zita viegas

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n. 0000-00-00, Açores

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Corre o rio



Corre o rio.
Sem correr.
Corre.
As águas que o colhem. 
Perguntam?
Por que corres rio?
O rio entusiasmado, responde:
por ter água em mim,
por as margens me talharem
com canto e com os murmúrios dos eixos.
Correndo para ti, para o regaço do mar.
Numa onda que vagueia,
com o peito no prepúcio.
No altar, em pleno mar.
Nascido no seixo.
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Poemas

11

Corre o rio



Corre o rio.
Sem correr.
Corre.
As águas que o colhem. 
Perguntam?
Por que corres rio?
O rio entusiasmado, responde:
por ter água em mim,
por as margens me talharem
com canto e com os murmúrios dos eixos.
Correndo para ti, para o regaço do mar.
Numa onda que vagueia,
com o peito no prepúcio.
No altar, em pleno mar.
Nascido no seixo.
28

O parapeito cerra-se com a janela

Quero uma janela forrada de pássaros.
De bolas de sabão.
Estas janelas anónimas e cegas.
Onde esperam os anos que por nós passam.
Sem fio que os una e os separa.

À janela, acorda-se e adormece-se.
Agarrados ao parapeito.
Sentados numa cadeira para assistir à noite.
Noite que rói o azul, que em mim, não tenho.
Apenas as estrelas crepitam, mas o corpo, não.

Vivo a vida que escuto em mim.
O cicio e a fala, no que alheio vivo.
Os contos contam-se, pousando a cabeça.
Em dúbia de corpo e de sonho.
Quando a escuridão se fecha, por fim.

Conformo-me com o frio e a escuridão.
O parapeito cerra-se com a janela.
Em criança, nunca fui quem a cerrou.

Zita Viegas
25

O tempo


Em pensamento.
Penso.
No tempo.

Penso.
No nada, que é tudo, o que o tempo tem.

Um pensamento que não é d´outro.
Se não do tempo.

No leito, pesa o coração.
O meu único pedaço de tempo.

Em pensamento.
Em tortura.
Estou eu.

No meu pensar.
Vazio.

Não me afundo no pernoitar.
Por me tomar o tempo.
Açoita-me.
Em lentidão.

O tempo?
Não sei se pesa!
Sinto qualquer um absoluto
em torno de mim.

O tempo tem peso.
O tempo, contém-se em tempo, sem pesar.

A cada noite, o tempo.
Deita-se a meu lado.

Por casual, ser,
nada me prende.

O tempo morre.
Em mim, num caminho sem fim.
Com o tempo, a pesar-me no pensamento. 

Zita Viegas
28

Só a árvore e o homem levam o mundo por dentro

Um dia muito longe, sempre
perto de um tempo absorto, entre
gestos e passos.
Sob as árvores, com raízes
que teimam estar sós,
como os dias de cada ano. 

Leva-se o olhar, que olha
as múltiplas arestas e frestas,
com um solitário silencioso silêncio.
Olhares das manhãs e das tardes,
em anonimato, de ombro a ombro.
As casas levam o mundo por dentro.

Nunca se conhecem todos os rostos
nem todas as palavras, por
se adensarem esquinas e caminhos.
Nos passos, nos gestos em conspiração.  
Tão longe como se fosse perto.
Só a árvore e o homem levam o mundo por dentro.

Zita Viegas


15

O início

O teu peito convida
o meu dorso.

De olhos
semi-cerrados.

Convidas ao início.
22

No violoncelo

Em sofreguidão

o improviso arde no violoncelo

na mão, delírio

nas cordas, chaga

 nasce no sublime

a eternidade.
30

Homens sofrem como as árvores

Homens sofrem como as árvores.
Com o clamor nos ares.
A arfar a fel.
Cortam de lado a lado.
O coração.
Enquanto latem os cães,
do outro lado.

De olhos rachados.
A expirar medo.
P`las espadas em relâmpago.
Caem vultos. 
Em solidão.
Em lodo. 
Em sangue denso.
Ardentes latidos.
Ferem a inocência no âmago.

Trazem a arte nos dentes.
A arte de matar e morrer.
Urrando ferro e fogo.
Nos campos.
Rosas flageladas.
Os Homens sofrem.
Com os espinhos do Homem.

Zita Viegas









19

A papoila e o silêncio

A papoila 
aveluda
a brisa. 

Seríceas,
as pétalas
espalham o avesso
do silêncio.
29

Epinício de wagner

Ónuris traja fuzis.
Barbas e peito [Varão.
D´império.
Na toada d`equinos.
Com ferros matarão.
 
Ares de peito em bronze.
Cruza terras.
Lança grinaldas.
Num corcel a galope.
Leva bandeiras e feras.
 
Cães d´afiados dentes.
Cólera e domadores.
Com flecha nas laterais.
Homens. [Deuses combatentes.
Cípris lágrimas mortais.
 
Do punho de Týr.
Soam baionetas.
Fogo em madeixas.
Com balas e genetas.
Deixas fundas valetas.
 
Com a armada de Odin.
Com seus corvos Hugin e Munin.
Põem o mundo a sofrer.
Com o toque da chibata. 
Toca-se o epinício de wagner.
 


Zita Viegas


https://pt.wikipedia.org/wiki/Grupo_Wagner
Leixas vem do verbo leixar.
O mesmo que deixar. Etimologia (origem da palavra leixar).
Do latim laxare
22

Gosto do mar quando está à conversa

Gosto do mar quando está à conversa.
Cicia à espuma.
Sobre a areia nua.


Sinto a vontade de ter uma lágrima.
A pulsar como a semente.
Sem palavra. Sem escuta.


Gosto do mar quando está à conversa.
Põe-me num sono bolino.
Como no embalo junto ao peito.


Gosto do mar quando está à conversa. 
Encontro-me com o ontem, como saísse da minha mãe.

Gosto do mar quando está à conversa. 
Exalta-me como som de violino.




Zita Viegas
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