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José Antonio Ramalho Forni

José Antonio Ramalho Forni

Mudo amor

Ouvi teus gritos entre os murmúrios do mundo.
Não foram eles que me acordaram.
Mas o alarido dos que te ouviam.
Caminhei para ti.
Não me quisestes junto,
Pois há muito também não o estava.
Usei formas prontas para ensinar a vida para ti
esquadros e régua foram meus instrumentos
Certezas que se transformam em risos
Teorias que gargalham de minha esperteza.
Agora, quando tuas mãos crispadas tentam nadar
No mar das vicissitudes,
me desejo lançar a bóia a elas.
E te puxar para perto de meu peito
Como quando te protegia das tempestades.
Para resgatar a simples presença,
testemunho do amor que não aprendeu a falar.
Mas a vida tem suas próprias armadilhas e desvios.
Desafiado e salvo por eles estou aqui aprendendo, de novo,
A ser teu pai.
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susete evaristo

susete evaristo

FIM

FIM

Sinto-me só
Na madrugada que morre ...
Não durmo!
Da janela do meu quarto
Espreito o céu,
Uma nuvem define-se no horizonte
Agora, mais escura ...
Vai tapar o céu.
Toma os contornos de um rosto,
Que dirá ela ?
é comigo? - pergunto -
E a nuvem chora,
é por mim que chora!
é por ti que chora!
Pelo nosso amor que morreu.
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1
Heloisa Melo

Heloisa Melo

Nada pra depois

Meu coração fica bobo só de te ver

Sei que não é engano

Ele bate forte só de pensar em você

Poder mexer em teus cabelos e senti os teus beijos

E de repente me pego sonhando com nós dois

E mesmo sem nunca ter sentido o calor dos teus braços

Você é real não é fantasia

Conto os dias , cada segundo

Entro a madrugada te imaginando do meu lado

E nessa imensidão o desejo só aumenta

E a saudade me leva a lugares mais longínquos

E saudade só se cura com amor

E poder ter a certeza do seu porto seguro

Dois corações iguais , sem segredos

Sem deixar nada pra depois
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Marcelo Zacarelli

Marcelo Zacarelli

Utopia





Nua eu te decorei

No quadro da minha concupiscência

Assim inconseqüente sem conseqüência

Eu te furtei na vaidade da minha alma;



Tua imagem tão selvagem

Na pintura insaciada

Explorada na estupidez dos meus dedos

Que estiveram perdidas na insensatez do
desejo;



Eu te pintei

Como quem pinta arrogante

Na irresponsabilidade dos amantes

O delírio de uma imaginação coadjuvante;



Eu te decorei

Como profissional apaixonado

Eu te desejei

Como um carnal assim tão fraco;



Nua eu te possui

Na utopia ignorante da pintura

Sobre o olhar atento da

Hipocrisia dos meus olhos;

Que não tardaram em julgar

A displicência do teu corpo.



Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli

Setembro de 2002 no dia 06

Itaquaquecetuba (SP)
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Larissa Rocha

Larissa Rocha

Vinho

Quando você se aproxima

com esse seu cheiro

inebriante de vinho

que me vicia

sem sequer haver provado

e vem me entorpecer,

me tentar com teu néctar

divino.





Esse néctar que é vermelho

como o sangue que por acaso

ainda corre em minhas veias

prova do pouco de vida que me resta

e a noite sombria não tirou.

então chega mais perto,insaciável

cheiro letal de vinho

tinto.





Cálice da morte,paixão fatal

mancha-me de vermelho...

mas este vermelho não é teu vinho

é meu próprio sangue!

não...não erga essa taça assim

o olhar insano,rindo da minha ferida,

duro golpe do

destino.

