Escritas

Lista de Poemas

London from a tear top

Era uma vez esta cidade onde tudo passa
como algo que se esconde atrás do nevoeiro
e deste lado tem um tricórnio de pombos
na cabeça que foi de um almirante pernalta
e estranhamente estão sempre a sair do mar
muitos chapéus de coco e o céu é o estaleiro
de uma luz que ficou ali por consertar
e do fundo da noite que é o sexo à deriva
da bailarina nua vem uma estrela húmida
onde passa a correr uma mulher em chamas
montando um cavalinho que fugiu de uma libra
e uma avestruz predica na igreja anglicana
e o baptista vai haver uma guerra na esquina
com muitos guarda-chuvas à volta num domingo
e uma coisa com sete cornos sai da bíblia
e às tantas num jardim uma fonte de chá
e os que apertam no bolso uma fada morgana
que daqui a Gondwana temos muito que andar
mas então não sabiam que isto dos continentes
está sempre a deslizar mas então não sabiam
e nisto há uma torre de cabeças cortadas
que depois aparecem com um olhar de carne
em figuras de cera e numa profecia
com óxido de ferro os corvos pingam preto
e dois leões de pé discutem a carniça
e em verdade vos digo o big ben remember
o pub vai fechar a estrela de absinto
vai cair é uma lágrima que não põde enxugar
o deus que de outras águas incumbiu o tamisa
e o comércio depressa e as orquídeas de fumo
perseguidoras altas que envenenam o ar
e os anjos já içaram a ponte levadiça
e em verdade vos digo um homem jovem leva
às costas uma música e os seus cabelos crescem
para esse lugar onde ele leva a música
e por fim no relvado um assunto de amor
os amantes que são o último veleiro
e estão sempre a partir num tapete voador
e estão sempre a chegar à sua eternidade
que tudo lhes devolve atrás do nevoeiro

de O anjo do Ocidente à entrada do ferro(1973)

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Guerra santa

Não estou aqui para que Deus me ignore
mas nem por isso lhe sere solícita
em loa e laudes cada vez que morde
meu coração.Não gosto da visita.
Também dispenso que me seja Cristo.
Os meus erros na cruz não são remíveis.
Acertam no Espírito,Pai e Filho
manifestados são só varas e cíveis.
Piedade ganhar em tais instâncias
não vale a quem se atira ao impossível.
Iluminada a alma por dez lâmpadas
a ideia só concebe o inconcebível.
Chamais-me chama? Explico: em corpo ardido
anulo o osso até que transpareço.
Descriando-me, em cinza me unifico
com a vontade pura do começo.
Assim vos queima a minha língua ardente
e frequentais-me o lume.Mas da festa
saís gorados.Não sabeis ser hóspedes
da santidade que não se manifesta.

de O Dilúvio e a Pomba(1979)

👁️ 1 585

Pusemos tanto azul nessa distância

ancorada em incerta claridade

e ficamos nas paredes do vento

a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves

que secam folhas nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas

a morder-nos na carne dum segredo.

de Poemas (1955)

👁️ 2 404

Escrito numa ânfora grega

É o teu amor que espalha a tinta
Na minha tela da cor da sede:
Paisagem que a tua paixão pinta
Para eu pendurar numa parede.
Candidatura a bem-amado
Das minhas núpcias de aracnídeo,
Contigo a ver-me de um telhado,
altura própria para um suicídio.
Mas prometida a um olhar marujoNa lenda de um Fáon que nunca chega
Quanto mais me amas,mais eu te fujo.
Falta cumprir a sina grega.

de Inéditos(1966/68)

👁️ 2 075

Num domingo em que passaste na minha rua

Num domingo em que passaste na minha rua
e os prédios se afastaram para que
me raptasses por cima das árvores 

Na límpida tarde orlada
por minhas pestanas imóveis
tua aparição abre uma estrada
de damasco por entre os automóveis.

Apareces e logo adquires
em minha eclíptica visual
a lassidão equinocial
que espalha a cor na minha íris.

Apareces como o começo
de qualquer coisa interminável
de tão importante é tão frágil
teu vulto que nem estremeço.

Apareces como se gentil-
mente viesses para apanhar um trevo
e o domingo almofada anil
cede à tendência do teu perfil
de ficares num baixo-relevo.

de O Vinho e a Lira(1966)

👁️ 2 705

Violentámos a natureza

Violentámos a natureza quando matámos as nossas feras

Os homens copiavam os anjos;

Os anjos copiavam os homens;

Ambos copiavam a inocência;

A inocência copiava as feras.

As feras devoraram os homens;

Os anjos devoraram as feras.

A inocência vestiu-se de roxo

Pelo luto das futuras eras.

de Dimensão Encontrada(1957)

👁️ 2 473

A demiurgia do riso

E cada vez que celebrei o
Deus Riso floresceu em mim
um novo invento.

Cortaram-me os pulsos.Eram feitos de ar.

Correram-me as veias como linhas rectas.

E nenhuma espada pôde atravessar

O ímpeto aéreo das águas secretas.

Partiram-me ao meio dizendo "é agora!"

Depois atiraram metade para a lua.

E eu no luar com um braço de fora

Erguendo o meu resto caído na rua.

Se havia uma estátua ela era o tamanho

De quanta poeira à passagem erguia.

E eu numa nuvem a ver o desenho

E a cor duma mágoa que não me tingia.

E os anjos à volta como círios tesos

A desenrolar o seu tédio antigo.

E eu desfraldada nos cumes acesos:

Bandeira de tudo o que trago comigo.

de Passaporte(1958)

👁️ 2 173

O Livro dos Amantes IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

👁️ 1 849

Do sentimento trágico da vida

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

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Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

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Comentários (4)

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Anna Flávia Schmitt Wyse Baranski
Anna Flávia Schmitt Wyse Baranski
2023-12-09

Grandiosa

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

Um mulher de uma grande alma e pensamentos. Consegui lutar contra os tabus da época. Grandiosa e Correta no que escrevi e dizia.

Matilde
Matilde
2023-03-07

Simplesmente magnífica!

Marco Antônio Rodrigues de Oliveira
Marco Antônio Rodrigues de Oliveira
2021-05-08

Grandiosa! Estupenda! Completa! Magnífica! Estonteante!