Pedro Casariego Córdoba

Pedro Casariego Córdoba

1955–1993 · viveu 38 anos ES ES

Pedro Casariego Córdoba foi um poeta, escritor e tradutor cuja obra se destaca pela experimentação formal e pela exploração de temas como a identidade, a memória e a relação entre o indivíduo e a sociedade. Nascido em Espanha e com uma forte ligação a Portugal, a sua poesia reflete uma sensibilidade cosmopolita e uma profunda reflexão sobre a condição humana. A sua escrita, muitas vezes marcada por um tom irónico e por um humor negro, dialoga com as vanguardas literárias do século XX, nomeadamente o surrealismo e o concretismo. Casariego Córdoba deixou um legado multifacetado, que abrange não só a poesia, mas também a prosa e a tradução, consolidando a sua posição como uma figura singular no panorama cultural ibérico.

n. 1955, Madrid · m. 1993-01-08, Madrid, Espanha

2 919 Visualizações

16de julho

mãe
arranque a partir de hoje a coroa
de rainha da insônia
porque é uma coroa falsa
nem uma única pedra preciosa
e mesmo assim
quando não pode dormir
você se converte na enfermeira do céu
médico de cabeceira dos cometas
nuvens sensíveis
estrelas que têm febre
como se compadece o sonho
aquele que congela suas mãos
suas mãos fundas de beleza
de rastelo
de tesouras de duas luas
dois jardins suas mãos quando regam
dez flores seus dedos quando plantam
algo um bulbo?
que parece uma toupeira
tão fechada em si
como uma noz
e que
com certeza
se abrirá amanhã
para soltar um pássaro de pétalas
o pássaro há de tossir um pouco
pedirá um cigarro
e dirá
que lhe observa quando você não pode dormir
e que
bem no momento em que consegue domir
aparece no calor do céu de verão
uma estrela nova e fraquíssima
talvez por isso lhe custe tanto dormir
iluminar uma estrela ferida
fazer curativos na perna quebrada de uma estrela acrobata demais
não está ao alcance dos que dormem como pedras
dos que se esquecem das pernas alheias
as penas alheias
as próprias penas
mãe
creio em sua coragem
creio
:
16DE JULIO // madre / quítate desde hoy la corona / de reina delinsomnio / porque es una corona falsa / ni una sola piedra preciosa /y sin embargo / cuando no puedes dormirte / te conviertes en laenfermera del cielo / médico de cabecera de los cometas / nubesdelicadas / estrellas que tienen fiebre // qué compasivo es el sueño/ el que congela tus manos / tus manos hondas de belleza / derastrillo / de tijeras de dos lunas // dos jardines tus manos cuandoriegan / diez flores tus dedos cuando plantam / algo ¿un bulbo? /que parece un topo / tan encerrado en sí mismo / como una nuez / yque / seguro / mañana se abrirá / para soltar un pájaro de pétalos/ el pájaro toserá un poco / te pedirá un cigarrillo / y te dirá/ que te mira cuando no puedes dormir / y que / justo cuandoconsigues dormirte / aparece entre el calor del cielo de verano / unaestrella nueva y debilísima // quizá por eso te cueste tantodormirte / alumbrar una estrella herida / vendar la pierna rota deuna estrella demasiado saltimbanqui / no está al alcance de los queduermen a pierna suelta / de los que olvidan las piernas de los otros/ las penas de los otros / sus propias penas / madre / creo en tucoraje / creo
.
.
.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Pedro Casariego Córdoba foi um poeta, escritor e tradutor. Não são conhecidos pseudónimos ou heterónimos significativos associados à sua obra, embora a sua própria identidade e a forma como se apresentava pudessem ter um caráter performativo e experimental.

Infância e formação

Pedro Casariego Córdoba nasceu em Madrid, Espanha, mas teve uma vida marcada pela mobilidade e pela forte ligação com Portugal. A sua formação intelectual e artística foi influenciada pelo contexto cultural europeu, incluindo as correntes de vanguarda do século XX. A sua passagem por diferentes países e culturas contribuiu para a sua visão cosmopolita.

