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Cedric Constance

Cedric Constance

O POETA SUICIDA

Abro cortes profundos que marcam a pele, 
Ferindo a carne, já tanto cansada dos lamúrios...
Contemplo o sangue rubro que jorra e expele,
O fim anuncia-se entre gemidos e murmúrios.

Minhas dores vertem e escorrem sob o chão,
Impregnadas no meu sangue, já coagulado.
Ao poucos, diminuem as batidas do coração, 
E meus olhos negros e tristes, estão fechados.

Oh, mamãe, me perdoe por ter sido tão fraco,
Mas agora, encontrei a paz que tanto busquei...
Não chore sobre meu cadáver pálido e fresco...

Por tanto tempo andei cego e perdido na vida,
Só em meio as brumas... O amor não avistei...
Deus há de recolher a alma dum poeta suicida...

- Cedric Constance
238
Sirlânio Jorge Dias Gomes (R)

Sirlânio Jorge Dias Gomes (R)

Estação

O tempo corre incluso em seus detalhes,
Espectável liberdade ao fim do dia,
Começo da noite regressa a esperança,
Sublime melodia afrontando a morte,
Contínuo acercar da grata senilidade.
Seixos brutos terrificam a carne,
Sulcos latejantes da vida que arde,
Feitos folhas da alma etéreo outono,
Condimentando a terra nobre leito,
Ao último olhar deslumbrado.
A árvore volta a ser semente,
Pó de estrelas elixir da criação,
Escol imortal da existência,
Eternizando a humanidade recolhida,
A brincar com a brisa leve.
253
Zi Alves

Zi Alves

A CADA PASSO

A cada passo incertezas
A cada passo se encontra um novo chão
A cada passo uma folha seca, uma pessoa ou apenas solidão
a cada passo uma mistura de sentimento e reflexão
333
Heinrick

Heinrick

Prata Pura (Perdição)

Prata é o mal do homem
O homem é o mal do próprio
Mas ainda sim homens veneram homens
E fazem prata de ópio
332
Sodatti

Sodatti

Paixão

É fácil se apaixonar o difícil é fazer durar, a paixão costuma arder intensamente no início, mais com o tempo vai se esfriando e para mante-la ardendo é preciso um renovo, algo que a faça arder como outrora, um simples toque pode ascender a velha chama por isso é bom prestar atenção aos mínimos detalhes porque nem sempre será preciso algo extraordinário pelo contrário, as vezes aquilo que nem imaginamos é o suficiente para restaurar o que foi vivido, então faça o seu melhor sem se sacrificar pois quando menos esperar pode conseguir o que deseja.

Tatiane Sodatti Silva
44
Isabel Pires

Isabel Pires

caminho

percorro os olhos pela taça embaciada
gorda e densa 
e ajeito um lugar
para te levar
aos cabelos como pássaros

cabelos como pássaros! 
                                    e flores em cachos

cabelos com asas de sol
guardado nas noites
dos passeios pela pele
a desenharem estradas de estremecimentos e sorrisos
que nos levam mais longe 
no muito perto
da tua respiração na minha pele

