Lista de Poemas
BOA VIZINHANÇA - O Homem do Saco e outros Contos
Pareceu-me um tipo bem apessoado, d'aqueles que pela simpatia logo conquistam: Sorria, respondendo positivamente a tudo quanto lhe dissessem. Enfim, queria sempre resolver o problema, existisse ou não.
Mudara-se há pouco para vizinhança e havia me procurado, enquanto eu me preparava para sair de casa. Era de manhã bem cedo e estava frio. Ele se aproximou, identificou-se como o novo vizinho e pediu-me ajuda com o hidrômetro: Após algumas horas de faxina, dissera, faltava-lhe água em casa... Embora estivesse vestido para o trabalho, fiquei sensibilizado e lhe fiz o obséquio de subir com ele ao castelo d'água de sua casa e lhe mostrei o reparo que devia fazer na boia da caixa. Ele, muito agradecido, me desejou um bom dia enquanto eu saía para cuidar da vida. Horas mais tarde, ele me cerca ao voltar com minha filha da escola: Pedia que lhe ajudasse com o gás de cozinha, pois não tinha ainda contactos na cidade. Mandei vir o gás e ele pagou o entregador. Quando saí do almoço para voltar ao trabalho, ele outra vez me chama e pede para ver o sinal da antena de TV enquanto ele a ajusta no telhado. Confesso que a boa vontade já estava no fim, mas não lhe neguei também esse pedido. Imagem na tela, já me dirigia à saída quando ele, com sua positividade característica, pediu-me que lhe ajudasse a instalar também o chuveiro. Aquilo me pareceu demasiado e lhe disse não. Argumentei que estava atrasado para o trabalho e ele assentiu.
Já de noite, topo com o vizinho na rua. Ele apenas esperava que eu chegasse para lhe emprestar a caixa de ferramentas e poder instalar seus trens. Havia pedido à minha esposa mais cedo, mas ela se escusou de fazê-lo, alegando que não mexia em minhas coisas. Cansado, fui até a garagem e peguei a bendita caixa. Ele gracejou algo que me pareceu exagerado e disse que devolvia assim que terminasse. De facto, tão logo entrei em casa já pude ouvir o zunido da furadeira e, após, as batidas do martelo. Da sua casa, parede-e-meia com a minha, dava-me a impressão de que trabalhava comigo dentro... E foi assim até bem tarde, n'uma faina ininterrupta até que lá pelas onze da noite fui forçado lhe bater na parede geminada e ele silenciou lá do lado d'ele. Mesmo assim, ainda pude ouvir sua movimentação ajeitando móveis madrugada adentro, n'uma insônia inoportuna e sem remédio... Como não conseguisse dormir, preparei-me para sair no dia seguinte ainda mais cedo que o rotineiro no sentido de evitá-lo, como já pressentisse que viria ter comigo. Dito e feito: Mal ponho os pés na calçada e lá estava ele, muito clamoso, pedindo-me desculpas pela algazarra da noite anterior. Civilizado, disse compreender. Eu ainda falava quando ele engatou um novo pedido, agora de carona ao Centro da cidade para ver a instalação do telefone... Como não me custava nada -- nada além do inconveniente de sua companhia, é claro -- dei-lhe a carona, embora visivelmente mal-humorado pela noite em claro. Ele, ao contrário, parecia jovial como sempre. Puxou assunto durante todo o percurso, ao que lhe respondia com monossílabos ou expressões genéricas. Se percebera minha irritação, fingiu não ser com ele. Despedi-o na avenida do comércio e segui com o auto para o meu trabalho mais adiante.
