Escritas

Lista de Poemas

Utopia





Nua eu te decorei

No quadro da minha concupiscência

Assim inconseqüente sem conseqüência

Eu te furtei na vaidade da minha alma;



Tua imagem tão selvagem

Na pintura insaciada

Explorada na estupidez dos meus dedos

Que estiveram perdidas na insensatez do
desejo;



Eu te pintei

Como quem pinta arrogante

Na irresponsabilidade dos amantes

O delírio de uma imaginação coadjuvante;



Eu te decorei

Como profissional apaixonado

Eu te desejei

Como um carnal assim tão fraco;



Nua eu te possui

Na utopia ignorante da pintura

Sobre o olhar atento da

Hipocrisia dos meus olhos;

Que não tardaram em julgar

A displicência do teu corpo.



Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli

Setembro de 2002 no dia 06

Itaquaquecetuba (SP)
👁️ 500

Unha do Pé

É José, assim não vai dar pé...

Nem sabes que vergonha é

Comer a unha do pé;



Famia de pouca crença

É a tar famia de barnabé

De entre os santos desconhecem

O pai de Jesus, José;



É José, preto veio da umbanda

Do terreiro do mane

Lá dos cantos de aruanda

Troca à meia de chulé;



Bem sei José, brasileiro humilde é...

Que bem cedo ta de pé

Pois a roça te espera

Na colheita de café;



Tenha boas manias, José...

No largo da praça da sé

Nem sabes que vergonha é

Comer a unha do pé.




Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli

Maio de 2002 no dia 21 / Itaquaquecetuba (SP)
👁️ 470

ALMA DAS FLORES


As flores estão de luto

Pois o inverno está chegando

Há um clamor absoluto

Dentre as pétalas reclamando;



As flores estão de luto

Vem o vento assoviando

Num soprar longo e bruto

A beleza carregando;



As flores estão de luto

De partida a tua alma

Primavera foi tão curto

Golpe duro que se acalma;



As flores estão de luto

De rosto caído dormidas ao chão

No mais singelo dos absurdos

Vazando perfume do seu coração;



As flores estão em festa

Pois o inverno está passando

Um corpo de vida

À semente lhe empresta

No mês de setembro

Do próximo ano.





Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli

Maio de 2002 no dia 21 Itaquaquecetuba (SP)
👁️ 486

Crepúsculo





Sobre a mesa da áspera madeira

A vela que lhe faz companhia

Empresta seu corpo de luz por inteira

De resina e pavio apagado

Morre debruçada no colo do dia.



Sobre o papel amarelo envelhecido

Descansa a condoída poesia

Quando cai a noite fria de improviso

A pena que com pena do autor

Empresta a tinta

E morre esturricada de vazia.



O velho homem bem que tentou

Tomar inspiração na tal tristeza

A saudade da mulher que amava

É o que restou

Quando o sono pesava-lhe

O rosto sobre a mesa.



Ao dormir no crepúsculo da noite fatídica

A vela se apagou junto à poesia

Talvez em sonho a realidade verídica

Daquele velho homem

Extraia toda a dor

Como da pena que vazou a tinta.



Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli

Abril de 2008 no dia 30

Arujá (SP).
👁️ 526

MADEIRO EM VÃO



Ao pé da cruz lamúria e ostentação

Hipócritas curvados ao nazismo

A irônica coragem do iconoclatismo

Diante do madeiro obedecendo ao alcorão.



Ao pé da cruz a valentia do pecador

A ordem e progresso constitucional

Não esclarecidas da bandeira nacional

Da corja dos políticos em estupor.



Ao pé da cruz a lembrança do calvário

Antihipocráticos da impunidade

Que fazem estéticas da humanidade

E mancha o sagrado manto sudário.



Ao pé da cruz o olhar do cristo incrédulo

Do mentor da justiça à esquerda crucificado

Do que rouba o pão à direita mutilado

Das feridas sobre o pulso do fincado prego.



Ao pé da cruz as lágrimas de Maria

A sociedade alternativa de Pilatos

Seguidores envergonhados de seus atos

Do ignorado cristo crucificado todos os dias.



Ao pé da cruz tristeza e lamentação

O desperdício de sangue no madeiro em vão

Servirão de aviso pelo cristo sofrido

Aos predestinados filhos da condenação.



Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli / Abril
de 2002 no dia 15

Itaquaquecetuba (SP)
👁️ 451

Liberdade

Liberdade; pra viver...

Pra se conhecer mais vezes

Até as praças que são mais verdes

Nos olhos destes japoneses.



Túneis e metrô...

Pessoas aos milhões

Parecem correr pela contra mão

Semáforos não o impedem

O dia a dia da liberdade de expressão.