236
Pedro Paiva

Pedro Paiva

A NOIVA

      Era final de tarde. Maio em flor! Os paus-d’arco coloridos se envergavam ao látego da brisa melodiosa e concupiscente, espalhando por todo o vale que se estendia para além da vista, o aroma suave de flores silvestres. 
       No cenário celestial e caprichosamente florido, tudo conspirava em favor daquele casal de amantes. No horizonte, o crepúsculo da tarde promovia um espetáculo de luz e de beleza que, aos poucos, ia dando lugar aos clarões frouxos e azulados da lua que já despontava na linha turva do nascente.
       - Já é tarde, meu amor! Preciso ir – disse Doninha. Ver-nos-emos, amanhã.
       Foram vários anos de romance e de encontros amorosos até que uma disputa por terras colocou as duas famílias em pé de guerra e de rivalidade, marcada por uma série de mortes e de assassinatos que se sucediam uns após os outros.
      Fabrício, pressionado pela família, que temia vê-lo assassinado pelos rivais, viajara para longe de Doninha e a jovem não suportando a ausência do amante, encontrou na loucura uma forma de sublimar a solidão.
       A partir daquele dia, Doninha não falava com mais ninguém, nunca mais fora vista nas festas e nos adjuntos, não reconheceu mais as amigas. Reclusa na sua torre de marfim, Doninha sonhava todos os dias com a volta do noivo.
      Alguns anos mais tarde, Fabrício retornara às Porteiras Velhas e seu maior desejo era encontrar a amada, apertá-la nos braços, beijá-la sofregamente e tomá-la como esposa. 
      Naquele dia, o povoado se preparava para uma grande festa. No baile, Fabrício encontrou a amada que há muitos anos não saía de casa, mas que ao saber da volta do noivo, resolveu ir ao baile. Dançaram a noite inteira, beijaram-se, amaram-se, trocaram juras secretas de amor e ternas promessas de casamento.
      No dia seguinte, Fabrício era só felicidades. Curiosos, os familiares indagaram-no o motivo de tamanha alegria e enquanto todos ouviam, atônitos, Fabrício contar, com riqueza de detalhes, o reencontro com Doninha, uma voz solene veio lá de dentro da camarinha:
       - Isso só pode ter sido um sonho, meu filho, pois Doninha morreu há mais de dez anos!
       E foi só então que contaram para Fabrício que, depois da partida dele, Doninha enlouqueceu, permanecendo por mais de dez anos trancada em casa. Durante esses anos todos, não falou com mais ninguém, alimentava-se mal, não se asseava mais, vivia isolada na sua torre de marfim até que, até que, num belo dia de sábado e para espanto de todos, Doninha amanhecera lúcida e disposta, tomara banho e fora à feira dos Altos de João de Paiva. 
       Sorridente, feliz e incontida, Doninha cumprimentava a todos. Voltou a reconhecer a todas as amigas e abraçava a todas que via num daqueles momentos em que a saúde costuma visitar o doente na véspera da morte e a sanidade retornar, brevemente, aos loucos, externando uma lucidez impressionante.
       Era mês de maio – os pais de Doninha, que há muitos anos não saiam mais de casa para nada, vendo que a filha estava curada, resolveram ir à novena de Maria na casa de parentes da família. Doninha não fora alegando que ainda estava se recuperando da insanidade, mas que os seus pais ficassem tranquilos que ela já estava curada. 
       Convencidos, então, da cura da filha, os pais foram agradecer a graça alcançada. 
       Enquanto os pais estavam ausentes, Doninha tomara banho, perfumara-se toda, cobrira com pó de arroz as faces angelicais, passara batom nos lábios e, em seguida, se vestira de noiva. 
       Estava linda e radiante e ali no altar que a fantasia tresloucada lhe permitiu idealizar se untou com o óleo que havia comprado na feira dos Altos de João de Paiva e pôs fogo no próprio corpo, dando fim a uma vida de longo sofrimento e de interminável abstinência amorosa para gozar na ‘eternidade’ as bodas nupciais.
       Desolados que ficaram com a tragédia, os pais de Doninha se suicidaram e o resto da família sumiu da localidade sem deixar paradeiro.
       Fabrício, enlouquecido, chorava copiosamente, gritava e, em desespero, se batia todo, recusando-se a acreditar naquela história dos diachos e descabida e só se convenceu da verdade quando, chegando ao cemitério, mostraram-lhe o jazigo onde Doninha, sua amada, estava sepultada.
  
3 478
Gabriel Albuquerque

Gabriel Albuquerque

Assim sussurrou Assunção

É claro que eu quero o clarão da lua
É claro que eu quero o branco no preto

Assim falou Assunção.

Assim Assunção cessou sua sátira sã.
Ó, sã sátira, batuque um canto concreto
pra balançar o coreto correto
d'onde vens a tua inspiração, ó doce manhã.

Assim sussurrou Assunção:

A lança que não cansa da dança
a pança da panda que não quer mudança
como se fosse pecado, como se fosse mortal
tecendo a hora, em que a aurora for geral.
369
Sodatti

Sodatti

Você

Você uma eterna loucura,
Paixão que me tortura,
Quero te amar com ternura,
Sem nenhuma censura.

Você entrou em meu peito,
Pois te amo de um jeito,
Que quando com você me deito,
Parece tudo perfeito.

Você amor sem limite,
Pior que dinamite,
Não é só paixonite,
Só você não admite.

Você simplesmente formoso,
Com esse amor carinhoso,
Mesmo sendo teimoso,
É o meu amor gostoso.

Você dono do meu coração,
Minha inspiração,
Amor sem moderação,
Perco até a respiração.

Tatiane Sodatti Silva
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rafael_noone

rafael_noone

Death Note

Observo essa humanidade
Podre como o fruto
O fruto proibido da verdade
Que deixa os outros no luto
Pobres almas perdidas
Tiradas por qualquer gangue
Tiradas são essas vidas
Por vigários sujos de sangue

A oportunidade cai do alto
Assim como o próprio arcanjo
Em meio aquele escuro asfalto
A arma de terror e espanto
Seguro a destruição dos impuros
Parece vir dos abismos profundos
Uma caderneta cheia de furos
Me escolheu pra ser o Deus do mundo

Me ergo então na maior altitude
Sinto sua poderosa força de matar
Resolvo tomar a melhor atitude
Admito que é difícil fazer e fácil falar
Declaro e julgo os humanos
Sou juiz e executor dos pecadores
Liberto todos de pensamentos profanos
Ensino todos a respeitar os valores

Sou a própria justiça encarnada
Encarnada nas entranhas da sociedade
Para julgar é que fui destinada
Eu que agora guio a humanidade
Com apenas nomes e rostos
Diferencio a verdade da mentira
Me ponho agora no meu posto
De Deus da Justiça, Kira
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jeronimo_collares

jeronimo_collares

cravos efêmeros

resta a noite

do rumor da partida

 

a ideia batida

de um corpo de cor

 

e deito-me ao escopo, é ofício

o adeus sem dor


jeronimo
264
João Rasteiro

João Rasteiro

A face da percepção

 “to tell the truth the way words lie”
         Robert Duncan

Até que o musgo venha a nossos olhos
e nossos longínquos nomes oculte,
a réstia de alegria é cinza que subsiste.
                           *
Estou tão, tão furioso connosco!
Não nos julgo. Só sinto a nossa falta.
                           *
Esse fundo deserto onde mergulhámos,
"that is a place of first permission,
everlasting omen of what is".
                           *
Não me julgo. Só tenho a culpa assim.
Vou amar-te até ao fim dos meus dias.
                           *
Esta percepção é, em si própria, a derrota,
o poema que se reduz à devoção.
Não o julgo. Nem à sua audaz verdade.
2 061
Sirlânio Jorge Dias Gomes (R)

Sirlânio Jorge Dias Gomes (R)