Tudo parecia conspirar contra mim n'aquele dia... Na hora de vir para almoçar em casa, topo com o farol do carro ligado e a bateria descarregada! Pedi para vir o eletricista e o mesmo só poderia me atender mais para o final da tarde. Liguei para casa e disse que não viria almoçar e tampouco pegaria nossa filha no colégio. À procura d'um restaurante, desço para o Centro a pé e entro no primeiro que identifico. Por mal dos pecados, topo com o vizinho se servindo ainda na fila da balança: Que maçada! Muito sorridente, o coitado me chama para sentar-me com ele à mesa. Sem qualquer alternativa razoável, aceito e sigo com ele para o mezanino do restaurante. Já antevia outra conversa inútil como a da manhã e ele não me decepcionou: Falou o tempo todo! Contou da cidade d'onde vinha, da família que tinha e da casa junto à minha!!! E eu, que seguramente não queria saber de nada daquilo, fui obrigado a lhe tolerar uma hora de conversa fiada. Nervoso, olhava continuamente para o relógio em busca d'um pretexto que me tirasse d'aquele lugar, mas não havia. Quando finalmente terminou sua refeição e pagamos, o dito cujo pergunta a que horas volto para o bairro pois passaria ainda o resto da tarde no Centro. Informo-lhe o horário, ao passo que o outro, com um sorriso aberto de orelha a orelha, já confirma a conveniência de me acompanhar. A contragosto, combino onde o pegaria e volto para o trabalho. De facto, n'esse meio tempo, o eletricista vinha com a bateria carregada para pôr o carro para funcionar, logo, sequer essa desculpa me livraria... Paguei o conserto e fui encontrar meu algoz para mais uma hora de companhia forçada. E ele estava lá, tal como combinado. Seu sorriso já me causava mal estar e sua conversa infindável já era evidentemente um suplício para mim. Quando chegamos, cheguei a sorrir com a perspectiva de me livrar d'ele, mas o vizinho, para minha surpresa e sem qualquer cerimônia, me acompanhou até dentro de casa e entabulou conversa com minha esposa! Ela, que não esperava a visita, foi logo preparando um café e o recebeu na cozinha mesmo, como já se fosse de casa... Fiquei ali, pasmo, assistindo aquele disparate e indeciso entre pô-lo para fora com alguma indisposição súbita ou acompanhar minha mulher em sua recepção improvisada. Decidi-me pela segunda opção que, embora desagradável, parecia a mais correta. A conversa enveredou para a pane da bateria do auto e os imprevistos subsequentes. Seco, narrava os factos resumidamente, enquanto nosso convidado parecia se deliciar em não só desenvolvê-los, mas ainda em analisá-los e interpretá-los à luz do Fado ou da História... Duas horas virando xícaras de café para rememorar um dia que parecia interminável! Quando eu já pensava que jamais se cansaria de nós, o vizinho, cheio de nove horas, decide finalmente se retirar.
Ao me deitar, desabafei com minha mulher o quanto me custava suportar aquela companhia constante do vizinho. Ela, como era de se esperar, me censurou veementemente. Disse que era um exagero meu; que eu vivia como um caramujo, insociável e impaciente etc... Enfim, arrumei para a cabeça, como diz o outro. Encerrei o assunto prometendo ser mais tolerante com o coitado que, de modo evidente para mim, precisava de novos amigos.
Dia seguinte, estranho a calma de sua casa e vou para o trabalho. Não há sinal d'ele ou de qualquer pessoa em sua casa. Tudo transcorre bem ao longo do dia e volto para casa no horário de sempre. Contudo, não suportando a curiosidade, aperto-lhe a campainha e, assim que me atende, vou logo lhe perguntando pelo dia e se precisava de alguma coisa.
Betim - 17 05 2018
Mudara-se há pouco para vizinhança e havia me procurado, enquanto eu me preparava para sair de casa. Era de manhã bem cedo e estava frio. Ele se aproximou, identificou-se como o novo vizinho e pediu-me ajuda com o hidrômetro: Após algumas horas de faxina, dissera, faltava-lhe água em casa... Embora estivesse vestido para o trabalho, fiquei sensibilizado e lhe fiz o obséquio de subir com ele ao castelo d'água de sua casa e lhe mostrei o reparo que devia fazer na boia da caixa. Ele, muito agradecido, me desejou um bom dia enquanto eu saía para cuidar da vida. Horas mais tarde, ele me cerca ao voltar com minha filha da escola: Pedia que lhe ajudasse com o gás de cozinha, pois não tinha ainda contactos na cidade. Mandei vir o gás e ele pagou o entregador. Quando saí do almoço para voltar ao trabalho, ele outra vez me chama e pede para ver o sinal da antena de TV enquanto ele a ajusta no telhado. Confesso que a boa vontade já estava no fim, mas não lhe neguei também esse pedido. Imagem na tela, já me dirigia à saída quando ele, com sua positividade característica, pediu-me que lhe ajudasse a instalar também o chuveiro. Aquilo me pareceu demasiado e lhe disse não. Argumentei que estava atrasado para o trabalho e ele assentiu.