Percurso literário

O percurso literário de Casariego Córdoba foi multifacetado, abrangendo a poesia, a prosa e a tradução. Iniciou a sua atividade literária cedo, revelando um interesse precoce pela experimentação e pela criação artística. Ao longo da sua vida, explorou diferentes formas de expressão, integrando-se em círculos literários e artísticos que valorizavam a inovação e o diálogo entre as artes. A sua obra evoluiu, mantendo sempre um fio condutor de experimentação e reflexão crítica.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Pedro Casariego Córdoba caracteriza-se pela experimentação formal, pelo humor negro e por uma profunda reflexão sobre temas como a identidade, a memória, a linguagem e a relação entre o indivíduo e a sociedade. Na poesia, explorou o verso livre, mas também formas mais concretas e visuais, dialogando com a poesia concretista. A sua linguagem é muitas vezes marcada pela ironia, pela subversão e por um jogo constante com os sentidos das palavras. O seu tom poético pode variar entre o lírico, o satírico e o ensaístico, refletindo a complexidade do seu pensamento. Foi um autor com uma forte consciência da materialidade da linguagem e da sua capacidade de criar realidades alternativas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Pedro Casariego Córdoba viveu num período de intensa efervescência cultural e política em Espanha e na Europa. A sua obra reflete as influências das vanguardas artísticas do século XX, como o surrealismo e o concretismo, e dialoga com a produção de outros escritores e artistas da sua época. A sua posição como espanhol residente em Portugal também lhe conferiu uma perspetiva única sobre as relações culturais ibéricas. Foi um autor crítico em relação ao poder e às estruturas sociais, explorando essas tensões na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pedro Casariego Córdoba teve uma vida marcada por uma intensa atividade intelectual e social. As suas relações pessoais e profissionais foram importantes para a sua criação artística, permitindo-lhe um intercâmbio constante de ideias. A sua profissão como tradutor também lhe permitiu um contacto alargado com diversas literaturas e culturas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha sido reconhecida em círculos específicos e por críticos atentos às novas propostas literárias, Pedro Casariego Córdoba não alcançou uma fama massiva em vida. O seu reconhecimento tem vindo a crescer postumamente, com um interesse renovado pela sua figura e pela sua obra experimental e vanguardista.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Pedro Casariego Córdoba foi influenciado por autores e movimentos de vanguarda, e o seu próprio trabalho influenciou gerações posteriores de escritores e artistas que exploram a experimentação e a relação entre as artes. O seu legado reside na sua capacidade de desafiar convenções e de propor novas formas de pensar a literatura e a arte.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Casariego Córdoba é objeto de estudo pela sua complexidade e pela riqueza das suas propostas. As análises críticas centram-se na sua experimentação formal, na sua visão crítica da sociedade e na sua exploração da identidade e da linguagem.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Pedro Casariego Córdoba é a sua versatilidade como criador, transitando entre diferentes géneros e formas de expressão. A sua ligação ao surrealismo e ao concretismo demonstra a sua abertura a diferentes linguagens artísticas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Pedro Casariego Córdoba faleceu, deixando um acervo literário que continua a ser redescoberto e valorizado. Publicações póstumas e estudos sobre a sua obra contribuem para a preservação e divulgação do seu legado.

Poemas

3

O suicídio é só teu

Ron Padgett,
Suicide is only yours
1984
Todos se deitaram
e chegou o medo
Meu coração conta suas batidas
e tua grande bunda rosa me protege
Tua grande bunda amável me defende do frio
mas atrai os pernilongos
Tua dor não é muito grande
se podes pedir ajuda
Uma bolsa d´água quente em minha cama
e toda a solidão do mundo
Aquele bar é o ninho de bocas domadas
e agora é noite e ranges os dentes
Indefeso como o espirro de um pássaro
vejo batidas que foram minhas
Se queres meter-te uma bala
eu te emprestarei meu revólver
Meu revólver é um manancial de esperança
tão seco como o ventre de uma anciã
Assina com meu revólver um cheque sem fundos
e compra um ingresso para o fundo da terra
Uma bala é um buraco no paladar
e um jejum eterno e barato
Tua grande bunda rosa e delicada
já não pedirá carne ou ar
Quem pintou de negro meus pulmões
para a torpe alegria da noite?
Se queres meter-te uma bala
eis aqui desinfetado meu revólver.
(tradução de Ricardo Domeneck)
702

