Poemas nesta obra
ARMADURA EM CARNE MOLE
deus me salve da idade madura,
e me sirva o que passa, a brisa
que perdura, gesto escrito com
brasa, pintura além da moldura,
deus me salve, nĂŁo me serve, o
amarelo que logo apodrece, a boca
coberta de musgo, nĂŁo Ă© isso
que almejo, os cravos de Cristo, o fraco
pulso do amortecido, persigo
o que persiste, no ontem,
no quando, no nĂŁo-sei-onde, um
texto-percevejo, traça que rói
a couraça, torre de onde avisto
e percebo, o nĂŁo-visto que sempre
provo, quanto menos prosa
trovo, a lĂngua que travo
trinca, recolho vida em verso, e
transmuto treva em rosa
e me sirva o que passa, a brisa
que perdura, gesto escrito com
brasa, pintura além da moldura,
deus me salve, nĂŁo me serve, o
amarelo que logo apodrece, a boca
coberta de musgo, nĂŁo Ă© isso
que almejo, os cravos de Cristo, o fraco
pulso do amortecido, persigo
o que persiste, no ontem,
no quando, no nĂŁo-sei-onde, um
texto-percevejo, traça que rói
a couraça, torre de onde avisto
e percebo, o nĂŁo-visto que sempre
provo, quanto menos prosa
trovo, a lĂngua que travo
trinca, recolho vida em verso, e
transmuto treva em rosa
BILLIE HOLIDAY NA PORTA DOS FUNDOS
quanto abismo cabe
na palavra abismo,
quantos passos até a borda
da estrela-pantera-negra,
quantas brumas brancas,
quantos acordes de blues,
quantas noites sem sono
quantos abalos sĂsmicos
para sossegar o dragĂŁo
que cospe esse fogo azul
chamado névoa, vulcão,
solitude?
na palavra abismo,
quantos passos até a borda
da estrela-pantera-negra,
quantas brumas brancas,
quantos acordes de blues,
quantas noites sem sono
quantos abalos sĂsmicos
para sossegar o dragĂŁo
que cospe esse fogo azul
chamado névoa, vulcão,
solitude?
JACK KEROUAC NA PRAIA BRAVA
sonhei com jack kerouac
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das ĂĄrvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gĂąngster. eu disse: âei, man,
onde Ă© que vamos parar?â jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uĂsque.
continuou encarando a lua, pĂĄlido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiĂŁs
em praça pĂșblica e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo mĂ©xico. âoh, nĂŁo, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.â
descemos até a mercearia da praia brava
atrĂĄs de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. âoh, yeahâ, disse jack. âos grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praiaâ. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: ânĂŁo deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lĂĄ do fundo
de vocĂȘs mesmos. contem comigo
pro que der e vierâ. minha filha
sussurrou no meu ouvido: âquem Ă© esse
cara?â âjack kerouacâ, eu respondi. âuauâ,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: âeddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leĂŁo de chĂĄcaraâ.
eu olhei para jack e em silĂȘncio
fizemos um trato: âdeixe-os viver. ainda Ă© cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundoâ.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gĂąngster mal-humorado.
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das ĂĄrvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gĂąngster. eu disse: âei, man,
onde Ă© que vamos parar?â jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uĂsque.
continuou encarando a lua, pĂĄlido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiĂŁs
em praça pĂșblica e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo mĂ©xico. âoh, nĂŁo, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.â
descemos até a mercearia da praia brava
atrĂĄs de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. âoh, yeahâ, disse jack. âos grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praiaâ. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: ânĂŁo deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lĂĄ do fundo
de vocĂȘs mesmos. contem comigo
pro que der e vierâ. minha filha
sussurrou no meu ouvido: âquem Ă© esse
cara?â âjack kerouacâ, eu respondi. âuauâ,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: âeddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leĂŁo de chĂĄcaraâ.
eu olhei para jack e em silĂȘncio
fizemos um trato: âdeixe-os viver. ainda Ă© cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundoâ.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gĂąngster mal-humorado.
O GRITO
sob impacto da pintura de Edvard Munch
Â
céu sangue, azuis de gases, inståvel
gravura â terror
que se grafa na Ăris: uma alma
em pĂąnico:
motivo algum â nenhum desastre
asteroide em rota
de colisĂŁo, explosĂŁo de bombas,
escombro, crime ou espasmo:
maconha demais â diriam
os bolhas, nĂłdoas
de noia, bolores de centeio:
mal sabem (o fiorde arde
em lilĂĄs) â a bomba explode
nas entranhas:
e Ă© isso que faz
a paisagem trĂȘmula
Â
céu sangue, azuis de gases, inståvel
gravura â terror
que se grafa na Ăris: uma alma
em pĂąnico:
motivo algum â nenhum desastre
asteroide em rota
de colisĂŁo, explosĂŁo de bombas,
escombro, crime ou espasmo:
maconha demais â diriam
os bolhas, nĂłdoas
de noia, bolores de centeio:
mal sabem (o fiorde arde
em lilĂĄs) â a bomba explode
nas entranhas:
e Ă© isso que faz
a paisagem trĂȘmula
O OLHO AZUL DO MISTÉRIO
desço dos céus para beijar
os lĂĄbios quentes da fera â desço,
vejo dragÔes pastando na grama
azul, incĂȘndio nas cortinas
dos apartamentos â desço,
escuto um coro de crianças
bĂȘbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Ăltima Utopia â vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pĂąnico, mĂŁos
de neblina, pĂĄlpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios â escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande GaviĂŁo Terena, leopardos
lambem o leite da Via LĂĄctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de VĂȘnus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida com canudinhos cedidos
pelo senhor McDonald â sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na ĂĄgua, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monĂłtona dos aparelhos
de televisĂŁo, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofĂĄ
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na cĂąmara
oca de ecos, a pele se arrepia, relĂłgios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açĂșcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e vocĂȘ finalmente encara
o Ășmido olho azul do mistĂ©rio
os lĂĄbios quentes da fera â desço,
vejo dragÔes pastando na grama
azul, incĂȘndio nas cortinas
dos apartamentos â desço,
escuto um coro de crianças
bĂȘbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Ăltima Utopia â vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pĂąnico, mĂŁos
de neblina, pĂĄlpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios â escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande GaviĂŁo Terena, leopardos
lambem o leite da Via LĂĄctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de VĂȘnus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida com canudinhos cedidos
pelo senhor McDonald â sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na ĂĄgua, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monĂłtona dos aparelhos
de televisĂŁo, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofĂĄ
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na cĂąmara
oca de ecos, a pele se arrepia, relĂłgios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açĂșcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e vocĂȘ finalmente encara
o Ășmido olho azul do mistĂ©rio
PortuguĂȘs
English
Español