Lista de Poemas

Os Lírios de Kierkegaard

Tu, ex-refém da urgência competitiva

cujas células agora se esparramam sem controle

deserda os leitos e jardins cuidados e restritos

vai às flores do campo,

abandonadas na rusticidade,

virgens de mãos de jardineiro

 

Funda teu acampamento e observa-as,

a sol e chuva, a suportarem o tempo em cumplicidade

vá, citadino, até que a luz

tenha parto e teus olhos tenham cura,

e possas entender – a tempo, isso

que a todo tempo finda –

que elas têm um Jardineiro

feito de sempres e de serenidades

 

Entrega, enfim, teus dias em Suas mãos,

e furta irmandade às flores
                                             e à eternidade
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No que sou, o que sou?

Escrevo éclogas,

disparates feitos

do mijo dos anjos

 

Pássaro, devoro morcegos

sempre à noite,

quando são mais fortes

 

Crio palavras, exempli gratia: 

Adjistâncias: 

distâncias adjuntas, circumciclovalentes

 

Selado fui fora do cofre:

Outros homens existem,

eu prolifero

 

Narrador que desnarra,

cacos de chão e céu estou

no que sou; 

                     e o que sou?
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A fábula do asno e do texugo, ou a Fuga da Razão

Corria o ano de 451 depois de Cristo. Nas bordas de uma pequena floresta às margens de Milão, um asno e um texugo esbarraram-se, ambos em fuga da cidade, incendiada por Átila em sua fúria bestial.

Libertos do cativeiro pelos irmãos caos e chama, corriam por suas vidas tênues carregados de sentimentos entre suas penugens chamuscadas. Um deles trazia por bagagem extra um pequeno e tilintante alforge que, de passagem, furtara a um corpo humano justiçado pelos irmãos siameses. 

Temeroso da repentina solidão e do silêncio da floresta, terror medievo, e vendo que seu companheiro de ocasião já imbicava por uma trilha da mata, o que portava o pequeno alforge feito da pele de um seu semelhante propôs ao outro: 

– Venha comigo, companheiro! Vamos por este outro caminho, ele dará numa pequena cidadela. 

O segundo animal hesitou por um momento, volvendo um olhar de terno espanto para aqueloutro trânsfuga.

– Posso lhe dar todo esse dinheiro – antecipou-se o primeiro, chacoalhando as moedas do bornal.

– Dinheiro? O que faz cativos os homens? 

– Cativos?? É ele quem lhes compra a alforria! E lhes descerra a janela dos sonhos.

– Com ele poderei comprar sonhos?

– Comprar? Não; com ele você poderá realizar cada um deles.

– Mas realizar um sonho é como matá-lo.

– ???... Ora!!! Nunca ouvi tão grande insanidade! Que dizes, néscio?!!

– Digo que passaste tempo demais com humanos – arguiu a besta, antes de mergulhar no silêncio verdejante.
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Paz para praticar meu perenal ofício

Visto este andrajo de leão lá fora

Simulo humores em que ajo e interajo

E suores realizo, rito no qual contas quito.

 

Chegar em casa é meu fulcral laurel.

Revolucionário, mestre, pregador, menestrel? 

Sou o que disso vai no interstício.

 

Sarau, academia, sodalício? Solitude almejo.

Cego, só por livros vejo: sou tatu cavoucando

Paz para praticar meu perenal ofício.
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A ILHA (conto)

Depois de apenas três meses esqueci o meu nome. Não me ocorreu escrevê-lo: Estava ocupado, sobrevivendo.

Os anos não podia esquecê-los, pois há comigo um Patek, relógio que roubei sob certo sol, em certo mês de primavera, em alguma cidade do subcontinente que fora um dia chamado América do Sul – e este, sabe-se lá o porquê, é dos poucos dias de que recordo.

 

Estronda e tomba o tempo,

luz lilás, 

obscuro óbito,

carretel de coisículas enrodilhadas em escaravelhos.

estrondestranhoastro brilha e berra no sobrehorizonte

Eu, Gregor Samsa, Heinrich Faust, 

Rodion Românovitch Raskólnikov, Leopold Bloom

estelionatário confesso-me:

degredem-me.

 

 

Nesta ilha em que me acoitei, amontoei-me de lacunas: Além do comprometimento do sistema respiratório, o vírus tinha um outro efeito, não colateral, mas secundário e utilitariamente sádico: Apagar memórias.

Exempli gratia: Não sei mais como cheguei aqui. Lembro de cenas numa lancha, e isso finda o memorial.

Nesta pequena ilha encontrei uma imensa casa e oito cadáveres espargidos em sua estrutura. A ausência de ferimentos pode indicar que foram mortos pelo vírus. Avento hipóteses; era eu o dono do lugar? Um funcionário? Um amigo, parente do proprietário? Tudo que tenho é o estar-aqui, tudo que sei foi que aqui cheguei.