1 488
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José Antonio Ramalho Forni

José Antonio Ramalho Forni

Vencer a dor

Vendavais. Tormentas. Nevascas...O deserto...corações
que se abalam...
Forças incontroláveis que assustam e movem o ser humano a pensar e repensar sua
frágil existência.
Vento, chuva, sol, terra, fogo. Elementos presentes na vida e na morte de todo
ser vivo.
Diante de tanta força, pensamos o quanto somos
pequeninos...leves...insignificantes...
E, ao mesmo tempo, por imagem e semelhança ao (a) Criador (a), tão supremos e
perfeitos. Dignos de Sua infinita e eterna bondade.
Somos, a um tempo, anjos e demônios, dada a nossa perfeita imperfeição .
A doença, tal como os elementos da natureza, tem a capacidade de suscitar
muitas reflexões. Especialmente quando envolve afetos tão próximos.
Provoca a preocupação pela dor do ser amado. Ou pela nossa na possibilidade de
perdê-lo.
Mas, e para tudo há um mas, há um caudal de situações não vividas. Não
escritas. Não pensadas, quando isso acontece.
E de tudo, fica o agradecimento pelo já vivido.
O testemunho comum de quem se aproxima do fim da vida, quando a mesma foi
regada com a fé e com o amor é o de gratidão.
Pelo que aprendemos juntos. Pelo sofrimento que ensina, mas sobretudo pelas
alegrias que também unem.
Olho para os olhos que infinitas vezes me viram mamar e vejo surpresa e força.
Dor física mas paz espiritual.
Está acolhida no seio dos que a amam.
Suportada em suas dores pelo conhecimento científico assim como pelas mãos e
corações que nunca, nunca lhe faltarão.
Nossa perfeição, similaridade divina, (re) constrói caminhadas. Como agora.
Somos os mesmos e mesmas de ontem. Mas com a grande diferença de nos
sentirmos espiritualmente mais juntos.
- Avante! - Diríamos ao cavaleiro andante.
Nossos dragões existenciais nada mais são que moinhos de vento virtuais!
Tremendo e oscilando, como o fazem espigas de trigo, mas suportando a fúria do
vento, continuamos a crer e amar, minha mãe.
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Samuel da Mata

Samuel da Mata

AMIGO LEAL

Em cada alvorada a Deus eu bendigo
Pelo celeste amparo e também dos amigos

Bendigo a riqueza do amor fraternal
Pela doce ternura de um amigo leal

E na dor do insucesso, na amargura do fel
Como é doce a ternura de um amigo fiel

Mas se o amigo é impuro ou de caráter venal
Mui depressa o excluo e me afasto do mal

Quão mesquinho me mostro procedendo assim
Quão mais frágil o amigo, mais precisa de mim

Se assim fosse Cristo, excludente qual sou
Que seria de mim, longe do salvador?


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Larissa Rocha

Larissa Rocha

Quadras para Ele II

Teus olhos são como dois sóis

são ainda mais brilhantes

teu olhos carinhosos, calmos e claros

que me arrancam suspiros delirantes.





teu peito carrega divinas volúpias

mais caloroso não há no mundo inteiro

e nem mais macio, suave de linho branco

quem dera toda noite fazê-lo meu travesseiro.





teus lábios são como a primavera

onde flores e aromas se abrem a mil

quando surge ali teu lindo sorriso

um belo presente de tua boca gentil.
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1
margaridamaria

margaridamaria

Encantamento





ENCANTAMENTO




Se encante com um novo dia
Se encante com um olhar
Se encante com um sorriso
Se encante com você
Se encante com um amigo
Se encante com um amor
Se encante com a chuva
Se encante com a lua
Se encante com o sol
Se encante com a brisa
Se encante com uma flor
Seja plausível com teus encantos
Que eles se transformam em amor...

Margarida Cabral
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2
joao euzebio

joao euzebio

HOJE LEMBREI DE VOCÊ

HOJE LEMBREI DE VOCê
DAS COISAS QUE NãO DISSE
DAS MINHAS IDIOTICES
QUANDO LHE PEDI
PARA ME ESQUECER
HOJE LEMBREI DE VOCê
DOS PASSEIOS A BEIRA MAR
DA LUZ DO LUAR
QUE NOS ACOMPANHOU
DOS BEIJOS QUE LHE DEI
NO MESMO MOMENTO EM QUE ME BEIJOU
HOJE LEMBREI DE VOCê
DO NAMORO NO PORTãO
DA DOCE ILUSãO
DE UM BEIJO
QUANDO POR DENTRO O DESEJO
NOS FAZIA SONHAR
COMO SE PUDéSSEMOS REALIZAR
TODOS OS SONHOS
QUE ESTE AMOR NOS DEU
HOJE LEMBREI DE VOCê
NO VAZIO DO MEU QUARTO ESCURO
QUANDO A LUA VEM E SE AFASTA
NO MESMO INSTANTE EM QUE O VENTO ARRASTA
ME PARA DENTRO DA SAUDADE QUE ME DEU
HOJE LEMBREI DE VOCê E CHORO
POIS VOCê ERA TUDO O QUE EU QUERIA
E AGORA NãO TENHO
E SEI NUNCA VOU TER
MAS SE HOJE AQUI EU VENHO
ME PERDOE... POIS NãO PUDE LHE ESQUECER.
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Blenda Karolline

Blenda Karolline

Se for

Se for um sonho
Não quero acordar.
E se não for
Quero que isso dure para sempre...
Se for uma ilusão
Quero ser iludida
Se for um jogo
Quero jogar para sempre...
Se for assim
Quero que nunca mude...
Se for como um vinho doce
Que o gosto fica para sempre na minha boca...
Se for pra te amar
Quero que seja verdadeiro...
Se for transparente
Quero que seja tranquilo...
Se for você
Que seja...
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1
Ama Spisso

Ama Spisso

Poesia da Raiva

Não me venha com seus farrapos, trapos, seus espasmos.

Não me torture com suas juras, curas, suas fissuras.



Não me apresente essa sua estética, ética, essas suas coisas patéticas.

Estou cansada de seus barracos, suas torturas, suas práticas.



Sou raptada pela lembrança da sua presença e por tua descarada ausência.

A imposta dor de todos os dias me dá fadiga.



Aguardo sentada, inadequada, mal amada,

aguardo o segundo, o minuto, a hora,

de mudar o prumo, o rumo.

Aguardo com raiva dessa demora.



Não me diga palavrinhas bonitas,

nem me console como se eu estivesse aflita.

Dentro de mim um universo se agita,

e quando explodir, talvez eu, nem mais exista.



Portanto, se afasta,

se protege, distancia-se.

Resta de longe pra que nemhum fragmento te atinja.



Faz como sempre fez,

finge que não é contigo,

que você é só mais um amigo.



Para de fingir que padece,

dessa tormenta que você, na verdade, desconhece.



Vê se cresce ou ao menos desaparece!

Ama Spisso





" Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor".(Noel)

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A VINGANÇA !

A VINGANÇA !

Afasta de ti a vingança
O ódio e o rancor
Aquela, mata a esperança
Estes, a paz e o amor

A vingança é um reflexo
Do instinto predador
De quem nutre um complexo
De querer ser superior

É a *escrófula da alma
É a máxima do desamor
No indivíduo sem calma
Que só alimenta o pior

Ruína inerme, sem valor
Chaga, tenebrosa e triste
Golpe sujo, de **ablator
Estertor que ao mal resiste

É o ódio em movimento
O rancor em turbilhão
A vingança, é o excremento
Do amor e da razão

Vingança é o acre da vida
A incompreensão moral
Na penúria desvalida
Em nosso reino animal

Qual seta na escuridão.
É o ***rebramir selvagem
Da fúria do coração.

