Lista de Poemas
Os Lírios de Kierkegaard
Tu, ex-refém da urgência competitiva
cujas células agora se esparramam sem controle
deserda os leitos e jardins cuidados e restritos
vai às flores do campo,
abandonadas na rusticidade,
virgens de mãos de jardineiro
Funda teu acampamento e observa-as,
a sol e chuva, a suportarem o tempo em cumplicidade
vá, citadino, até que a luz
tenha parto e teus olhos tenham cura,
e possas entender – a tempo, isso
que a todo tempo finda –
que elas têm um Jardineiro
feito de sempres e de serenidades
Entrega, enfim, teus dias em Suas mãos,
e furta irmandade às flores
e à eternidade
cujas células agora se esparramam sem controle
deserda os leitos e jardins cuidados e restritos
vai às flores do campo,
abandonadas na rusticidade,
virgens de mãos de jardineiro
Funda teu acampamento e observa-as,
a sol e chuva, a suportarem o tempo em cumplicidade
vá, citadino, até que a luz
tenha parto e teus olhos tenham cura,
e possas entender – a tempo, isso
que a todo tempo finda –
que elas têm um Jardineiro
feito de sempres e de serenidades
Entrega, enfim, teus dias em Suas mãos,
e furta irmandade às flores
e à eternidade
👁️ 346
No que sou, o que sou?
Escrevo éclogas,
disparates feitos
do mijo dos anjos
Pássaro, devoro morcegos
sempre à noite,
quando são mais fortes
Crio palavras, exempli gratia:
Adjistâncias:
distâncias adjuntas, circumciclovalentes
Selado fui fora do cofre:
Outros homens existem,
eu prolifero
Narrador que desnarra,
cacos de chão e céu estou
no que sou;
e o que sou?
disparates feitos
do mijo dos anjos
Pássaro, devoro morcegos
sempre à noite,
quando são mais fortes
Crio palavras, exempli gratia:
Adjistâncias:
distâncias adjuntas, circumciclovalentes
Selado fui fora do cofre:
Outros homens existem,
eu prolifero
Narrador que desnarra,
cacos de chão e céu estou
no que sou;
e o que sou?
👁️ 42
A fábula do asno e do texugo, ou a Fuga da Razão
Corria o ano de 451 depois de Cristo. Nas bordas de uma pequena floresta às margens de Milão, um asno e um texugo esbarraram-se, ambos em fuga da cidade, incendiada por Átila em sua fúria bestial.
Libertos do cativeiro pelos irmãos caos e chama, corriam por suas vidas tênues carregados de sentimentos entre suas penugens chamuscadas. Um deles trazia por bagagem extra um pequeno e tilintante alforge que, de passagem, furtara a um corpo humano justiçado pelos irmãos siameses.
Temeroso da repentina solidão e do silêncio da floresta, terror medievo, e vendo que seu companheiro de ocasião já imbicava por uma trilha da mata, o que portava o pequeno alforge feito da pele de um seu semelhante propôs ao outro:
– Venha comigo, companheiro! Vamos por este outro caminho, ele dará numa pequena cidadela.
O segundo animal hesitou por um momento, volvendo um olhar de terno espanto para aqueloutro trânsfuga.
– Posso lhe dar todo esse dinheiro – antecipou-se o primeiro, chacoalhando as moedas do bornal.
– Dinheiro? O que faz cativos os homens?
– Cativos?? É ele quem lhes compra a alforria! E lhes descerra a janela dos sonhos.
– Com ele poderei comprar sonhos?
– Comprar? Não; com ele você poderá realizar cada um deles.
– Mas realizar um sonho é como matá-lo.
– ???... Ora!!! Nunca ouvi tão grande insanidade! Que dizes, néscio?!!
– Digo que passaste tempo demais com humanos – arguiu a besta, antes de mergulhar no silêncio verdejante.
Libertos do cativeiro pelos irmãos caos e chama, corriam por suas vidas tênues carregados de sentimentos entre suas penugens chamuscadas. Um deles trazia por bagagem extra um pequeno e tilintante alforge que, de passagem, furtara a um corpo humano justiçado pelos irmãos siameses.
Temeroso da repentina solidão e do silêncio da floresta, terror medievo, e vendo que seu companheiro de ocasião já imbicava por uma trilha da mata, o que portava o pequeno alforge feito da pele de um seu semelhante propôs ao outro:
– Venha comigo, companheiro! Vamos por este outro caminho, ele dará numa pequena cidadela.
