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terezaduzai
Alegorias
A poesia grudou no céu da minha boca, na minha língua solta,
nos meus lábios secos.
Ai de ti!
Não me olhes!
Não me beijes!
Ou te tornarás um verso avesso,
o espelho de minh'alma inversa,
nas estrofes tortas de teu corpo travesso, que se atravessa,
que se arremessa sem pressa,
refletido em mim.
Em mim.
290
RicardoC
ENLUARADA
ENLUARADA
Uma mulher me veio em meio ao sonho:
Dizia que me amava, mas partia.
E eu, pasmo n'uma estúpida apatia,
Segui ao longe seu olhar tristonho.
Acordo de cenário tão medonho
Recordando a imagem que fugia:
O porte senhoril, a face esguia...
Ao luar, seus olhos baixos recomponho.
Mas não fixei o rosto, coisa alguma.
Sequer podia haver d'algo nomeado:
É todas as mulheres e nenhuma.
Era ela um recordar, porém, sonhado;
Alguém que a minha mente desarruma...
A mulher que me deixa em meu passado.
Belo Horizonte - 07 09 1997
Uma mulher me veio em meio ao sonho:
Dizia que me amava, mas partia.
E eu, pasmo n'uma estúpida apatia,
Segui ao longe seu olhar tristonho.
Acordo de cenário tão medonho
Recordando a imagem que fugia:
O porte senhoril, a face esguia...
Ao luar, seus olhos baixos recomponho.
Mas não fixei o rosto, coisa alguma.
Sequer podia haver d'algo nomeado:
É todas as mulheres e nenhuma.
Era ela um recordar, porém, sonhado;
Alguém que a minha mente desarruma...
A mulher que me deixa em meu passado.
Belo Horizonte - 07 09 1997
875
ania_lepp
Finitude...
Finitude...
Das infinitas coisas de nós
nada mais restou...
e das distâncias,
hoje milhas e oceanos,
nada mais se ouviu...
...até o mar, calou...
Silêncio absoluto de ti,
a bradar,
a ecoar,
a explodir em mim...
(ania)
(Ouvindo Silence and Distance - Angra)
https://www.youtube.com/watch?v=wDjNg3AokEs
Das infinitas coisas de nós
nada mais restou...
e das distâncias,
hoje milhas e oceanos,
nada mais se ouviu...
...até o mar, calou...
Silêncio absoluto de ti,
a bradar,
a ecoar,
a explodir em mim...
(ania)
(Ouvindo Silence and Distance - Angra)
https://www.youtube.com/watch?v=wDjNg3AokEs
335
loreto
Árvore de Paus

370
natalia nuno
versos apagados...trovas soltas
ainda com algum vigor
mas com rosto enrugado
vai escutando com dor
todo o seu ser acossado
com palavras aprendidas
vai repetindo o que sente
simples quadras nascidas
que por ora vêm à mente
memória traz consumida
tão cansada p'los anos
espirais de fumo... vida
do passado... desenganos
solidão e o frio da hora
e do tempo a fugacidade
afoga a tristeza e chora
da ausência nasce saudade
já tudo era ontem...
como a chama do rosto
não digam e nem contem
que já foi luar de Agosto
traz a ideia assombrada
e a tristeza ela encobre
é uma porta dissimulada
já sua visão é pobre...
seu sonho sua inverdade
mas é seu lar de esperança
com sonho mata a saudade
que traz de trás de criança.
natalia nuno
mas com rosto enrugado
vai escutando com dor
todo o seu ser acossado
com palavras aprendidas
vai repetindo o que sente
simples quadras nascidas
que por ora vêm à mente
memória traz consumida
tão cansada p'los anos
espirais de fumo... vida
do passado... desenganos
solidão e o frio da hora
e do tempo a fugacidade
afoga a tristeza e chora
da ausência nasce saudade
já tudo era ontem...
como a chama do rosto
não digam e nem contem
que já foi luar de Agosto
traz a ideia assombrada
e a tristeza ela encobre
é uma porta dissimulada
já sua visão é pobre...
seu sonho sua inverdade
mas é seu lar de esperança
com sonho mata a saudade
que traz de trás de criança.
natalia nuno
248
natalia nuno
outono...
aproxima-se a monótona chuva de outono
os vidros das janelas embaciados
a surpresa dos tons embelezados
folhas caídas ao abandono
e nós viajantes nesta estação
num silêncio insistente
aprendendo a sobreviver
com a vida a desaparecer,
às vezes com o coração
aos ais...
o vento faz-se ouvir nos ramais
como mensageiro da intempérie
expectantes nos deixamos ficar
no aconchego do lar
levanta-se a noite
quem sabe amanhã o sol nos espera?
transbordando ardente
trazendo-nos de novo o sonho...a quimera.
natalia nuno
os vidros das janelas embaciados
a surpresa dos tons embelezados
folhas caídas ao abandono
e nós viajantes nesta estação
num silêncio insistente
aprendendo a sobreviver
com a vida a desaparecer,
às vezes com o coração
aos ais...
o vento faz-se ouvir nos ramais
como mensageiro da intempérie
expectantes nos deixamos ficar
no aconchego do lar
levanta-se a noite
quem sabe amanhã o sol nos espera?
transbordando ardente
trazendo-nos de novo o sonho...a quimera.
natalia nuno
281
fernanda_xerez
MARAVILHOSA
Mas a Norminha trouxe-me um mimo
Minha emoção subiu às alturas
Maravilhosa entre as criaturas
Mimosa amiguinha que tando estimo
Meus agradecimentos sob o céu anil
Milhares de estrelas a festejar
Miríades de flores vim te ofertar
Mostro a todos o quanto és gentil
Muito obrigada por tua amizade
Mulher de fibra, ama a poesia
Milhares de textos que alegria
Meu PoeRima só traduz a verdade!
Minha emoção subiu às alturas
Maravilhosa entre as criaturas
Mimosa amiguinha que tando estimo
Meus agradecimentos sob o céu anil
Milhares de estrelas a festejar
Miríades de flores vim te ofertar
Mostro a todos o quanto és gentil
Muito obrigada por tua amizade
Mulher de fibra, ama a poesia
Milhares de textos que alegria
Meu PoeRima só traduz a verdade!
