ANGLO-SAXÃO
O macho adulto branco anglofalante
Tão claramente enxerga o mundo todo,
Que pouco ou nada toca de seu lodo,
Enquanto lhe consome especulante.
O lucro -- funcional ou exorbitante --
Lhe alimenta os instintos, sobremodo
Quando sabe vender algum engodo,
Cuja cotação muda a cada instante.
O mérito, decerto desde o gene
Traduz-se na indecência tão solene
Da fortuna que há séculos ele herda.
Pois, se o sucesso mede-se em dinheiro,
Tão claramente enxerga o mundo inteiro,
Que pouco ou nada toca de sua merda.
Betim - 17 04 2018
DON'ANA (sextilhas)
Era uma mulher do lar;
D'aquelas para casar
E que se quer sempre sua.
Que sabe bem seu lugar,
Pois, tem recato no andar
Quando passa pela rua.
"Don'Ana" tinha por nome
E um desejo que a consome
Desde que bem pequenina:
Senhora sem sobrenome,
De ser alguém tinha fome
Pois para tal se destina.
Noiva, era muito feliz,
Tendo tudo o que quis
Porque sempre do seu lado.
Por fim, para todos diz:
-- "A minha sorte eu que fiz,
Depois de tê-lo encontrado..."
Sim, entre quatro paredes,
Ei-la sem sedas e suedes
Em face d'ele despida.
E cheia de fomes e sedes,
Tal como sereia nas redes
Deixava-se ser possuída.
Era no mundo uma dama,
Mas uma puta na cama,
Tendo-se melhor mulher,
Do que quem no mundo puta
E na cama só computa
O quanto ou quando querer.
Mas, para sua surpresa,
Era bem da natureza
Do seu noivo, de primeiro,
Na mais pura safadeza
Após deixar a princesa,
Ir pernoitar no puteiro:
Contam à boca pequena
A alguma vaga morena
As visitas do seu amor...
Que sentiam até pena
Da noiva que ele apequena
Por não se lhe dar valor.
Que não o deixava em paz,
Dando-se como lhe apraz
E quando se lhe convém.
Vivia lhe andando atrás...
Mas, tanto fez; tanto faz:
Logo há-de passar também.
-- "Don'Ana é quem é Senhora!" --
Diziam cidade afora
-- "As outras, só vêm e vão..."
D'ele mais s'enamora
Havendo em conta que mora
Dentro do seu coração.
E, mais dia, menos dia,
Quem se deu tal ousadia
Mal s'engana de que a engana.
Há-de vê-la, todavia,
Desfilando fidalguia:
-- "É aquela que é Don'Ana!"
Belo Horizonte - 10 04 2018
CARÍCIAS (vilanela)
Amemo-nos sem pressa, suavemente,
Ainda que a cidade a todo instante
Se faça com mil sons sempre presente.
Olhemo-nos nos olhos, frente a frente:
Tudo há-de acontecer ao teu talante...
Amemo-nos sem pressa, suavemente.
Busquemos o sorriso mais contente,
À espera que o prazer no peito arfante
Se faça com mil sons sempre presente.
Porque doce é o amor quando se sente
O rosto aberto em gozo d'uma amante:
Amemo-nos sem pressa, suavemente...
E, alheados do que tínhamos em mente,
Teu corpo no meu corpo d'oravante
Se faça com mil sons sempre presente.
Assim talvez o amor -- tão inconstante... --
Se faça com mil sons sempre presente
Até que em nós o gozo se agigante!...
Amemo-nos sem pressa, suavemente...
Belo Horizonte - 10 04 2018
EM FALSO (décimas)
Há quem se faça de bobo,
Fingindo-se o que não é.
Cordeiro em pele de lobo,
Deseja a fama de probo
Como se digno de fé.
Mas, demasiado pedante,
Fala do que não entende.
Mais do que é se pretende,
Visto o seu ego gigante
Face às luzes que acende.
Por inteiro interesseiro,
Aplaude a ser aplaudido.
Lobo em pele de cordeiro,
Nas letras busca dinheiro
E um nome a fugir d'Olvido.
Sem embargo, é infeliz
Em tudo aquilo que escreve:
Frases de incerto cariz
Mal dissimulam as vis
Intenções que sempre teve.
Do nada ele me procura
Já se dando liberdade:
-- "A mim parece loucura
Tua intrigante figura
Dizendo não ter vaidade..."
Sabendo-o querer barulho
A ele, respondo sem dó:
-- "Deveras, muito me orgulho...
Da minha falta de orgulho
Haja vista ser eu pó".
-- "Se uns pecam por ser demais,
Outros, por querer de menos..."
Argumenta em tons desleais
No afã de parecer mais
Face a meus olhos serenos.
De repente, ele s'exalta
E me aponta os senões todos,
Restando-me a fala incauta:
-- "Antes ter orgulho em falta
Do que ter falta de modos!"
Finalmente ele se afasta
Sem m'entender patavina.
