Antoine Courage
Aquele alguém depois de ter nascido
dedicou-se a solapar sua existência
com esse material foi fabricando
uma torre desditosa:
e para mim o estranho daquele homem
tão claro e evidente como foi
era aparecer na janela
para que as mulheres e os homens
vissem-no através dos cristais
vissem-no pobre ou rico, aplaudissem-no
com duas mulheres ao mesmo tempo, nu,
vissem-no militante ou isolado,
impuro, cristalino,
em sua miséria, em seu Jaguar entupido
de drogas eu ensinando a verdade,
eu aliviado em sua triste alegria.
Quando esta chama se apagou parece
fácil, no resplandor de nossa vida
ferir aquele que morreu, espalhar seus ossos,
desmoronar a torre de seu orgulho:
golpear a greta do contraditório
comendo o próprio pão de sua amargura:
e medir o soberbo destronado
com nossa secretíssima soberba:
ah, não é isso! não é isso! o que quero
é saber se aquele era o verdadeiro:
o que se consumia e se incendiava
ou o que clamava para que o vissem:
se foi aquele artesão do desprezo
esperando o amor do desprezado
como tantos mendigos iracundos.
Aqui deixo esta história:
não a terminei, mas a morte
porém se vê que todos somos juízes
e é nossa vontade encarniçada
participar da injustiça alheia.
Repertório
Aqui há gente com nomes e com pés
com endereço e sobrenome:
eu também vou na fieira
com o fio.
Há os já debulhados
no
poço
que fizeram e em que caíram:
há os bons e os maus ao mesmo tempo,
os sacrificadores e a pedra
onde deceparam a cabeça
de quantos se aproximaram do seu abismo.
Há de tudo na cesta: aqui só
estão cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros, de colheres, de bigodes:
não sei o que me aconteceu nem o que acontecia
comigo mesmo nem com eles,
o certo é que os vi,
toquei-os e como a vida anda
sem deter suas rodas
eu os vivi quando eles me viveram,
amigos ou inimigos ou paredes,
ou inaceitáveis santos que sofriam,
ou cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões que o vento comeu,
ou tudo mais: o grão do paiol
as minhas culpas desnudadas sem cessar
que ao entrar no banho a cada dia
saíram mais manchadas à luz.
Ai, salve-se quem puder!
O arquivista sou dos defeitos
de um só dia de minha coleção
e não tenho crueldade mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu.
Por isso apresento minha coroa
de iníquo juiz que não contenta ninguém,
nem aos ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já sabem disso:
eu que falo por falar falo de menos
por quanto vi, por quanto verei
estou ficando cego.
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
Penha Brava
Há uma penha brava
aqui, na costa,
o vento furibundo,
o sal do mar, a ira,
desde e desde sempre, agora
e ontem, e cada século
atacaram-na:
tem rugas,
cavernas,
gretas, figuras, degraus,
faces de granito
e rebenta o mar na rocha
amando-a,
rompe o beijo maligno,
relâmpagos de espuma,
brilho de lua raivosa.
É uma penha gris,
cor de idade, austera,
infinita, cansada, poderosa.
O Outro
Ontem meu camarada
nervoso, insigne, íntegro,
voltou-me a dar a velha inveja, o peso
de minha própria substância intransferível.
Assaltei-te a mim, assalta-me
a ti, este frio de punhal
quando te mudaria pelos outros,
quando tua insuficiência se dessangra
dentro de ti como uma veia aberta
e queres construir-te mais uma vez
com aquilo que queres e não és.
Meu camarada, antigo
de rosto como vestígio de vulcão,
cinzas, cicatrizes
junto aos velhos olhos candentes:
(lâmpadas de seu próprio subterrâneo),
enrugadas as mãos
que acariciarão o fulgor do mundo
e uma segurança independente,
a espada do orgulho
nessas velhas mãos de guerreiro.
Talvez seja isso o que eu queria
como destino, aquele
que não sou eu, porque
constantemente mudamos de sol,
de casa, de país, de chuva, de ares
de livro e traje,
e o pior de mim segue me habitando,
continuo com aquilo que sou até a morte?
Meu camarada, então,
bebeu em minha mesa, falou, quiçá, ou teve
alguma de suas dúvidas
duras como relâmpagos
e se foi aos seus deveres, a sua casa,
levando aquilo que eu quis ser
e talvez melancólico
por não ser eu, por não ter os meus olhos,
meus olhos miseráveis.
13
Tenho marcado com cruzes de fogo
o atlas branco de teu corpo.
Minha boca era uma aranha que cruzava escondendo-se.
Em ti, atrás de ti, temerosa, sedenta.
Histórias de se contar à beira do crepúsculo,
boneca triste e doce,para que não ficasses triste.
Um cisne, uma árvore, algo distante e alegre.
O tempo das uvas, o tempo maduro e frugal.
Eu que vivi em um porto de onde te amava.
A solitude cruzada de sono e silêncio.
Encurralado entre o mar e a tristeza.
Calado, delirante, entre dois gondoleiros imóveis.
Entre os lábios e a voz, algo vai morrendo.
Algo com asas de pássaro, algo de angústia e de olvido.
Assim como as redes não retêm a água.
Minha boneca, restam apenas gotas tremendo.
Entretanto, algo canta entre estas palavras fugazes.
Algo canta, algo sobe à minha boca ávida.
Ó, poder celebrar-te com todas as palavras de alegria.
Cantar, arder, fugir, como um campanário das mãos de um louco.
Minha triste ternura, que fazes de repente?
Ao atingir o vértice mais ousado e frio
meu coração se cerra como uma flor noturna.
17
Pensando,enredando sombras na profunda solitude.
Também estás longe, ah mais longe que ninguém.
Pensando,soltando pássaros,desvanecendo imagens,
enterrando lâmpadas.
Campanário de brumas, que longe lá em cima!
Afogando lamentos, moendo esperanças sombrias,
moleiro taciturno,
A ti vem de bruços a noite, longe da cidade.
Tua presença é alheia, estranha a mim como uma coisa.
Penso, percorro longamente, minha vida antes de ti.
Minha vida antes de tudo, minha áspera vida.
O grito frente ao mar, entre as pedras,
correndo livre, louco, no hálito do mar.
A triste fúria, o grito, a solidão do mar.
Desbocado, violento, atirado aos céus.
Tu, mulher, que lá eras, que tira, que haste
desse leque imenso? Estavas longe como agora.
Incêndio no bosque! Arde em cruzes azuis.
Arde, arde, flameja, chispa em árvores de luz.
Tomba e crepita. Incêndio, incêndio.
E minha alma baila ferida de volutas de fogo.
Quem chama? Que silêncio povoado de ecos?
Tempo da nostalgia, tempo da alegria, tempo de solitude.
Meu tempo entre todos!
Búzio em que o vento passa cantando.
Tanta paixão de pranto atada a meu corpo.
Abalo de todas as raízes,
assalto de todas as ondas!
Rodava, alegre, triste, interminável, minha alma.
Pensando, enterrando lâmpadas na profunda solitude.
Quem és tu, quem és?
11
Quase fora do céu ancora entre duas montanhas
a metade da lua.
Girante, errante noite, a escavadora de olhos.
A ver quantos fragmentos de estrelas nas poças.
Faz uma cruz de luto em minha testa, foge.
Forja de metais azuis,noites de lutas silenciosas,
meu coração dá voltas como um volante louco.
Menina que vem de tão longe,trazida de tão longe,
às vezes teu olhar fulgura sob o céu.
Queixume, tempestade, redemoinho de fúria,
cruza meu coração, sem te deteres.
Vento dos sepúlcros carrega, destroça, dispersa tua raiz sonolenta.
Decepa as grandes árvores do outro lado dela.
Mas você, alva menina, pergunta de fumo, espiga.