231
natalia nuno
já mal me lembro...
nuvens vieram sombrias
nada me dizem afinal
promessas de melhores dias
neste meu tempo outonal
não está distante a entrega
meus sonhos são o que são
na alma folhas secas, no coração
a vida que dele já despega.
cantei às flores da primavera
chorei com o som do ribeiro
por ti meu coração ficou à espera
à tua espera o tempo inteiro...
amadurecem os frutos na horta
e eu no meu destino solitário
mas o coração não fecha a porta
e vou desfiando este meu rosário
trago de prata meus cabelos
e na saudade vou caminhando
e se me vires a desprendê-los
é porque m' sinto ave d'céu voando
voando entre um nevoeiro espesso
por entre cedros e abetos
à procura de quem nunca m' esqueço
em busca do amor... e de afectos!
rugas do meu rosto são bofetadas
que vou levando a torto e a direito
há nele risos e lágrimas escancaradas
enquanto o coração bate no peito
desenfreado tempo que tudo arrasas
por isso são tristes minhas razões
vontade esta de voar já sem asas,
aceito este viver de sonhos e ilusões.
natália nuno
nada me dizem afinal
promessas de melhores dias
neste meu tempo outonal
não está distante a entrega
meus sonhos são o que são
na alma folhas secas, no coração
a vida que dele já despega.
cantei às flores da primavera
chorei com o som do ribeiro
por ti meu coração ficou à espera
à tua espera o tempo inteiro...
amadurecem os frutos na horta
e eu no meu destino solitário
mas o coração não fecha a porta
e vou desfiando este meu rosário
trago de prata meus cabelos
e na saudade vou caminhando
e se me vires a desprendê-los
é porque m' sinto ave d'céu voando
voando entre um nevoeiro espesso
por entre cedros e abetos
à procura de quem nunca m' esqueço
em busca do amor... e de afectos!
rugas do meu rosto são bofetadas
que vou levando a torto e a direito
há nele risos e lágrimas escancaradas
enquanto o coração bate no peito
desenfreado tempo que tudo arrasas
por isso são tristes minhas razões
vontade esta de voar já sem asas,
aceito este viver de sonhos e ilusões.
natália nuno
319
RicardoC
DAMA-DA-NOITE
DAMA-DA-NOITE
Eu com ela vez ou outra me deparo.
Tinha sombras escuras pelos olhos
E perfumada ao extremo em santos óleos,
Qual morresse d'amor sem meu amparo...
Alheado em seu olhar de brilho raro,
Talvez me pegue a andar de antolhos
Atrás de si, pois, qual campo de cóleos,
A roupa exuberante lhe reparo.
Não sei por onde andou ou o que procura,
Quem, insone, me fez sonhar fecundo
Diante de seu sorriso de luz pura.
Só sei que me devassa o olhar profundo,
Enquanto me entorpece com brandura
A nuca mais cheirosa d'este mundo.
Belo Horizonte - 10 12 2005
Eu com ela vez ou outra me deparo.
Tinha sombras escuras pelos olhos
E perfumada ao extremo em santos óleos,
Qual morresse d'amor sem meu amparo...
Alheado em seu olhar de brilho raro,
Talvez me pegue a andar de antolhos
Atrás de si, pois, qual campo de cóleos,
A roupa exuberante lhe reparo.
Não sei por onde andou ou o que procura,
Quem, insone, me fez sonhar fecundo
Diante de seu sorriso de luz pura.
Só sei que me devassa o olhar profundo,
Enquanto me entorpece com brandura
A nuca mais cheirosa d'este mundo.
Belo Horizonte - 10 12 2005
440
RicardoC
CIHUACÓATL – a mulher chorona
CIHUACÓATL - a mulher chorona
introito
I
Quem foi, depois de ser tantas,
A mais triste das mulheres?...
Aquela a chorar quereres,
Vagando nas noites santas
Face a dores e prazeres.
II
Deusa de imensos poderes,
Servira aos Astecas na guerra.
Hoje, está presa a essa terra
Sem mais outros afazeres,
Senão ser aquela que erra.
III
Ela, a Chorona, que aterra
Os sós em noite de lua
E sobre as águas flutua:
Espectro que alhures berra
As dores da culpa sua...
IV
Quem em prantos continua
Sempre a vagar cerca às águas
Onde se repete as mágoas
Que leva após pela rua
Aos sobrados e meias-águas
V
D'alvos véus, saias e anáguas,
A atravessar toda a vila...
Que nas desoras, tranquila,
Contrastava com as fráguas
De seu olhar que cintila.
VI
Gravada em minha pupila
Feito uma fotografia:
Defronte à matriz sombria,
Enquanto no adro desfila
Em meio à noite vazia.
VII
Já sem descanso ou alegria,
Anda a clamar pelos filhos
E a murmurar estribilhos
De cantigas que se ouvia
Entre bardos andarilhos.
VIII
Segue sem mais empecilhos
Alhures a lamentar
Até com algum topar
E, refulgente de brilhos,
Mais ess'outro assombrar.
IX
Deveras n'esse lugar,
Onde Deus é tão benquisto,
Muitos ainda a têm visto
Chorosa a Chorona a andar
Sem jamais pôr termo n'isto...
a chorona do lago
X
"Quem será esta que avisto,
Por sobre as águas do lago!?"
-- "Quem vem lá?" -- eu mais indago.
-- "Quem lá vem?" - ainda insisto.
"És ser d'outro mundo ou mago?!"
XI
Só o vento, frio e pressago,
Ora à minha voz responde.
Na noite escura s'esconde
Aquele ser tão aziago
Vindo não se sabe d'onde.
XII
-- "Mais às profundezas sonde
À procura da verdade!" -
Berrava para a entidade
Ainda que a mesma estronde
Sismos fendendo a cidade.
XIII
Nas ondas, a claridade
Se aproximou lentamente.
Mas, incertos se alma ou gente,
Fomos em comunidade
Co'os sacerdotes na frente:
XIV
O mais velho simplesmente
Calou-se contemplativo.
Ainda que sem motivo
Ou outra razão aparente
De tão súbito emotivo:
XV
-- "É Cihuacóatl! Eu vivo
A escutar de nosso fim..." -
De facto, irrompe ela assim
Clamar do povo cativo
Ao soar d'estranho clarim:
XVI
-- "Ai, meus filhos! Ai de mim!
Aonde os levarei, de resto,
Por de destino tão funesto
Poderem fugir enfim?
Só a lamentos me presto!..."
XVII
E abria os braços n'um gesto
Que abarcava toda a vila...
Triste visão à pupila,
Clamando em seu só protesto
Desde a lagoa tranquila.
XVIII
Nas águas o luar cintila
E o vento frio do Norte
Envolvente, agudo e forte,
Sobre as campinas siliba
Augúrios de dor e morte.