Volta para a sua casta,
Cujo aplauso bem lhe basta.
Enquanto mais se amofina:
Talvez sob monge descalço
Outro impostor se revele
De pé sobre o cadafalso!...
Quem a seguir cai em falso,
Eis lobo e cordeiro em pele!
Betim - 03 04 2018
EM SÉPIA
Atravessava o largo sob garoa
Abrigado de chapéu e sobretudo.
Quando, entre surpreendido e mudo,
Em sépia figurou sua pessoa.
Sim, um clarão vermelho lhe destoa
O reflexo dos óculos. Contudo,
Causava espécie o rosto 'inda desnudo
Onde um jovem artista se apregoa.
Registo d'um momento interrompido,
Apenas d'entretons foi colorido
Na exposição do filme àquela luz.
Mas a imagem fixada mais provoca
Pelo monocromático que evoca
Bela época a que dândis fazem jus.
Betim - 06 04 2018
A BANHAR
O bulício das águas contra as lajes
Ao descer os degraus da corredeira...
Aonde eu te levei por companheira
A nos havermos sem pejo nem trajes.
Não importa por onde ou com quem viajes,
Jamais encontrarás igual ribeira!
Tampouco te verás, aventureira,
Tão mais longe dos vis e seus ultrajes...
Onde toda a nudez jaz inocente
E mulher e homem são naturalmente
Dois bichos a banhar-se em pleno cio.
Guarda no coração aquela tarde,
Cujo recordo ainda em desejo arde
Meu corpo sob as águas d'esse rio.
Santana do Riacho - 12 10 2012
AUTÓFAGA (sextina: fome, carne, pele, mente, toque, mesma.)
Das entranhas lhe vem estranha fome
Que lhe consome toda a sua carne.
Frêmitos de sentir-se à flor da pele
Lhe agitam os desvãos da vaga mente
Ao perceber-se entregue ao próprio toque,
N'uma exploração húmida em si mesma.
Os dedos que percorrem a alma mesma
Têm no êxtase o saciar d'aquela fome
Certa de que, no corpo, o ser se toque.
Assim, a aura que envolve a nua carne
Revele-lhe os recônditos da mente
Em seu dedilhar de harpas pela pele.
Exsude todo o ser por sobre a pele
E, entorpecida, saía de si mesma
No alheamento de quanto tinha em mente.
Autófaga, de si sentia fome...
Era o saciar da carne pela carne
Ao s'entreter consigo em suave toque.
Das entranhas se vê estranha ao toque
Que lhe provoque ardor em toda a pele
E lhe revele a si apenas carne...
Não obstante, perceba-se ela mesma
Como fome de si a sua fome
A ponto de absorver de todo a mente.
Incerta se de pele ou se de mente
Sua explosão de si àquele toque;
D'ela trazer consigo tanta fome.
Incerta se de mente ou se de pele,
Resta-lhe conhecer-se ora a si mesma
No afã de se sentir na própria carne!...
Entenda-se na fome em sua carne,
-- O que for: seja pele; seja mente --
Ser ela toda ao toque d'ela mesma.
Betim - 13 04 2018
VESTÍGIOS
'Inda devem haver restos de nós
Espalhados por esta residência.
Onde vestígios já d'outra existência
Debaixo de tudo quanto veio após...
Mas mais vazio há dentro quando sós
A saudade nos preenche toda a ausência.
Como quando uma luz na transparência
Revela em suspensão nuvens de pós.
Eu sem querer t'encontro de repente
E o passado fazendo-se presente
Me traz o teu sorriso uma outra vez.
E me pego sorrindo aqui também
Com meu olhar perdido para o além
A imaginar que tu longe me vês...
Betim - 02 01 2017
ASSOMBRAÇÃO
Não andes pela estrada da ribeira,
A mesma que vai dar no mangueiral.
Além d'aquela curva, o bem e o mal
Têm para si uma última fronteira.
Jamais vá por ali sem companheira,
Tampouco adentre ao sítio seu portal:
N'ele vaga alguma alma tal e qual
A que nos vela a noite derradeira...
Apressa-te ao passares sob o luar,
Senão na encruzilhada a atravessar
O medo te domina com sua arte.
Pois muito pior que a morte, este terror
Te livra de armadilhas d'opressor
Que ronda ao teu redor por devorar-te!
Betim - 29 03 2018
NAS NUVENS
Tenho elevado versos às alturas
Sem desejar senão frases honestas,
E responder angústias tais como estas
Que atravessam as noites mais escuras
Indiferente a vãs nomenclaturas,
Não cuido se poesias imodestas
Em árvores de arquivos ou florestas
Guardiãs de digitais multiculturas.
Tão-só espalho alhures quanto tinha
Sempre a se acumular na escrivaninha
Em maços de papeis sem mais vaidades.
Mas... Feliz de quem topa em meus escritos
E os lê com prazer porque bonitos...
Ou os lê com ardor porque verdades!
Betim - 01 04 2018