Poemas neste tema
Ciência e Razão
Carlos Felipe Moisés
Tradicão Reencontrada
Lirismo e antilirismo em João Cabral
Foi em 1966, logo após A educação pela pedra, que João Cabral pela primeira vez prometeu parar de escrever, sob a alegação de que esgotara o veio e não tinha mais o que dizer. Foi preciso aguardar até 1975, quando Museu de tudo quebrou a promessa --em seguida refeita e de novo rompida, com A escola das facas, em 1980. Na abertura desta coletânea, um bilhete em versos, ao editor, declara: "Eis mais um livro (fio que o último)". Em seguida os intervalos diminuem: Auto do frade, 1984; Agrestes, 1985; Crime na Calle Relator, 1987; Sevilha andando, 1989 --sempre entremeados de entrevistas em que a mesma promessa é refeita para ser descumprida. Que enigmas esconderá a inusitada atitude?
Uma explicação possível é que o poeta exige de si bem mais do que seus leitores o fazem. Seu exacerbado rigor, além da própria idade (Cabral é de 1920), o levam a declarar-se exaurido e desistente, a cada novo livro. É o preço que paga por ter levado sua poesia a tão altas paragens. A fama é implacável: a mesma devoção com que o lemos nos leva a esperar que ele se recupere, para que possamos fruir, sem cessar, sua energia criadora. Mas continua a intrigar a promessa tantas vezes firmada quantas desmentida. Talvez se oculte aí uma das chaves que permitirá compreender o sentido de sua trajetória poética e humana. Antes de aventar outras explicações, convido o leitor a deter comigo a atenção em Crime na Calle Relator, marcadamente característico do último Cabral.
A exemplo do que vinha ocorrendo desde Museu de tudo, não se trata de um livro "vertebrado", isto é, composto a partir de um plano geral de estruturação. É uma recolha mais ou menos arbitrária de poemas avulsos, "não chega ao vertebrado/ que deve entranhar qualquer livro:/ é depósito do que aí está", dizia o poeta na abertura da coletânea de 1975. Em entrevista concedida no ano seguinte, como que para atenuar a severidade da autocrítica, ele esclarece, referindo-se a Museu de tudo: "Fiz o que todos os poetas fazem: escrevi, escrevi e publiquei o livro. Por isso ele é menos rigoroso como concepção geral, mas não creio que se possa dizer o mesmo quanto à concepção do verso".
A avaliação é correta e aplica-se também aos livros posteriores, como este Crime na Calle Relator. Aqui João Cabral utiliza uniformemente um só padrão métrico, o octossilábico, de rimas ora toantes, ora consoantes, realizando um esforço de disciplina e contenção invulgar na moderna poesia da língua. Mas isso não é novidade. O leitor habituado à poesia cabralina conhece de longa data sua aversão à "espontaneidade". Não são novidade também a extrema concisão e o discurso elíptico, que obrigam o leitor a uma cerrada atenção, sob pena de perder o fio do que se diz, sempre sutil, velado, escondido nas entrelinhas.
Considere-se por exemplo o poema intitulado "A sevilhana que não se sabia" (composição aliás reproduzida na coletânea mais recente, Sevilha andando), cujos versos iniciais
Quando queria dá-la a ver
ou queria dá-la a se ver
ei-lo então incapaz de todo:
nada sabe dizer de novo
soam herméticos, ou ao menos dúbios, à primeira leitura. "Dá-la a ver" entende-se: dar a ver a sevilhana, "que não se sabia", como informa o título. Mas quem o "queria"? Bem, por ora não importa; alguém o queria, quem quer que seja, que não a própria sevilhana. E "dá-la a ver" a quem? Ao corrigir o primeiro verso, o segundo introduz um "se" gerador de inevitável ambigüidade. Permitindo que a sevilhana seja vista, por qualquer observador, esse alguém também se vê a si próprio. A ambigüidade, decorrente da elisão dos pronomes retos e da similitude de formas verbais e pronomes oblíquos, para as duas pessoas, estende-se por todo o longo poema, composto de quatro conjuntos simétricos de dez dísticos. ("Eu tenho mania de simetria", confessará o poeta em entrevista recente.) A ambigüidade só ao final se esclarece, entre parênteses: "não fosse ele homem do Nordeste".
Isso nos obriga a reler o poema, cientes agora de que esse alguém que queria dar a ver a sevilhana é o próprio poeta (que também "não se sabia"?), imiscuído em seu motivo literário desde o primeiro verso --o que também não chega a ser surpresa. Mesmo que não se tivesse dado conta antes, até o leitor menos atento já o sabia, desde as "Dúvidas apócrifas de Mariane Moore", esclarecedor poema de Agrestes, que assim principia:
Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?
Crime na Calle Relator não escapa à regra: é uma sucessão de poemas que "falam de coisas", poemas descritivos e narrativos, expediente em que o autor vem insistindo há muitos anos. O recenseamento dos seus motivos não parece ser, de imediato, revelador: a neta que leva um gole de cachaça à avó no leito de morte; a sevilhana que é Sevilha sem o saber; a suicida que conduz uma tartaruga pelas ruas; três viúvas que conversam interminavelmente a propósito das filhas artistas; um ferrageiro de Carmona que explica a diferença entre ferro fundido e ferro forjado; o psiquiatra; o leito de lama do Parnamirim, em Recife; outra vez Sevilha, e assim por diante. O resultado é um colorido mosaico de tipos humanos --dramatis personae que povoam cenários variados, sempre em clima de estranheza, nonsense, magia.
