Escritas

Lista de Poemas

Os Guarás

Cada evangelista
com seu bicho foi
— um só! — para o Céu:
leão, águia ou boi.

Mas com outros santos
— Luís e Damião,
Vicente e Francisco —
veio a multidão

de pobres e doentes
por entre os joelhos:
e com o santo Anchieta
os guarás vermelhos

que o Sol lhe taparam
na canoa um dia:
contra a brasa ardente
foram brasa fria...


In: COSTA, Filho, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
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O Tatuzinho

Ia um tatuzinho
pelo céu nevoento
cavando um buraco
lá no firmamento.

Porque o tatuzinho
não gosta de entrar
pela porta aberta:
prefere cavar.

Mas São Pedro viu
e ficou zangado:
por causa de um bicho
ter o Céu furado?!...

Jesus pequenino
viu também e riu.
No portão florido
um buraco abriu.


In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
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Os Objetos

No fechado silêncio dos objetos
mais simples mora um toque de magia.
De um só tijolo nasce a casa: afetos,
barro, sol, água, mesa, moradia,

e a presença tenaz das mãos humanas,
afeiçoando o mistério da existência
e dando às coisas mais quotidianas
senso de vida — e de sobrevivência.

Chardin, quando há dois séculos viveu,
uma arraia pintou, disforme, aberta
em sangue e dentes, agressiva e forte.

Veio o tempo e com ele emudeceu
muita glória que a moda julgou certa.
Aquela arraia sobrevive à morte.


Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.

In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
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As Aquarelas

Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.

A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.

Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas

tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...


Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.

In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
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São Roque e os Cachorros

Caminhou São Roque
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros

já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.

São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"

Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.


In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
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Soneto da Tarde

Não digo que o sol pare, nem suplico
que teu cabelo não se faça branco.
Nos segredos serenos que fabrico
vive um pouco de mago e saltimbanco.

Mas te desejo simples, natural,
e que o dia na tarde amadureça.
Venceste muita noite e temporal.
Confia em que outra vez ainda amanheça.

O teu reino da infância sempre aberto
guarda o campo e os brinquedos infinitos
nas cores puras, sob o céu coberto.

Nos cajueiros, os pássaros... Os gritos
infantis... Mas a ronda neles nasce
e embranquece o cabelo em tua face.
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Soneto da Revisitação

Partamos juntos a rever o rio
onde primeiro o nosso amor nasceu
e acalentando o meu humor sombrio
entre os teus seios amadureceu.

Nasceu tão pleno quanto um sol de estio
mas sobre a dor e a morte ainda cresceu,
embora a prata tenha posto um fio
no teu cabelo, e muitos neste meu.

Vamos em busca de um repouso fundo
que nos envolva de uma leve areia
no banho antigo, em meio aos juçarais.

Que a viagem nos cure deste mundo,
cheia de vozes de teus filhos, cheia
desta alegria de te amar demais.
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A Meu Filho

Recorro a ti para não separar-me
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.

Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.

Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.

Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.
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JG
JG
2018-08-22

Fabricio Viera Domigjes