XIX
Advertidos da má sorte,
Antes que o mal se consuma
Fomos ter com Montezuma,
Anunciar em sua corte
As profecias, uma a uma:
XX
-- "Alteza, como costuma
A deusa ao povo falar,
Cihuacóatl a prantear
É vista em meio à bruma
Vossa desgraça anunciar."
XXI
"Conta que vêm pelo mar
Gentes mais sábias e antigas,
Que muito embora inimigas
Com poucos irão triunfar
Quer com finezas; quer brigas."
XXII
"Vossas alianças e ligas
Que haveis na paz e na guerra
-- A expandir do mar à serra
Com glórias e com fadigas
A ordem dos céus sobre a terra" -
XXIII
"Caem sob a treva que aterra
Os homens em confusão
E os faz perdidos em vão:
Sois império que s'encerra
Na mais plena escuridão!..."
XXIV
"Por tal, reporto a visão
De sacerdotes e povo
Que têm, de novo e de novo,
Visto da deusa o clarão
N'estes versos que vos trovo."
os oito sinais
XXV
"Se este clamor vos renovo
É por recordar sinais
Que vos encadeiam finais.
Se em face de vós me comovo
É por sabê-los mortais:"
XXVI
"À deusa com os seus ais
Mais outros sete presságios
Vêm se somar feito estágios
De moléstias terminais
Ou de sinistros naufrágios..."
XXVII
"Ou tal contam os adágios:
"'Nada há tão ruim que não piore.'"...
Mas, antes que algo melhore,
O invasor busca apanágios,
Ainda que nos explore!"
XXVIII
"Primeiro, não se apavore
Quem vir cair uma estrela
Em pleno dia e, após ela,
Qual sarça de fogo core
O céu da noite singela!..."
XXIX
"Depois, em meio à procela
Chamas altas eu contemplo
A consumir todo o templo
Onde um deus se revela
Nosso antepassado exemplo!"
XXX
"E ainda, qual contraexemplo,
Dois relâmpagos seguidos
Explodem incandescidos
Sobre o jardim do antetemplo
De Tzonmolco e mil feridos!"
XXXI
"Por mais e mais desvalidos
Inunda-se Anáhuac, o vale...
Das alturas da Huey teocale
Tenochtitlã vê perdidos
Os prédios de quanto se vale."
XXXII
"Passados males seguidos,
Eis que caminhando às pressas
Homens de muitas cabeças
De mundos desconhecidos
Em meio a trevas espessas!..."
XXXIII
"Por fim, cumprindo as promessas
Da volta de nosso deus
Trazem rara ave os plebeus
A ver nas íris possessas
Soldados nos olhos seus."
XXXIV
"Montezuma, semideus
E grão-senhor dos Astecas!
Após quatro anos de secas,
Eis diante dos olhos meus
A deusa-mãe dos Toltecas..."
XXXV
"Por entre agaves e arecas
Andando junto a junquilhos
Antevê tolos rastilhos
Nos quais as hordas carecas
São mortas feito novilhos."
XXXVI
"E assim, coberta de brilhos,
Vinha chorando lamúrias.
Augúrios de tais penúrias
Os massacres de seus filhos
Ecoam pelas centúrias"...
a filicida
XXXVII
-- "Quem é essa cujas fúrias
Fizeram-na desgraçar?!?
Como ousa uma mãe matar
Filhos de suas luxúrias
E seus amores sem par?..."
XXXVIII
"Quem crianças fez afogar
Para horror de seu amante!? --
Mas agora, a todo instante,
Mira e remira o lugar
Tendo-se os meninos diante.
XXXIX
E desde então vaga errante
Sempre a chorar, de sorte
Que até se lhe nega a Morte
De pôr-lhe termo consoante
À maldição do ex-consorte.
XL
Muito embora desconforte
Seu choro a quem longe a vê,
Logo lhe nega mercê
Ao sabê-la por seu porte
Alma, não gente que crê...
XLI
O mal por paga se dê
Este mal pior, pois, eterno!
Falta do zelo materno,
Fez o que nenhum porquê
Responde senão no inferno.
XLII
Porém, no mundo moderno
Ainda a veem caminhando
Pelas noites, quando em quando,
Em meio às nevoas do inverno
Chorosa e chorona errando.
mulheres da meia-noite
XLIII
Pelos lugares onde ando
Escuto histórias como estas
De mulheres tão molestas
Pela escuridão penando
Por suas acções funestas.
XLIV
Com semelhanças honestas
Às famosas mexicanas,
Lendas sul-americanas
Também recordam modestas
As tristes almas mundanas.
XLV
Embora pareçam humanas,
Há tempos elas não são...
E alhures vagando em vão
Espalham, belas e insanas,
Murmúrios na escuridão.
XLVI
Têm em comum a ilusão
De repararem malfeitos
Ao aterrorizar sujeitos
Que encontram na escuridão
E logo lhe estão afeitos.
XLVII
Visto a princípio insuspeitos
Seus olhos na noite escura,
Aproximam-se à procura
De serem por ela aceitos
Face à tão bela figura.
XLVIII
Têm uma certa finura
De suaves gestos e falas
Enquanto lh'enchem de galas
E exaltam-lhe a formosura,
Coçando-se as barbas ralas...
XLVII
E ela, tentando tocá-las,
Não dão senão arrepios
Visto d'ela os dedos frios
Lhe traem as mãos ao mostrá-las
Pálidas a homens vadios.
XLVIII
Estes percebem sombrios
Os olhos d'aquela bela,
Passando a ter junto d'ela
Pasmos um tanto tardios
Tal repulsa lhes revela.
XLIX
-- "Mas que mulher era aquela?"... --
Dizem consigo ao partir
Ainda sem descobrir
Qual plano que teria ela
Quando o parou a sorrir.
a loura do bonfim
L
Em Minas costuma-se ouvir
Da loura que ao sem-abrigo
Leva, amorosa, consigo
Para o seu lar sem porvir
Que é o seu frio jazigo!...
LI
Sim, esta de que algo digo
Reside n'um cemitério...
Buscando a si refrigério,
Seduz quem se acha a perigo
De cometer um adultério.
LII
Envolta em alvo mistério
Cerca o rapaz linda e loura.
Enquanto a coruja agoura,
Lhe invita a falar a sério
Antes d'aurora vindoura.
LIII
Ela o coitado desdoura
De admirar seu triste fim.
E, manso, o encaminha enfim
Qual rés furtada à lavoura
Por ardiloso festim.
LIV
Chorando, diz: "Ai de mim!!"
E tão-logo o carro estaca
Rápido o passa na faca!...