Já de noite, topo com o vizinho na rua. Ele apenas esperava que eu chegasse para lhe emprestar a caixa de ferramentas e poder instalar seus trens. Havia pedido à minha esposa mais cedo, mas ela se escusou de fazê-lo, alegando que não mexia em minhas coisas. Cansado, fui até a garagem e peguei a bendita caixa. Ele gracejou algo que me pareceu exagerado e disse que devolvia assim que terminasse. De facto, tão logo entrei em casa já pude ouvir o zunido da furadeira e, após, as batidas do martelo. Da sua casa, parede-e-meia com a minha, dava-me a impressão de que trabalhava comigo dentro... E foi assim até bem tarde, n'uma faina ininterrupta até que lá pelas onze da noite fui forçado lhe bater na parede geminada e ele silenciou lá do lado d'ele. Mesmo assim, ainda pude ouvir sua movimentação ajeitando móveis madrugada adentro, n'uma insônia inoportuna e sem remédio... Como não conseguisse dormir, preparei-me para sair no dia seguinte ainda mais cedo que o rotineiro no sentido de evitá-lo, como já pressentisse que viria ter comigo. Dito e feito: Mal ponho os pés na calçada e lá estava ele, muito clamoso, pedindo-me desculpas pela algazarra da noite anterior. Civilizado, disse compreender. Eu ainda falava quando ele engatou um novo pedido, agora de carona ao Centro da cidade para ver a instalação do telefone... Como não me custava nada -- nada além do inconveniente de sua companhia, é claro -- dei-lhe a carona, embora visivelmente mal-humorado pela noite em claro. Ele, ao contrário, parecia jovial como sempre. Puxou assunto durante todo o percurso, ao que lhe respondia com monossílabos ou expressões genéricas. Se percebera minha irritação, fingiu não ser com ele. Despedi-o na avenida do comércio e segui com o auto para o meu trabalho mais adiante.
Tudo parecia conspirar contra mim n'aquele dia... Na hora de vir para almoçar em casa, topo com o farol do carro ligado e a bateria descarregada! Pedi para vir o eletricista e o mesmo só poderia me atender mais para o final da tarde. Liguei para casa e disse que não viria almoçar e tampouco pegaria nossa filha no colégio. À procura d'um restaurante, desço para o Centro a pé e entro no primeiro que identifico. Por mal dos pecados, topo com o vizinho se servindo ainda na fila da balança: Que maçada! Muito sorridente, o coitado me chama para sentar-me com ele à mesa. Sem qualquer alternativa razoável, aceito e sigo com ele para o mezanino do restaurante. Já antevia outra conversa inútil como a da manhã e ele não me decepcionou: Falou o tempo todo! Contou da cidade d'onde vinha, da família que tinha e da casa junto à minha!!! E eu, que seguramente não queria saber de nada daquilo, fui obrigado a lhe tolerar uma hora de conversa fiada. Nervoso, olhava continuamente para o relógio em busca d'um pretexto que me tirasse d'aquele lugar, mas não havia. Quando finalmente terminou sua refeição e pagamos, o dito cujo pergunta a que horas volto para o bairro pois passaria ainda o resto da tarde no Centro. Informo-lhe o horário, ao passo que o outro, com um sorriso aberto de orelha a orelha, já confirma a conveniência de me acompanhar. A contragosto, combino onde o pegaria e volto para o trabalho. De facto, n'esse meio tempo, o eletricista vinha com a bateria carregada para pôr o carro para funcionar, logo, sequer essa desculpa me livraria... Paguei o conserto e fui encontrar meu algoz para mais uma hora de companhia forçada. E ele estava lá, tal como combinado. Seu sorriso já me causava mal estar e sua conversa infindável já era evidentemente um suplício para mim. Quando chegamos, cheguei a sorrir com a perspectiva de me livrar d'ele, mas o vizinho, para minha surpresa e sem qualquer cerimônia, me acompanhou até dentro de casa e entabulou conversa com minha esposa! Ela, que não esperava a visita, foi logo preparando um café e o recebeu na cozinha mesmo, como já se fosse de casa... Fiquei ali, pasmo, assistindo aquele disparate e indeciso entre pô-lo para fora com alguma indisposição súbita ou acompanhar minha mulher em sua recepção improvisada. Decidi-me pela segunda opção que, embora desagradável, parecia a mais correta. A conversa enveredou para a pane da bateria do auto e os imprevistos subsequentes. Seco, narrava os factos resumidamente, enquanto nosso convidado parecia se deliciar em não só desenvolvê-los, mas ainda em analisá-los e interpretá-los à luz do Fado ou da História... Duas horas virando xícaras de café para rememorar um dia que parecia interminável! Quando eu já pensava que jamais se cansaria de nós, o vizinho, cheio de nove horas, decide finalmente se retirar.