Foi em 1966, logo após A educação pela pedra, que João Cabral pela primeira vez prometeu parar de escrever, sob a alegação de que esgotara o veio e não tinha mais o que dizer. Foi preciso aguardar até 1975, quando Museu de tudo quebrou a promessa --em seguida refeita e de novo rompida, com A escola das facas, em 1980. Na abertura desta coletânea, um bilhete em versos, ao editor, declara: "Eis mais um livro (fio que o último)". Em seguida os intervalos diminuem: Auto do frade, 1984; Agrestes, 1985; Crime na Calle Relator, 1987; Sevilha andando, 1989 --sempre entremeados de entrevistas em que a mesma promessa é refeita para ser descumprida. Que enigmas esconderá a inusitada atitude?
A exemplo do que vinha ocorrendo desde Museu de tudo, não se trata de um livro "vertebrado", isto é, composto a partir de um plano geral de estruturação. É uma recolha mais ou menos arbitrária de poemas avulsos, "não chega ao vertebrado/ que deve entranhar qualquer livro:/ é depósito do que aí está", dizia o poeta na abertura da coletânea de 1975. Em entrevista concedida no ano seguinte, como que para atenuar a severidade da autocrítica, ele esclarece, referindo-se a Museu de tudo: "Fiz o que todos os poetas fazem: escrevi, escrevi e publiquei o livro. Por isso ele é menos rigoroso como concepção geral, mas não creio que se possa dizer o mesmo quanto à concepção do verso".
A avaliação é correta e aplica-se também aos livros posteriores, como este Crime na Calle Relator. Aqui João Cabral utiliza uniformemente um só padrão métrico, o octossilábico, de rimas ora toantes, ora consoantes, realizando um esforço de disciplina e contenção invulgar na moderna poesia da língua. Mas isso não é novidade. O leitor habituado à poesia cabralina conhece de longa data sua aversão à "espontaneidade". Não são novidade também a extrema concisão e o discurso elíptico, que obrigam o leitor a uma cerrada atenção, sob pena de perder o fio do que se diz, sempre sutil, velado, escondido nas entrelinhas.
Considere-se por exemplo o poema intitulado "A sevilhana que não se sabia" (composição aliás reproduzida na coletânea mais recente, Sevilha andando), cujos versos iniciais
Quando queria dá-la a ver
ou queria dá-la a se ver
ei-lo então incapaz de todo:
nada sabe dizer de novo
soam herméticos, ou ao menos dúbios, à primeira leitura. "Dá-la a ver" entende-se: dar a ver a sevilhana, "que não se sabia", como informa o título. Mas quem o "queria"? Bem, por ora não importa; alguém o queria, quem quer que seja, que não a própria sevilhana. E "dá-la a ver" a quem? Ao corrigir o primeiro verso, o segundo introduz um "se" gerador de inevitável ambigüidade. Permitindo que a sevilhana seja vista, por qualquer observador, esse alguém também se vê a si próprio. A ambigüidade, decorrente da elisão dos pronomes retos e da similitude de formas verbais e pronomes oblíquos, para as duas pessoas, estende-se por todo o longo poema, composto de quatro conjuntos simétricos de dez dísticos. ("Eu tenho mania de simetria", confessará o poeta em entrevista recente.) A ambigüidade só ao final se esclarece, entre parênteses: "não fosse ele homem do Nordeste".
Isso nos obriga a reler o poema, cientes agora de que esse alguém que queria dar a ver a sevilhana é o próprio poeta (que também "não se sabia"?), imiscuído em seu motivo literário desde o primeiro verso --o que também não chega a ser surpresa. Mesmo que não se tivesse dado conta antes, até o leitor menos atento já o sabia, desde as "Dúvidas apócrifas de Mariane Moore", esclarecedor poema de Agrestes, que assim principia:
Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?
Crime na Calle Relator não escapa à regra: é uma sucessão de poemas que "falam de coisas", poemas descritivos e narrativos, expediente em que o autor vem insistindo há muitos anos. O recenseamento dos seus motivos não parece ser, de imediato, revelador: a neta que leva um gole de cachaça à avó no leito de morte; a sevilhana que é Sevilha sem o saber; a suicida que conduz uma tartaruga pelas ruas; três viúvas que conversam interminavelmente a propósito das filhas artistas; um ferrageiro de Carmona que explica a diferença entre ferro fundido e ferro forjado; o psiquiatra; o leito de lama do Parnamirim, em Recife; outra vez Sevilha, e assim por diante. O resultado é um colorido mosaico de tipos humanos --dramatis personae que povoam cenários variados, sempre em clima de estranheza, nonsense, magia.
1 092
Fernando Pessoa
TO A MATERIALIST
Thou dost explain by Law the weaving
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
1 355
Fernando Pessoa
Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
E sentir toda a brisa nos cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura,
Que, procurando, achara o abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Quase tudo do sentido a entendê-lo
E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa
Campos ondula, flores abre, frutos
Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
Impropícia e profunda.
E sentir toda a brisa nos cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não procura,
Que, procurando, achara o abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Quase tudo do sentido a entendê-lo
E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza extensa
Campos ondula, flores abre, frutos
Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
Impropícia e profunda.
1 002
Fernando Pessoa
Pese a sentença igual da ignota morte
Pese a sentença igual da ignota morte
Em cada breve corpo, é entrudo e riem,
Felizes, porque em eles pensa e sente
A vida, que não eles.
De rosas, inda que de falsas, teçam
Capelas veras. Escasso, curto é o espaço
Que lhes é dado, e por bom caso em todos
Breve nem vão sentido.
Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouco diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sós! Leixai
Viver os moribundos!
Em cada breve corpo, é entrudo e riem,
Felizes, porque em eles pensa e sente
A vida, que não eles.
De rosas, inda que de falsas, teçam
Capelas veras. Escasso, curto é o espaço
Que lhes é dado, e por bom caso em todos
Breve nem vão sentido.
Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouco diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sós! Leixai
Viver os moribundos!