O segundo animal hesitou por um momento, volvendo um olhar de terno espanto para aqueloutro trânsfuga.
– Posso lhe dar todo esse dinheiro – antecipou-se o primeiro, chacoalhando as moedas do bornal.
– Dinheiro? O que faz cativos os homens?
– Cativos?? É ele quem lhes compra a alforria! E lhes descerra a janela dos sonhos.
– Com ele poderei comprar sonhos?
– Comprar? Não; com ele você poderá realizar cada um deles.
– Mas realizar um sonho é como matá-lo.
– ???... Ora!!! Nunca ouvi tão grande insanidade! Que dizes, néscio?!!
– Digo que passaste tempo demais com humanos – arguiu a besta, antes de mergulhar no silêncio verdejante.
👁️ 382
Paz para praticar meu perenal ofício
Visto este andrajo de leão lá fora
Simulo humores em que ajo e interajo
E suores realizo, rito no qual contas quito.
Chegar em casa é meu fulcral laurel.
Revolucionário, mestre, pregador, menestrel?
Sou o que disso vai no interstício.
Sarau, academia, sodalício? Solitude almejo.
Cego, só por livros vejo: sou tatu cavoucando
Paz para praticar meu perenal ofício.
Simulo humores em que ajo e interajo
E suores realizo, rito no qual contas quito.
Chegar em casa é meu fulcral laurel.
Revolucionário, mestre, pregador, menestrel?
Sou o que disso vai no interstício.
Sarau, academia, sodalício? Solitude almejo.
Cego, só por livros vejo: sou tatu cavoucando
Paz para praticar meu perenal ofício.
👁️ 379
A ILHA (conto)
Depois de apenas três meses esqueci o meu nome. Não me ocorreu escrevê-lo: Estava ocupado, sobrevivendo.
Os anos não podia esquecê-los, pois há comigo um Patek, relógio que roubei sob certo sol, em certo mês de primavera, em alguma cidade do subcontinente que fora um dia chamado América do Sul – e este, sabe-se lá o porquê, é dos poucos dias de que recordo.
Estronda e tomba o tempo,
luz lilás,
obscuro óbito,
carretel de coisículas enrodilhadas em escaravelhos.
estrondestranhoastro brilha e berra no sobrehorizonte
Eu, Gregor Samsa, Heinrich Faust,
Rodion Românovitch Raskólnikov, Leopold Bloom
estelionatário confesso-me:
degredem-me.
Nesta ilha em que me acoitei, amontoei-me de lacunas: Além do comprometimento do sistema respiratório, o vírus tinha um outro efeito, não colateral, mas secundário e utilitariamente sádico: Apagar memórias.
Exempli gratia: Não sei mais como cheguei aqui. Lembro de cenas numa lancha, e isso finda o memorial.
Nesta pequena ilha encontrei uma imensa casa e oito cadáveres espargidos em sua estrutura. A ausência de ferimentos pode indicar que foram mortos pelo vírus. Avento hipóteses; era eu o dono do lugar? Um funcionário? Um amigo, parente do proprietário? Tudo que tenho é o estar-aqui, tudo que sei foi que aqui cheguei.
Na pequena biblioteca, livros em diversas línguas. Na única que conheço ou penso conhecer, uma coleção dita “Clássicos da Literatura”. Suas páginas sedimentaram-se como minhas únicas companhias, aqueles poucos livros em capa vermelha, seus personagens, suas personas. Suas biografias e transenlaces na vida passaram a ser os meus, eu o desmemoriado, eu o de pulmão fulminado por um vírus que não me lembro onde peguei e que deveria ter me matado, mas não matou (sei apenas que uma guerra grande mastigou as coisas humanas, todos contra todos).
Já nascemos com a turbada gravidade
de sobreviventes de um naufrágio
raça desmemoriada
quimiocontrita no corpo de um,
tênue tempestade nas folhas,
vírus multicelular em busca de não sei
Sparrings sem rosto no ringue do Tempo
tentando encaixar um soco
encaixar um soco no Tempo sem rosto
Há algum tempo me ocorrem poemas. Era poeta? Não sei. Mas acredito que não. Tanto que quando escrevo, nem me sinto: É como uma possessão. Será então a poesia, ou a atividade poética, uma demência das faculdades cerebrais?