Ao me deitar, desabafei com minha mulher o quanto me custava suportar aquela companhia constante do vizinho. Ela, como era de se esperar, me censurou veementemente. Disse que era um exagero meu; que eu vivia como um caramujo, insociável e impaciente etc... Enfim, arrumei para a cabeça, como diz o outro. Encerrei o assunto prometendo ser mais tolerante com o coitado que, de modo evidente para mim, precisava de novos amigos.
Dia seguinte, estranho a calma de sua casa e vou para o trabalho. Não há sinal d'ele ou de qualquer pessoa em sua casa. Tudo transcorre bem ao longo do dia e volto para casa no horário de sempre. Contudo, não suportando a curiosidade, aperto-lhe a campainha e, assim que me atende, vou logo lhe perguntando pelo dia e se precisava de alguma coisa.
Betim - 17 05 2018
👁️ 159
AURA EXTENSA (sextilhas)
Estender-se no que se tem
Faz um homem maior do que é --
Quer lança que estica além
O braço e mais longe até;
Ou alavanca que, com fé,
Movesse o mundo também.
Assim, n'aquilo que se usa
Todo ser s'estende todo:
É cheiro que impregna a blusa;
É calor em pleno denodo
A arder em torno, de modo
Que a aura nas armas inclusa!
Como se a pessoal energia
Em vibrações oscilantes
S'expandisse, todavia,
Pelas coisas circunstantes
Para além do que eram antes
Pois pessoais em demasia.
Visto demasiado humanas
As coisas depois de usadas:
Se a princípio mundanas,
Pelo corpo desgastadas
São enfim humanizadas
À luz d'auras soberanas.
É chamado de "aura extensa"
Este estender-se do ser
Nas coisas a que dispensa
Um extremado prazer
Ou as agruras do afazer
Por sobre a matéria densa.
O imaterial na matéria
Como restos da existência,
Sua opulência e miséria
Confessa na permanência
Uma presença na ausência
Durante a ação deletéria.
E a vida que ali resiste
Depois que a vida se deixa
É a memória que insiste,
Indiferente da queixa
Que em meio às flores enfeixa
Lamúrias d'um luto triste.
É a verdade da vida
Que se nega ao vão d'Olvido!
É, talvez, a despedida
N'um detalhe percebido
Pelo coração partido
Diante de sua partida.
É a luz que permanece
Depois que o sol já se pôs.
E, pouco a pouco, anoitece
Nos versos que se compôs
Quando -- filhos, pais, avôs... --
O homem dos homens esquece.
É, enfim, tudo que se haura
Expresso em luz e revolta,
Enquanto a mente desaura
N'um clarão à sua volta
O ser que de si se solta
Quão extensa for sua aura...
Betim - 16 04 2018
Faz um homem maior do que é --
Quer lança que estica além
O braço e mais longe até;
Ou alavanca que, com fé,
Movesse o mundo também.
Assim, n'aquilo que se usa
Todo ser s'estende todo:
É cheiro que impregna a blusa;
É calor em pleno denodo
A arder em torno, de modo
Que a aura nas armas inclusa!
Como se a pessoal energia
Em vibrações oscilantes
S'expandisse, todavia,
Pelas coisas circunstantes
Para além do que eram antes
Pois pessoais em demasia.
Visto demasiado humanas
As coisas depois de usadas:
Se a princípio mundanas,
Pelo corpo desgastadas
São enfim humanizadas
À luz d'auras soberanas.
É chamado de "aura extensa"
Este estender-se do ser
Nas coisas a que dispensa
Um extremado prazer
Ou as agruras do afazer
Por sobre a matéria densa.
O imaterial na matéria
Como restos da existência,
Sua opulência e miséria
Confessa na permanência
Uma presença na ausência
Durante a ação deletéria.
E a vida que ali resiste
Depois que a vida se deixa
É a memória que insiste,
Indiferente da queixa
Que em meio às flores enfeixa
Lamúrias d'um luto triste.
É a verdade da vida
Que se nega ao vão d'Olvido!
É, talvez, a despedida
N'um detalhe percebido
Pelo coração partido
Diante de sua partida.