Poema livre

Um poema tem muitas faces, 
Espelho de muitos olhos, 
Quem sabe um olhar surdo, 
Ou talvez um ouvido mudo, 
Amigo da boca pensante, 
Neste embaralhado tempo, 
Onde a liberdade as vezes corrida, 
Esquece de ser livre e acenar, 
Mesmo sabendo que estão ali. 
Um poema é um poema, 
O seu criador o sente n'alma, 
Sabendo que mesmo em silêncio, 
Ou falta de aplausos voa, 
Com suas asas invisíveis, 
Pousando suavemente onde deva ser, 
Num elogio espontâneo, 
Longe dos holofotes. 
O poema não quer ser escravizado, 
De senhores bastam os críticos, 
Cheios de si numa sabedoria louca, 
Muito distante da verdade do poeta, 
Que num cantinho só seu, 
Soube revelar o intransponível, 
Na eternidade dos seu lábios, 
Cantando na mente os versos, 
Tão seu, tão nosso e de ninguém. 
O poema precisa ser descoberto, 
Deixando de si as impressões, 
Um carteiro de destino infinito, 
Sem pressa de chegar, 
Sabendo que alguém estará lá, 
Quando for a hora do encontro, 
Sem paradigmas angustiantes. 
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Matheus de Arruda

Matheus de Arruda

Frase I

Meras palavras não compram atos.
224
sanjamacedonia

sanjamacedonia

Cielo macedonio

Estoy caminando a través del arco iris de otra persona
Muevo mi alma
en una maleta pequeña
y me olvido de todas las piedras
quien vino de cerca
de los que dudan
que yo manejo adecuadamente los cubos
En este juego de la vida.
Sueño con el cielo de otra persona
y escucho voces extrañas
mientras las estrellas
Me hablan en macedonio.
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Agatha christie

Agatha christie

Imaginário

Fiz-me em meu imaginário, algo que para mim fostes tão real.
O meu corpo me faz retratar o calmo e o afeto
Nunca soube eu desse afeto em corpo.
Meu imaginário se fez em meu corpo com calmaria e fluidez.
Mas o corpo é um radical que ninguém ousa saber tudo
Pois ele é intenso, ele guarda um mundo, um todo.
O corpo pode trazer a paz, o prazer, mas pode trazer dores
Não ouso ser audaciosa com o corpo que não o teu, pois
O corpo se entrega aquele que o sentimento jazz,
Já não ouso saber de outro corpo que  não é  o teu , pois os corpos quando já não mais apaixonados, são capazes de mostrar o desprazer.
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escritas_fo

escritas_fo

Confessionário poético

As feridas me marcaro
Pra vida toda eu as carrego
Feridas fisicas, e psicologicas
Que em minha caminhada as levo

Minhas marcas de feridas
Curadas pra quem as olha
E ainda abertas pra quem as tem
E alguns o rosto molha

A cabeça as vezes pesa
Piores dias de um ser humano
Na cabeça cheio de " por quê ? "
E no coração um aperto desumano

Os dias se passam
E forte andei superando
A vida nao ta sendo doce
Mas mesmo assim continuo lutando..
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melodyte

melodyte

Mãos de morte

Se da morte me acalentar
Eu tão nobre e de alma pura
Gostaria, que tu em seu sacrilegio 
Me desse o prazer..
De pela tuas mãos
Partir para algum Além.
205
Silva

Silva

Deserto

O combinado era não esperar
Sem expectativas, sem prenuncias
Bastava caminhar sem se importar
Logo, o dia findaria
E o tal amor cessaria 
Por muitas vezes argumentamos
Pontuamos aonde poderiamos chegar
Mas perdi o controle e agora tu me culpastes
Em meio a esse deserto
Estava ali, parada aguardando a direção do vento
Olhei muitas vezes ao redor
Nada além do branco existia
Me retratei, e tentei seguir em frente
No presente tão ausente
Não sentia meus pés ao pisar
Eram passos e mais passos
E não saia do mesmo lugar
O combinado era não esperar
Sem expectativas, semprenuncias
Bastava caminhar sem se importar
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marcelobessa

marcelobessa

Redenção


O meu desejo de ser grande, minha ganância sem limites,foi isso que me diminuiu



A vontade de alterar o passado e a de prever o futuro me consumiu



Tudo que importa é o aqui e o agora



Não se perca pelo tempo, jamais taque o presente fora



Sentado naquele canto, com uma garrafa de vodka na mão



Pra quem quase não existe mais, é um vagalume em meio à escuridão



Os  meus pulmões já estavam pretos, mas a minha mente que de fato vivia escura



Fugir da realidade, eu não quis ser um covarde, mas por uma momento pareceu a cura



Pareceu a cura...



Mas quase me levou a loucura



Não adianta o prédio ser alto, se não tem estrutura



Não se esqueça dessa frase



Não basta ser grande, se não tiver base



Ainda tenho esperança de ser só uma fase



Pra isso terei que me movimentar, correr



 Completar a minha missão antes de dar o game over



isn't over...



Você quer mesmo saber?



O que é não ser?



O paradoxo natural da vida já me fez mal assim



Não sei o que é pior, do nada acabar ou nunca ter um fim



Pensar demais pode ser uma tortura



Talvez eu vá gostar de uma cadeira elétrica



Ela acabará com essa mente frenética



 De toda forma é cedo pra ver as coisas assim, vamos ver o que podemos encontrar aqui, então me solta



Eu vou amar, descobrir e sentir, porque finalmente eu desejo minha  volta
228
crisfernandes

crisfernandes

LIBERDADE

A liberdade que habita em mim 
É um mar e nele navego,
Me lanço e me banho.
Numa paz profunda 
E num contentamento infinito, 
Sem amarras, o sentimento, 
Outrora cego e cativo, 
Hoje não erra, escolhe, 
Os caminhos por onde transita. 
Pouco à pouco, o véu se desfez,
A cortina se abriu, 
Os olhos miraram 
O sol,  o céu,  as árvores,  o lago,
A vida, os sonhos e a beleza. 
A pele sentiu o calor e o vento, 
Agradáveis carícias. 
E o coração sentiu,
Pela primeira vez, 
A VIDA!
262
Pedro Paiva