"Cemitério do Bonfim"
Estava escrito na placa!
LV
Amanhã, no edifício Acaiaca,
Pouco antes que o sol desponte,
A ver o céu traz-do monte
Que à serrania destaca
A bela Belo Horizonte.
LVI
A loura outra vez nos conte
Sua história passional
Estampada no jornal:
"Dama do Bonfim na fronte
Esfaqueia um marginal."
LVII
Desgraçada tal-e-qual,
Sabe viver seu papel:
Morta sem amor e anel,
Vagará espiritual
Sem nunca chegar ao céu.
LVIII
Andando de déu em déu
Toda noite se renova
Repetindo a sua trova:
Dos altos do arranha-céu
Até as funduras da cova!
LIX
Mas quem de seus beijos prova
Há-de viver assombrado
Ferido ou não no costado.
Certo de que se comova
De à própria morte beijado...
a saiona
LX
-- "Qual o mais terrível Fado
D'entre as almas penadas?
O da mulher das baixadas
Que homens infiéis tem matado
Vagando pelas estradas..."
LXI
Como as outras desgraçadas
Esta também enlouquece
Ao ouvir quem mal a conhece
Contar do esposo escapadas
E grande ciúme padece.
LXII
E logo após lhe acontece
De homicida se tornar:
Filho e esposo faz matar
Além da mãe que parece
Pouco antes a amaldiçoar:
LXIII
-- "Matas quem soube te amar?
Maldita sejas: Não morres!
D'oravante tu percorres
As planuras sem findar
Buscando quem te desforres!"
LXIV
E, n'isso, do alto das torres
Das célebres catedrais
Um brilho intenso demais
Incandesceu sobre os jorres
Das fontes dos mananciais...
LXV
Desde então caça os mortais,
Belíssima de saião preto
A seduzir o incorreto:
Quem da regra dos casais
Burlando em passeio secreto.
LXVI
Se d'esses o país repleto,
Nos Llanos de Venezuela,
Muito comentam d'aquela
Que esmagava feito inseto
Quantos bulissem com ela.
LXVII
Tão violenta quanto bela
Tem para nossos desvelos
Negros e longos cabelos
E olhos aos que sem cautela
Têm sido o pior dos flagelos:
LXVIII
Cortantes, são dois cutelos
Sua mirada de luta,
Que na amorosa disputa
Hipnotizam os donzelos
N'uma mudez absoluta!...
LXIX
-- "Portanto, nem se discuta:
Mulherengo d'esta zona,
Que com as outras desfruta
Reveja a sua conduta
Antes que apareça a Saiona!
epílogo
LXX
De volta à vossa poltrona,
Eu vos deixo n'este ponto.
Pois já, assombrado e tonto,
Como alguma beladona
M'entorpecesse de pronto...
LXXI
Mas vós, leitor que confronto,
Apurai vossos ouvidos
A perceber os gemidos,
Passando conto por conto,
Em desespero vividos.
LXXII
Buscai ouvir os sofridos
Que vagam por esse mundo
Para entender quão profundo
O pavor dos tempos idos
'Inda nos homens fecundo.
LXXIII
Ainda que horrendo e imundo
Insisti, haja o que houver,
Sobre os abismos do querer.
Perguntai, sempre mais fundo:
-- "Quem é aquela mulher!?"
Betim - 13 01 2017
introito
I
Quem foi, depois de ser tantas,
A mais triste das mulheres?...
Aquela a chorar quereres,
Vagando nas noites santas
Face a dores e prazeres.
II
Deusa de imensos poderes,
Servira aos Astecas na guerra.
Hoje, está presa a essa terra
Sem mais outros afazeres,
Senão ser aquela que erra.
III
Ela, a Chorona, que aterra
Os sós em noite de lua
E sobre as águas flutua:
Espectro que alhures berra
As dores da culpa sua...
IV
Quem em prantos continua
Sempre a vagar cerca às águas
Onde se repete as mágoas
Que leva após pela rua
Aos sobrados e meias-águas
V
D'alvos véus, saias e anáguas,
A atravessar toda a vila...
Que nas desoras, tranquila,
Contrastava com as fráguas
De seu olhar que cintila.
VI
Gravada em minha pupila
Feito uma fotografia:
Defronte à matriz sombria,
Enquanto no adro desfila
Em meio à noite vazia.
VII
Já sem descanso ou alegria,
Anda a clamar pelos filhos
E a murmurar estribilhos
De cantigas que se ouvia
Entre bardos andarilhos.
VIII
Segue sem mais empecilhos
Alhures a lamentar
Até com algum topar
E, refulgente de brilhos,
Mais ess'outro assombrar.
IX
Deveras n'esse lugar,
Onde Deus é tão benquisto,
Muitos ainda a têm visto
Chorosa a Chorona a andar
Sem jamais pôr termo n'isto...
a chorona do lago
X
"Quem será esta que avisto,
Por sobre as águas do lago!?"
-- "Quem vem lá?" -- eu mais indago.
-- "Quem lá vem?" - ainda insisto.
"És ser d'outro mundo ou mago?!"
XI
Só o vento, frio e pressago,
Ora à minha voz responde.
Na noite escura s'esconde
Aquele ser tão aziago
Vindo não se sabe d'onde.
XII
-- "Mais às profundezas sonde
À procura da verdade!" -
Berrava para a entidade
Ainda que a mesma estronde
Sismos fendendo a cidade.
XIII
Nas ondas, a claridade
Se aproximou lentamente.
Mas, incertos se alma ou gente,
Fomos em comunidade
Co'os sacerdotes na frente:
XIV
O mais velho simplesmente
Calou-se contemplativo.
Ainda que sem motivo
Ou outra razão aparente
De tão súbito emotivo:
XV
-- "É Cihuacóatl! Eu vivo
A escutar de nosso fim..." -
De facto, irrompe ela assim
Clamar do povo cativo
Ao soar d'estranho clarim:
XVI
-- "Ai, meus filhos! Ai de mim!
Aonde os levarei, de resto,
Por de destino tão funesto
Poderem fugir enfim?
Só a lamentos me presto!..."
XVII
E abria os braços n'um gesto
Que abarcava toda a vila...
Triste visão à pupila,
Clamando em seu só protesto
Desde a lagoa tranquila.
XVIII
Nas águas o luar cintila
E o vento frio do Norte
Envolvente, agudo e forte,
Sobre as campinas siliba
Augúrios de dor e morte.
XIX
Advertidos da má sorte,
Antes que o mal se consuma
Fomos ter com Montezuma,
Anunciar em sua corte
As profecias, uma a uma:
XX
-- "Alteza, como costuma
A deusa ao povo falar,
Cihuacóatl a prantear
É vista em meio à bruma
Vossa desgraça anunciar."
XXI
"Conta que vêm pelo mar
Gentes mais sábias e antigas,
Que muito embora inimigas
Com poucos irão triunfar
Quer com finezas; quer brigas."
XXII
"Vossas alianças e ligas
Que haveis na paz e na guerra
-- A expandir do mar à serra
Com glórias e com fadigas
A ordem dos céus sobre a terra" -
XXIII
"Caem sob a treva que aterra
Os homens em confusão
E os faz perdidos em vão:
Sois império que s'encerra
Na mais plena escuridão!..."
XXIV
"Por tal, reporto a visão
De sacerdotes e povo
Que têm, de novo e de novo,
Visto da deusa o clarão
N'estes versos que vos trovo."
os oito sinais
XXV
"Se este clamor vos renovo
É por recordar sinais
Que vos encadeiam finais.
Se em face de vós me comovo
É por sabê-los mortais:"
XXVI
"À deusa com os seus ais
Mais outros sete presságios
Vêm se somar feito estágios
De moléstias terminais
Ou de sinistros naufrágios..."
XXVII
"Ou tal contam os adágios:
"'Nada há tão ruim que não piore.'"...
Mas, antes que algo melhore,
O invasor busca apanágios,
Ainda que nos explore!"
XXVIII
"Primeiro, não se apavore
Quem vir cair uma estrela
Em pleno dia e, após ela,
Qual sarça de fogo core
O céu da noite singela!..."
XXIX
"Depois, em meio à procela
Chamas altas eu contemplo
A consumir todo o templo
Onde um deus se revela
Nosso antepassado exemplo!"
XXX
"E ainda, qual contraexemplo,
Dois relâmpagos seguidos
Explodem incandescidos
Sobre o jardim do antetemplo
De Tzonmolco e mil feridos!"
XXXI
"Por mais e mais desvalidos
Inunda-se Anáhuac, o vale...
Das alturas da Huey teocale
Tenochtitlã vê perdidos
Os prédios de quanto se vale."
XXXII
"Passados males seguidos,
Eis que caminhando às pressas
Homens de muitas cabeças
De mundos desconhecidos
Em meio a trevas espessas!..."
XXXIII
"Por fim, cumprindo as promessas
Da volta de nosso deus
Trazem rara ave os plebeus
A ver nas íris possessas
Soldados nos olhos seus."
XXXIV
"Montezuma, semideus
E grão-senhor dos Astecas!
Após quatro anos de secas,
Eis diante dos olhos meus
A deusa-mãe dos Toltecas..."
XXXV
"Por entre agaves e arecas
Andando junto a junquilhos
Antevê tolos rastilhos
Nos quais as hordas carecas
São mortas feito novilhos."
XXXVI
"E assim, coberta de brilhos,
Vinha chorando lamúrias.
Augúrios de tais penúrias
Os massacres de seus filhos
Ecoam pelas centúrias"...
a filicida
XXXVII
-- "Quem é essa cujas fúrias
Fizeram-na desgraçar?!?
Como ousa uma mãe matar
Filhos de suas luxúrias
E seus amores sem par?..."
XXXVIII
"Quem crianças fez afogar
Para horror de seu amante!? --
Mas agora, a todo instante,
Mira e remira o lugar
Tendo-se os meninos diante.
XXXIX
E desde então vaga errante
Sempre a chorar, de sorte
Que até se lhe nega a Morte
De pôr-lhe termo consoante
À maldição do ex-consorte.
XL
Muito embora desconforte
Seu choro a quem longe a vê,
Logo lhe nega mercê
Ao sabê-la por seu porte
Alma, não gente que crê...
XLI
O mal por paga se dê
Este mal pior, pois, eterno!
Falta do zelo materno,
Fez o que nenhum porquê
Responde senão no inferno.
XLII
Porém, no mundo moderno
Ainda a veem caminhando
Pelas noites, quando em quando,
Em meio às nevoas do inverno
Chorosa e chorona errando.
mulheres da meia-noite
XLIII
Pelos lugares onde ando
Escuto histórias como estas
De mulheres tão molestas
Pela escuridão penando
Por suas acções funestas.
XLIV
Com semelhanças honestas
Às famosas mexicanas,
Lendas sul-americanas
Também recordam modestas
As tristes almas mundanas.
XLV
Embora pareçam humanas,
Há tempos elas não são...
E alhures vagando em vão
Espalham, belas e insanas,
Murmúrios na escuridão.
XLVI
Têm em comum a ilusão
De repararem malfeitos
Ao aterrorizar sujeitos
Que encontram na escuridão
E logo lhe estão afeitos.
XLVII
Visto a princípio insuspeitos
Seus olhos na noite escura,
Aproximam-se à procura
De serem por ela aceitos
Face à tão bela figura.
XLVIII
Têm uma certa finura
De suaves gestos e falas
Enquanto lh'enchem de galas
E exaltam-lhe a formosura,
Coçando-se as barbas ralas...
XLVII
E ela, tentando tocá-las,
Não dão senão arrepios
Visto d'ela os dedos frios
Lhe traem as mãos ao mostrá-las
Pálidas a homens vadios.
XLVIII
Estes percebem sombrios
Os olhos d'aquela bela,
Passando a ter junto d'ela
Pasmos um tanto tardios
Tal repulsa lhes revela.
XLIX
-- "Mas que mulher era aquela?"... --
Dizem consigo ao partir
Ainda sem descobrir
Qual plano que teria ela
Quando o parou a sorrir.
a loura do bonfim
L
Em Minas costuma-se ouvir
Da loura que ao sem-abrigo
Leva, amorosa, consigo
Para o seu lar sem porvir
Que é o seu frio jazigo!...
LI
Sim, esta de que algo digo
Reside n'um cemitério...
Buscando a si refrigério,
Seduz quem se acha a perigo
De cometer um adultério.
LII
Envolta em alvo mistério
Cerca o rapaz linda e loura.
Enquanto a coruja agoura,
Lhe invita a falar a sério
Antes d'aurora vindoura.
LIII
Ela o coitado desdoura
De admirar seu triste fim.
E, manso, o encaminha enfim
Qual rés furtada à lavoura
Por ardiloso festim.
LIV
Chorando, diz: "Ai de mim!!"
E tão-logo o carro estaca
Rápido o passa na faca!...
"Cemitério do Bonfim"
Estava escrito na placa!