É a luz que permanece
Depois que o sol já se pôs.
E, pouco a pouco, anoitece
Nos versos que se compôs
Quando -- filhos, pais, avôs... --
O homem dos homens esquece.
É, enfim, tudo que se haura
Expresso em luz e revolta,
Enquanto a mente desaura
N'um clarão à sua volta
O ser que de si se solta
Quão extensa for sua aura...
Betim - 16 04 2018
👁️ 349
ANGLO-SAXÃO
O macho adulto branco anglofalante
Tão claramente enxerga o mundo todo,
Que pouco ou nada toca de seu lodo,
Enquanto lhe consome especulante.
O lucro -- funcional ou exorbitante --
Lhe alimenta os instintos, sobremodo
Quando sabe vender algum engodo,
Cuja cotação muda a cada instante.
O mérito, decerto desde o gene
Traduz-se na indecência tão solene
Da fortuna que há séculos ele herda.
Pois, se o sucesso mede-se em dinheiro,
Tão claramente enxerga o mundo inteiro,
Que pouco ou nada toca de sua merda.
Betim - 17 04 2018
Tão claramente enxerga o mundo todo,
Que pouco ou nada toca de seu lodo,
Enquanto lhe consome especulante.
O lucro -- funcional ou exorbitante --
Lhe alimenta os instintos, sobremodo
Quando sabe vender algum engodo,
Cuja cotação muda a cada instante.
O mérito, decerto desde o gene
Traduz-se na indecência tão solene
Da fortuna que há séculos ele herda.
Pois, se o sucesso mede-se em dinheiro,
Tão claramente enxerga o mundo inteiro,
Que pouco ou nada toca de sua merda.
Betim - 17 04 2018
👁️ 381
BRAVÍSSIMO!
Queres aplausos? Não os tenho.
A árvore de louros secou...
Escreves tu com arte e engenho
Poemas que o século ignorou.
Poeta, o teu século passou!
Baldo é poetar com tanto empenho:
A árvore de louros secou...
Queres aplausos? Não os tenho.
Poeta, o teu século desdenho:
Ouro de tolo, enferrujou...
Baldo é poetar assim ferrenho:
A árvore de louros secou...
Queres aplausos? Não os tenho.
Betim - 14 04 2018
A árvore de louros secou...
Escreves tu com arte e engenho
Poemas que o século ignorou.
Poeta, o teu século passou!
Baldo é poetar com tanto empenho:
A árvore de louros secou...
Queres aplausos? Não os tenho.
Poeta, o teu século desdenho:
Ouro de tolo, enferrujou...
Baldo é poetar assim ferrenho:
A árvore de louros secou...
Queres aplausos? Não os tenho.
Betim - 14 04 2018
👁️ 319
AUTÓFAGA (sextina: fome, carne, pele, mente, toque, mesma.)
Das entranhas lhe vem estranha fome
Que lhe consome toda a sua carne.
Frêmitos de sentir-se à flor da pele
Lhe agitam os desvãos da vaga mente
Ao perceber-se entregue ao próprio toque,
N'uma exploração húmida em si mesma.
Os dedos que percorrem a alma mesma
Têm no êxtase o saciar d'aquela fome
Certa de que, no corpo, o ser se toque.
Assim, a aura que envolve a nua carne
Revele-lhe os recônditos da mente
Em seu dedilhar de harpas pela pele.
Exsude todo o ser por sobre a pele
E, entorpecida, saía de si mesma
No alheamento de quanto tinha em mente.
Autófaga, de si sentia fome...
Era o saciar da carne pela carne
Ao s'entreter consigo em suave toque.
Das entranhas se vê estranha ao toque
Que lhe provoque ardor em toda a pele
E lhe revele a si apenas carne...
Não obstante, perceba-se ela mesma
Como fome de si a sua fome
A ponto de absorver de todo a mente.
Incerta se de pele ou se de mente
Sua explosão de si àquele toque;
D'ela trazer consigo tanta fome.
Incerta se de mente ou se de pele,
Resta-lhe conhecer-se ora a si mesma
No afã de se sentir na própria carne!...
Entenda-se na fome em sua carne,
-- O que for: seja pele; seja mente --
Ser ela toda ao toque d'ela mesma.
Betim - 13 04 2018
Que lhe consome toda a sua carne.