Nem Paris parece tão bela

Desse nosso Japão brasileiro

Das meninas corriqueiras

De furtado (conselheiro)

Dos amantes da Rua Galvão Bueno.



Minúsculo órgão

Desta grande metrópole

Teu sangue corre

Nas veias desta tua mãe;

Que te alimenta o sonho

De cresceres em liberdade.


Homenagem a São Paulo 450 anos.



Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli

Março de 2004 no dia 26.
👁️ 562

RUFIÃO



Cansada da labuta

Tu vens prostituta

De mais um dia de luta

Perigosa e astuta, de pouca conduta;

Diminuto ao juízo lacônico

Transparente ao sorriso irônico;

Tu vens prostituta

Descansar nos braços deste louco.



Do quilombo tu retornas

Da ferida nos teus seios

Explorada, insaciada, escrava do desejo;

Como um querubim expulsa do céu

O rosto de vergonha coberto com o véu

Desesperada á procura de um beijo

Tu vens prostituta

Em busca de abrigo.



Fantoche dos caprichos da vida

Da hipocrisia nos teus sentimentos

Manipulada pelo efeito da bebida

Tu encontras prostituta

Derrotada em teu próprio fingimento



Na fealdade dos teus atos

Nas histórias e relatos

Continuas teu sustento.

Crucificada no madeiro social

Quando pra ti mesmo, prostituta...


Somente tens feito o mal

Sem álibi e sem direito

Tu caminhas descalça

Pela estrada do preconceito

De pouca moral e razoável dinheiro

Tu vens prostituta

Aos meus braços sedentos.



Em meu leito embriagado e sóbrio

A nudez do meu corpo te espera

Mesmo vestida de impureza e lamento

Tu vens prostituta, tu vens prometendo...

Mulher de poucas palavras, de muitos segredos!

À noite é testemunha dos teus pecados

O dia dos teus sofrimentos

Não chores mais prostituta

Cuido-te da grana e dos teus sentimentos.




Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli

Março de 2002, no dia 31.
👁️ 584

Engenheiro Manoel Feio





Não existe lugar mais feio que o Manoel

Nem engenheiro melhor que Manoel feio

Rascunho de um bairro rabiscado no papel

Criança desnutrida debruçada em teu seio.



Manoel feio, tão feio quanto o próprio nome!

O nome de Manoel não é tão feio assim

Subúrbio da periferia que adormece pobre

E acorda na estação a multidão sem fim.



Longas ruas de terra (terra de verdade)

Manoel não se envergonha e nem culpa tem

O engenheiro que morreu nos deixou saudade

Deixou seu nome feio não importa a quem.



Mauá foi de Barão, Manoel de itaquá!

Na descoberta de Anchieta um anseio

Que ele jamais poderia imaginar

Ter um bairro da cidade com o nome feio.



Nos dias de hoje presto uma homenagem

A esta gente humilde que vive em nosso meio

Aos viajantes que por aqui passaram

Jamais irá esquecer-se de Manoel feio.



Homenagem á estação
ferroviária

Subúrbio Engenheiro Manoel Feio.



Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli

Novembro de 2002 no dia 29

Itaquaquecetuba (SP)
👁️ 1 576

Peito Traidor





Tuas mãos me acolhem

No teu peito que é traidor

Tuas palavras impuras

Contaminam meus sentimentos;



Como um pombo ferido

Lanço-me em teus braços

Em busca da cura

Em busca de abrigo;



Acalentas-me do inverno que é duro

Tomas-me em falsos desejos

Quando renasço em amor e sussurros

Quando me matas

No veneno dos teus beijos;



Venho a dormir

De uma noite cansada

Uma noite fria

Sem vida e sem cor

Sonhando acordar

Nos seios da amada

Que me acolhes em teu peito

Que é traidor.





Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli

Junho de 2000 no dia 04

Itaquaquecetuba (SP)
👁️ 457

ESPOSA DA SOLIDÃO


Felicidade que me esqueces

De um falso juramento;

Jurei amar a ti saudade

Prometendo casamento.



És viúva de um sorriso antigo

Que morreu em falsos lábios;

Quando a ti te dei abrigo

Desgraçado embriagado.



Felicidade que me aquece

Fidelidade sem tormento;

Jurei amar a ti maldade

No meu sangue violento.



És quem furta a alegria

Vontade no peito prostituída;

És quem luta saudade vadia

No peito doído à dor extraída.



Felicidade que me roubas

Que me arromba o coração;

Jurei amar a ti saudade

Só não esperava nesta tarde

Me casar com a solidão.




Pelo autor Marcelo Henrique Zacarelli

Maio de 2002 no dia 21

Itaquaquecetuba (SP)
👁️ 525

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments