene,
Nos caminhos da terra,
E vitupera o céu
E o que ele encerra:
- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!

Canta a grilheta, a enxada
E a madrugada
Dos dias que hão-de-vir,
E como frutos, cair
Em nossas mãos...

Fala no imperativo,
E tem por vocativo
- Irmão! Irmãos!

Mas longe,
E perto, porque em nós,
Onde uma fonte canta
Uma toada clara,
Um fauno sabe e ri,
Na pedra gasta e escura,
Um fim de riso
De ironia rara...

1 504
António Pocinho

António Pocinho

em caso de fogo

Em caso de fogo, a primeira coisa que se deve fazer é perder a cabeça. O pior inimigo do fogo é a cabeça. Começa-se por querer sair dali a qualquer preço, não olhar a nada, esquecer tudo, desaparecer, mesmo que seja para o interior de si próprio, onde por sinal há muito mais fogos do que no litoral.
Cento e trinta e cinco por cento das vítimas do fogo são homens. O restante são mulheres e crianças e nenhuma delas abandonou a cabeça. Embora nenhuma vítima tenha sequer tido tempo para pensar que poderia estar noutro local, como no interior ou no litoral de si próprio, todas foram encontradas agarradas às coisas mais incontroláveis, como uma beata, uma bóia ou uma recordação.
1 249
Abū al-Qāsim ash-Shābbī

Abū al-Qāsim ash-Shābbī

A estranha narrativa

Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.
(Versão de Luís Filipe Parrado, a partir da tradução inglesa de Lena Jayyuri e Naomi Shihab Nye reproduzida em "The flag of childhood - poems from the middle east"; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, 2002, p. 32).
813
Chico Doido de Caicó

Chico Doido de Caicó

Uma vez em Campina Grande

Uma vez em Campina Grande
Perto da Maciel Pinheiro
Tomei tanto sorvete de rainha
Que o Rei Luís de França
Resolveu bombardear o Japão.
Acuda-me Zé Limeira, nego véio,
Tocaram fogo no Cariri
Só pra que eu pudesse rimar
Tatu com xixi.
1 178
Chico Doido de Caicó

Chico Doido de Caicó

Um dia encontrei Zé Limeira

Um dia encontrei Zé Limeira
Às margens do Bodocongó
Eu perguntei por Campina
Ele perguntou por Caicó.
Perto de Guarabira
Lá pras bandas de Sapé
Cristo dançava xaxado
Com a princesa Isabé.
Eu também já fui jumento
Diz o Novo Testamento.
1 159
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Canto Primeiro

XIV

Escutai-me, leitor, a minha história,
E'fantasia sim, porém amei-a.
Sonhei-a em sua palidez marmórea
Como a ninfa que volve-se na areia
Co'os lindos seios nus... Não sonho glória;
Escrevi porque a alma tinha cheia
— Numa insônia que o spleen entristecia —
De vibrações convulsas de ironia!

XV

Mas não vos pedirei perdão contudo
Se não gostais desta canção sombria
Não penseis que me enterre longo estudo
Por vossa alma fartar de outra harmonia!
Se vario no verso e idéias mudo
E'que assim me desliza a fantasia...
Mas a crítica, não ... eu rio dela...
Prefiro a inspiração de noite bela!

XVI

A crítica é uma bela desgraçada
Que nada cria nem jamais criara;
Tem entranhas de areia regelada:
E'a esposa de Abrão, a pobre Sara
Que nunca foi por Anjo fecundada:
Qual a mãe que por ela assassinara
Por sua inveja e vil desesperança
Dos mais santos amores a criança!

(...)

XXIV

Meu herói é um moço preguiçoso
Que viveu e bebia porventura
Como vós, meu leitor... se era formoso
Ao certo não o sei. Em mesa impura
Esgotara com lábio fervoroso
Como vós e como eu a taça escura.
Era pálido sim... mas não d'estudo:
No mais... era um devasso e disse tudo!

XXV

Dizer que era poeta — é cousa velha:
No século da luz assim é todo.
O que herói de novelas assemelha.
Vemos agora a poesia a rodo!
Nem há nos botequins face vermelha,
Amarelo caixeiro, alma de lodo,
Nem Bocage d'esquina, vate imundo,
Que não se creia um Dante vagabundo!

XXVI

O meu não era assim: não se imprimia,
Nem versos no teatro declamava!
Só quando o fogo do licor corria
Da fronte no palor que avermelhava,
Com as convulsas mãos a taça enchia.
Então a inspiração lhe afervorava
E do vinho no eflúvio e nos ressábios
Vinha o fogo do gênio à flor dos lábios!

(...)