1 275
Jorge Luis Borges
Emanuel Swedenborg
Taller than the others, this man
Walked among them, at a distance,
Now and then calling the angels
By their secret names. He would see
That which earthly eyes do not see:
The fierce geometry, the crystal
Labyrinth of God and the sordid
Milling of infernal delights.
He knew that Glory and Hell too
Are in your soul, with all their myths;
He knew, like the Greek, that the days
Of time are Eternity"s mirrors.
In unadorned Latin he went on listing
The unconditional Last Things.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 220 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Walked among them, at a distance,
Now and then calling the angels
By their secret names. He would see
That which earthly eyes do not see:
The fierce geometry, the crystal
Labyrinth of God and the sordid
Milling of infernal delights.
He knew that Glory and Hell too
Are in your soul, with all their myths;
He knew, like the Greek, that the days
Of time are Eternity"s mirrors.
In unadorned Latin he went on listing
The unconditional Last Things.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 220 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 673
Fernando Pessoa
Saber? Que sei eu?
Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...
A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!
Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...
A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!
Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
1 607
Fernando Pessoa
III - Análogo começo,
III
Análogo começo,
Uníssono me peço,
Gaia ciência o assomo —
Falha no último tomo,
Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso
O entreaberto haver
Diagonal a ser.
O interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.
Timbre do vespertino,
Ali, caricia, o hino
Outonou entre preces
Antes que, água, comeces.
Análogo começo,
Uníssono me peço,
Gaia ciência o assomo —
Falha no último tomo,
Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso
O entreaberto haver
Diagonal a ser.
O interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.
Timbre do vespertino,
Ali, caricia, o hino
Outonou entre preces
Antes que, água, comeces.
950
Fernando Pessoa
Não, não vos disse... A essência inatingível
Não, não vos disse... A essência inatingível
Da profusão das cousas, a substância
Lógica e (...) do caos dos seres,
Furta-se até a si mesma. Se entendeste
Neste ou naquele modo o que vos disse,
Não o entendestes que lhe falta o modo
Per que se entenda.
Da profusão das cousas, a substância
Lógica e (...) do caos dos seres,
Furta-se até a si mesma. Se entendeste
Neste ou naquele modo o que vos disse,
Não o entendestes que lhe falta o modo
Per que se entenda.
889
Fernando Pessoa
40 - ELEVATION
Before light was, light's bright idea lit
God's thought of it,
And, because through God's thought light's thought did pass,
Light ever was,
And from beyond eternity became
The living flame
That trembles into life and reddens with
Our life's soul‑width.
Before light was, when yet the night was queen
O'er what had been,
In God's realized prescience it could be
Light from eternity,
For no time enters into God's thoughts or
Their spaceless Hour.
Take thou therefore, my Song, from light the mood
Of being, and brood,
Like the Dove unbegot, over the abyss
Of consciousness,
Taking as thy true part that thought of God
Whence light issued.
Let my words burst into that divine flame
That lights its name
Of each thing from within with ultimate meaning.
Though earth be screening
With fixed appearance the Sun in each Thing,
Bear, on thy wing
High‑lifted, rays from the unrisen Sun
Whence life is spun.
Soar out, my Song, out of despair and night
And catch that light
Ere it appear, from neath the horizon
Of action,
Borne out of dreams by intuition bright
Of endless light.
Though none believe nor any understand,
Yet feel thee fanned
With those breeze‑breaths that come up with the morn
From the Unborn.
Soar like a lark into the coming day
And bear thy way
Into the possibility of noon
Hid in the dawn.
No matter that none know what thy words speak.
A day shall break
Out of eternity as each day bright
Out of each night.
Thy wings shall touch the slanting light of dawn
And, upwards drawn
By being light‑struck, shall to light be near
When light's yet far.
Hope is thy ready and high‑soaring flight
Out of the night,
Joy is thy touching of the first high rays
That day betrays,
Life is the course thy flight sequesters from
Earth and its nightly doom,
And these three things are one in thy belief
That pain is brief.
II
Thou, unseeen Bird, essence of spiritual light,
That yet art bright
With the epitome of the outer shine,
Thou that art mine
And yet not mine but general to the earth,
Wings of rebirth,
Whose song, though in me heard, participates
Of all that all elates,
Thou point of meeting of me with the wings
Hidden in all things,
Thou breath, thou vapour, seen and not seen, of
Some abstract love,
Thou exhalation of the prisoned flight
Of all things' weight,
Thou that in me art fear, mad splendour, all
To ache and enthral,
Attract me, take me, o pure flight, and rise
With me in thine eyes,
Lost, cast, unpetalled and divine, up to
What thou dost woo!
O Spirit‑Lark that wakest ere the morn
And art reborn
At each recoming of the sun, and art
The wiser part
Of all that message is to our low eyes
Of what shall rise!
Life‑weightless Bird that no meads can attract,
But that must act
Its fate in air, above our marshes sad
And meads low‑laid,
In free heights communing with the Great Horn
As yet unborn!
O sterile Bird that hast no nest nor home
But what shall come,
That hast no song save in the heights above
Nests, homes and love,
Nor any thought save for the coming day,
Though far away
It seem to those who measure yet thy flight
But by its height
And not by its intention, that is carried
From life and married
To those diviner hours that winged things
Find with their wings!
O Bird of ruthless song and untold wishes,
Whose high flight reaches
Heights not of earth, but of pure air, encumbered
With no joys weighed and numbered!
Take all my heart in thy purpose of going
And make the flowing
Down to earth of my song be like thy song,
Something strange, strong
With distance, eerily half‑perishing
From farness! Sing,
And let my heart be what thou meanst with singings
My life with winging.
My hopes and fears with th’tone wherewith thy note
To me doth float
And the great purpose hidden in my fate
With thy mere height!
My heart shall thus be happy even if pained,
Free even if strained
To keep that height of joy whence tremble down
Thy songs to our own.
My soul may thus be happy, full and free.
Oh, happily
Raise me from me and lift my life unto
That thou dost woo -
The light, the sky, the distance and the morn,
Till I be unborn
Again to pure dispersion in the seas
Of the high breeze
That speaks to thee, ere light be born, of light,
Till the delight
Of without being being shall make me
Song and sky be!
God's thought of it,
And, because through God's thought light's thought did pass,
Light ever was,
And from beyond eternity became
The living flame
That trembles into life and reddens with
Our life's soul‑width.
Before light was, when yet the night was queen
O'er what had been,
In God's realized prescience it could be
Light from eternity,
For no time enters into God's thoughts or
Their spaceless Hour.
Take thou therefore, my Song, from light the mood
Of being, and brood,
Like the Dove unbegot, over the abyss
Of consciousness,
Taking as thy true part that thought of God
Whence light issued.
Let my words burst into that divine flame
That lights its name
Of each thing from within with ultimate meaning.
Though earth be screening
With fixed appearance the Sun in each Thing,
Bear, on thy wing
High‑lifted, rays from the unrisen Sun
Whence life is spun.
Soar out, my Song, out of despair and night
And catch that light
Ere it appear, from neath the horizon
Of action,
Borne out of dreams by intuition bright
Of endless light.
Though none believe nor any understand,
Yet feel thee fanned
With those breeze‑breaths that come up with the morn
From the Unborn.
Soar like a lark into the coming day
And bear thy way
Into the possibility of noon
Hid in the dawn.
No matter that none know what thy words speak.
A day shall break
Out of eternity as each day bright
Out of each night.
Thy wings shall touch the slanting light of dawn
And, upwards drawn
By being light‑struck, shall to light be near
When light's yet far.
Hope is thy ready and high‑soaring flight
Out of the night,
Joy is thy touching of the first high rays
That day betrays,
Life is the course thy flight sequesters from
Earth and its nightly doom,
And these three things are one in thy belief
That pain is brief.
II
Thou, unseeen Bird, essence of spiritual light,
That yet art bright
With the epitome of the outer shine,
Thou that art mine
And yet not mine but general to the earth,
Wings of rebirth,
Whose song, though in me heard, participates
Of all that all elates,
Thou point of meeting of me with the wings
Hidden in all things,
Thou breath, thou vapour, seen and not seen, of
Some abstract love,
Thou exhalation of the prisoned flight
Of all things' weight,
Thou that in me art fear, mad splendour, all
To ache and enthral,
Attract me, take me, o pure flight, and rise
With me in thine eyes,
Lost, cast, unpetalled and divine, up to
What thou dost woo!
O Spirit‑Lark that wakest ere the morn
And art reborn
At each recoming of the sun, and art
The wiser part
Of all that message is to our low eyes
Of what shall rise!
Life‑weightless Bird that no meads can attract,
But that must act
Its fate in air, above our marshes sad
And meads low‑laid,
In free heights communing with the Great Horn
As yet unborn!
O sterile Bird that hast no nest nor home
But what shall come,
That hast no song save in the heights above
Nests, homes and love,
Nor any thought save for the coming day,
Though far away
It seem to those who measure yet thy flight
But by its height
And not by its intention, that is carried
From life and married
To those diviner hours that winged things
Find with their wings!
O Bird of ruthless song and untold wishes,
Whose high flight reaches
Heights not of earth, but of pure air, encumbered
With no joys weighed and numbered!
Take all my heart in thy purpose of going
And make the flowing
Down to earth of my song be like thy song,
Something strange, strong
With distance, eerily half‑perishing
From farness! Sing,
And let my heart be what thou meanst with singings
My life with winging.
My hopes and fears with th’tone wherewith thy note
To me doth float
And the great purpose hidden in my fate
With thy mere height!
My heart shall thus be happy even if pained,
Free even if strained
To keep that height of joy whence tremble down
Thy songs to our own.
My soul may thus be happy, full and free.
Oh, happily
Raise me from me and lift my life unto
That thou dost woo -
The light, the sky, the distance and the morn,
Till I be unborn
Again to pure dispersion in the seas
Of the high breeze
That speaks to thee, ere light be born, of light,
Till the delight
Of without being being shall make me
Song and sky be!
1 661
Fernando Pessoa
Para quê complicar inutilmente,
Para quê complicar inutilmente,
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
1 463
Affonso Romano de Sant'Anna
In Illo Tempore
Havia uma certa ordem naquele tempo.
Sendo verão, chovia às quatro da tarde.
Os pássaros pousavam nos galhos
cantando cada qual sua canção.
É verdade que cães e gatos
continuam obedecendo às nossas ordens
às vezes absurdas
e alguns deitam-se aos nossos pés
e beijam nossas mãos.
Mas havia uma certa ordem naquele tempo.
Um quadrado era perfeito
e um triângulo de três lados
podia chegar à perfeição.
Sendo verão, chovia às quatro da tarde.
Os pássaros pousavam nos galhos
cantando cada qual sua canção.
É verdade que cães e gatos
continuam obedecendo às nossas ordens
às vezes absurdas
e alguns deitam-se aos nossos pés
e beijam nossas mãos.
Mas havia uma certa ordem naquele tempo.
Um quadrado era perfeito
e um triângulo de três lados
podia chegar à perfeição.
992
Affonso Romano de Sant'Anna
Poema Tirado de Um Livro de Ciências
Lineu,
sábio do século XVIII
conhecia os pássaros pelo bico
os peixes pelas nadadeiras
e os insetos pelas asas.