LV
Amanhã, no edifício Acaiaca,
Pouco antes que o sol desponte,
A ver o céu traz-do monte
Que à serrania destaca
A bela Belo Horizonte.
LVI
A loura outra vez nos conte
Sua história passional
Estampada no jornal:
"Dama do Bonfim na fronte
Esfaqueia um marginal."
LVII
Desgraçada tal-e-qual,
Sabe viver seu papel:
Morta sem amor e anel,
Vagará espiritual
Sem nunca chegar ao céu.
LVIII
Andando de déu em déu
Toda noite se renova
Repetindo a sua trova:
Dos altos do arranha-céu
Até as funduras da cova!
LIX
Mas quem de seus beijos prova
Há-de viver assombrado
Ferido ou não no costado.
Certo de que se comova
De à própria morte beijado...
a saiona
LX
-- "Qual o mais terrível Fado
D'entre as almas penadas?
O da mulher das baixadas
Que homens infiéis tem matado
Vagando pelas estradas..."
LXI
Como as outras desgraçadas
Esta também enlouquece
Ao ouvir quem mal a conhece
Contar do esposo escapadas
E grande ciúme padece.
LXII
E logo após lhe acontece
De homicida se tornar:
Filho e esposo faz matar
Além da mãe que parece
Pouco antes a amaldiçoar:
LXIII
-- "Matas quem soube te amar?
Maldita sejas: Não morres!
D'oravante tu percorres
As planuras sem findar
Buscando quem te desforres!"
LXIV
E, n'isso, do alto das torres
Das célebres catedrais
Um brilho intenso demais
Incandesceu sobre os jorres
Das fontes dos mananciais...
LXV
Desde então caça os mortais,
Belíssima de saião preto
A seduzir o incorreto:
Quem da regra dos casais
Burlando em passeio secreto.
LXVI
Se d'esses o país repleto,
Nos Llanos de Venezuela,
Muito comentam d'aquela
Que esmagava feito inseto
Quantos bulissem com ela.
LXVII
Tão violenta quanto bela
Tem para nossos desvelos
Negros e longos cabelos
E olhos aos que sem cautela
Têm sido o pior dos flagelos:
LXVIII
Cortantes, são dois cutelos
Sua mirada de luta,
Que na amorosa disputa
Hipnotizam os donzelos
N'uma mudez absoluta!...
LXIX
-- "Portanto, nem se discuta:
Mulherengo d'esta zona,
Que com as outras desfruta
Reveja a sua conduta
Antes que apareça a Saiona!
epílogo
LXX
De volta à vossa poltrona,
Eu vos deixo n'este ponto.
Pois já, assombrado e tonto,
Como alguma beladona
M'entorpecesse de pronto...
LXXI
Mas vós, leitor que confronto,
Apurai vossos ouvidos
A perceber os gemidos,
Passando conto por conto,
Em desespero vividos.
LXXII
Buscai ouvir os sofridos
Que vagam por esse mundo
Para entender quão profundo
O pavor dos tempos idos
'Inda nos homens fecundo.
LXXIII
Ainda que horrendo e imundo
Insisti, haja o que houver,
Sobre os abismos do querer.
Perguntai, sempre mais fundo:
-- "Quem é aquela mulher!?"
Betim - 13 01 2017
1 035
natalia nuno
gota de saudade...
pequena e delicada lágrima
cai sempre no poema
se de saudade é o tema
inunda a praça da poesia
e meu coração se alivia
canto à terra
lembro a enxada
e a terra arada
e as palavras vão crescendo
boquiabertas com a beleza
pois também canto a natureza
canto a minha aldeia
ao meu lugar
onde um dia vou retornar.
natalia nuno
cai sempre no poema
se de saudade é o tema
inunda a praça da poesia
e meu coração se alivia
canto à terra
lembro a enxada
e a terra arada
e as palavras vão crescendo
boquiabertas com a beleza
pois também canto a natureza
canto a minha aldeia
ao meu lugar
onde um dia vou retornar.
natalia nuno
289
RicardoC
A QUEM É D'AQUÉM-MAR
A QUEM é D'AQUéM-MAR
Se escrevo como escrevo é que não devo
Nunca nada a ninguém d'aquém ou d'além.
Escrevo como quero e me convém
Na herdade do vernáculo por coevo.
Se a tais lusitanismos eu me atrevo
é porque mais me aprazem e soam bem.
De facto, minha escrita sempre tem
Um quê de meio arcaico ou de longevo.
Pois escritas assim d'esta maneira
As coisas me mantêm a verdadeira
Maravilha que tenho quando as leio.
Certo que, se a estranheza se lhe venha,
O leitor que a tiver também me tenha,
Mas com mais fantasia de permeio.
Belo Horizonte - 20 12 2017
Se escrevo como escrevo é que não devo
Nunca nada a ninguém d'aquém ou d'além.
Escrevo como quero e me convém
Na herdade do vernáculo por coevo.
Se a tais lusitanismos eu me atrevo
é porque mais me aprazem e soam bem.
De facto, minha escrita sempre tem
Um quê de meio arcaico ou de longevo.
Pois escritas assim d'esta maneira
As coisas me mantêm a verdadeira
Maravilha que tenho quando as leio.
Certo que, se a estranheza se lhe venha,
O leitor que a tiver também me tenha,
Mas com mais fantasia de permeio.
Belo Horizonte - 20 12 2017
413
RicardoC
À PROENÇAL
À PROENÇAL
Dormi, ó bela, em torres de marfim,
Sem mais porvir, sem dor dormir, sem nada...
Ei-vos o corpo estátua inacabada,
Tendo voss'alma pálida por fim!
Não esperais por reis d'além-jardim,
Sim por vós -- quintessência decantada --
Onde as virtudes todas têm morada,
Enquanto os vícios todos sobre mim.
Mas seja meu cantar vosso acalanto.
Pois, embora a poesia amor mundano,
A música traz d'anjos o amor santo.
Sois toda ideal, não carne, cerne humano...
Sede-o, ó bela: Incorpórea! Abstrato encanto!!!
E eu tão-só os ouvidos vos profano...
Betim - 02 10 1998
Dormi, ó bela, em torres de marfim,
Sem mais porvir, sem dor dormir, sem nada...
Ei-vos o corpo estátua inacabada,
Tendo voss'alma pálida por fim!
Não esperais por reis d'além-jardim,
Sim por vós -- quintessência decantada --
Onde as virtudes todas têm morada,
Enquanto os vícios todos sobre mim.
Mas seja meu cantar vosso acalanto.
Pois, embora a poesia amor mundano,
A música traz d'anjos o amor santo.