XXXII

Olvidei a canção: só lembro dela
Que d'alma a languidez a estremecia:
Como um anjo num sonho de donzela
Sobre o peito a guitarra lhe gemia!
E quando à frouxa lua, da janela,
Cheia a face de lágrimas erguia,
Como as brisas do amor lhe palpitavam
Os lábios no palor que bafejavam!

XXXIII

Amar, beber, dormir, eis o que amava:
Perfumava de amor a vida inteira,
Como o cantor de Don Juan pensava
Que é da vida o melhor a bebedeira...
E a sua filosofia executava...
Com Alfredo Musset, a tanta asneira
Acrescento porém... juro o que digo!
Não se parece Jônatas comigo.

XXXIV

Prometi um poema, e nesse dia
Em que a tanto obriguei a minha idéia
Não prometi por certo a biografia
Do sublime cantor desta Epopéia
Consagro a outro fim minha harmonia...
Por favor cantarei nesta Odisséia
De Jônatas a glória não sabida...
Mas não quero contar a minha vida.

XXXV

Basta! foi longo o prólogo! confesso!
Mas é preciso à casa uma fachada,
À fronte da mulher um adereço,
No muro um lampião à torta escada!
E agora desse canto me despeço
Com a face de lágrimas banhada,
Qual o moço Don Juan no enjôo rola
Chorando sobre a carta da Espanhola.




Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série O Poema do Frade.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 986
Luís Gama

Luís Gama

A um Nariz

Você perdoe,
Nariz nefando
Que eu vou cortando
E ainda fica nariz em que se assoe.
G. DE MATOS

Aí vai, leitores,
Um monstro esguio,
Que em corropio
De uma rua tem posto os moradores.

Maior que a proa
De nau de linha,
Tem camarinha
Aonde à tarde se obumbra a tocha coa,

Rinoceronte
De tromba enorme,
Mais desconforme
Do que o mero, a baleia, a catodante

Nariz bojante,
Recurvo e longo,
Que lá do Congo
Alcança o Tenerife e monte Atlante.

De raça eslava
Tremenda espiga,
E há quem diga
Que nela Polifemo cavalgava.

Nariz alado,
De cor bringela.
Que de pinguela,
Serviu no Amazonas celebrado.

E se não mente
A tradição,
De lampião
Fazia num farol da Líbia ardente.

Nariz de pau,
Com tal composto,
Que sobre o rosto
Tem forma de bandurra ou berimbau.

Cavado e torto,
Formal tripeça,
Fundido à pressa
Nas forjas de Vulcano — por aborto.

Nariz de forno,
De amplas badanas,
Que mil bananas
Aloja em cada venta, sem transtorno.

É tão famoso
O tal nariz,
Que por um triz
Não fez parte do Cabo Tormentoso.

Qual catatau
Da testa pende,
E alguém entende
Ser ninho de coruja ou picapau.

Nariz de barro,
Mas não cozido,
Que suspendido,
Sobre as grimpas da lua vai de esbarro.

De quanto fiz
Não se enraiveça;
Não enrubesça,
Que pr'a dar e vender sobra nariz.


Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.58-59. (Últimas gerações, 4)
2 559
Charles Baudelaire

Charles Baudelaire

A BEATRIZ

Num solo hostil, crestado e cheio de aspereza,
Enquanto eu me queixava um dia à natureza,
E de meu pensamento ao acaso vagando
Fosse o punhal no coração sem pressa afiando,
Em pleno dia eu vi, sobre a minha cabeça,
Prenúncio de borrasca, uma nuvem espessa,
Trazendo um bando de demônios maliciosos,
Semelhantes a anões perversos e curiosos.
Entreolham-se a mirar-me, aguda e friamente,
E, como o povo que na rua olha um demente,
Eu ps via rir, entre si cochichando,
Piscando os olhos e também sinais trocando:

Contemplemos em paz essa caricatura
Que do fantasma de Hamlet imita a postura,
Os cabelos ao vento e o ar sempre hesitante.
Não causa pena ver agora esse farsante,
Esse idiota, esse histrião ocioso, esse indigente,
Que seu papel de artista ensaia à nossa frente,
Querer interessar, cantando as suas dores,
Os grilos, os falcões, os córregos e as flores,
E mesmo a nós, que concebemos esses prólogos,
Aos berros recitar na praça os seus monólogos?

Com meu orgulho sem limite, eu poderia
Domar a nuvem dos anões em gritaria,
Deles desviando a fronte esplêndida e serena,
Caso não visse erguer-se, em meio à corja obscura
- Crime que até a própria luz do sol abala! -
A deusa a cujo olhar outro nenhum se iguala,
Que com eles de minha angústia escarnecia,
E às vezes um afago imundo lhes fazia.