Procurando Deus
classificou 5.897 espécies vivas
e ao final da vida anotou:
– Vi as costas do Deus infinito, onisciente e todo-poderoso
quando ele se foi
– e fiquei tonto.
sábio do século XVIII
conhecia os pássaros pelo bico
os peixes pelas nadadeiras
e os insetos pelas asas.
Procurando Deus
classificou 5.897 espécies vivas
e ao final da vida anotou:
– Vi as costas do Deus infinito, onisciente e todo-poderoso
quando ele se foi
– e fiquei tonto.
1 056
Fernando Pessoa
Now are no Janus’ temple-doors thrown wide
Now are no Janus' temple‑doors thrown wide
To utter thougts of war upon the land.
Now doth no double facing God divide
Him from himself, that sight of him may brand
The symbol of opposed things upon
Our hearts that at our eyes on him are thrown.
Now do no pagan cults tremble at Mars' name
Because bad‑auguring birds like clouds have flown
O'er nations' frontiers, nor do oracles frame
Strange answers unto ears of armoured chiefs,
Replies that leave perplexed their perplexed eyes
That know not whether that heart‑pang they hear
Is the first grief heralding their peoples' griefs
Or the strange cold that the Gods' mysteries
Speak to his soul that is to conquest near.
No. All is dead that wreathed war round with Gods.
Nor omens mute, nor the foiled sacrifice,
No dim words spoken by spilt blood on sods.
Nay, nor the later sense that vice and sloth,
When in a people's heart they nestle both
Do on them call the wrath of heaven, us move.
Our souls are void, like a stage mummer's cries
And our hate and our love mock hate and love.
Something of coldness, like the coming winter,
Crosses our autumn like a profecy.
Round our leaves now no swallows circle and twitter.
No more, no more, shall we heart‑wholesome be.
There is a sadness that with us doth stay
Like a billetted guest, and far away
Our ultimate death awaits us like a sea.
Alas! that even the poesy of wars
Should, like a tired thing, have gone where things go.
Alas! alas! that we have come thus far
Knowing still the same nothing that we know,
To meet more than ourselves, nor no throe
That shall be herald of a newer man.
And ever as the old woes the cold new woe
Fills with its deathless measure our life's span.
No, even the Christian manner of love or hate
Is dead. No God that lives in us survives
The winter in us that snow‑kills God and Fate
And has iced o'er the rivers of our lives.
With cuirass and with pike we laid aside
All that made battle worth the death in it.
Our science‑made war‑gestures now deride
The great eternal things that war doth fit
With helm and armour.
With mortal pomp yet pomp. We are on death's side.
All is as if were not part of it.
All clashes, rings and turmoils as if far.
The foiled imagining within our wit
Ousts war's clear image with bare thought of war.
Our plans are cold, our courage cold, our eyes
When they look inwards dream but the far plain
And vague, picture‑seen faces and their pain
Touches no sense of ours, nor do dreamed cries
Rise in us. What cold thing has become of
Our very hatred? What way has strength gone?
We die as if the sky were not above
Our heads and beneath us sand, grass and stone.
The great eternal presence of all things
No longer doth with us collaborate
To lift our hearts up on invisible wings
And bid us tremble at the thrill of Fate.
The possible fall of empires doth no more
Touch us with that great and mysterious dread
That John on Pathmos saw rise o'er his head
Like a space‑filling sea without a shore.
Alas! our nobler fear has gone away
Where our weariness pointed. We are blind
And learned to blindness. Our wild gestures stray
From us like leaves that fall far off with the wind,
And we fight clearly, coldly, night and day.
These things I thought, knowing that far behind
My visible horizon war was slave
Of that Invisible Master who doth wave
His speechless hand o'er continents and seas
And men like reaped things fall, and the blind wind
With groping hands that in the night are blind
Touches the dead men's faces' mysteries.
This I thought when, lo! before me there was
A door of iron, or what iron seemed,
An unsized portal, and its live‑seeming lock
Seemed all the uses of a lock to mock.
To see that door was to know none could pass
Through it, nor could its other‑side be dreamed.
A ribbon of broad stairs led up to it
But had no meaning, like a laugh unseen,
I looked and the door seemed to sway as hit
By blows, but no blows fell on it. That screen
Was interposed between me and no scene,
Yet, like an eye staring from out the night,
It touched my heart cold with its iron mean.
And this was not in space nor in a light.
Somewhere in me where dreams do themselves show
And have an inner meaning God doth know,
The door was set, and it seemed to my soul
That there since some inner eternity
It ever had been and I something had seen,
Yet half forgot, that like a half‑shown scroll,
Concealed its sense in what it showed to me.
And lo! as my heart looked, the door grew clear
As a near‑lit thing seen in a black night,
And a great sense of a great coming fear
Was fear already in my heart's affright.
Then as I looked I saw - yet it did seem
That in my vision that had ever been -
From beneath the strange door down the steps flow
A string of silent blood, that step by step,
Fell with a motion desolate and slow.
The thin red stream seemed conscious of its course
Though its course seemed to be none, but to fall.
I looked and it fell ever, with a force
Of relinquishment to its fall, a knell
To some hope in me, and the blood
That ever was but a small line did flood
All my pained soul and made it red. The spell
Of its thin redness spreade o'er my thought's mood
And all my thoughts became a great red wall
Set up in front of what in me doth brood.
Then everything shifted, yet was the same.
I looked on as one who sees a child's game
And finds its eyes at interest in it
And knows not why. A sense of end did hit
My power of having feelings with a rain
That did with deep red all my dim soul stain
As it had stained that soul.
Then all the outer world was dashed to night
And, though no floor remained, no sides, no light
To that space‑missed new world, set far from being,
Yet by some clearer virtue of my seeing
All I saw was without nor left nor right
With a name to it, without a place
Even in itself, without an I to see.
The mere great door and the red blood's thin trace
And all the rest was void and mystery.
Then all again seemed changing unto some
New, unimaginable and fearful thing.
The door and that blood‑line seemed to come
A strange new‑featured Face looking out through
The Universe's whole frame, traversing
It like light an invisible glass - a wing
Belonging to no bird our thoughts construe.
Then the door seemed to recede - nay, to have
Receded, when I knew not, nor was there
A when, for Time seem'd as seems a far wave
On a wide sea, something gone past. The bare
Eternal door seemed to have gone to the end
Of a visible infinity, and all
That now remained on which my soul could spend
Its terror was the blood ever at its fall.
Then, though still the same small line of red,
The blood seeemed to grow glass and in it I saw
A mighty river full of strange things - dead
Men, children, wrecks of bridges, cities, thrones,
And still the line was a small red line, (...)
Of other meaning than that
That before God for the clear world atones.
But the (...) visions in that line contained
Seemed wide as space. The red line seemed a slit
In a thin door through which our eyes can see
Large fields, a city and the whole sky stained
With clouds, and all this in the line could be;
And from some unknown where I looked on it.
It seemed the edge of a cube opening
Sideways to sides of visions, more and more.
Now and then across its glass - like being a wing
Passed a tremor ran over everything
That had in it a clear and tragic being.
Then ceased. And from, past space, the door
Still held my unconscious consciousness of seeing.
It seemed sometimes a bright, red moving veil
And through it as through a stained window I guessed
A night and stars on a vague pale day pressed,
On a same horizon desolate and pale.
Then, as I stared, suddenly before me,
Like a fan suddenly opened, the blood‑line
Took space from side to side, leaving naught to me
Left or right of it. Its red (...) fact
Became a red Niagara, a cataract.
But there were no steps, nothing: it did fall
As if drawn in the air, over no edge, and all
Was this and this was its own mystery.
Then lo! over the edge, no longer now,
But empires rolled, and I saw Greece and Rome
Pass. And still over the eternal flow
Reddened from left to right my inner sight's home
Of seeing. And all like to God's blood did come
Like a great rain off a huge thorn‑crowned brow.
And I saw more and more strange empires roll
Down and some I knew not, nor seeing them, guessed.
Awhile their falling the fall's brink caressed
Then they sunk down somewhere within my soul,
And my soul was the soul of all the world,
And from my (...) eyes that saw all this
Suddenly I felt, as if a flag unfurled,
God in me look out at these mysteries.
My eyes seemed windows of another sight
Of someone set behind my soul in the night
Looking through my eyes and my sight, mine own
Was but a glass those unknown eyes looked through,
And still the vision was blood falling down
In cataracts into Mystery, red and slow.
I became one with world and Fate and God,
And the great River that came on and fell
Let me see through its veil of (...) blood
The stars shine and a vague moonlight, then fell
Something from me. The cataract came more near
To my sight; then it seemed into mine eyes
To creep to become with them and the fear
To pass behind them into some soul (...).
Then all that did remain was the stars light
And again in the dark infinity
My pity and my dread alone with me
And my dream's meaning like a paling night.
To utter thougts of war upon the land.
Now doth no double facing God divide
Him from himself, that sight of him may brand
The symbol of opposed things upon
Our hearts that at our eyes on him are thrown.
Now do no pagan cults tremble at Mars' name
Because bad‑auguring birds like clouds have flown
O'er nations' frontiers, nor do oracles frame
Strange answers unto ears of armoured chiefs,
Replies that leave perplexed their perplexed eyes
That know not whether that heart‑pang they hear
Is the first grief heralding their peoples' griefs
Or the strange cold that the Gods' mysteries
Speak to his soul that is to conquest near.
No. All is dead that wreathed war round with Gods.
Nor omens mute, nor the foiled sacrifice,
No dim words spoken by spilt blood on sods.
Nay, nor the later sense that vice and sloth,
When in a people's heart they nestle both
Do on them call the wrath of heaven, us move.
Our souls are void, like a stage mummer's cries
And our hate and our love mock hate and love.
Something of coldness, like the coming winter,
Crosses our autumn like a profecy.
Round our leaves now no swallows circle and twitter.
No more, no more, shall we heart‑wholesome be.
There is a sadness that with us doth stay
Like a billetted guest, and far away
Our ultimate death awaits us like a sea.
Alas! that even the poesy of wars
Should, like a tired thing, have gone where things go.
Alas! alas! that we have come thus far
Knowing still the same nothing that we know,
To meet more than ourselves, nor no throe
That shall be herald of a newer man.
And ever as the old woes the cold new woe
Fills with its deathless measure our life's span.
No, even the Christian manner of love or hate
Is dead. No God that lives in us survives
The winter in us that snow‑kills God and Fate
And has iced o'er the rivers of our lives.
With cuirass and with pike we laid aside
All that made battle worth the death in it.
Our science‑made war‑gestures now deride
The great eternal things that war doth fit
With helm and armour.
With mortal pomp yet pomp. We are on death's side.
All is as if were not part of it.
All clashes, rings and turmoils as if far.
The foiled imagining within our wit
Ousts war's clear image with bare thought of war.
Our plans are cold, our courage cold, our eyes
When they look inwards dream but the far plain
And vague, picture‑seen faces and their pain
Touches no sense of ours, nor do dreamed cries
Rise in us. What cold thing has become of
Our very hatred? What way has strength gone?
We die as if the sky were not above
Our heads and beneath us sand, grass and stone.
The great eternal presence of all things
No longer doth with us collaborate
To lift our hearts up on invisible wings
And bid us tremble at the thrill of Fate.
The possible fall of empires doth no more
Touch us with that great and mysterious dread
That John on Pathmos saw rise o'er his head
Like a space‑filling sea without a shore.
Alas! our nobler fear has gone away
Where our weariness pointed. We are blind
And learned to blindness. Our wild gestures stray
From us like leaves that fall far off with the wind,
And we fight clearly, coldly, night and day.
These things I thought, knowing that far behind
My visible horizon war was slave
Of that Invisible Master who doth wave
His speechless hand o'er continents and seas
And men like reaped things fall, and the blind wind
With groping hands that in the night are blind
Touches the dead men's faces' mysteries.
This I thought when, lo! before me there was
A door of iron, or what iron seemed,
An unsized portal, and its live‑seeming lock
Seemed all the uses of a lock to mock.
To see that door was to know none could pass
Through it, nor could its other‑side be dreamed.
A ribbon of broad stairs led up to it
But had no meaning, like a laugh unseen,
I looked and the door seemed to sway as hit
By blows, but no blows fell on it. That screen
Was interposed between me and no scene,
Yet, like an eye staring from out the night,
It touched my heart cold with its iron mean.
And this was not in space nor in a light.
Somewhere in me where dreams do themselves show
And have an inner meaning God doth know,
The door was set, and it seemed to my soul
That there since some inner eternity
It ever had been and I something had seen,
Yet half forgot, that like a half‑shown scroll,
Concealed its sense in what it showed to me.
And lo! as my heart looked, the door grew clear
As a near‑lit thing seen in a black night,
And a great sense of a great coming fear
Was fear already in my heart's affright.
Then as I looked I saw - yet it did seem
That in my vision that had ever been -
From beneath the strange door down the steps flow
A string of silent blood, that step by step,
Fell with a motion desolate and slow.
The thin red stream seemed conscious of its course
Though its course seemed to be none, but to fall.
I looked and it fell ever, with a force
Of relinquishment to its fall, a knell
To some hope in me, and the blood
That ever was but a small line did flood
All my pained soul and made it red. The spell
Of its thin redness spreade o'er my thought's mood
And all my thoughts became a great red wall
Set up in front of what in me doth brood.
Then everything shifted, yet was the same.
I looked on as one who sees a child's game
And finds its eyes at interest in it
And knows not why. A sense of end did hit
My power of having feelings with a rain
That did with deep red all my dim soul stain
As it had stained that soul.
Then all the outer world was dashed to night
And, though no floor remained, no sides, no light
To that space‑missed new world, set far from being,
Yet by some clearer virtue of my seeing
All I saw was without nor left nor right
With a name to it, without a place
Even in itself, without an I to see.
The mere great door and the red blood's thin trace
And all the rest was void and mystery.
Then all again seemed changing unto some
New, unimaginable and fearful thing.
The door and that blood‑line seemed to come
A strange new‑featured Face looking out through
The Universe's whole frame, traversing
It like light an invisible glass - a wing
Belonging to no bird our thoughts construe.
Then the door seemed to recede - nay, to have
Receded, when I knew not, nor was there
A when, for Time seem'd as seems a far wave
On a wide sea, something gone past. The bare
Eternal door seemed to have gone to the end
Of a visible infinity, and all
That now remained on which my soul could spend
Its terror was the blood ever at its fall.
Then, though still the same small line of red,
The blood seeemed to grow glass and in it I saw
A mighty river full of strange things - dead
Men, children, wrecks of bridges, cities, thrones,
And still the line was a small red line, (...)
Of other meaning than that
That before God for the clear world atones.
But the (...) visions in that line contained
Seemed wide as space. The red line seemed a slit
In a thin door through which our eyes can see
Large fields, a city and the whole sky stained
With clouds, and all this in the line could be;
And from some unknown where I looked on it.
It seemed the edge of a cube opening
Sideways to sides of visions, more and more.
Now and then across its glass - like being a wing
Passed a tremor ran over everything
That had in it a clear and tragic being.
Then ceased. And from, past space, the door
Still held my unconscious consciousness of seeing.
It seemed sometimes a bright, red moving veil
And through it as through a stained window I guessed
A night and stars on a vague pale day pressed,
On a same horizon desolate and pale.
Then, as I stared, suddenly before me,
Like a fan suddenly opened, the blood‑line
Took space from side to side, leaving naught to me
Left or right of it. Its red (...) fact
Became a red Niagara, a cataract.
But there were no steps, nothing: it did fall
As if drawn in the air, over no edge, and all
Was this and this was its own mystery.
Then lo! over the edge, no longer now,
But empires rolled, and I saw Greece and Rome
Pass. And still over the eternal flow
Reddened from left to right my inner sight's home
Of seeing. And all like to God's blood did come
Like a great rain off a huge thorn‑crowned brow.
And I saw more and more strange empires roll
Down and some I knew not, nor seeing them, guessed.
Awhile their falling the fall's brink caressed
Then they sunk down somewhere within my soul,
And my soul was the soul of all the world,
And from my (...) eyes that saw all this
Suddenly I felt, as if a flag unfurled,
God in me look out at these mysteries.
My eyes seemed windows of another sight
Of someone set behind my soul in the night
Looking through my eyes and my sight, mine own
Was but a glass those unknown eyes looked through,
And still the vision was blood falling down
In cataracts into Mystery, red and slow.
I became one with world and Fate and God,
And the great River that came on and fell
Let me see through its veil of (...) blood
The stars shine and a vague moonlight, then fell
Something from me. The cataract came more near
To my sight; then it seemed into mine eyes
To creep to become with them and the fear
To pass behind them into some soul (...).
Then all that did remain was the stars light
And again in the dark infinity
My pity and my dread alone with me
And my dream's meaning like a paling night.
1 648
Fernando Pessoa
35 - THE HOURS
The hours are weary of being hours.
Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
Paint lips cold and hairs gray.
