Lista de Poemas

Cantares

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se
de sol e graná voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se...

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar...

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar"...

Golpe a golpe, verso a verso...

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe vieram chorar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.

52 373

RETRATO (DE CAMPOS DE CASTILLA)

A minha infância é lembranças de um pátio sevilhano,
e de um claro pomar de limoeiros maduros;
a juventude quatro lustros em campo castelhano;
a minha história uns casos que recordar não cuido.

Nem sedutor Mañara, nem Brandomín hei sido
- quem não conhece o meu desleixo indumentário? -
mas recebi a flecha que disparou Cupido,
e amei o que elas podem ter de hospitalário.

Tenho nas veias algum sangue jacobino,
mas meu verso brota sem carregar o tom;
e mais que homem que julga só beber do fino,
sou, no pleno sentido da palavra, bom.

Adoro a formosura e na moderna estética
cortei as rosas do jardim de Ronsard;
mas não amo as artes da actual cosmética,
nem sou desses pássaros do novo gay-trinar.

Desdenho as cantarias dos tenores pecos,
e o coro dos grilos que cantam à lua.
E paro a distinguir as vozes e os ecos,
e de entre as vozes todas ouço apenas uma.

Sou clássico, romântico? Não sei. Deixar quisera
meus versos como deixa o capitão sua espada:
famosa pela mão que combateu com ela,
não pelo ofício do alfageme apreciada.

Converso com o homem que sempre vai comigo
- quem fala só conta falar com Deus um dia -
meu solilóquio é prática com este amigo
que me ensinou o segredo da filantropia.

E não vos devo nada. Deveis-me quanto hei escrito.
A meu trabalho acudo, com meu dinheiro pago
a roupa que me cobre, e a casa adonde habito,
o pão que me alimenta, o leito em que me apago.

E quando chegue o dia da última viagem,
pronta a partir a nau que nunca há-de voltar,
haveis de ver-me a bordo com pouca bagagem,
e mesmo quase nu, como os filhos do mar.

14 868

La Saeta (O canto)

Disse uma voz popular:
Quem me empresta uma escada
para subir ao madeiro
para tirar-lhe os cravos
a Jesus o Nazareno?

Oh, la saeta, o cantar
ao Cristo dos ciganos
sempre com sangue nas mãos
sempre por desencravar
Cantar do povo andaluz
que todas as primaveras
anda pedindo escadas
para subir à cruz

Cantar da terra minha
que joga flores
ao Jesus da agonia
e é a fé de meus velhos
Oh! Não és tu meu cantar
não posso cantar, nem quero
a este Jesus do madeiro
senão ao que andou no mar!

2 025

Tenho andado muitos caminhos

Tenho andado muitos caminhos
tenho aberto muitas veredas;
tenho navegado em cem mares
e atracado em cem ribeiras

Em todas partes tenho visto
caravanas de tristeza
orgulhosos e melancólicos
borrachos de sombra negra.

E pedantes ao pano
que olham, calam e pensam
que sabem, porque não bebem
o vinho das tabernas

Má gente que caminha
e vai empestando a terra...

E em todas partes tenho visto
pessoas que dançam ou jogam,
quando podem, e lavoram
seus quatro palmos de terra.

Nunca, se chegam a um lugar
perguntam a onde chegam.
Quando caminham, cavalgam
lombos de mula velha.

E não conhecem a pressa
nem mesmo nos dias de festa.
Onde há vinho, bebem vinho,
onde não há vinho, água fresca.

2 214

Hay un español que quiere/ vivir y a vivir empieza/ entre una España que muere/ y otra España que bosteza . (Há um espanhol que quer/ viver e a viver começa/ entre uma Espanha que morre/ e outra Espanha que boceja.)

 

50

Proverbios

Proverbios
y cantares

XXIX

Caminante, son tus huellas

el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estelas en la mar.

XLIV

Todo pasa y todo queda,

pero lo nuestro es pasar,

pasar haciendo caminos,

caminos sobre la mar

3 151

A verdade é o que é, e segue sendo verdade, ainda que se pense o revés.

 

51

PARÁBOLAS

VI

O Deus que todos levamos,
o Deus que todos fazemos,
o Deus que todos buscamos
e que nunca encontraremos:
três deuses e três pessoas
do único Deus verdadeiro.