Sois toda ideal, não carne, cerne humano...
Sede-o, ó bela: Incorpórea! Abstrato encanto!!!
E eu tão-só os ouvidos vos profano...
Betim - 02 10 1998
936
RicardoC
UM QUARTO E UMA MEIA
UM QUARTO E UMA MEIA
Uma meia esquecida no meu quarto.
Olho no relógio e é meia noite e meia...
E igual àquela noite, outra lua cheia
De cujo recordar jamais me farto.
O perfume, já por meio e um quarto,
É teu cheiro que no ar tudo permeia...
Dilata-se a pupila; estufa a veia:
De novo para aquela noite eu parto.
Brilho da lua em só noite de quarta...
Da qual ora escureço; ora clareio
Para ti cada poema, foto ou carta.
No fim das contas, perco-me no enleio:
Dividido por zero ou posto à quarta...
O que é ser nada? Ser um par ao meio?...
Cap. Andrade - 22 03 1995
Uma meia esquecida no meu quarto.
Olho no relógio e é meia noite e meia...
E igual àquela noite, outra lua cheia
De cujo recordar jamais me farto.
O perfume, já por meio e um quarto,
É teu cheiro que no ar tudo permeia...
Dilata-se a pupila; estufa a veia:
De novo para aquela noite eu parto.
Brilho da lua em só noite de quarta...
Da qual ora escureço; ora clareio
Para ti cada poema, foto ou carta.
No fim das contas, perco-me no enleio:
Dividido por zero ou posto à quarta...
O que é ser nada? Ser um par ao meio?...
Cap. Andrade - 22 03 1995
604
natalia nuno
poema de amor...
lanço a rede ao fundo,
para vislumbrar o poema
feito de palavra de nada
ou do que não foi dito ainda,
talvez da palavra calada,
duma porta fechada ou aberta,
alento de minha boca
uma dor que aperta,
memória dum tempo
ou da minha força, já pouca.
será o poema pássaro
que voa para o poente
de asas fatigadas,
tocando as águas do mar
rumando à eternidade
docemente,
levando com ele meu olhar?
este poema é cego
e causa-me calafrio!
os seus resignados olhos,
são os meus,
às vezes são rio
que já corria
no ventre de minha mãe,
num sussurro morno
onde não há volta.
mas, ainda assim me alegro,
porque este poema
é de amor também.
natalia nuno
para vislumbrar o poema
feito de palavra de nada
ou do que não foi dito ainda,
talvez da palavra calada,
duma porta fechada ou aberta,
alento de minha boca
uma dor que aperta,
memória dum tempo
ou da minha força, já pouca.
será o poema pássaro
que voa para o poente
de asas fatigadas,
tocando as águas do mar
rumando à eternidade
docemente,
levando com ele meu olhar?
este poema é cego
e causa-me calafrio!
os seus resignados olhos,
são os meus,
às vezes são rio
que já corria
no ventre de minha mãe,
num sussurro morno
onde não há volta.
mas, ainda assim me alegro,
porque este poema
é de amor também.
natalia nuno
322
natalia nuno
hora marcada... trovas
relógio já marca a hora
momentos de despedida
parte a vida sem demora
chega a hora da partida
há alguém a dizer adeus
com olhar lacrimejante
até quando só sabe Deus
já o sol baixa lá adiante...
fica a vida indiferente
que Deus a abençoe
a tristeza é permanente
já que a alegria se foi
assim se vai cumprindo
o destino que Deus dá
saudade de quem partindo
deixa saudades por cá...
bem guardado na memória
um mar de dias de outrora
a vida uma longa história
o relógio a marcar a hora..
natalia nuno
momentos de despedida
parte a vida sem demora
chega a hora da partida
há alguém a dizer adeus
com olhar lacrimejante
até quando só sabe Deus
já o sol baixa lá adiante...
fica a vida indiferente
que Deus a abençoe
a tristeza é permanente
já que a alegria se foi
assim se vai cumprindo
o destino que Deus dá
saudade de quem partindo
deixa saudades por cá...
bem guardado na memória
um mar de dias de outrora
a vida uma longa história
o relógio a marcar a hora..
natalia nuno
267
natalia nuno
esperança...
pode não ser hoje
nem amanhã
podem adiar
podem até negar, mas
nos meus versos
encontrarão o que
a saudade me diz,
o aroma da infância feliz!
a claridade que fui
o rosto da primavera
a dor da recordação
dos lábios o murmúrio
o tempo que talha em mim
a tristeza, a saudade
e seu mistério
o amar até ao delírio
meus versos serão
levados a sério...
pode não ser hoje
nem amanhã
mas a minha certeza
não é uma certeza vã
minha poesia
permanecerá no trinar
dos pássaros
na linguagem da natureza
com uma força
que o tempo amadurecerá
e assim a poesia permanece
e sobreviverá fresca a quem
se oferece
pode não ser hoje
nem amanhã, mas dirão
escreveu e morreu
seus dedos doendo
inventou sonhos e felicidade
e levou da vida
SAUDADE...
natalia nuno
nem amanhã
podem adiar
podem até negar, mas
nos meus versos
encontrarão o que
a saudade me diz,
o aroma da infância feliz!
a claridade que fui
o rosto da primavera
a dor da recordação
dos lábios o murmúrio
o tempo que talha em mim
a tristeza, a saudade
e seu mistério
o amar até ao delírio
meus versos serão
levados a sério...
pode não ser hoje
nem amanhã
mas a minha certeza
não é uma certeza vã
minha poesia
permanecerá no trinar
dos pássaros
na linguagem da natureza
com uma força
que o tempo amadurecerá
e assim a poesia permanece
e sobreviverá fresca a quem
se oferece
pode não ser hoje
nem amanhã, mas dirão
escreveu e morreu
seus dedos doendo
inventou sonhos e felicidade
e levou da vida
SAUDADE...
natalia nuno
287
natalia nuno
não demores...
não demores
vem ver nascer os lírios
não pode haver tempo perdido
vem olhar o alecrim
a rosa brava,
está amarela a giesta
tudo faz sentido
até nosso amor está em festa.
não demores
para não me sentir só
vem sem demora
já está raiando a aurora.
o sol ilumina as frontarias
sabe tudo sobre nós
do pranto em que nascemos
da viagem dos nossos dias
das cicatrizes da viagem
anda não demores
antes que esqueça tua imagem
quero suportar a travessia
quero ter-te por companhia.