They sicken and sadden and deaden beauty.
When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
They only weeping fmd.
So, Oh, to be something else! they say,
For they think they know
That the things and thoughts they take away
Really fade and go.
But they do not know, blind misers screening
A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
Ay, even God Himself
Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
Paint lips cold and hairs gray.
They sicken and sadden and deaden beauty.
When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
They only weeping fmd.
So, Oh, to be something else! they say,
For they think they know
That the things and thoughts they take away
Really fade and go.
But they do not know, blind misers screening
A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
Ay, even God Himself
1 475
Affonso Romano de Sant'Anna
O Impossível Acontece
O Messias nasceu de uma Virgem.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
1 180
Santa Rita Durão
Canto II [Não era assim nas aves fugitivas
XLIII
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
2 899
Affonso Romano de Sant'Anna
Poema Tirado de “Breve História da Ciência”
– a busca da verdade” do norueguês Eirik Newth
Aparentemente
existe um número infinito de seres vivos
que seguem a lei da probabilidade.
O astrônomo pode calcular
onde se encontrará o planeta Júpiter em três mil anos.
Mas nenhum biólogo
pode prever
onde a borboleta pousará.
Aparentemente
existe um número infinito de seres vivos
que seguem a lei da probabilidade.
O astrônomo pode calcular
onde se encontrará o planeta Júpiter em três mil anos.
Mas nenhum biólogo
pode prever
onde a borboleta pousará.
928
Affonso Romano de Sant'Anna
Mudam-Se Os Tempos
Estão, de novo, mudando o mundo
sem minha permissão
(embora a cumplicidade obrigatória).
Expulsam as raposas e castores de suas tocas
e trocam de endereço as oliveiras.
Há muito já obrigavam os pássaros a portar gravatas
e forçavam os peixes a nadar de costas.
Ontem de manhã arredondaram o último quadrado
e hoje à meia-noite
prometem aprisionar a fugitiva elipse.
sem minha permissão
(embora a cumplicidade obrigatória).
Expulsam as raposas e castores de suas tocas
e trocam de endereço as oliveiras.
Há muito já obrigavam os pássaros a portar gravatas
e forçavam os peixes a nadar de costas.
Ontem de manhã arredondaram o último quadrado
e hoje à meia-noite
prometem aprisionar a fugitiva elipse.
554
Charles Bukowski
86'd
o que mais compromete o trabalho
é
tentar fazê-lo
sob uma bandeira
santificada.
a semelhança das intenções
com as dos outros
distingue o idiota
do descobridor
você pode aprender isso em
qualquer
sinuca de esquina, jóquei, bar,
universidade ou
cadeia.
as pessoas correm da chuva mas
sentam
em banheiras cheias
d'água.
é bem desanimador saber que
milhões de pessoas estão preocupadas com
a bomba de hidrogênio
embora
já estejam
mortas.
mesmo assim continuam querendo
mulheres
dinheiro
fazer sentido.
e finalmente o Grande Bartender se inclina pra você
branco e puro e forte e místico
e diz que pra você já
basta
logo quando você acha
que está justamente
começando.
é
tentar fazê-lo
sob uma bandeira
santificada.
a semelhança das intenções
com as dos outros
distingue o idiota
do descobridor
você pode aprender isso em
qualquer
sinuca de esquina, jóquei, bar,
universidade ou
cadeia.
as pessoas correm da chuva mas
sentam
em banheiras cheias
d'água.
é bem desanimador saber que
milhões de pessoas estão preocupadas com
a bomba de hidrogênio
embora
já estejam
mortas.
mesmo assim continuam querendo
mulheres
dinheiro
fazer sentido.
e finalmente o Grande Bartender se inclina pra você
branco e puro e forte e místico
e diz que pra você já
basta
logo quando você acha
que está justamente
começando.
1 021
Charles Bukowski
A Geração Falida
era muito mais fácil ser gênio nos anos 20, havia
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
834
Charles Bukowski
eu nem sempre odeio o gato que mata o pássaro, só o gato que me mata...
amiga lua, amigo gato, vocês não pedem nada de misericórdia ou
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
1 045
Heiner Müller
Lamento do historiador
No quarto livro dos ANNALES Tácito queixa-se
Pela duração do tempo de paz, mal interrompido
Por disputas fronteiriças pueris, com a descrição
Das quais precisa contentar-se, cheio
De inveja de seus predecessores
Que tiveram à disposição guerras-mamute
Com imperadores à frente, exigindo uma Roma
Sempre maior, povos subjugados, reis cativos
Revoltas e crises de estado: material dos bons.
E Tácito desculpa-se junto a seus leitores.
Eu, por minha vez, dois mil anos depois dele,
Não preciso desculpar-me e não posso
Queixar-me da falta de bom material.
(tradução de Ricardo Domeneck)
Pela duração do tempo de paz, mal interrompido
Por disputas fronteiriças pueris, com a descrição
Das quais precisa contentar-se, cheio
De inveja de seus predecessores
Que tiveram à disposição guerras-mamute
Com imperadores à frente, exigindo uma Roma
Sempre maior, povos subjugados, reis cativos
Revoltas e crises de estado: material dos bons.
E Tácito desculpa-se junto a seus leitores.
Eu, por minha vez, dois mil anos depois dele,
Não preciso desculpar-me e não posso
Queixar-me da falta de bom material.
(tradução de Ricardo Domeneck)
941
Charles Bukowski
três
enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
anoto.
joga toda a conversa fora
eu
anoto.
1 122
Fernando Pessoa
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Pantéon que preside
À nossa vida incerta.
Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.
Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.
Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
E parceiras da tua.
A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.
Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Plo número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Pantéon que preside
À nossa vida incerta.
Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.
Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.
Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
E parceiras da tua.
A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.
Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Plo número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.
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