Lista de Poemas

1-3

Hoje, não sei se trove...
Vejo tantos a mal-trovar trovas cheias de nada
que enquanto aqui nem chove
lá até faz trovalhada.
👁️ 348

1-1

Cada minuto
em que não estou a escrever
é um minuto da minha vida
perdido.
Daí
este poema ser tão curto.
👁️ 323

Aula de recitação

Ninguém lê palavras bonitas da mesma forma.
Por exemplo, se eu escrever,
Amor. Amar. Coração.
Cada um ouvirá uma voz diferente na sua cabeça,
seja a sua, a de quem o ama ou a de quem se ama,
ligeiro ou apaixonado,
talvez arrependido,
talvez leve suspiro.
Amor. Amar. Coração.
Também as palavras cruéis são subtis
e personalizadas.
Se eu disser,
Morte. Morrer. Sangue.
Cada um lerá com um tom diferente.
Mesmo que eu dê instruções específicas
para as lerem com toda a sua ira,
cada pessoa tem a sua barra de raiva,
mais ou menos cheia,
como a barra de vida de um qualquer vilão,
num qualquer videojogo.
Morte. Morrer. Sangue.
Também ninguém lerá palavras bonitas da mesma forma
que lê palavras cruéis.
Talvez para quem cobice a morte
ou despreze o amor
o tom seja o mesmo.
Eros. Thanatos.
Amor. Morte.
Duas facas de uma lâmina.
👁️ 299

1-2

Lá fora está a chover;
É Verão.
Talvez na minha cabeça;
Chuva grossa.
👁️ 326

A Depressão no Taiti

No dia mais solarengo
Do verão mais molengão:
A Depressão refastelada,
Com uma sandes de flamengo
E uma doce pina colada,
Não de leite, mas de pressão.

De bikini e uma saia,
Numa toalha de praia;
Com óculos de lente escura
Que muito discretamente
Ocultam toda a loucura
Que reina no reino da mente.

Jaz muito discreta ali,
Furtiva no meio da gente,
E a quem a olha sorri
Com todo e cada dente
Da sua boca dourada,
Abismo cheio de nada.

Nunca vai à água banhar-se
Com medo dessas maleitas
Que dizem ditos e seitas:
Infecções, cancros, catarse,
Que podem por nós entrar
Quando levamos os pés ao mar.

Jardineira dos claustros da morte,
Arauto do solo infecundo,
Pergunto-te, rainha consorte
Dos castros sequiosos do submundo:
"Ó infertil filha de Ceres,
De mim, o que é que tu queres?"
👁️ 321

Os Amores Mortos

Se acordássemos todos os amores mortos
Quais seriam os seus queixumes?
Diriam que morreram de mal-nutrição?
Traição, monotonia, falta de tesão?
Prematuros, inoportunos, consensuais
Ou, se há tal coisa, excessivamente sensuais,
De todos os amores disponíveis
No currículo do coveiro das paixões,
Não encontraríamos um insatisfeito
Com o seu estado sepultado.
Implorariam, até, cheios de fé:
Ressepulta-me!, devolve-me
Com as mãos gentis de quem segura um bebé;
Firmes, como quem colhe o ainda mal maduro grão,
Às valas solitárias, mas serenas, do chão.
👁️ 316

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments