Lista de Poemas

MICOSE NA PELE DO TEMPO

(segundo monólogo interior de Lili Maconha)

 

Há tempos o faquir polia as pontas dos pregos
com areia do Mojave.

Há tempos e dimensões perdidas
apenas esperando o momento certo da conexão.

Há o tempo lá fora, chuva de granizo,
fagulhas de fogos de artifício
e brumas que se movem.

Há o tempo dos estalidos distantes das estrelas.

E há o tempo do Aqui, esse templo da linguagem
que se enrola em frases-serpentes
enquanto escrevo

e que talvez continue traçando sinuosidades
muito tempo depois.

Mas de tempos em tempos
alguém estoura os miolos, alguém explode uma aeronave
alguém fecha o livro

e não o abre nunca mais.
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A Canção dos Peixes

submersos
nas funduras

(de onde
alma alguma
retorna)

entre algas
rochas e restos
de naufrágios

cegos
e sem memória

os peixes
cantam
seus blues

canções inaudíveis
de um tempo
sem tempo

que ninguém
(nem coltrane
nem hermeto)
pode ouvir

em lugar algum
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CURRAL VIP NA ILHA DE FODAS

O sol sádico cai com peso de bigorna
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.

Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.

Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.

Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
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O GRITO

sob impacto da pintura de Edvard Munch
 

céu sangue, azuis de gases, instável
gravura – terror
que se grafa na íris: uma alma
em pânico:

motivo algum – nenhum desastre
asteroide em rota
de colisão, explosão de bombas,
escombro, crime ou espasmo:

maconha demais – diriam
os bolhas, nódoas
de noia, bolores de centeio:

mal sabem (o fiorde arde
em lilás) – a bomba explode
nas entranhas:

e é isso que faz
a paisagem trêmula
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O OLHO AZUL DO MISTÉRIO

desço dos céus para beijar
os lábios quentes da fera — desço,
vejo dragões pastando na grama
azul, incêndio nas cortinas
dos apartamentos — desço,
escuto um coro de crianças
bêbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Última Utopia — vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pânico, mãos
de neblina, pálpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios — escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande Gavião Terena, leopardos
lambem o leite da Via Láctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de Vênus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida com canudinhos cedidos
pelo senhor McDonald — sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na água, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monótona dos aparelhos
de televisão, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofá
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na câmara
oca de ecos, a pele se arrepia, relógios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açúcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e você finalmente encara
o úmido olho azul do mistério
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A Volta do Anjo Torto

no canto da sala a TV ligada
                o pastor gritava
a bolsa despencava
                as contas vencidas
as batatas queimadas
                o dólar subia
o poeta pirava
                “meu deus, como pode
tanta merda enlatada?
                 que gente mais troncha
que vida fodida
                 quer saber
dessa noite não passa
                 ou pulo do empire state
ou me torno um homicida”
                 mas eis que um anjo torto
aquele mesmo, com asas de avião
                  entrou pela porta
um baseado na mão
                 bateu as duas asas
e foi logo dizendo:
                “sai dessa, poeta
para de punheta
                 vive a vida, desencana
come sua mina, segue seu rumo
                  o real é a ilusão virtual
dos que batem a cara contra o muro”
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MONTANHAS SÃO FRIAS QUANTO A NOITE CAI

numa noite sem nome
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos

e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
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AUTO-RETRATO

talvez, uma noite
retorne

cansado das batalhas
e das festas

nada
nas mãos

muito pouco
nos bolsos

os olhos cheios
de imagens

os ouvidos loucos
de sons

shows dos stones
desenhos de escher

a pele tocada
por mulheres chocantes

vagabundo
cruzando estradas

ítacas
revisitadas

exausto das guerras
um dia, talvez

retorne

sem lenço
sem retoques

talhos
no rosto

cicatrizes
na pele da alma

a paisagem
se dissolvendo

velho, arqueado

o sapato
todo furado

e dois versos
na camiseta:

eis a vida
que não vendo
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CHACAIS E HIENAS

a história sempre termina assim
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido

os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
para devorar sua carne – até o osso

os chacais – e também as hienas
saciam a fome atávica de séculos
e mostram os dentes pontiagudos

mostram os dentes pontiagudos
fiapos de carne entre os caninos
e riem seu riso de escárnios e ganância

e o riso de escárnio e ganância
é ouvido em toda a pradaria
toda a savana toda a cidade

as ovelhas balem nos currais os lobos
uivam nos cerrados as águias
apuram a visão no alto das árvores

o cheiro de carniça persiste por dias
vermes fermentam os restos de carne
e o couro do leão ferido se degrada

o vento crepita nos galhos secos
um silêncio – que não é paz nem trégua
se espalha pela pradaria savana cidade

a chuva não vem o sol é inclemente
a fome o escárnio a ganância persistem
e a história recomeça de novo e de novo
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NOVOS GAMES NO MERCADO

A cidade suspira holocaustos na hora do rush.
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.

Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.

“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.

Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.

O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”

Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.

Crânios esfacelados valem mais pontos
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