Era a que ia formando o vento com folhas luzidias.
Atrás das montanhas noturnas, lírio branco de incêndio,
ah nada posso dizer! Era feita de todas as coisas.
Ansiedade que partiu meu peito a cuteladas,
é hora de seguir outro caminho,onde ela não sorria.
Tempestade que enterrou campanários, turva revoada de tormentas
para que tocá-la agora, para que entristecê-la.
Ai, seguir o caminho que se afasta de tudo,
onde não estejam vagando a angústia, a morte, o inverno,
com seus olhos abertos entre o orvalho.
Subúrbios
Celebro as virtudes e os vícios
de pequenos burgueses suburbanos
que ultrapassam o refrigerador
e colocam guarda-sóis de cor
junto ao jardim que anela uma piscina:
este ideal ao luxo soberano
para meu irmão pequeno burguês
que és tu e que sou eu, vamos dizendo
a verdade verdadeira neste mundo.
A verdade daquele sonho a curto prazo
sem escritório no sábado, por fim,
os desapiedados chefes que produz
o homem nos celeiros insolúveis
onde sempre nasceram os verdugos
que acham e se multiplicam sempre.
Nós, heróis e pobres diabos,
fracos, fanfarrões, inconclusos,
e capazes de todo o impossível
sempre que não se veja e não se ouça,
dom-juans e dom-juanas passageiros
na fugacidade de um corredor
ou de um tímido hotel de passageiros.
Nós, com pequenas vaidades
e resistidas ganas de subir,
de chegar onde todos têm chegado
porque assim nos parece que é o mundo:
uma pista infinita de campeões
e em um lugar nós, esquecidos
por culpa de talvez todos os outros
porque eram tão parecidos conosco
até que roubaram seus lauréis,
suas medalhas, seus títulos, seus nomes.
A canção desesperada
Emerge tua lembrança desta noite em que estou.
O rio deságua no mar seu lamento obstinado.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
É hora de partir, ó abandonado!
Em meu pobre coração chovem frias corolas.
Ó sentina de escombros, feroz cova de náufragos!
Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti alçaram asas os pássaros do canto.
A tudo tu tragaste, como a longa distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!
Eram alegres as horas do assalto e do beijo.
As horas de torpor que ardiam como um farol.
Ansiedade de piloto, peixe cego de ira,
turva embriaguez de amor,tudo em ti foi naufrágio!
Na infância de névoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
Fiz retroceder a alta muralha de sombra,
caminhei para longe do desejo e do ato.
Ó carne, minha carne, mulher que amei e perdi,
a ti nesta hora úmida, evoco e elevo o canto.
Como um vaso abrigaste a infinita ternura,
e o infinito olvido te trincou como a um vaso.
Era a negra, negra a solitude das ilhas,
e lá, mulher de amor, me acolheram os teus braços.
Era a sede e era a fome, e tu foste a fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como me pudeste conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo por ti foi o mais tenso e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.
Cemitério de beijos, ainda há fogo em tuas tumbas,
e ainda ardem os cachos bicados pelos pássaros.
Ó a boca mordida, ó os membros beijados,
ó os dentes famintos, ó os corpos trançados.
Ó, a cópula louca de esperança e de esforço
em que nos enlaçamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra somente balbuciada nos lábios.
Esse foi meu destino, nele viajou meu anelo, e
nele caiu meu anelo, tudo em ti foi naufrágio!
De queda em queda ainda flamejaste e cantaste.
De pé como um marujo na proa de um navio.
Ainda floriste em cantos, e rompeste em correntes.
Ó sentina de escombros, poço aberto e amargo.
Pálido búzio cego, mergulhão desditoso,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
que esta noite sujeita a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar limita a costa.
Surgem frias estrelas, e migram negros pássaros.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
Só a sombra trêmula se retorce em minhas mãos.
Ah pra longe de tudo. Ah pra longe de tudo.
É hora de partir. Ó abandonado!