Frêmitos de sentir-se à flor da pele
Lhe agitam os desvãos da vaga mente
Ao perceber-se entregue ao próprio toque,
N'uma exploração húmida em si mesma.
Os dedos que percorrem a alma mesma
Têm no êxtase o saciar d'aquela fome
Certa de que, no corpo, o ser se toque.
Assim, a aura que envolve a nua carne
Revele-lhe os recônditos da mente
Em seu dedilhar de harpas pela pele.
Exsude todo o ser por sobre a pele
E, entorpecida, saía de si mesma
No alheamento de quanto tinha em mente.
Autófaga, de si sentia fome...
Era o saciar da carne pela carne
Ao s'entreter consigo em suave toque.
Das entranhas se vê estranha ao toque
Que lhe provoque ardor em toda a pele
E lhe revele a si apenas carne...
Não obstante, perceba-se ela mesma
Como fome de si a sua fome
A ponto de absorver de todo a mente.
Incerta se de pele ou se de mente
Sua explosão de si àquele toque;
D'ela trazer consigo tanta fome.
Incerta se de mente ou se de pele,
Resta-lhe conhecer-se ora a si mesma
No afã de se sentir na própria carne!...
Entenda-se na fome em sua carne,
-- O que for: seja pele; seja mente --
Ser ela toda ao toque d'ela mesma.
Betim - 13 04 2018
👁️ 372
CARÍCIAS (vilanela)
Amemo-nos sem pressa, suavemente,
Ainda que a cidade a todo instante
Se faça com mil sons sempre presente.
Olhemo-nos nos olhos, frente a frente:
Tudo há-de acontecer ao teu talante...
Amemo-nos sem pressa, suavemente.
Busquemos o sorriso mais contente,
À espera que o prazer no peito arfante
Se faça com mil sons sempre presente.
Porque doce é o amor quando se sente
O rosto aberto em gozo d'uma amante:
Amemo-nos sem pressa, suavemente...
E, alheados do que tínhamos em mente,
Teu corpo no meu corpo d'oravante
Se faça com mil sons sempre presente.
Assim talvez o amor -- tão inconstante... --
Se faça com mil sons sempre presente
Até que em nós o gozo se agigante!...
Amemo-nos sem pressa, suavemente...
Belo Horizonte - 10 04 2018
Ainda que a cidade a todo instante
Se faça com mil sons sempre presente.
Olhemo-nos nos olhos, frente a frente:
Tudo há-de acontecer ao teu talante...
Amemo-nos sem pressa, suavemente.
Busquemos o sorriso mais contente,
À espera que o prazer no peito arfante
Se faça com mil sons sempre presente.
Porque doce é o amor quando se sente
O rosto aberto em gozo d'uma amante:
Amemo-nos sem pressa, suavemente...
E, alheados do que tínhamos em mente,
Teu corpo no meu corpo d'oravante
Se faça com mil sons sempre presente.
Assim talvez o amor -- tão inconstante... --
Se faça com mil sons sempre presente
Até que em nós o gozo se agigante!...
Amemo-nos sem pressa, suavemente...
Belo Horizonte - 10 04 2018
👁️ 372
A BANHAR
O bulício das águas contra as lajes
Ao descer os degraus da corredeira...
Aonde eu te levei por companheira
A nos havermos sem pejo nem trajes.
Não importa por onde ou com quem viajes,
Jamais encontrarás igual ribeira!
Tampouco te verás, aventureira,
Tão mais longe dos vis e seus ultrajes...
Onde toda a nudez jaz inocente
E mulher e homem são naturalmente
Dois bichos a banhar-se em pleno cio.
Guarda no coração aquela tarde,
Cujo recordo ainda em desejo arde
Meu corpo sob as águas d'esse rio.
Santana do Riacho - 12 10 2012
Ao descer os degraus da corredeira...
Aonde eu te levei por companheira
A nos havermos sem pejo nem trajes.
Não importa por onde ou com quem viajes,
Jamais encontrarás igual ribeira!
Tampouco te verás, aventureira,
Tão mais longe dos vis e seus ultrajes...
Onde toda a nudez jaz inocente
E mulher e homem são naturalmente
Dois bichos a banhar-se em pleno cio.
Guarda no coração aquela tarde,
Cujo recordo ainda em desejo arde
Meu corpo sob as águas d'esse rio.
Santana do Riacho - 12 10 2012
👁️ 460
DON'ANA (sextilhas)
Era uma mulher do lar;
D'aquelas para casar
E que se quer sempre sua.