Na pequena biblioteca, livros em diversas línguas. Na única que conheço ou penso conhecer, uma coleção dita “Clássicos da Literatura”. Suas páginas sedimentaram-se como minhas únicas companhias, aqueles poucos livros em capa vermelha, seus personagens, suas personas. Suas biografias e transenlaces na vida passaram a ser os meus, eu o desmemoriado, eu o de pulmão fulminado por um vírus que não me lembro onde peguei e que deveria ter me matado, mas não matou (sei apenas que uma guerra grande mastigou as coisas humanas, todos contra todos).

 

 

Já nascemos com a turbada gravidade

de sobreviventes de um naufrágio

raça desmemoriada 

quimiocontrita no corpo de um, 

tênue tempestade nas folhas, 

vírus multicelular em busca de não sei

 

Sparrings sem rosto no ringue do Tempo

tentando encaixar um soco

encaixar um soco no Tempo sem rosto

 

Há algum tempo me ocorrem poemas. Era poeta? Não sei. Mas acredito que não. Tanto que quando escrevo, nem me sinto: É como uma possessão. Será então a poesia, ou a atividade poética, uma demência das faculdades cerebrais?

Lá fora houve uma guerra, uma guerra de finalmente acabar com tudo. Meus frangalhos, a ilha, o lixo feito de destroços que o mar traz, dão conta do que não lembro e no entanto sei que aconteceu. 

 

Lá fora:

Lá na imbricação dos mesmerizados

lá onde o progresso deflorou as virgens esfaimadas

que se lhe apresentaram;

progresso, demônio que aluiu os homens

lá fora

em seus estratos, no que voa no espirro 

 

 

O barco que me trouxe jaz sem combustível; os geradores à diesel da ilha morrem da mesma sede. As frutas que como, as pequenas aves e répteis, talvez suportem meu pequeno consumo, mas e daí? Eles virão? E quem são eles, e quem sou eu? Como temer um passado que ignoro? O esquecimento, falsa liberdade ou paz provisória, me trai: Lembro ter roubado um relógio. Fui ladrão? Antes ou depois da ruína do mundo, dos mundos? Talvez tenha roubado por fome, talvez por vingança. 

Alguém lá no além da ilha, ou no tudo dito além de mim (pois sem um nome, entendi finalmente o estigma que nos conforma, e contra o qual relutamos com a arma que pudemos, adaga cega que resolvemos chamar História: se sou um homem, tudo é além), deflagrou uma guerra universal, e ele talvez ainda esteja lá, e ele talvez ainda me encontre. Ou já me tenha encontrado e esquecido, nesta ilha-mausoléu, neste Alzheimer biodeflagrado por um vírus genocida. 

Escrevo palavras na areia, ou poemas, essa forma primitiva de civilização das palavras, e cismo: Talvez não tenha existido uma Segunda Guerra Mundial, ou uma Primeira. Sequer os morticínios, enquanto eventos isolados, de Ruanda ou do Kosovo. Talvez seja tudo uma única e ininterrupta guerra, da morte de Abel ao Armagedon. Sem dias de trégua.

 

Ilha feridenta,

antologia de chagas

calangos e fragatas desintestinados e assados,

culinária de dramas, axiologia

do que é poético, capuz que ao homem encerra

 

Ilha tropical e sua mansão deserdada,

 nave-desespero em que o Homem

nadaformou a Terra.

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Carta aos Nautas

Degustador dos abismos

Violador de trancas

Prole perdida do Mar Oceano

Ávida por sua herança

 

Circunvassalos das marés

Singradores, sangradores, sangrias

 

Odisseus e Colombos,

Ícaros d’água e d’estempero

 

Horda diaspórica

De mamíferos rastreadores de estrelas

Que buscam um norte

Para dele perder-se

 

Coitados? Audazes? Intercisos

Os abismados da condição humana

Defenestrados da aldeia que

Fogem da dor do mundo levando

Toda a dor do mundo consigo

 

E um sorriso

Que navegar é preciso




Do livro Cartas e Retornos (2021).
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Retorno à praia de Itaipu ou ao monte Meru


Os desertos enganam,

Mas só no mar está

A paz que nada interrompe

 

A fluição que vocifera

Em ritmados uivos, silvos

                                          Laivos

Da noite primordial.

 

Do caos fundamental

Transemerge o mar:

Torre deitada em seu abraço de encastelar.

 

Kraken, Caribde, meu tio Geraldo Xereta

Ausências que a praia transtraz, à maneira

De Rosa, Guimarães,

Conchas desfeitas,

Calcário sobre crostas oceânicas de basalto

Infância de meus sobrinhos,

Após a minha

E Abraão e Caim e Adão

 

O planeta feito de água de seres

Feitos de água

                               Esgoelando-se por solidez.

