Escritas

Lista de Poemas

A BORDO

A barca que me leva para as ilhas
Sulca as ondas d'um mar esmeraldino.
D'olhos arregalados me amenino,
Navegante entre sais e maravilhas...

Carreira dos Açores às Antilhas
Onde poentes segredam-me o destino!
Alma atlântica posta em desatino
Após atravessar milhas e milhas.

Desperto em meio à névoa matutina
Na qual mui lentamente em derredor
A imensidão além se descortina.

Ali, envolto todo em pleno albor,
O mundo evanescente na retina
À voz que vem de dentro faz maior.

Peruíbe - 10 07 2018
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DESESPERANÇA

Às voltas co'os excessos do presente,
Andava com saudades do futuro.
Até me acostumei a ver no escuro
De tanto não ter nada à minha frente.

A decepção me fez indiferente,
A ponto de ignorar onde é seguro.
Há tempos que não sonho nem procuro
Senão obrigações de displicente.

Se já não sei torcer pelo melhor,
Tampouco me preparo pr'o pior:
Apenas sigo sombras pela noite.

Entrementes, os homens passarão
E a História julgará se a escuridão
Veio pela ilusão ou pelo açoite...

Belo Horizonte - 14 08 2018
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ANTIFASCISTA

De embrutecido apelo aquela união
De fortes se fazendo 'inda mais fortes
Contra uma ordem corrupta de vãs cortes
Mais o Mercado e sua avara mão.

Assim bem se seduz uma nação
Ao atapetar co'o sangue de mais mortes
A estrada do Poder após recortes
Que expurguem d'entre os bons qualquer vilão...

Mas, o que pode a pena contra a espada
Co'a violência corroendo feito cárie
A voz esclarecida ante a barbárie?...

-- Que ela escreva até ser silenciada.
E, a despeito do horror ou do egoísmo,
Jamais se curve em face do fascismo!

Peruíbe - 22 07 2018
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CICATRIZES

Não se vive essa vida impunemente...
Todo mundo, mais dia menos dia,
Faz o que não queria ou não devia
Face à necessidade mais urgente.

No fim ninguém -- nem um! -- é inocente.
Viver é ver perdida uma utopia,
Até se perceber sem fantasia
A éticas e morais indiferente.

À medida que vão passando os anos,
Ver-se às voltas com mais e mais enganos...
Tantas vezes partido o coração!

De resto, dos momentos infelizes,
Na pele contemplar as cicatrizes
Que n'alma são tão-só desilusão.

Betim - 20 06 2018
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CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO/ Primeira Parte: AO POENTE

Foi no tempo dos antigos
Quando dois arqui-inimigos
Viram-se enfim face a face.
Tinham os olhos sangrando
Ao longo de longo impasse,
Soltando, sem que findasse,
Faíscas de quando em quando...

Era o sol em agonia.
Era a lua em pleno dia.
Era ele o sol encarnado.
Era ela a lua de sangue!...
Eram os dois lado a lado:
Ele, rubro e envergonhado;
Ela, 'inda pálida e exangue.

O sol, ferido ao declínio,
Um firmamento sanguíneo
Deixa após si n'Ocidente.
Já a lua, vespertina,
Surgia em quarto crescente,
A luzir quase ao poente
Face ao sol e sua sina.

Como acontece há milênios
Pelos celestes proscênios,
Sucedia a lua ao sol.
D'esta feita, todavia,
Depois do rubro arrebol
Passando à cheia (um farol!)
Diversa se prometia...

Segundo efemeridades,
Estas astrais potestades
Transitam bem regulares
Quando vistas cá da Terra:
Têm das luzes estelares
Certas datas e lugares,
Que cada eclipse encerra.

N'aquela noite, portanto,
Para universal espanto
Mais um eclipse lunar
Estava escrito no quadro:
Havia-de se ocultar
A lua, até s'escutar
Mais alto de cães o ladro.

Com efeito, a lua cheia
Às imensidões clareia
Enluarando a cordilheira!
Pois, finda a fase crescente,
A lua se mostra inteira
E domina, companheira,
A noite resplandecente.