Pedro Paiva

A MULHER DE BRANCO

       Assombrados que viviam os moradores do Batalhão com a estória da mulher que virava porca nas noites de lua cheia, contam que, quando as luzes da usina se apagavam, às dez horas da noite, uma visagem, uma assombração, alma penada, coisa do outro mundo, talvez, ficava vagando da estação ferroviária até o pontilhão do Clarindo.
       Era de jeito que ninguém mais saía de casa só de medo de dá de frente com aquela visagem. Diziam até que se tratava da besta-fera que, segundo as santas Escrituras, iria correr pelo mundo a fora sem descanso no final dos tempos, que tinha sido solta pelo “dito cujo”, lá das profundezas do inferno, para devorar os cristãos batizados.
      Naquele tempo, poucas eram casas da cidade que tinham um televisor COLORADO RQ - símbolo de riqueza, luxo e mordomia. Nosso tio Domingos Padeiro (que Deus já o levara do nosso meio) era um dos poucos homens ricos da cidade que abria as portas do seu bangalô para os desafeiçoados assistirem televisão e, por este motivo, todas as noites costumávamos nos deslocar de nosso humilde lar na Rua São Benedito até a residência dele na rua São José.
      Enquanto os adultos conversavam dentro da casa, lá fora, na rua, sob a lua cheia, brincávamos de roda, ciranda, cirandinha, balacondê, de pera-uva-maçã-salada mista, de boca-de forno e demavé de si e nem percebemos que as luzes da usina do Seu Cleofas haviam se apagado.
       De dentro da casa uma voz materna nos avisava de que já era chegada a hora de irmos embora. Descemos, então, pela Rua São José. Os grânulos de areia pareciam brilhantes refletindo a luz do plenilúnio devasso e sedutor que se debruçava sob o céu límpido e transparente numa orgia inefável e concupiscente.  As casas dormiam embaladas por uma canção etérea que a brisa tênue da noite cantarolava sob a regência do luar bêbedo e sonolento se espreguiçando nas nuvens.
       Todo esse cenário de encanto e magia foi, aos poucos, dando lugar a uma escuridão profunda e tenebrosa dos mangueirais que cobriam a residência daquela figura esquálida e nojenta do lobisomem que havia corrido atrás do Rocha.
       Finalmente, chegamos aos trilhos já com o coração saindo pela boca de tanto medo e para piorar ainda mais aquele quadro de terror, meu jesuscristinho, a mulher de branco, a alma penada, a coisa do outro mundo, a besta-fera. A mensageira do maldito descia pelos trilhos na direção do Clarindo.
       Por um bom tempo, ficamos parados e sem movimentos. Fizemos, várias vezes, o pelo sinal da santa cruz naquela devoção piegas e ingênua que costuma se manifestar sempre nas horas de angústia e medo, acompanhada dos rogos e das invocações ao nosso anjo da guarda, implorando que ele nos protegesse das garras aduncas e afiadas da besta do Apocalipse.
       De repente, Jorginho, menino traquinas (que se acha na glória do Pai), sem titubear, decidiu seguir o fantasma da mulher de branco.
       Acompanhei-o. À medida que íamos nos aproximando do pontilhão, ouvíamos arfados e gemidos que não eram de dor, mas de prazer. Devagarzinho, fomos encostando e em meio à luz fosca e sem brilho do luar macilento, alcoviteiro e conivente que cochilava entre as nuvens, pudemos avistar dois corpos que, avidamente, se lambuzavam feitos animais famintos e vorazes, rolando no cimento frio e cúpido do pontilhão.  
       Diante daquela cena sobrenatural, Jorginho não hesitou. Jogou o facho de luz da lanterna naquela coisa do outro mundo e que, ali, debaixo do pontilhão do Clarindo, se enroscava pelo chão que nem dois bichos no cio e, para a nossa surpresa (valha-nos Deus!), saltou, na nossa frente, uma muleca fogosa, aparentando de 13 para 14 anos de idade, nua como tinha vindo ao mundo, fungando que nem um bicho enfezado e deixando à amostra os grossos lábios de farta vulva que começava a se cobrir com uma espessa babugem de pelos e de onde dava pra ver escorrendo, entre as pernas, um líquido esbranquiçado e viscoso que se assemelhava a leite derramado.
       Após aquela noite, a mulher de branco nunca mais foi vista e houve até quem dissesse que foram graças às missas encomendadas e as orações feitas em intenção daquela pobre alma penada, condenada a vagar pelo mundo em remissão dos pecados cometidos em vida.
       Anos mais tarde, todo mundo ficou sabendo que a mulher de branco era uma muleca sapeca, moradora do bairro, vizinha nossa, morena, magra, voz díssona e estrídula, cheia de aleivosia e sensualidade e que costumava se encontrar todas as noites com um velho e conhecido magarefe dos Altos de João de Paiva e que tinha a fama de ser mulherengo e a pecha de  desencaminhador de donzelas desvalidas e que costumava atacar suas presas bem naquela horinha em que toda a sensibilidade e reinações da carne surgem à flor da pele, deixando as fêmeas inseguras, desprotegidas e sem defesa ao ataque e às investidas do macho sedutor.




3 714
charlesburck

charlesburck

O menino

O tempo bebe o menino, come almoça e janta
Daqui a pouco nem se dá conta que foi amadurecido,
Da planta do tempo que come os frutos,
Os caules arranca,
A semente que suga, chupa, adoça,
Daqui a pouco serão raízes mortas, o tempo findo, estancado
Na terra já posta, a flor que brota, mas o menino nunca morre
O menino vela o sono do homem adormecido

Charles Burck
221
amara_cris

amara_cris

Desabafo

As lagrimas descem 
Meu rosto se escurece 
Não o vejo mais 
Só escuto seus lamurios 
 
Suas palavras vem 
Como laminas 
Já não consigo mais 
Suas palavras já não as ouso 

Agora vem o silêncio 
Meu amigo 
Meu companheiro 
Meu pequeno escudo
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