Cada homem é a coleção de seus processos

 

Daquele pico

Pode-se esculpir as estrelas

E que são os aglomerados de galáxias,

Senão matéria escura desbastada

Até adquirir forma?

Células-tronco primeiras

De Jeová, esculpidas pelo sopro

Do Espírito que tudo navega?

 

Venha poder palraz,

Derrube Meru no oceano,

Dissolva os entes e seus ícones

Na recriação.




Do livro Cartas e Retornos (2021).
Publicado anteriormente na revista Ensaios de Geografia (UFF).
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Carta ao Farol

Carta ao Farol

 

Sol da boa noite

Esperança terrajeira

Palácio liberto dessas libertinagens

Que são as realezas

 

Totem de turmalina

E óleo de baleia

Para a mater solidão

 

Ímã ao homem de exceção,

Perdição da sereia

Torre pontifex

 

Tubo alquímico, construto

De magia branca minimalista

Única habitação humana

Que comporta (com conforto

Para sua densidade d’asas)

Um poeta

 

Silenciário

Notário da oceanografia

Lança de condão e luminotecnia

Oceânico elucidário

Norteador noturno,

Soturno mosteiro

Dum-só-monge

 

Hiperlugar, canhão

De topofilia

Lua sem minguantes

E sem volteios

 

Mirante oceamar

Caracol teso sobre as vagas

Imóbil máquina de alar

 

Estaca-mar

                Ou mor,

Poema de habitar.



Do livro Cartas e Retornos (2021).
Para adquirir, escreva para o autor:  sreachers@gmail.com
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Retorno ao Rio Alcântara

Retorno ao Rio Alcântara

 

 

No fundo do meu quintal corre um rio

Que desliza escorreito com voz de sibila

Onde vejo passar o destino circular dos homens

O tempo longo, médio e curto de Braudel

As eras geológicas, as flores do cambriano

Grandes do tamanho de minha casa     

Os ciclos menstruais da vizinha feia,

Suas explosões de paz ou os silêncios de sua

fúria

 

No fundo de meu coração corre um rio

A passos lentos, vejo passarem formas

Frágeis, Heráclitos sorumbáticos

E revelações inconclusas sobre as quais

Tento o salto transcendental - mas não

Consigo sair de mim, deslogar

Pois não possuo o Tempo que tudo

Revela e (de)compõe: outrossim,

Sou do Tempo uma posse, um Heráclito

(Vejo passar os livros que Borges

Não escreveu, livros que gosto de imaginar

Quando quedo triste olhando o rio

E que de toda forma jazem escritos

Em algum lugar de Deus)

 

No fundo da íris de Deus corre um rio

Intransponível, de sufocante caudal

Do qual este poema, as flores cambrianas

Extintas do tamanho de casas e os homens

Algemados à sua liberdade circular

De probabilidades previstas e os livros

Que Borges iria escrever mas morreu e

Que jazem escritos em algum outro lugar de Deus

(pois dentro de Deus as coisas transitam,

Irrequietas ricocheteiam livres do Tempo circular)

E o Universo holográfico platônico celebrante e

Pânico são espelhos,

 

Reles espelhos deslizantes.



Do livro Cartas e Retornos (2021).
Para adquirir, escreva para o autor:  sreachers@gmail.com
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DO OUTRO LADO DO TEU MEDO HÁ UM PALÁCIO

DO OUTRO LADO DO TEU MEDO HÁ UM PALÁCIO 

Do outro lado do teu medo há um palácio
guardado por arautos transidos em armaduras de grafeno
que empunham a mais altiva das bandeiras
onde tua “A Experiência Capital” luz timbrada

do outro lado do teu medo há um trono
de jasmim e memórias de lágrimas extintas
no centro do palácio, aeródromo sem check-in
que dá acesso direto ao terceiro céu

do outro lado do teu medo, muralhas
após há um ápice, pontiagudo platô
donde é possível contemplar, descarnada
e finda, tua ígnea saga de arromba-portas

do outro lado do teu medo, logo
ali, centímetros além de tua prematura
derrocada, há um jardim imorredouro
erigido em âmbar gris pelo Rei dos reis

do outro lado do teu medo, sete véus
d’além d’Avenida dos Procrastinados
ruas de honradez rebrilham sob o sol invicto
que lança sombras no ossário das desculpas

do outro lado do teu medo, enfim
há um princípio que a tudo dilacera, renovo
que além do precipício vocifera
e, em urros contra a tua covardia, aguarda.


Do livro CARTAS E RETORNOS (2021).
Para adquirir, escreva para o autor:  sreachers@gmail.com
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