Lá fora houve uma guerra, uma guerra de finalmente acabar com tudo. Meus frangalhos, a ilha, o lixo feito de destroços que o mar traz, dão conta do que não lembro e no entanto sei que aconteceu.
Lá fora:
Lá na imbricação dos mesmerizados
lá onde o progresso deflorou as virgens esfaimadas
que se lhe apresentaram;
progresso, demônio que aluiu os homens
lá fora
em seus estratos, no que voa no espirro
O barco que me trouxe jaz sem combustível; os geradores à diesel da ilha morrem da mesma sede. As frutas que como, as pequenas aves e répteis, talvez suportem meu pequeno consumo, mas e daí? Eles virão? E quem são eles, e quem sou eu? Como temer um passado que ignoro? O esquecimento, falsa liberdade ou paz provisória, me trai: Lembro ter roubado um relógio. Fui ladrão? Antes ou depois da ruína do mundo, dos mundos? Talvez tenha roubado por fome, talvez por vingança.
Alguém lá no além da ilha, ou no tudo dito além de mim (pois sem um nome, entendi finalmente o estigma que nos conforma, e contra o qual relutamos com a arma que pudemos, adaga cega que resolvemos chamar História: se sou um homem, tudo é além), deflagrou uma guerra universal, e ele talvez ainda esteja lá, e ele talvez ainda me encontre. Ou já me tenha encontrado e esquecido, nesta ilha-mausoléu, neste Alzheimer biodeflagrado por um vírus genocida.
Escrevo palavras na areia, ou poemas, essa forma primitiva de civilização das palavras, e cismo: Talvez não tenha existido uma Segunda Guerra Mundial, ou uma Primeira. Sequer os morticínios, enquanto eventos isolados, de Ruanda ou do Kosovo. Talvez seja tudo uma única e ininterrupta guerra, da morte de Abel ao Armagedon. Sem dias de trégua.
Ilha feridenta,
antologia de chagas
calangos e fragatas desintestinados e assados,
culinária de dramas, axiologia
do que é poético, capuz que ao homem encerra
Ilha tropical e sua mansão deserdada,
nave-desespero em que o Homem
nadaformou a Terra.
Os anos não podia esquecê-los, pois há comigo um Patek, relógio que roubei sob certo sol, em certo mês de primavera, em alguma cidade do subcontinente que fora um dia chamado América do Sul – e este, sabe-se lá o porquê, é dos poucos dias de que recordo.
Estronda e tomba o tempo,
luz lilás,
obscuro óbito,
carretel de coisículas enrodilhadas em escaravelhos.
estrondestranhoastro brilha e berra no sobrehorizonte
Eu, Gregor Samsa, Heinrich Faust,
Rodion Românovitch Raskólnikov, Leopold Bloom
estelionatário confesso-me:
degredem-me.
Nesta ilha em que me acoitei, amontoei-me de lacunas: Além do comprometimento do sistema respiratório, o vírus tinha um outro efeito, não colateral, mas secundário e utilitariamente sádico: Apagar memórias.
Exempli gratia: Não sei mais como cheguei aqui. Lembro de cenas numa lancha, e isso finda o memorial.
Nesta pequena ilha encontrei uma imensa casa e oito cadáveres espargidos em sua estrutura. A ausência de ferimentos pode indicar que foram mortos pelo vírus. Avento hipóteses; era eu o dono do lugar? Um funcionário? Um amigo, parente do proprietário? Tudo que tenho é o estar-aqui, tudo que sei foi que aqui cheguei.
Na pequena biblioteca, livros em diversas línguas. Na única que conheço ou penso conhecer, uma coleção dita “Clássicos da Literatura”. Suas páginas sedimentaram-se como minhas únicas companhias, aqueles poucos livros em capa vermelha, seus personagens, suas personas. Suas biografias e transenlaces na vida passaram a ser os meus, eu o desmemoriado, eu o de pulmão fulminado por um vírus que não me lembro onde peguei e que deveria ter me matado, mas não matou (sei apenas que uma guerra grande mastigou as coisas humanas, todos contra todos).