São Paulo, 26/04/2012
Armando A. C. Garcia

Visite meu blog: http:brisada poesia.blogspot.com

- * Tuberculose
- **Instrumento usado para castrar animais
- ***Rugir; berrar; fazer grande estrondo
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joao euzebio

joao euzebio

POR DO SOL

NÃO SOU EU QUE VAI CARREGAR SUAS LÁGRIMAS
POR AI
POIS NESTE FIM DE TARDE CHEIO DE SAUDADE
EU CARREGO MINHA DOR
VOU SUPOR QUE A NOITE JÁ VEIO TRAZENDO O
BEIJO DO VENTO
QUE NESTE MOMENTO ACARICIOU MEUS CABELOS
GRISALHOS
E ANTES QUE OS GALHOS DESTES ARVOREDOS
ESTENDAM SEUS BRAÇOS PARA O CÉU
VOU ESTAR DISTANTE ENTRE UMA LEMBRANÇA
CONSTANTE QUE INVADE O MEU PEITO
QUE VEM CHEIO DE DEFEITO
QUERENDO ME CRUCIFICAR
POIS TEU OLHAR JÁ NÃO BRILHA NO MEU
JÁ NÃO É TEU ESTE PENSAMENTO QUE VAGA POR
ESTAS PLANÍCIES
JÁ NÃO EXISTE LIMITES PARA NOSSOS DESEJOS
SOMOS O OPOSTO POIS NO ROSTO AINDA
CARREGO O SEU BEIJO
AS RUGAS QUE O TEMPO ME DEU
POIS A JUVENTUDE SE FOI... DESAPARECEU
ASSIM QUE O SOL SE PÓS
DEPOIS DESTE TRISTE... ENTARDECER
VOCÊ ME VIU MORRER EM TUA SAUDADE
POIS A FELICIDADE NÃO DEMOROU MUITO DO
QUE DEMORA ESTA ILUSÃO
E NA MAGIA DESTA VISÃO QUE TIVE DO MEU
FUTURO
O ESCURO SE ENCHE DE LUZ E NOS CONDUZ AO
DESESPERO
COISAS QUE O TRAVESSEIRO POSSUÍ QUANDO
INFLUI EM NOSSOS SONHOS
POIS SUPONHO QUE NÃO VOU ACORDAR QUE VOU
MERGULHAR NOS BRAÇOS DESTE RIO
QUE VENCE TODOS OS SEUS DESAFIOS
E SE JUNTA... AO MAR.
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joao euzebio

joao euzebio

DELÍRIOS E DEVANEIOS

EXISTIA UM BRILHO NO VAZIO DO ESPAÇO
ENQUANTO MEUS PEDAÇOS EVAPORAVAM POR AI
QUERENDO SE EXTINGUIR DENTRO DOS TEUS
QUE AOS POUCOS DESAPARECEU EM DEVANEIOS
PRESA EM TEUS SEIOS NUS
COMO SE FOSSE UM BLUES
NOS ACORDES DO MEU CORAÇÃO
POIS MINHAS MÃOS VOLTARAM VAZIAS
EU IA SABIA
QUE NÃO ERAS MINHA
FOI APENAS UMA LINHA
QUE NOS SEPAROU
QUE NOS DEU O QUE SOBROU
NESTE SOPRO QUE O VENTO TROUXE
LÁ DO FIM DO MAR
SOMOS COMO ESTRELAS EXTINTAS QUE A MUITO
VIRARAM PÓ
SOMOS O NO DA QUESTÃO
A PRECISÃO DE UMA FLECHA QUE VOA E ACERTA
O PONTO
SOMOS UM CONTO QUE VIROU DRAMA
A CHAMA QUE SE PROPAGA
QUE VIRA CINZA
E ACABA EM NADA
E ENTÃO ME PERGUNTO
POR QUE SE... ACENDEU.
SOMOS A MADRUGADA
O VELHO QUE PASSA PELA CALÇADA
E SE PERDE EM UMA ESQUINA QUALQUER
ENQUANTO A SOMBRA DE MULHER
SEGUE OS SEUS PASSOS
PARA QUE DENTRO DE UM ABRAÇO
ELE POSSA MORRER
SOMOS AS FOLHAS QUE CAEM NAS AGUAS
DESTE RIO
O FRIO QUE ESTREMECE
O SENTIMENTO QUE CRESCE E VAI SE FORMANDO
DENTRO DA GENTE
SOMOS A ENCHENTE
QUE ARREBENTA A COMPORTA
A PORTA QUE SE FECHOU
A LUZ QUE SE APAGOU
DENTRO DE UMA ESCURIDÃO PROFUNDA
ORIUNDA DE NOSSOS DESEJOS
COMO SE ESTES BEIJOS FOSSEM OS ULTIMO
QUE SOBROU
POIS SEI QUE VAI QUERER UMA EXPLICAÇÃO
QUANDO A SOLIDÃO VIER
E SE DEBRUÇAR NESTE CORPO DE MULHER
QUE MUITAS E MUITAS VEZES DESEJEI
E SE PASSEI PELA TUA SAUDADE
SEJA APENAS A METADE
DAQUILO... QUE SONHEI.
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Edson Fernandes

Edson Fernandes

Pássaro Azul

Busca sua fuga quando o sol nasce
Procura na sua solidão seu encontro
Nos corações sua prece
No silêncio seu desencontro

Que no seu cantar invade corações
Que do seu medo cria seu voar
Das dúvidas alheias suas paixões
Num salto infinito, sem perdoar

Pássaro Azul que de solitário
Esconde suas mágoas
Que fere um coração imaginário
Sem ressentimento ou lágrimas

Pássaro Azul que vôa livre
Em busca de mais uma aventura
Sem pensar na dor que arbitre
No silêncio do seu ninho que perdura

Uma paixão ainda escondida
Que fere sem ser ferido
Sem pensar na despedida
Pois há sempre um coração perdido

Edson Fernandes
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Gi

Gi

Meu sonho

Sonho real, normal...

Amor perfeito,

Vida sossegada,

Rotina segura,

Futuro encaminhado,

Cada passo planejado!



Não para mim! Sonho assim...

Poético!



Amor exagerado,

Arte, música, dança,

Esperança!

Do imperfeito, por nós, perfeito.

Surpresas do futuro.

Colorindo a felicidade,

Dia a dia,

Sonho com poesia.



Gizelle Amorim
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Guilherme Coutinho

Guilherme Coutinho

O corvo do abismo

















Esta noite deparei-me novamente
Com a fronteira, com o abismo.
O lugar onde perambulam fadas,
Garotas pálidas de aparência fantasmagórica.
Não havia maritacas barulhentas,
Aquelas que nunca se calam..
Mas uma ave dita de mau agouro assentou-se próximo
E em silêncio me olhou como se fizesse um convite
'Um sobrevoo por sobre o abismo?'

Seus olhos proferiam palavras mudas,
Ecoavam em meu interior.
Um sentimento de negação,
Do saber que não deveria, conteve-me
Num instante se formou nítida a imagem
A ave negra finalmente me encarou e disse :

'A ti não houve Lenora
E hoje aprecias a aurora
Levanta-te logo cedo
Em preces que te abafam o medo

Não te houve Lenora
Porém sentiste e choraste a partida
Buscando inutilmente a calma
Tentaste a cura lambendo a própria ferida
Mas a saliva não lava a alma

Não te estendo as mãos porque não tenho
Não te ofereço uma asa pois ambas me são necessárias



Aproxima-te então e pula comigo
Abandona tudo e encara o abismo
Mas te lembres que não tens asas
E que não voltarás para casa
E tampouco verás aquela que para ti
Foi como Lenora

Não terás mais a dor da lembrança
O sentimento de vazio da desesperança
Conceda-me esta última dança
Mas lembra-te: logo após, nada mais, nunca mais.'



E a ave prostrou-se diante do abismo

Virou-se para trás e fitou-me brevemente
Sem insistir, emudeceu e alçou voo sozinha

Virei-me para os lados
Percebi que não mais havia ali
Fadas ou garotas pálidas

Quando me voltei para ver o corvo
Não havia ali nem corvo ou abismo
Apenas um horizonte árido e um fio d'água
Acompanhados de um gralhar constante em meus ouvidos:
'Nunca mais!
Nunca mais!'
622
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Adam_Flehr