Que sabe bem seu lugar,
Pois, tem recato no andar
Quando passa pela rua.
"Don'Ana" tinha por nome
E um desejo que a consome
Desde que bem pequenina:
Senhora sem sobrenome,
De ser alguém tinha fome
Pois para tal se destina.
Noiva, era muito feliz,
Tendo tudo o que quis
Porque sempre do seu lado.
Por fim, para todos diz:
-- "A minha sorte eu que fiz,
Depois de tê-lo encontrado..."
Sim, entre quatro paredes,
Ei-la sem sedas e suedes
Em face d'ele despida.
E cheia de fomes e sedes,
Tal como sereia nas redes
Deixava-se ser possuída.
Era no mundo uma dama,
Mas uma puta na cama,
Tendo-se melhor mulher,
Do que quem no mundo puta
E na cama só computa
O quanto ou quando querer.
Mas, para sua surpresa,
Era bem da natureza
Do seu noivo, de primeiro,
Na mais pura safadeza
Após deixar a princesa,
Ir pernoitar no puteiro:
Contam à boca pequena
A alguma vaga morena
As visitas do seu amor...
Que sentiam até pena
Da noiva que ele apequena
Por não se lhe dar valor.
Que não o deixava em paz,
Dando-se como lhe apraz
E quando se lhe convém.
Vivia lhe andando atrás...
Mas, tanto fez; tanto faz:
Logo há-de passar também.
-- "Don'Ana é quem é Senhora!" --
Diziam cidade afora
-- "As outras, só vêm e vão..."
D'ele mais s'enamora
Havendo em conta que mora
Dentro do seu coração.
E, mais dia, menos dia,
Quem se deu tal ousadia
Mal s'engana de que a engana.
Há-de vê-la, todavia,
Desfilando fidalguia:
-- "É aquela que é Don'Ana!"
Belo Horizonte - 10 04 2018
D'aquelas para casar
E que se quer sempre sua.
Que sabe bem seu lugar,
Pois, tem recato no andar
Quando passa pela rua.
"Don'Ana" tinha por nome
E um desejo que a consome
Desde que bem pequenina:
Senhora sem sobrenome,
De ser alguém tinha fome
Pois para tal se destina.
Noiva, era muito feliz,
Tendo tudo o que quis
Porque sempre do seu lado.
Por fim, para todos diz:
-- "A minha sorte eu que fiz,
Depois de tê-lo encontrado..."
Sim, entre quatro paredes,
Ei-la sem sedas e suedes
Em face d'ele despida.
E cheia de fomes e sedes,
Tal como sereia nas redes
Deixava-se ser possuída.
Era no mundo uma dama,
Mas uma puta na cama,
Tendo-se melhor mulher,
Do que quem no mundo puta
E na cama só computa
O quanto ou quando querer.
Mas, para sua surpresa,
Era bem da natureza
Do seu noivo, de primeiro,
Na mais pura safadeza
Após deixar a princesa,
Ir pernoitar no puteiro:
Contam à boca pequena
A alguma vaga morena
As visitas do seu amor...
Que sentiam até pena
Da noiva que ele apequena
Por não se lhe dar valor.
Que não o deixava em paz,
Dando-se como lhe apraz
E quando se lhe convém.
Vivia lhe andando atrás...
Mas, tanto fez; tanto faz:
Logo há-de passar também.
-- "Don'Ana é quem é Senhora!" --
Diziam cidade afora
-- "As outras, só vêm e vão..."
D'ele mais s'enamora
Havendo em conta que mora
Dentro do seu coração.
E, mais dia, menos dia,
Quem se deu tal ousadia
Mal s'engana de que a engana.
Há-de vê-la, todavia,
Desfilando fidalguia:
-- "É aquela que é Don'Ana!"
Belo Horizonte - 10 04 2018
👁️ 352
EM SÉPIA
Atravessava o largo sob garoa
Abrigado de chapéu e sobretudo.
Quando, entre surpreendido e mudo,
Em sépia figurou sua pessoa.
Sim, um clarão vermelho lhe destoa
O reflexo dos óculos. Contudo,
Causava espécie o rosto 'inda desnudo
Onde um jovem artista se apregoa.
Registo d'um momento interrompido,
Apenas d'entretons foi colorido
Na exposição do filme àquela luz.
Mas a imagem fixada mais provoca
Pelo monocromático que evoca
Bela época a que dândis fazem jus.