Já nascemos com a turbada gravidade
de sobreviventes de um naufrágio
raça desmemoriada
quimiocontrita no corpo de um,
tênue tempestade nas folhas,
vírus multicelular em busca de não sei
Sparrings sem rosto no ringue do Tempo
tentando encaixar um soco
encaixar um soco no Tempo sem rosto
Há algum tempo me ocorrem poemas. Era poeta? Não sei. Mas acredito que não. Tanto que quando escrevo, nem me sinto: É como uma possessão. Será então a poesia, ou a atividade poética, uma demência das faculdades cerebrais?
Lá fora houve uma guerra, uma guerra de finalmente acabar com tudo. Meus frangalhos, a ilha, o lixo feito de destroços que o mar traz, dão conta do que não lembro e no entanto sei que aconteceu.
Lá fora:
Lá na imbricação dos mesmerizados
lá onde o progresso deflorou as virgens esfaimadas
que se lhe apresentaram;
progresso, demônio que aluiu os homens
lá fora
em seus estratos, no que voa no espirro
O barco que me trouxe jaz sem combustível; os geradores à diesel da ilha morrem da mesma sede. As frutas que como, as pequenas aves e répteis, talvez suportem meu pequeno consumo, mas e daí? Eles virão? E quem são eles, e quem sou eu? Como temer um passado que ignoro? O esquecimento, falsa liberdade ou paz provisória, me trai: Lembro ter roubado um relógio. Fui ladrão? Antes ou depois da ruína do mundo, dos mundos? Talvez tenha roubado por fome, talvez por vingança.
Alguém lá no além da ilha, ou no tudo dito além de mim (pois sem um nome, entendi finalmente o estigma que nos conforma, e contra o qual relutamos com a arma que pudemos, adaga cega que resolvemos chamar História: se sou um homem, tudo é além), deflagrou uma guerra universal, e ele talvez ainda esteja lá, e ele talvez ainda me encontre. Ou já me tenha encontrado e esquecido, nesta ilha-mausoléu, neste Alzheimer biodeflagrado por um vírus genocida.
Escrevo palavras na areia, ou poemas, essa forma primitiva de civilização das palavras, e cismo: Talvez não tenha existido uma Segunda Guerra Mundial, ou uma Primeira. Sequer os morticínios, enquanto eventos isolados, de Ruanda ou do Kosovo. Talvez seja tudo uma única e ininterrupta guerra, da morte de Abel ao Armagedon. Sem dias de trégua.
Ilha feridenta,
antologia de chagas
calangos e fragatas desintestinados e assados,
culinária de dramas, axiologia
do que é poético, capuz que ao homem encerra
Ilha tropical e sua mansão deserdada,
nave-desespero em que o Homem
nadaformou a Terra.
👁️ 400
Carta aos Nautas
Degustador dos abismos
Violador de trancas
Prole perdida do Mar Oceano
Ávida por sua herança
Circunvassalos das marés
Singradores, sangradores, sangrias
Odisseus e Colombos,
Ícaros d’água e d’estempero
Horda diaspórica
De mamíferos rastreadores de estrelas
Que buscam um norte
Para dele perder-se
Coitados? Audazes? Intercisos
Os abismados da condição humana
Defenestrados da aldeia que
Fogem da dor do mundo levando
Toda a dor do mundo consigo
E um sorriso
Que navegar é preciso
Do livro Cartas e Retornos (2021).
Violador de trancas
Prole perdida do Mar Oceano
Ávida por sua herança
Circunvassalos das marés
Singradores, sangradores, sangrias
Odisseus e Colombos,
Ícaros d’água e d’estempero
Horda diaspórica
De mamíferos rastreadores de estrelas
Que buscam um norte
Para dele perder-se
Coitados? Audazes? Intercisos
Os abismados da condição humana
Defenestrados da aldeia que
Fogem da dor do mundo levando
Toda a dor do mundo consigo
E um sorriso
Que navegar é preciso
Do livro Cartas e Retornos (2021).
👁️ 640
Retorno à praia de Itaipu ou ao monte Meru
Os desertos enganam,
Mas só no mar está
A paz que nada interrompe
A fluição que vocifera
Em ritmados uivos, silvos
Laivos
Da noite primordial.
Do caos fundamental
Transemerge o mar:
Torre deitada em seu abraço de encastelar.
Kraken, Caribde, meu tio Geraldo Xereta
Ausências que a praia transtraz, à maneira
De Rosa, Guimarães,
Conchas desfeitas,
Calcário sobre crostas oceânicas de basalto
Infância de meus sobrinhos,
Após a minha
E Abraão e Caim e Adão
O planeta feito de água de seres
Feitos de água
Esgoelando-se por solidez.
