Lista de Poemas

MÃOS

Dos jardineiros da morte,
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?

Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
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CORO DOS ÓRFÃOS

Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Deceparam nosso ramo
E lançaram-no ao fogo –
Transformaram em lenha quem nos protegia –
Nós, órfãos, jazemos nos campos da solidão.
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Na noite nossos pais brincam conosco de esconde-esconde –
Por detrás das negras dobras da noite
Fitam-nos seus rostos,
Falam suas bocas:
Fomos lenha seca na mão de um lenhador –
Mas nossos olhos tornaram-se olhos de anjos
E olham para vós,
Por entre as negras dobras da noite
Eles olham –

Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Pedras tornaram-se nosso brinquedo,
Pedras têm rostos, rostos de pai e mãe,
Não murcham como flores, não mordem como bichos –
E não ardem como lenha seca quando lançadas no forno –
Nós, órfãos, queixamo-nos do mundo:
Mundo por que nos tiraste as ternas mães
E os pais que dizem: Tu te pareces comigo!
Nós, órfãos, não nos parecemos com ninguém mais no mundo!
Ó Mundo,
Nós te acusamos!
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CORO DAS SOMBRAS

Nós, sombras, oh, nós, sombras!
Sombras de carrascos
Presas ao pó de vossos crimes –
Sombras de vítimas
Desenhando o drama do vosso sangue numa parede.
Oh, nós, desamparadas borboletas do luto
Aprisionadas numa estrela, que segue queimando em paz,
Enquanto temos de dançar em infernos.
Nossos titereiros sabem tão somente a morte.
Tu, ama dourada que nos alimenta
Para tamanho desespero,
Ó Sol, afasta a tua face
Para que também mergulhemos –
Ou deixa-nos espelhar um júbilo infantil
Dedos erguidos
E a leve alegria de uma libélula
Sobre a borda do poço.
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NESTA AMETISTA

Nesta ametista
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou

Tua morte resplandece ainda
dura violeta
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EM MEU QUARTO

Em meu quarto,
onde fica minha cama
uma mesa uma cadeira
o fogão
o universo está ajoelhado como em toda parte
para ser salvo
da invisibilidade –
Eu traço uma linha
escrevo o alfabeto
pinto o lema suicida na parede
de onde brotam imediatamente os renascimentos
já prendo as constelações à verdade
então a terra começa a martelar
a noite se afrouxa
desprende-se
dente morto da dentadura –
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POVOS DA TERRA

Povos da Terra,
vós, que com a força das desconhecidas
constelações vos envolveis como carretéis,
que coseis e de novo descoseis o que cosestes,
que entrais na confusão das línguas
como em colmeias,
para no doce picardes
e serdes picados –

Povos da Terra,
não destruais o universo das palavras,
não retalheis com as lâminas do ódio
o som que nasceu ao mesmo tempo em que o sopro.

Povos da Terra,
Oh, que ninguém pense em morte quando diz vida –
e que ninguém pense em sangue quando diz berço –

Povos da Terra,
deixai as palavras junto à sua fonte,
pois são elas que podem arrojar
os horizontes até aos céus verdadeiros
e com sua face oculta
como uma máscara por detrás a noite boceja
ajudar no parto das estrelas.
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Em vão

queimam as epístolas
na noite das noites
na fogueira da fuga                 
porque o amor se liberta de seu arbusto de espinhos
flagelado em martírio
e começa já com línguas de fogo
a beijar seu céu invisível
quando a vigília lança sombras sobre o muro
e o vento
trêmulo de presságios
com o nó de forca do perseguidor soprado ao vento
reza:

Espera
até que as letras retornem para casa
do deserto chamejante
e sejam alimento de santas bocas
Espera
até que a geologia espiritual do amor
se rache
e que seu tempo arda
e que incandescendo de bem-aventurados sinais
torne a encontrar seu verbo de criação:

lá sobre o papel
que canta a morrer:

Era
no princípio
                    Era
                          Amado
                                      Era –
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QUANTOS MARES

Quantos mares se apagam na areia,
Quanta areia sedimentada na pedra,
Quanto tempo pranteado na concha sussurrante dos caracóis,
Quanta desolação mortal
Nos olhos de pérola dos peixes,
Quantas trombetas matinais no coral,
Quantos padrões estelares no cristal,
Quantos embriões de hilaridade na garganta da gaivota,
Quantos fios de saudade
Percorreram as noturnas rotas constelares
Quanta terra fecunda
Para a raiz da palavra
Tu –
Por detrás de todas as grades dos mistérios
que vão sendo derrubadas
Tu –
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MAS QUEM

Mas quem bateu a areia de vossos sapatos,
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –

Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
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EU O VI SAIR DE CASA

Eu o vi sair de casa
o fogo o havia chamuscado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
sob o braço
lá dentro o peso de letras e números
toda uma matemática
Em seu braço estava marcado a ferro
7337 o número-guia
Esses números conspiraram entre si
O homem media os espaços
Logo seus pés se elevaram da terra
Alguém o aguardava lá em cima
Para erguer um novo paraíso
“Mas espera só – em breve descansarás também –”
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