Betim - 06 04 2018
Abrigado de chapéu e sobretudo.
Quando, entre surpreendido e mudo,
Em sépia figurou sua pessoa.
Sim, um clarão vermelho lhe destoa
O reflexo dos óculos. Contudo,
Causava espécie o rosto 'inda desnudo
Onde um jovem artista se apregoa.
Registo d'um momento interrompido,
Apenas d'entretons foi colorido
Na exposição do filme àquela luz.
Mas a imagem fixada mais provoca
Pelo monocromático que evoca
Bela época a que dândis fazem jus.
Betim - 06 04 2018
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EM FALSO (décimas)
Há quem se faça de bobo,
Fingindo-se o que não é.
Cordeiro em pele de lobo,
Deseja a fama de probo
Como se digno de fé.
Mas, demasiado pedante,
Fala do que não entende.
Mais do que é se pretende,
Visto o seu ego gigante
Face às luzes que acende.
Por inteiro interesseiro,
Aplaude a ser aplaudido.
Lobo em pele de cordeiro,
Nas letras busca dinheiro
E um nome a fugir d'Olvido.
Sem embargo, é infeliz
Em tudo aquilo que escreve:
Frases de incerto cariz
Mal dissimulam as vis
Intenções que sempre teve.
Do nada ele me procura
Já se dando liberdade:
-- "A mim parece loucura
Tua intrigante figura
Dizendo não ter vaidade..."
Sabendo-o querer barulho
A ele, respondo sem dó:
-- "Deveras, muito me orgulho...
Da minha falta de orgulho
Haja vista ser eu pó".
-- "Se uns pecam por ser demais,
Outros, por querer de menos..."
Argumenta em tons desleais
No afã de parecer mais
Face a meus olhos serenos.
De repente, ele s'exalta
E me aponta os senões todos,
Restando-me a fala incauta:
-- "Antes ter orgulho em falta
Do que ter falta de modos!"
Finalmente ele se afasta
Sem m'entender patavina.
Volta para a sua casta,
Cujo aplauso bem lhe basta.
Enquanto mais se amofina:
Talvez sob monge descalço
Outro impostor se revele
De pé sobre o cadafalso!...
Quem a seguir cai em falso,
Eis lobo e cordeiro em pele!
Betim - 03 04 2018
Fingindo-se o que não é.
Cordeiro em pele de lobo,
Deseja a fama de probo
Como se digno de fé.
Mas, demasiado pedante,
Fala do que não entende.
Mais do que é se pretende,
Visto o seu ego gigante
Face às luzes que acende.
Por inteiro interesseiro,
Aplaude a ser aplaudido.
Lobo em pele de cordeiro,
Nas letras busca dinheiro
E um nome a fugir d'Olvido.
Sem embargo, é infeliz
Em tudo aquilo que escreve:
Frases de incerto cariz
Mal dissimulam as vis
Intenções que sempre teve.
Do nada ele me procura
Já se dando liberdade:
-- "A mim parece loucura
Tua intrigante figura
Dizendo não ter vaidade..."
Sabendo-o querer barulho
A ele, respondo sem dó:
-- "Deveras, muito me orgulho...
Da minha falta de orgulho
Haja vista ser eu pó".
-- "Se uns pecam por ser demais,
Outros, por querer de menos..."
Argumenta em tons desleais
No afã de parecer mais
Face a meus olhos serenos.
De repente, ele s'exalta
E me aponta os senões todos,
Restando-me a fala incauta:
-- "Antes ter orgulho em falta
Do que ter falta de modos!"
Finalmente ele se afasta
Sem m'entender patavina.
Volta para a sua casta,
Cujo aplauso bem lhe basta.
Enquanto mais se amofina:
Talvez sob monge descalço
Outro impostor se revele
De pé sobre o cadafalso!...
Quem a seguir cai em falso,
Eis lobo e cordeiro em pele!
Betim - 03 04 2018
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Comentários (5)
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❈ 𝐿𝓊𝒸𝒾𝒶𝓃𝒶 𝒜. 𝒮𝒸𝒽𝓁𝑒𝒾 ❈
2024-11-27
Lindos poemas ,meu caro!
Maria Antonieta Matos
2022-03-11
Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />
edu2018
2018-06-11
POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!
namastibet
2018-04-21
bom vê-lo por aqui
rosafogo
2017-12-27
Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.
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