natalia nuno
vem ver nascer os lírios
não pode haver tempo perdido
vem olhar o alecrim
a rosa brava,
está amarela a giesta
tudo faz sentido
até nosso amor está em festa.
não demores
para não me sentir só
vem sem demora
já está raiando a aurora.
o sol ilumina as frontarias
sabe tudo sobre nós
do pranto em que nascemos
da viagem dos nossos dias
das cicatrizes da viagem
anda não demores
antes que esqueça tua imagem
quero suportar a travessia
quero ter-te por companhia.
natalia nuno
282
natalia nuno
o que sinto...
o que sinto agora
me arde, me queima
acre melancolia
que em mim teima.
o caminho
é vinha vindimada,
vagas de memórias,
sereno meu mar...
que tudo e nada me oferece,
dia ameno, dia que adia
a morte,
o sol me aquece
e mantém-me viva.
chove apenas no olhar
que um dia brilhou,
e cantou
como um rouxinol,
hoje, terra morta onde bate o vento
e se foi o sol.
já nenhum espinho me fere
renego a compaixão
bati com a porta
meu coração só quer,
paz,
não se queixa, faz
que dorme....
num batimento
uniforme.
natalia nuno
me arde, me queima
acre melancolia
que em mim teima.
o caminho
é vinha vindimada,
vagas de memórias,
sereno meu mar...
que tudo e nada me oferece,
dia ameno, dia que adia
a morte,
o sol me aquece
e mantém-me viva.
chove apenas no olhar
que um dia brilhou,
e cantou
como um rouxinol,
hoje, terra morta onde bate o vento
e se foi o sol.
já nenhum espinho me fere
renego a compaixão
bati com a porta
meu coração só quer,
paz,
não se queixa, faz
que dorme....
num batimento
uniforme.
natalia nuno
220
beneditocglimadonquixotepant
ANDARILHO
Sou um andarilho perdido nas fímbrias da solidão
Enquanto minha alma se desmonta em poemas
De déu em déu
Eui vou me consumindo
Olhando teu rosto lindo
E a vida continua no mesmo solfejo
Nem o sacolejo do imprevisto
Me arrisca a sonhar
Meu coração ficou órfão
O jeito é rolar na cama e dormir
Quem sabe a Musa aparece
Nas entranhas da prece.
Enquanto minha alma se desmonta em poemas
De déu em déu
Eui vou me consumindo
Olhando teu rosto lindo
E a vida continua no mesmo solfejo
Nem o sacolejo do imprevisto
Me arrisca a sonhar
Meu coração ficou órfão
O jeito é rolar na cama e dormir
Quem sabe a Musa aparece
Nas entranhas da prece.
108
natalia nuno
condão...
trago este condão de vida
que é luz que me ateia
se ando um pouco perdida
só teu amor me incendeia,
memórias e afeições
que em versos lavro
há nelas indagações
do que poderia ser diferente
mas nada altero...
no universo da minha mente
é teu amor que ainda quero.
natalia nuno
que é luz que me ateia
se ando um pouco perdida
só teu amor me incendeia,
memórias e afeições
que em versos lavro
há nelas indagações
do que poderia ser diferente
mas nada altero...
no universo da minha mente
é teu amor que ainda quero.
natalia nuno
309
RicardoC
A MARIPOSA
A MARIPOSA
Atravessa comigo a noite em claro,
Voando ao redor da luz da escrivaninha.
Vez ou outra rente à pele me acarinha
E vai-se sem que faça mais reparo.
Mas pousa no retrato do preclaro
E -- por que não? -- errático poetinha!...
De modo que elegante se sustinha
Por sobre um rosto a mim sempre tão caro.
Atravessa comigo a noite escura
A panejar sua asa adamascada
Que bem na calva d'ele ora figura.
Registro que, poesia sublimada,
A mariposa em sua desventura
Deu vida àquela face iluminada.
Betim - 09 05 1995
Atravessa comigo a noite em claro,
Voando ao redor da luz da escrivaninha.
Vez ou outra rente à pele me acarinha
E vai-se sem que faça mais reparo.
Mas pousa no retrato do preclaro
E -- por que não? -- errático poetinha!...
De modo que elegante se sustinha
Por sobre um rosto a mim sempre tão caro.
Atravessa comigo a noite escura
A panejar sua asa adamascada
Que bem na calva d'ele ora figura.
Registro que, poesia sublimada,
A mariposa em sua desventura
Deu vida àquela face iluminada.
Betim - 09 05 1995
604
natalia nuno
loucuras...
beijar teus lábios
cerrar os olhos
abri-los depois radiante
tingir o rosto de felicidade
ser mulher e amante
ouvir o teu clamor
a atracção do teu olhar
e deixar-me nesse beijo
doce
nesse licor
nesse ficar
nas asas do amor
fazer-te versos íntimos
de sílabas cantadas
com palavras poucas,
palavras loucas
de alma arrebatada
abrir-me ao desejo
como andorinha esvoaçada.
natalia nuno
Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=270684 © Luso-Poemas
cerrar os olhos
abri-los depois radiante
tingir o rosto de felicidade
ser mulher e amante
ouvir o teu clamor
a atracção do teu olhar
e deixar-me nesse beijo
doce
nesse licor
nesse ficar
nas asas do amor
fazer-te versos íntimos
de sílabas cantadas
com palavras poucas,
palavras loucas
de alma arrebatada
abrir-me ao desejo
como andorinha esvoaçada.
natalia nuno
Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=270684 © Luso-Poemas
405
natalia nuno
esta dor que não sára...
inquietante poema de paredes brancas
onde procuro o rosto que não encontro
poema onde me sinto borboleta ferida
levada por um vento que não pára,
poema onde consta que já fui
e hoje é dor que não sara
o que sobra duma vida
poema onde me deixo pensativa
onde dou a mão à dor
pela tristeza acometida...
poema duma dor que sopra fina
e me traz a saudade de menina
e do tempo que agora apoucou
mal ela se descuidou
já tudo é passado
só a saudade a meu lado
me faz companhia
tal como esta poesia
que deixo no umbral do meu sonho.
natalia nuno
onde procuro o rosto que não encontro
poema onde me sinto borboleta ferida
levada por um vento que não pára,
poema onde consta que já fui
e hoje é dor que não sara
o que sobra duma vida
poema onde me deixo pensativa
onde dou a mão à dor
pela tristeza acometida...
poema duma dor que sopra fina
e me traz a saudade de menina
e do tempo que agora apoucou
mal ela se descuidou
já tudo é passado
só a saudade a meu lado
me faz companhia
tal como esta poesia
que deixo no umbral do meu sonho.
natalia nuno
310
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