(Tradução
de Ivan Junqueira)

5 669
Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

CARMEM 56

Mas que coisa mais ridícula e jocosa,
Digna, Catão, do teu riso e teus ouvidos.
Ri, pois, tanto quanto amas, Catão, Catulo,
Que a coisa é assaz ridícula e jocosa.
Há pouco vi um menino e uma meninaEngatados; e então nele, praza a Vênus,
De pronto engatei a minha vara rija.

(Tradução
de José Paulo Paes)

1 355
Gregório de Matos

Gregório de Matos

FlNGINDO O POETA QUE ACODE PELAS HONRAS

DA CIDADE,ENTRA A FAZER JUSTIÇA EM SEUS
MORADORES, ASSINALANDO-LHES OS VICIOS,
EM QUE ALGUNS DELES SE DEPRAVAVAM

Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei

O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés

com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei

A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.

A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.

Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.

O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.

O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.

A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.

O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.

Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.

1 695
Heinrich Heine

Heinrich Heine

DOCH DIE KASTRATEN

Quando ensaiei minhas árias
Os castrados protestaram.
Que voz, que dicção, ordinárias
- Protestaram e clamaram.

E logo de cada qual
A vozinha delicada
Em trilos como cristal
Pura vibrou e afinada.

De desejos só cantavam,
E do amor e suas partes.
E as damas todas choravam
Comovidas com tais artes.

1 974
Marcial

Marcial

IV, 7 - A HILO

Porque ontem que tu davas, hoje, ó Hilo, negas,
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?

1 108
Marcial

Marcial

IV, 82 - ACERCA DE FÁBULA

Porque o epigrama, Fábula, meu lesse,
Em que me queixo que ninguém se nega
Rogada até três vezes repeliu
Do amante as preces. Fábula, promete:
Negar é justo, trinegar não é.

1 109
Marcial

Marcial

V, 76 - A CINA

Tanto bebeu Mitrídates veneno
Que mal nenhum já lhe poder fazia.
Tal como tu: de sempre cears tão mal,
Não podes, Cina, já morrer de fome.

583
Marcial

Marcial

V, 45 - A BASSA

Te dizes bela, dizes que ainda, Bassa, és virgem.
Isso, quem não é já dizer, Bassa, costuma.

1 068
Marcial

Marcial

IV, 71 - A SOFRÓNIO RUFO

Busco, Sofrónio Rufo, há muito, na cidade,
Menina que se negue. Mas nenhuma nega.
Como se pelos deuses, pela lei, negar-se
Não fora permitido, nenhuma se nega.
- Casta não é nenhuma? - Mil o são. - Que fazem
Pois elas? - Não se dão, mas também não se negam.

939
Luis Manoel Paes Siqueira

Luis Manoel Paes Siqueira

Telegrama Urgente para Solange Siqueira

Um dia você recebeu
uma boneca suíça
e resolveu que com ela
jamais iria brincar.

(Ela era bonita demais
diante dos outros brinquedos)

O tempo passou e lhe fez
boneca mais que suíça
Aquela menina morena
que adorava cantar.

Mas Deus mudou seu caminho
brincando de marionete
(Que dados estranhos ele joga
no jogo que só ele ganha?)

Nublaram as suas idéias
do sonho de ser feliz
e os cães paramentados
fecharam as portas dos templos.

"Aqui não pode ficar
quem faz o livre-pensar
e pra poder frequentar
somente usando o crachá"

As suas mãos revidaram
criando flores de prata.

Agora o jogo termina
e como sempre acontece
o vencedor se recolhe
ao seu silêncio profundo.

Escuta um conselho do amigo:
não entre no céu loteado
do clero esclerosado.

Procure um planeta florido
e um anjo assim distraído
que saiba tocar violão
e espera por teu irmão:

- Eu levo a boneca comigo.

Notas Explicativas (Ao modo Soares Feitosa)
1. Numa viagem de meu pai àquele país, deu-lhe uma boneca belíssima.
2. Solange, assim como a boneca, também era.
3. Deus brinca de boneca com a gente e com "dados viciados".
4. A boneca e a dona se confundem. Só que uma canta e é moreninha.
5. Aos vinte e três anos, solange apresentou problemas psiquiátricos graves Esquizofrenia. Mesmo assim, terminou o curso de Arquitetura e noivou com um amigo de infância. Mas eu e ela, desde os 17, havíamos deixado de frequentar igrejas protestantes. Por pedido de meu pai, ela voltou a essas igrejas para casar lá, mas elas se recusaram pelo fato de termos nos afastados. (Meu avô era pastor presbiteriano e construiu várias igrejas no sertão — veja a ironia).
6. Solange por muitos anos desenhou jóias e ficou muito conhecida no Recife como designer.
7. Agora, a morte. E o vencedor se recolhe...