Pouco a pouco, todavia,
A sombra da Terra havia-
De lhe ocultar toda a face.
E o luar obscurecido
Avermelha-se fugace,
Tornando-se ao desenlace
Rubro qual sangue vertido.

* * *
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CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO - Segunda Parte: PROSÉLITOS

Segunda Parte: PROSÉLITOS

Contudo, por toda parte
E com toda a espécie d'arte
S'elevaram muitas vozes
De líderes religiosos,
Que com libelos ferozes
Arvoraram-se os algozes
Dos erros pecaminosos.

Como se o braço de Deus,
Espevitavam os seus
Com ardor contra os demais,
Porquanto o mal manifesto...
Corrompida a Humanidade,
Eram eles, na verdade,
Dos homens santos um resto.

Arrastavam multidões
Em extensas pregações
A relembrar profecias
D'esses eventos finais.
Afirmando em gritarias
Ser aquele o fim dos dias
Face aos bíblicos sinais.

Havia, de facto, a imagem
-- No livro de Joel passagem
Dos oráculos do Senhor --
Contando a sua visão:
Onde um sol já sem ardor
Cede no céu seu fulgor
À mais plena escuridão

No lugar, tão-só a lua
Sem estrelas continua
A reluzir, contudo,
Plena e sanguínea no céu.
Indicando o fim de tudo,
Onde crentes sobretudo
Veem a desdita do infiel!...

Como Joel descreveu,
A lua em seu apogeu
Fez-se sanguínea também
E os céus não mais deixaria.
Somente um resto, porém
Reunido em Jerusalém
Com fé sobreviveria.

Os mais, perdidos nas trevas,
Co'as suas paixões malevas
Vendo os crentes verdadeiros
Livres de tão triste sorte
Onde desastres inteiros
E, ao fim, quatro cavaleiros:
Peste, guerra, fome e morte.

Após a última trombeta,
A cristandade completa
Veria o instante esperado
Só então, o crente fiel
Com Jesus ressuscitado
É também arrebatado
A ir ter com Deus no céu.

Aos que ficam -- diziam eles --
Resta a mesma a vida reles:
O mundo e sua injustiça
Permanece sem final.
Pois, onde o pecado viça
Na luxúria e na preguiça
Continua tudo igual!

A leituras desonestas
E tão obtusas quanto estas
É difícil contrapor,
Enfim o que quer que seja.
Se, para meu estupor,
Confundir mediante o horror
No fundo é o que deseja.

-- "Tendo fé como argumento,
A verdade é treinamento!" --
Eis como com inconstância
Um intolerante ensina
A sua própria intolerância
Àqueles que com grande ânsia
O veem igual lamparina...

Qualquer frase repetida
-- quer banal ou esclarecida --
Dogma virava em seus lábios.
Clamando em nome de Deus
Contra islamitas arábios,
Cientistas, artistas, sábios
E seculares ateus.

Tenho claro que tais falas
Ecoando por amplas salas
Tocam muitos corações.
Porém, são sobre política
E não sobre religiões...
A estes extensos sermões
Sempre falta autocrítica!

Mas as mensagens pastoras,
-- Autolegitimadoras!... --
Têm em comum entre si
O senso de que a Verdade
É a mesma aqui e ali,
A reluzir igual rubi
Para toda a Humanidade.

Em discussões cheias de nada
Tão-somente confirmada
A doutrina em seus enigmas
Deve ser por seus doutores...
Onde dogmas e querigmas,
De Jesus veem os estigmas
Ao celebrar-lhe louvores.

Assim, condenam o mundo
E o descrevem moribundo
À espera de seu final.
Em tudo vendo prodígios,
Já creem do bem contra o mal
A lua em sangue um sinal
Após guerras e litígios.
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CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO / Terceira Parte: EM NARRATIVA

Terceira Parte:
EM NARRATIVA

De que servem os artistas
Os poetas, os romancistas
E os contadores de histórias,
Senão a elevar heróis?
Com inventadas memórias
Exaltando as suas glórias
Entre rubros arrebóis!...

Historiar é encontrar
Onde os actos têm lugar
E onde o herói se movimenta
Em plena metamorfose:
Muito sofre, pena, tenta,
Perde, ganha, luta e enfrenta
Até a sua apoteose!...

Há-que pôr em narrativa
Quanto bem ou mal se viva
Por o que, como, quando e onde...
Em tempo e espaço cobertos,
Vastas questões responde
Ao dispor o que s'esconde
Como se livros abertos.

Mas dizem que o bom enredo
Surpreende, quer triste ou ledo,
Até o próprio escritor!...
Que uma história bem contada
É a que do início ao fim
Lê-se a varar madrugada,
Mantendo a mente encantada
Como fosse mesmo assim.

E que cada personagem
Nos traz alguma mensagem
Do que seja estar e ser.
E de tanta humanidade
Se lhe possa perceber,
Em cada lance a vencer
Por fim, a sua verdade.

Quer d'aqui ou de nenhures
Aonde algures e alhures
Nos leva a imaginação,
A história nos transporte
Pelas voltas da ficção
Com razão mais emoção
Para além de vida e morte.

Lua e sol ponho em cordel
Para um eclipse no céu,
Além de nos encantar,
Iluminar nossas vidas.
E 'inda desmistificar
Lendas que tomam lugar
De verdades conhecidas.

Quem quiser manipular
A fé do povo em lugar
De se procurar respostas,
Tenha ao menos a visão
De que a sua opinião
É igual a outras apostas:

Se Deus mesmo ninguém viu
E da morte não se ouviu
Qualquer palavra de volta,
Tudo é especulação!...
Sem mais, fica só revolta
Ou lamento que nos solta
Por angústia o coração.

* * *
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PASSADO UM ANO

De ti nada mais soube desde o dia
Que saíste de vez da minha vida...
Não houve rompimento ou despedida,
Apenas me negaste a companhia.

Tu jamais me soubeste, todavia,
O quanto a tua falta foi sentida.
Tampouco me viste a alma dividida
Em meio à realidade e à fantasia.

Certo é que me deixaste tão sozinho
Que mal posso lembrar do descaminho
Ao qual m'enveredei na noite escura.

Fuga que muito pouco me servira,
Enquanto repetia a vã mentira
Que foste apenas mais uma aventura.

Betim - 13 05 2018
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À ESCRIVANINHA

Manuscritos a cair pela gaveta
E a pena sobre folhas espalhadas...
Palavras há décadas guardadas
Chegando aos quatro cantos do Planeta.

Onde o ofício estranhíssimo do poeta
Faz-se de ideias tão desencontradas.
Que logo após em versos transformadas
Assombram pela escolha mais correta.

No caos de sensações e sentimentos,
Expressa em filigranas todo o ser
Ao grafar no papel seus vãos momentos.

E indiferente a quanto fosse obter
À escrivaninha, enfim, sem mais intentos
Passou todos os dias a escrever...

Betim - 12 05 2018
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SAMAMBAIAÇUS

No barranco da estrada junto à mata,
Eis samambaiaçus por todo o morro!
Em maravilha, ao longe os olho corro
E a paisagem do bosque me arrebata.

Era em lugar incerto e hora insensata,
Quando lh'as surpreendi a andar mazorro
Ao longo d'esse vale que percorro,
Ouvindo sussurros de cascata...

A fuga em algazarra dos miquinhos
Em meio à matinal dos passarinhos
Completam-me o concerto d'alvorada.

Admirado de quanto vi e ouvi
Agradeço tão-só d'estar aqui
Em face da beleza sublimada.

Ubatuba - 20 07 2017
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Comentários (5)

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2024-11-27

Lindos poemas ,meu caro!

Maria Antonieta Matos
Maria Antonieta Matos
2022-03-11

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />

edu2018
edu2018
2018-06-11

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet
namastibet
2018-04-21

bom vê-lo por aqui

rosafogo
rosafogo
2017-12-27

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!