Adam_Flehr

O tolo motivo da rosa

Em nenhum momento

falei-te de minhas agonias

mas trago comigo algumas feridas

Se o que feriu não foi

espinho

Se o que abriu não foi

botão



Em tempo marcado

tentei ceifar-te de minhas entranhas

fugi do abrigo e transpus as medidas

Se o que desfolhou não era

pétala

Se o que exalou não era

perfume



E deixando de ser assim

também vou existindo

imotivada pelo tolo motivo

Se o que me ceifou não foi

ao acaso

Se o que me tocou não foi

sem amor

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Sergio de Sersank

Sergio de Sersank

UM HOMEM MORRE DE FRIO




"E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo
que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes."
Mateus 25:40



Nos braços de Morfeu queda a cidade.
Gélida avança a noite sob o vento
Que zune açoites, bravio.
Por leito e barricada andrajos tendo,
Num canto, ao pé de arranha-céu imenso,
Um homem morre de frio...

Agonizando, ali, talvez delire,
Vendo os pedestres últimos, em busca
Do leito morno, macio...
Talvez, sinta-se um deles, por momentos...
Um homem desses, livres das algemas
Do destino. Ah, desvario!...

Morre indigente. Já não mais lhe ocorrem
Reminiscências de melhores dias.
Não tem mais traços de brio.
Distantes sons de uma boate em festa
A custo põe-se a ouvir. Perdem-se, agora,
no seu imenso vazio...

Nem todos dormem. Ornam-se de luzes
Os altos edifícios. E eis, um carro
Pára junto ao meio-fio.
Traz de Mammon uns súditos restantes
Que, indiferentes, tiritando e rindo,
Vão-se com seu vozerio...

Ensaia erguer-se; embalde, embalde tenta...
Thanatos já, movendo as longas asas,
O envolve, terno e sombrio.
À volta, entre as paredes, que ironia:
Há tantos indivíduos que se abraçam
E tanto leito vazio!

Bem cedo hão de encontrar-lhe o corpo, inerte.
Hão de exprobrar-se, por negar-lhe auxílio,
num gesto inóquo, tardio...
Talvez, alma remida, ao sol do Além planando,
Não mais proscrita, logo exulte e louve
O Averno da crosta, frio...

"- Coitado!"... "- Oh, que infeliz!"... "- Quem era ele?""
- Um ébrio, com certeza". "- Um andarilho."
"- Um réu, talvez, arredio"...
Descerrem seus portais, guardiões do Inferno!
Estendam o seu fogo ao mundo infrene!
Um homem morre de frio...




655
2
3
Samuel da Mata

Samuel da Mata

AMOR MORIBUNDO

No lado esquerdo
da cama e do peito
há um vazio profundo

Já não há alegria,
calor, euforia,
nada a palpitar

O rugir de sua fonte
é o som do desmonte
de um amor moribundo

Que suspira latente
e sofre penitente
sem querer se entregar

Quando o amor vai embora,
o que fica por fora
pode até enganar,

Nas não vibra nem canta,
não abraça ou encanta,
não há como negar:

É uma trova sem rima,
sequidão na campina
esperando queimar

Triste de quem não assume
o apagar de seu lume,
para recomeçar

607
2
Adam_Flehr

Adam_Flehr

Como é que se diz Eu te amo ?

E lá se foram dezesseis anos. Ficaram a saudade e as eternas canções de um ídolo de minha juventude. Abaixo transcrevo um texto em homenagem a ELE, escrito em 2007, no meu blog "prosa eletrônica":



Eu me lembro como se tivesse acontecido ontem, mas já se passaram tantos anos! Era uma sexta-feira. Naquela época, todas as sextas-feiras eram especiais. Éramos tão jovens e tínhamos todo o tempo do mundo. As ilusões não haviam fenecido, e ainda era cedo para nós.



Aproveitamos o dia que prenunciava o final de semana para comemorar, saímos do trabalho com o sol ainda alto, devido ao horário de verão. Fomos para o nosso "bunker" tradicional, um dos inúmeros "pés-sujos" que ladeavam o nosso escritório.



Trabalhávamos duro durante toda a semana, segundo o "Yuppie way of life", vigente naquele tempo , e buscávamos toda a diversão que algum veneno anti-monotonia pudesse nos proporcionar, nos tempos livres. Éramos jovens típicos daquele tempo. Hoje, um tempo perdido.