1 591

DESDE EL UMBRAL DEL SUEÑO

DESDE EL UMBRAL DEL SUEÑO...

Lá dos umbrais de um sonho me chamaram...
Era aquela voz boa, voz querida.

- Diz-me: virás comigo visitar a alma?...
No coração me entrava uma carícia.
- Contigo, sempre... E avancei no sonho
por uma longa e recta galeria,
sentindo o só roçar da veste pura
e o suave palpitar da mão amiga.

1 538

ME DIJO UNA TARDE

Me disse uma tarde
da Primavera:
Se buscas caminhos
em flor pela terra,
mata tuas palavras,
ouve tua alma velha.
Que o mesmo alvo linho
que te vista seja
teu traje de luto,
teu traje de festa.
Ama tua alegria,
ama tua tristeza,
se buscas caminhos
em flor pela terra.
Respondi à tarde
da Primavera:
Disseste o segredo
que em minha alma reza:
odeio a alegria
por ódio às penas.
Mas antes que pise
tua florida senda,
quisera trazer-te
morta minha alma velha.

1 662

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Identificação e contexto básico

Antonio Machado Ruiz foi um poeta espanhol, considerado um dos maiores vultos da literatura espanhola do século XX. Foi membro da Real Academia Española. Nasceu e faleceu em Espanha.

Infância e formação

Nascido em Sevilha, Machado passou grande parte da sua infância e juventude em Madrid. A sua formação intelectual foi profunda, marcada pelo ambiente liberal e intelectual da sua família. Estudou na Institución Libre de Enseñanza, onde teve contacto com as ideias pedagógicas progressistas da época.

Percurso literário

Machado iniciou a sua carreira literária num contexto de renovação poética em Espanha. A sua obra evoluiu de um lirismo mais intimista e modernista para uma poesia de cariz mais filosófico e reflexivo, especialmente após a perda da sua esposa, Leonor Izquierdo. Publicou em diversas revistas literárias e foi um dos fundadores da revista "La Pluma".

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras principais incluem "Soledades" (1903), "Campos de Castilla" (1912) e "Nuevas Canciones" (1924). Os temas dominantes são a passagem do tempo, a morte, a memória, o sonho, a paisagem castelhana e a identidade espanhola. O seu estilo evoluiu de um simbolismo intimista para uma poesia mais austera, meditativa e com um vocabulário preciso. A forma poética variava entre o soneto e o verso livre, com grande atenção ao ritmo e à musicalidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Machado viveu numa época de profundas transformações em Espanha, incluindo a perda das últimas colónias em 1898, a Guerra Civil Espanhola e o estabelecimento da ditadura de Franco. Fez parte da Geração de 98, um grupo de intelectuais e escritores que se debruçaram sobre a crise da identidade espanhola. Manteve relações com outros escritores da época, como Juan Ramón Jiménez e Miguel de Unamuno.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Machado foi marcada pela morte prematura da sua esposa, Leonor Izquierdo, em 1912, um evento que teve um impacto profundo na sua obra, conferindo-lhe um tom mais elegíaco e melancólico. Era conhecido pela sua discrição e pela sua postura ética e cívica.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha sido reconhecida pela crítica e por outros escritores durante a sua vida, a sua consagração definitiva como um dos maiores poetas espanhóis deu-se em grande parte após a sua morte. A sua poesia tornou-se um símbolo da resistência cultural durante o franquismo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Machado foi influenciado por poetas como Bécquer e Verlaine. O seu legado é imenso, tendo influenciado gerações de poetas em língua espanhola. A sua obra é um pilar do cânone literário espanhol e continua a ser amplamente estudada e admirada.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Machado é frequentemente analisada sob a perspetiva da sua profunda meditação sobre a condição humana, a passagem do tempo e a busca de sentido num mundo em constante mudança. A sua poesia é vista como um reflexo da alma espanhola.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Machado era um homem de hábitos simples e dedicou grande parte da sua vida à escrita e à reflexão. Foi também um pensador político, embora de forma discreta.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Antonio Machado morreu em Colliure, França, em 1939, um ano após o fim da Guerra Civil Espanhola, enquanto se encontrava no exílio. A sua morte tornou-se um símbolo trágico. Publicações póstumas continuaram a divulgar a sua obra.