Escritas

Lista de Poemas

Mãe Ilha

Nessa manhã as garças não voaram
E dos confins da luz um deus chamou.
Docemente teus cílios se fecharam
Sobre o olhar onde tudo começou.

A terra uivou. Todas as cores mudaram
O mar emudeceu. O ar parou.
Escuros véus de pranto o sol taparam
De azáleas lívidas a ilha se cercou.

A que pélago o esquife te levava?
Não ao termo. A não chorar os mortos.
Teu sumo espiritual florido ensina.

E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina.

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O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

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A Defesa do Poeta

Senhores jurados sou um
poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com
uma camisa de vento ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de
armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim Sou em código o azul
de todos (curtido couro de cicatrizes) uma
avaria cantante na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte
serei não há cidade sem o parque do sono que
vos roubei Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição de raptar-me em
crianças que salvo do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes
sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis Senhores
heróis até aos dentes puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais
além Senhores três quatro cinco e sete que
medo vos pôs na ordem ? que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ? Senhores
juízes que não molhais a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante
minha defesa Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever ó
subalimentados do sonho ! a poesia é para comer.

de A Mosca Iluminada(1972)

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O Espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
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A reforma política que mais

A reforma política que mais ambicionaria no mundo seria um tipo de sociedade que consiga conciliar o individual e o colectivo.
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Devo dizer-lhe que o homem

Devo dizer-lhe que o homem português é particularmente encantador. Para já, amam as mulheres, e tanto basta para que os achemos maravilhosos. É feio não gostarmos dos que nos amam. O feminismo não pode cometer essa injustiça.
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Comunicação

Como um poente congestionado
De vagalumes irreais
É o sete-estrelo desenfreado
Rosa de chamas descomunais

Saltam-lhe os pulsos como foguetes
As mãos são Vestas embriagadas
Parando as cenas dos banquetes
Em saturnais carbonizadas

Incham-lhe os seios como mechas
De Salomé desintegrada
Por quem cem líricos lamechas
Ficam ardendo sem dar por nada

Uma manada de trovões
Leva a cidade nos seus cornos
Assam marquesas nos salões
Como perus dentro dos fornos

Os rechonchudos anjos das casas
Expiam crimes ancestrais
Mamando restos de leite em brasa
Nos esqueletos maternais

As salamandras uterinas
Queimam devassos nas suas camas
Com quem celebram fesceninas
E derradeiras núpcias de chamas

Os acadêmicos no espeto
Fazem um esforço de memória
Para manterem o esqueleto
Em ademanes de oratória

Em catedrais de mil archotes
Numa luxúria de extrema-unção
Um frenesi de sacerdotes
Tem um orgasmo de Inquisição

As labaredas quais proxenetas
Dos cidadãos mais importantes
Levam incêndios de meias pretas
A mercadores de diamantes

Logo que estoura algum ministro
E a sua alma estruma os campos
Rebenta um trigo mais sinistro
Nesta seara de pirilampos

Nos semicúpios incandescentes
Dos seus tesouros derretidos
Os milionários têm repentes
Têm remorsos de homens falidos

E um Desejado de lua nova
Noivo da Pátria vem finalmente
Buscar a noiva para a sua cova
E dá-lhe a Morte como presente

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Retrato Talvez Saudoso

da Menina Insular

Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
E ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranqüilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar que a retém.

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I

Combustível a besta se encorpora

no gesto e penúltimo o homem

compenetra-se funcionário
da sua adiada escória.
Da bomba o guincho de giz
no quadro preto da memória
pontos de sangue em nossos ii

HISTÓRIA aos quadradinhos ora
o bípede era uma vez
não identificado objecto
um não saber que fazer
de não ser propriamente insecto
com conta aberta em Andrómeda
e uísque em Vésper por anestésico.
Oh cosmonauta! comichão
de não encontrares teu cemitério.
Mundo imundo como o mundo
homem bilião de formigas
suando o cimento de cidades
por mísseis interrompidas.
Presente como lixo varrido
pela vassoura do adiante
pressa de mãos que estrangulam
uma criança no volante
homem como autopintando
pelas trevas do teu ofício
de te ganhares aos viciados
dados de seres só homem por vício.
Homem aflição de teres alma
alma como pombo-correio
quem vem pousar na tua linha
sem que tu saibas porque veio
lógica como paragógica
arrogância que rumina a ruína
ardidas pinhas do pinheiro europa
queimada lã da ovelha hiroxima
fumegante palha da ásia
na boca da mula américa
rato da rússia roendo o mapa.
Terra insolentemente esférica
saibro da carne desvividacom que o homem seu sorriso faz.
No mostrador das carícias
falta um minuto para o caos.

de Mátria(1968)

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A verdadeira litania para os tempos da revolução

Burgueses somos nós todos
ó literatos
burgueses somos nós todosratos e gatos Mário Cesariny
Mário nós não somos todos burgueses

os gatos e os ratos se quiseres,
os literatos esses são franceses
e todos soletramos malmequeres.
Da vida o verbo intransitivo

não é burguês é ruim;
e eu que nas nuvens vivo
nuvens!o que direi de mim?

Burguês é esse menino extraordinário
que nasce todos os anos em Belém

e a poesia se não diz isto Mário
é burguesa também.

Burguês é o carro funerário.
Os mortos são naturalmente comunistas.
Nós não somos burgueses Mário

o que nós somos todos é sebastianistas.

de Inéditos(1959/61)

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Comentários (4)

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Anna Flávia Schmitt Wyse Baranski
Anna Flávia Schmitt Wyse Baranski
2023-12-09

Grandiosa

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

Um mulher de uma grande alma e pensamentos. Consegui lutar contra os tabus da época. Grandiosa e Correta no que escrevi e dizia.

Matilde
Matilde
2023-03-07

Simplesmente magnífica!

Marco Antônio Rodrigues de Oliveira
Marco Antônio Rodrigues de Oliveira
2021-05-08

Grandiosa! Estupenda! Completa! Magnífica! Estonteante!