XXXV
Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?
Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?
A morte será de não ser
ou de substâncias perigosas?
Um Animal Pequeno
Um animal pequeno,
porco, pássaro ou cão
desvalido,
hirsuto entre plumas ou pêlo,
ouvi toda a noite,
febril, gemendo.
Era uma noite extensa
e em Ilha Negra, o mar,
todos seus trovões, sua ferragem,
seus tonéis de sal, seus vidros rotos
contra a rocha imóvel, sacudia.
O silêncio era aberto e agressivo
depois de cada golpe ou cachoeira.
Meu sonho se cozia
como fiando a noite interrompida
e então o pequeno ser peludo,
pequeno urso ou menino doente,
sofria asfixia ou febre,
pequena fogueira de dor, gemido
contra a noite imensa do oceano,
contra a torre negra do silêncio,
um animal ferido,
pequeninho,
apenas sussurrante
sob o vazio da noite,
só.
Madrigal Escrito No Inverno
No fundo do mar profundo,
na noite de longas listas,
como um cavalo correndo atravessa
o teu calado calado nome.
Aloja-me às tuas costas, ai, abriga-me,
aparece-me no teu espelho, subitamente,
sobre a folha solitária, nocturna,
brotando do obscuro, por trás de ti.
Flor da doce luz completa,
socorre-me com a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.
Agora então, a toda a largura,
de um esquecimento a outro residem comigo
os carris, o grito da chuva:
o que a obscura noite preserva.
Acolhe-me na tarde fiandeira,
quando ao anoitecer trabalha
a sua roupa e no céu lateja
uma estrela cheia de vento.
Abeira de mim a tua ausência até ao fundo,
pesadamente, tapando-me os olhos,
cruza comigo a tua existência, supondo
que o meu coração está destruído.
Outra Coisa
Sucedem-se tão poucas coisas
que devo sempre recontá-las.
Ninguém me dá asfodelos
e ninguém me faz suspirar.
Porque cheguei à encruzilhada
de um arrevesado destino
quando se apagam os relógios
e cai o céu sobre o céu
até que o dia moribundo
tira a lua para passear.
Até quando se desenreda
esta beleza equinocial
que de verde passa à redonda,
de onda marinha à catarata,
de sol soberbo à lua branca,
de solidão a capitólio,
sem que se altere a equação
do mundo em que não ocorre nada.
Não ocorre nada senão um dia
que como exemplar estudante
se senta com seus galardões
atrás de outro dia premiado,
até que o coro semanal
se converteu num anel
que nem a noite transfigura
porque chega tão adornada,
tão portentosa como sempre.
Vamos ver se pescam peixes loucos
que subam como ornitorrincos
pelas paredes de minha casa
e rompam o novo equilíbrio
que me persegue e me atormenta.
O Vento Na Ilha
O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.
Quer levar-me: escuta
como atravessa o mundo
para me levar até longe.
Esconde-me nos teus braços
só esta noite,
enquanto a chuva abre
contra o mar e a terra
a sua boca inumerável.
Escuta como o vento
chama por mim a galope
para me levar até longe.
A tua testa na minha testa,
a tua boca na minha boca,
os nossos corpos presos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem me conseguir levar.
Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me procure
a galope na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
só por esta noite
descansarei, meu amor.
Não Há Muito Que Contar
Não há muito que contar,
para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
O Tempo Que Não Se Perdeu
Não se contam as ilusões
nem as compreensões amargas,
não há medida para contar
o que não podia acontecer-nos,
o que nos rondou como besouro
sem que tivéssemos percebido
do que estávamos perdendo.
Perder até perder a vida
é viver a vida e a morte
não são coisas passageiras
mas sim constantes, evidentes,
a continuidade do vazio,
o silêncio em que cai tudo
e por fim nos mesmos caímos.
Ai! o que esteve tão cerca
sem que pudéssemos saber.
Ai! o que não podia ser
quando talvez podia ser.
Tantas asas circunvoaram
as montanhas da tristeza
e tantas rodas sacudiram
a estrada do destino
que já não há nada a perder.
Terminaram-se os lamentos.
No Entanto Me Movo
De vez em quando sou feliz!,
opinei diante de um sábio
que me examinou sem paixão
e demonstrou que eu estava errado.
Talvez não havia salvação
para meus dentes avariados,
um por um se extraviaram
os fios de minha cabeleira,
melhor era não discutir
sobre minha traquéia cavernosa,
enquanto o sulcado coração
estava cheio de advertências
como o fígado tenebroso
que não me servia de escudo
ou este rim conspirativo.
E com minha próstata melancólica
e os caprichos de minha uretra
me conduziam sem apuro
a um analítico final.
Olhando cara a cara o sábio
sem decidir-me a sucumbir
mostrei-lhe que podia ver,
palpar, ouvir e padecer
em outra ocasião favorável.
E que me deixasse o prazer
de ser amado e querer:
procuraria algum amor
por um mês ou por uma semana
ou por um penúltimo dia.
O homem sábio e desdenhoso
olhou-me com a indiferença
dos camelos pela lua
e decidiu orgulhosamente
olvidar-se de meu organismo.
Desde então não estou seguro
se eu devo obedecer
a seu decreto de que eu morra
ou se devo sentir-me bem
como meu corpo me aconselha.
E nesta dúvida não sei
se dedicar-me a meditar
ou alimentar-me de cravos.
Meio-Dia - LIII
Aqui está o pão, o vinho, a mesa, a morada:
o ofício do homem, a mulher e a vida:
a este lugar corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a comum queimadura.
Honra a tuas duas mãos que voam preparando
os brancos resultados do canto e a cozinha,
salve! a inteireza de teus pés corredores,
viva! a bailarina que baila com a escova.
Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,
aquele atormentado pavilhão da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes
são hoje este repouso de teu sangue no meu,
este leito estrelado e azul como a noite
esta simplicidade sem-fim da ternura.
Uma Situação Insustentável
Tanto se falou dos defuntos
na família de Ostrogodo
que ocorreu uma coisa curiosa,
digna de ser estabelecida.
Falavam tanto dos mortos
perto do fogo todo dia,
do primo Carlos, de Felipe,
de Carlota, monja defunta,
de Candelario sepultado,
enfim, não terminavam nunca
de recordar o que não vivia.
Foi então que naquela casa
de escuros pátios e laranjeiras,
no salão de piano negro,
nos corredores sepulcrais,
se instalaram muitos defuntos
que se sentiram em sua casa.
Lentamente, como afogados
naqueles jardins cinzentos
pululavam como morcegos,
dobravam-se como guarda-chuvas
para dormir ou meditar
e deixavam nos sofás
um cheiro acre de tumba,
uma aura que invadiu a casa,
um abano insuportável
de seda cor de naufrágio.
A família Ostrogodo apenas
sim se atrevia a respirar:
era tão puro seu respeito
aos aspectos da morte.
E se aminorados sofriam
ninguém lhes escutou um sussurro.
(Porque falando de economia
aquela invasão silenciosa
não lhes gastava os bolsos:
os mortos não comem nem fumam,
sem dúvida isto é satisfatório,
mas na verdade ocupavam
mais e mais lugares na casa.)
Pendiam dos cortinados,
sentavam-se nas floreiras,
disputavam a poltrona
de Dom Filiberto Ostrogodo,
e ocupavam por longo tempo
o banheiro, talvez polindo
os dentes de suas caveiras:
o certo é que aquela família
se foi retirando do fogo,
da sala de jantar, do dormitório.
E conservando seu decoro
foram-se todos ao jardim
sem protestar dos defuntos,
mostrando uma triste alegria.
À sombra de uma laranjeira
comiam como refugiados
da fronteira perigosa
de uma batalha perdida.
Mas até ali chegaram eles
a pendurar-se das ramagens,
sérios defuntos circunspectos
que se achavam superiores
e não se dignavam a falar
com os benignos Ostrogodos.
Até que de tanto morrer
eles se uniram aos outros
emudecendo e falecendo
naquela casa mortal
que ficou sem ninguém um dia,
sem portas, sem casa, sem luz,
sem laranjeiras e defuntos.