Cada homem é a coleção de seus processos
Daquele pico
Pode-se esculpir as estrelas
E que são os aglomerados de galáxias,
Senão matéria escura desbastada
Até adquirir forma?
Células-tronco primeiras
De Jeová, esculpidas pelo sopro
Do Espírito que tudo navega?
Venha poder palraz,
Derrube Meru no oceano,
Dissolva os entes e seus ícones
Na recriação.
Do livro Cartas e Retornos (2021).
Publicado anteriormente na revista Ensaios de Geografia (UFF).
👁️ 320
Carta ao Farol
Carta ao Farol
Sol da boa noite
Esperança terrajeira
Palácio liberto dessas libertinagens
Que são as realezas
Totem de turmalina
E óleo de baleia
Para a mater solidão
Ímã ao homem de exceção,
Perdição da sereia
Torre pontifex
Tubo alquímico, construto
De magia branca minimalista
Única habitação humana
Que comporta (com conforto
Para sua densidade d’asas)
Um poeta
Silenciário
Notário da oceanografia
Lança de condão e luminotecnia
Oceânico elucidário
Norteador noturno,
Soturno mosteiro
Dum-só-monge
Hiperlugar, canhão
De topofilia
Lua sem minguantes
E sem volteios
Mirante oceamar
Caracol teso sobre as vagas
Imóbil máquina de alar
Estaca-mar
Ou mor,
Poema de habitar.
Do livro Cartas e Retornos (2021).
Para adquirir, escreva para o autor: sreachers@gmail.com
Sol da boa noite
Esperança terrajeira
Palácio liberto dessas libertinagens
Que são as realezas
Totem de turmalina
E óleo de baleia
Para a mater solidão
Ímã ao homem de exceção,
Perdição da sereia
Torre pontifex
Tubo alquímico, construto
De magia branca minimalista
Única habitação humana
Que comporta (com conforto
Para sua densidade d’asas)
Um poeta
Silenciário
Notário da oceanografia
Lança de condão e luminotecnia
Oceânico elucidário
Norteador noturno,
Soturno mosteiro
Dum-só-monge
Hiperlugar, canhão
De topofilia
Lua sem minguantes
E sem volteios
Mirante oceamar
Caracol teso sobre as vagas
Imóbil máquina de alar
Estaca-mar
Ou mor,
Poema de habitar.
Do livro Cartas e Retornos (2021).
Para adquirir, escreva para o autor: sreachers@gmail.com
👁️ 648
Retorno ao Rio Alcântara
Retorno ao Rio Alcântara
No fundo do meu quintal corre um rio
Que desliza escorreito com voz de sibila
Onde vejo passar o destino circular dos homens
O tempo longo, médio e curto de Braudel
As eras geológicas, as flores do cambriano
Grandes do tamanho de minha casa
Os ciclos menstruais da vizinha feia,
Suas explosões de paz ou os silêncios de sua
fúria
No fundo de meu coração corre um rio
A passos lentos, vejo passarem formas
Frágeis, Heráclitos sorumbáticos
E revelações inconclusas sobre as quais
Tento o salto transcendental - mas não
Consigo sair de mim, deslogar
Pois não possuo o Tempo que tudo
Revela e (de)compõe: outrossim,
Sou do Tempo uma posse, um Heráclito
(Vejo passar os livros que Borges
Não escreveu, livros que gosto de imaginar
Quando quedo triste olhando o rio
E que de toda forma jazem escritos
Em algum lugar de Deus)
No fundo da íris de Deus corre um rio
Intransponível, de sufocante caudal
Do qual este poema, as flores cambrianas
Extintas do tamanho de casas e os homens
Algemados à sua liberdade circular
De probabilidades previstas e os livros
Que Borges iria escrever mas morreu e
Que jazem escritos em algum outro lugar de Deus
(pois dentro de Deus as coisas transitam,
Irrequietas ricocheteiam livres do Tempo circular)
E o Universo holográfico platônico celebrante e
Pânico são espelhos,
Reles espelhos deslizantes.
Do livro Cartas e Retornos (2021).