16de julho

mãe
arranque a partir de hoje a coroa
de rainha da insônia
porque é uma coroa falsa
nem uma única pedra preciosa
e mesmo assim
quando não pode dormir
você se converte na enfermeira do céu
médico de cabeceira dos cometas
nuvens sensíveis
estrelas que têm febre
como se compadece o sonho
aquele que congela suas mãos
suas mãos fundas de beleza
de rastelo
de tesouras de duas luas
dois jardins suas mãos quando regam
dez flores seus dedos quando plantam
algo um bulbo?
que parece uma toupeira
tão fechada em si
como uma noz
e que
com certeza
se abrirá amanhã
para soltar um pássaro de pétalas
o pássaro há de tossir um pouco
pedirá um cigarro
e dirá
que lhe observa quando você não pode dormir
e que
bem no momento em que consegue domir
aparece no calor do céu de verão
uma estrela nova e fraquíssima
talvez por isso lhe custe tanto dormir
iluminar uma estrela ferida
fazer curativos na perna quebrada de uma estrela acrobata demais
não está ao alcance dos que dormem como pedras
dos que se esquecem das pernas alheias
as penas alheias
as próprias penas
mãe
creio em sua coragem
creio
:
16DE JULIO // madre / quítate desde hoy la corona / de reina delinsomnio / porque es una corona falsa / ni una sola piedra preciosa /y sin embargo / cuando no puedes dormirte / te conviertes en laenfermera del cielo / médico de cabecera de los cometas / nubesdelicadas / estrellas que tienen fiebre // qué compasivo es el sueño/ el que congela tus manos / tus manos hondas de belleza / derastrillo / de tijeras de dos lunas // dos jardines tus manos cuandoriegan / diez flores tus dedos cuando plantam / algo ¿un bulbo? /que parece un topo / tan encerrado en sí mismo / como una nuez / yque / seguro / mañana se abrirá / para soltar un pájaro de pétalos/ el pájaro toserá un poco / te pedirá un cigarrillo / y te dirá/ que te mira cuando no puedes dormir / y que / justo cuandoconsigues dormirte / aparece entre el calor del cielo de verano / unaestrella nueva y debilísima // quizá por eso te cueste tantodormirte / alumbrar una estrella herida / vendar la pierna rota deuna estrella demasiado saltimbanqui / no está al alcance de los queduermen a pierna suelta / de los que olvidan las piernas de los otros/ las penas de los otros / sus propias penas / madre / creo en tucoraje / creo
.
.
.
676

Esta solidão

esta solidão é filha de uma altura equivocada
eu tenho o vício dos céus
sou o único proprietário
do ar ossudo e dos pássaros fáceis
os ossos azuis do céu
formam um espaço grande e delicado
e se partem em tormenta
e descem em água
para acabar em lápide sem nome
o vermelho das minhas mãos é um mistério
porque brota de rios brancos que se inclinam como lápides
através da tela metálica
cabisbaixa a erva daninha rouba o início do outono
no outono os ladrões de céu
carregam silêncio no bico e tumba nas asas
agarro-me à tela metálica
e não tenho dinheiro
as mulheres redondas sempre têm dinheiro
mas quando olham para o alto a celebrar uma cama nova
alguém obstrui o céu com uma navalha de ar
agarro-me à tela metálica
e não tenho mulher redonda
eu tenho o vício do céu porque tenho medo
porque sou covarde
mulher inteira nada tenho a oferecer desamarrote minha tormenta
AJANTA É ÀS 6.
EUSOU O GARÇOM.
:
ESTASOLEDAD / esta soledad es hija de una altura equivocada / yo tengo elvicio del cielo / soy el único propietario / del aire huesudo y delos pájaros fáciles // los huesos azules del cielo / forman unespacio largo y delgado / y se quiebran en tormenta / y bajan en agua/ para acabar en lápida sin nombre // el rojo de mis manos es unmisterio / porque brota de ríos blancos que se inclinan como lápidas// a través de la tela metálica / cabizbaja la mala hierba roba elprincipio del otoño // en otoño los ladrones del cielo / llevansilencio en el pico y tumba en las alas // me agarro a la telametálica / y no tengo dinero / las mujeres redondas siempre tienendinero / pero cuando miran hacia lo alto para celebrar una cama nueva/ alguien impide el cielo con una navaja de aire // me agarro a latela metálica / y no tengo mujer redonda // yo tengo el vicio delcielo porque tengo miedo / porque soy cobarde // mujer entera nopuedo darte nada plancha mi tormenta / LA CENA ES A LAS 6. / YO SOYEL CAMARERO.
709

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.