1 129
Mário Hélio

Mário Hélio

8 - VIII (Révora)

eu pensei que não seria o único
a penetrar sorrateiro em tua alcova
e beber o lume e a lama de tantos corpos.
nós estávamos um pouco tristes,
e nus sabíamos os últimos puros.
o suor saía dos teus poros,
e eu já para ti algum escudo
quando a luz da escuridão nos envolvia.
e tu volvias, amiga.
eu não sabia que vias poesia em tudo.

teu lábio, contudo, emudecia, umedecia-se de orvalho,
e nós estávamos mudos.
foi quando o anjo singular da fantasia
despiu-se mostrando-se todo.
e então em um ato sublime
também te deitaste em mim
como um jardim em espinhos.
tu não sabes que este não é o caminho?
não atinavas, estavas sozinha, e eu, sozinho,
brincando com a tua agonia.
eu não sabia que vias poesia em tudo.

mas o que esse tudo abrangia?
a mim? a nós? ou ao que me iludo
adaptando-me moldando-me à alegria
que existia sempre? sempre até quando?
e ser preciso morrer de vez em quando
e ser preciso precisar-te que preciso
e aguardo-te, e guardo teu riso no meu viso
que sem ter mais o que espelhar
vai-se espelhando narciso.
eu vi um vulto sem saber que via,
sem saber que vias poesia em tudo.

veneno doce que bebido mata
mas que embebido só numa canastra
arde e maltrata só.
mas que importa toda parafasia
ou monomania de dois nomes
se é substantivo poesia
e tudo é indefinido pronome?

646
Fernando Namora

Fernando Namora

Cantar D'Amigo

Estrangeiro!
talharam-nos em redor fossos, limites
e o cerco das fronteiras.
Estrangeiro! Ninguém entendeu, e nem tu, estrangeiro,
que entre nós não existem cordilheiras.

Ficaste de mãos desastradas, indiferentes,
quando a minha vida roçou a tua vida.
De olhos parados, indiferentes,
quando passei a teu lado.

Estrangeiro! Ficou-me esse desperdício de um adeus
que as tuas mãos frias não disseram,
nem os teus olhos vidrados,
nem a tua boca selada,
mas que eu pressenti, como alguém á beira de um cais,
ao ver sair barcos com gente que nos é estranha,
agitando lenços estranhos
alguém que sofre por nada.
Iludimos a vida, amigo!
E como para ultrapassar as fronteiras
os fossos,
as ironias
bastaria um só olhar!...
Não, estrangeiro! Vamos misturar o sangue dos rios
o abismo dos mapas
fazer qualquer coisa! misturar, misturar.

2 584
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Detestei logo o Doutor Fausto.

Detestei logo o Doutor Fausto. 
Em sua casa sofri vida severa e claustral,
e foi um indizível gosto
quando o áspero eclesiástico
morreu lastimosamente de um carbúnculo.

Passei então para a divertida hospedagem das malícias,
e conheci logo, sem temperança,
todas as independências da pele.
Nunca mais rosnei a deslavada oração a Santa Rita,
nem dobrei o meu joelho viril
diante de imagem benta que não usasse minissaias.
Embebedo-me com alarido;
afirmo a minha robustez, abrindo sanguinolentamente os
paradoxos ao meio;
farto a carne com ginásticas subterrâneas;
e, como a barba me vem basta e negra,
aceito com orgulho a alcunha de Raposão.
Todos os quinze dias, porém, escrevo à Yvonne,
com a minha letra de míope,
uma carta alegre mas piedosa,
onde lhe conto a austeridade dos horários do bar,
o recato dos meus gins tónicos,
as copiosas rezas e as rígidas ressacas.

Escrevo muito porque eu sei que,
ao fim de mil páginas,
haverá sempre algum crítico
a comparar-me com Proust.

Escrevo-te, sobretudo,
na esperança de que o Raposão seja mais inteligente e mais
bonito do que eu.
O Raposão tem muitos pêlos no peito,
tem uma voz grossa.
O Raposão deve conseguir fazer-te regressar.
845
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Poeta na Praça da Alegria

Não sou infeliz. Não, não me quero matar. 
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias 
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas. 
Acredito nos milagres de Fátima
e no bacalhau com broa. 
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles. 

Não, não guardo nenhum sentido escondido. 
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas
em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda. 
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor. 
Isto é apenas um croché 
esquecido em cima do refrigerador. 

Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.

Obrigado por procurarem a eternidade da raça. 
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.
1 102