Discutíamos sobre tudo, desde a mais recente fofoca do escritório até Freud, Jung, Engels e Marx. E apesar de acreditarmos no futuro da nação, havia tanta sujeira nas favelas e no Senado (e por todos os lados) que sempre nos questionávamos: que país seria aquele? O Rio de Janeiro já prenunciava o faroeste caboclo que é hoje, mas ainda ficávamos até mais tarde nas ruas, conversando, bebendo, namorando... tentando descobrir como é que se diz: " - Eu te amo" !



Lá pelas tantas, a rádio que municiava a música ambiente anunciou uma notícia tão inédita quanto improvável para nós: havia falecido naquela madrugada, por infecção pulmonar, o cantor, compositor e líder da Legião Urbana, Renato Russo.



Ícone e porta-voz de toda uma geração, da minha geração, Renato foi a voz, o cérebro e o coração de toda uma época. Sabíamos de seu recolhimento e das suspeitas de que ele estivesse com AIDS, mas o lançamento de um novo CD, "A Tempestade", apesar de tão belo quanto soturno, nos havia dado um novo alento. Mesmo depois de ouvirmos o anúncio de sua morte, custávamos a acreditar. No meu canto, eu repetia internamente: eu não vou chorar, eu não vou chorar... Acho que todos daquela mesa estavam pensando o mesmo, porque ninguém ousava falar palavra sequer. Aos poucos, timidamente, alguns começaram a cantarolar baixinho, a música que estava sendo reproduzida no alto-falante, como se não houvesse amanhã.



A noite acabou e certamente não fugiríamos mais com ele, ficaram as honras e promessas, lembranças e estórias. Enquanto estávamos indo de volta para casa, eu me lembrava de uma frase dele que dizia que não devemos cultuar heróis porque até mesmo estes tem os pés de barro...



Contudo, eu não queria de forma alguma me desfazer de meu herói. Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais e seja como for, mesmo com os seus pés de barro, eu rabisquei um sol na calçada, com a fugacidade de um giz. Ou da própria vida. Mas tudo bem...



Tributo a Renato Russo (1960-1996)
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MARINA SATIRO

MARINA SATIRO

Confusões

E na fuga dos sentimentos, nua, crua, nos devaneios que permeiam a minha lucidez. Sinto o que enleva e maltrata com a mesma intensidade. Na dor que prende, no gozo ardente, na euforia do calor. No que trinca em meu corpo sedento. Na saudade que atravessa o peito e cega as ilusões. Na lamúria que cerceia os sentidos. Em ti, quando invade o ápice do meu precipício. No pensamento indefeso, na incógnita do amor pressentido. E no olhar que confunde o meu brilho, prendo-me sem saída. No beijo que cala o meu silêncio e que lava minh'alma. No coração que lamenta a paixão arrasada, padeço dentro de mim.



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Fernando Almeida dos Santos

Fernando Almeida dos Santos

A Tristeza do poeta

O pensamento com vento se esvai
O sentimento está dentro
Mas na hora de escrever nada sai

A ponta da caneta
no papel ganha peso
e o escritor que a conduz
sente por si mesmo grande desprezo

Tem a intenção de que sua poesia
traga para as pessoas que a lerem
bons momentos de alegria

Esta é a terrível condição
que o triste poeta está fadado
relatar diversos sentimentos maravilhosos
Sem deles nada ter desfrutado

Percebe seu engano
e arrepende-se de ter cometido
esse erro tão humano

Logo enche seu espírito de alegria
reflete sobre tudo o que sente
e se prontifica a transformar
tudo isso em poesia

A tristeza do poeta enfim
é posta de lado, fazendo-o deixar para o mundo
quartetos e tercetos de seu legado

Pois a cada sensação extraída
de qualquer estrofe sua lida
faz o poeta que não sabia o que é estar apaixonado
Sentir-se do mundo
O ser mais amado!

Fernando A.S
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