Para adquirir, escreva para o autor: sreachers@gmail.com
No fundo do meu quintal corre um rio
Que desliza escorreito com voz de sibila
Onde vejo passar o destino circular dos homens
O tempo longo, médio e curto de Braudel
As eras geológicas, as flores do cambriano
Grandes do tamanho de minha casa
Os ciclos menstruais da vizinha feia,
Suas explosões de paz ou os silêncios de sua
fúria
No fundo de meu coração corre um rio
A passos lentos, vejo passarem formas
Frágeis, Heráclitos sorumbáticos
E revelações inconclusas sobre as quais
Tento o salto transcendental - mas não
Consigo sair de mim, deslogar
Pois não possuo o Tempo que tudo
Revela e (de)compõe: outrossim,
Sou do Tempo uma posse, um Heráclito
(Vejo passar os livros que Borges
Não escreveu, livros que gosto de imaginar
Quando quedo triste olhando o rio
E que de toda forma jazem escritos
Em algum lugar de Deus)
No fundo da íris de Deus corre um rio
Intransponível, de sufocante caudal
Do qual este poema, as flores cambrianas
Extintas do tamanho de casas e os homens
Algemados à sua liberdade circular
De probabilidades previstas e os livros
Que Borges iria escrever mas morreu e
Que jazem escritos em algum outro lugar de Deus
(pois dentro de Deus as coisas transitam,
Irrequietas ricocheteiam livres do Tempo circular)
E o Universo holográfico platônico celebrante e
Pânico são espelhos,
Reles espelhos deslizantes.
Do livro Cartas e Retornos (2021).
Para adquirir, escreva para o autor: sreachers@gmail.com
👁️ 320
DO OUTRO LADO DO TEU MEDO HÁ UM PALÁCIO
DO OUTRO LADO DO TEU MEDO HÁ UM PALÁCIO
Do outro lado do teu medo há um palácio
guardado por arautos transidos em armaduras de grafeno
que empunham a mais altiva das bandeiras
onde tua “A Experiência Capital” luz timbrada
do outro lado do teu medo há um trono
de jasmim e memórias de lágrimas extintas
no centro do palácio, aeródromo sem check-in
que dá acesso direto ao terceiro céu
do outro lado do teu medo, muralhas
após há um ápice, pontiagudo platô
donde é possível contemplar, descarnada
e finda, tua ígnea saga de arromba-portas
do outro lado do teu medo, logo
ali, centímetros além de tua prematura
derrocada, há um jardim imorredouro
erigido em âmbar gris pelo Rei dos reis
do outro lado do teu medo, sete véus
d’além d’Avenida dos Procrastinados
ruas de honradez rebrilham sob o sol invicto
que lança sombras no ossário das desculpas
do outro lado do teu medo, enfim
há um princípio que a tudo dilacera, renovo
que além do precipício vocifera
e, em urros contra a tua covardia, aguarda.
Do livro CARTAS E RETORNOS (2021).
Para adquirir, escreva para o autor: sreachers@gmail.com
Do outro lado do teu medo há um palácio
guardado por arautos transidos em armaduras de grafeno
que empunham a mais altiva das bandeiras
onde tua “A Experiência Capital” luz timbrada
do outro lado do teu medo há um trono
de jasmim e memórias de lágrimas extintas
no centro do palácio, aeródromo sem check-in
que dá acesso direto ao terceiro céu
do outro lado do teu medo, muralhas
após há um ápice, pontiagudo platô
donde é possível contemplar, descarnada
e finda, tua ígnea saga de arromba-portas
do outro lado do teu medo, logo
ali, centímetros além de tua prematura
derrocada, há um jardim imorredouro
erigido em âmbar gris pelo Rei dos reis
do outro lado do teu medo, sete véus
d’além d’Avenida dos Procrastinados
ruas de honradez rebrilham sob o sol invicto
que lança sombras no ossário das desculpas
do outro lado do teu medo, enfim
há um princípio que a tudo dilacera, renovo
que além do precipício vocifera
e, em urros contra a tua covardia, aguarda.
Do livro CARTAS E RETORNOS (2021).
Para adquirir, escreva para o autor: sreachers@gmail.com
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Sammis Reachers nasceu em 09/05/1978 em Niterói – RJ. Licenciado e pós graduado em Geografia, é também poeta, antologista e editor. Tem se destacado como promotor e divulgador de poesia, através das antologias que organiza e dos blogs como o Poesia Evangélica, onde já publicou mais de trezentos autores.
Autor de dez livros de poesia, dois de contos, e organizador e editor de mais de quarenta antologias.
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