Lista de Poemas
Zélia
Sonho tanto com sua casa (que só conheço de vídeos) e nesse
sonho somos amigos
O tempo é bom e a açúcar derrete na xícara do chá colhido de
uma horta vertical toda estilosa
Pequenos bibelôs povoam a casa, junto com plantas e mais
plantas que se espalham, tranquilas, por todos os lugares
A gente no sofá lendo poemas negros de Lucinda e Assumpção
e Maya, explorando os sons e o gosto daquelas palavras juntas
que se ampliam em significados
Aí misturei esse sonho com outro de tragédia de um filme que vi
Mas te ajudei a fugir de uma gangue de coelhos anarquistas
Acho que o pó do sonho ainda afeta minhas imagens e palavras
Esses são meus Duncanismos matinais.
A Menina e a Lua
A menina olhava para a lua
E se deleitava
Gostava da forma
Da cor
Do jeito
Uma noite a lua estava lá
Mas não inteira
Faltava um pedaço, coitada
A menina ficou tão preocupada
- Mamãe, comeram um pedaço da lua!
E a mãe disse que não, que logo ela voltava
Mas a menina se desesperava
- Cadê o pedaço da lua? Onde está o pedaço da lua?
E chorava
Com o tempo ela entendeu que a lua sempre voltava
Maior, menor, mais ou menos cheia
Mas sempre voltava
Hoje, mesmo já adulta e de cabelos brancos,
por vezes ainda olha pra cima, meio desconfiada,
e se pergunta:
- Onde será que foi parar o pedaço da lua?
para Laura Campos
Onde Dormem As Borboletas?
Fiquei pensando outro dia
em uma cama para borboletas
Elas estão nessa casa em tamanho número
Que quero ser um anfitrião melhor
Fui buscar por aí informações sobre o sono
das bichinhas
Os biólogos dizem que elas não dormem verdadeiramente
(Meio como eu, na verdade)
Repousam em folhas e galhos mais protegidos
para que seus predadores não as vejam
Isso me intrigou
Essas moçoilas são mais espertas do que eu imaginava
Mas achei uma tremenda contradição
Uma discrepância
Uma incongruência
Um paradoxo
A borboleta mais linda
Tão amarela quanto o sol
Só aparecer à noite
E só de madrugada
Ela é tão difícil de ver quanto a felicidade,
mas, do mesmo jeito,
Vale a pena procurar
A Vizinhança do Vizinho
Me avizinhei do vizinho que sempre viveu sozinho
Fiz um café para ele, conversei com ele
E disse que ele podia frequentar minha casa
Se quisesse, claro
Ele é um homem velho
Com dificuldade para andar e ouvir
mas é tão fácil ganhar seu sorriso
é só ler poemas
Quem diria?
Eu aqui, labutando nos meus versos
batendo na pedra bruta para tirar algo que preste
e alguém que quer ouvir na mesma rua
Li vários dos poemas desse livro
e contei histórias de como eles surgiram
o homem vizinho ouviu com atenção
(mas não tenho certeza se ele de fato ouvia)
Sou novo na cidade, então conheço pouca gente
Mas passei horas na cozinha daquele vizinho
Tomando café e ouvindo histórias
De como a esposa faleceu de câncer
O filho de acidente de carro
E de como ele ficou sozinho
Eis então que o homem vizinho
Não tinha sido assim sempre tão sozinho
(eu deveria dar um pito em quem me contou isso)
Tinha tido uma família
Mas o tempo passou e ele ficou
Gostava de cuidar do seu jardim
Gostava de colocar um pedaço de manteiga no prato
e amassar o pão em cima
Gostava de pele de frango, mas sabia que não podia comer
Gostava de seu cachorrinho, o Pileque
(e ele nunca me contou o motivo desse nome)
Chamei então o vizinho de amigo
E ele veio aqui e leu muitos poemas
de tantos e tantas poetas
E riu, riu tanto aquele homem
Hoje passei pela casa dele e não o vi na cadeira da varanda
E me preocupei
Soube depois que ele nos deixara
Um ataque fulminante no jardim
E o Pileque agora vive comigo
Um enfermeiro me confidenciou no dia
Que o homem vizinho sorria
quando o encontraram
Gosto de acreditar
que tenho algo a ver com isso
Quinze Dias
Perdi minha mãe há exatos quinze dias
e esses têm sido os piores dias
Muita gente pergunta
“Por que você não chora?”
E eu respondo:
“Porque eu não consigo”
Não é como se eu não tivesse chorado
(Chorei sim e bastante)
Mas falo dela e de coisas de velório e enterro
com certa naturalidade
por ainda não ter me caído a ficha
(“Cair a ficha?”, diria minha mãe, “Que coisa mais antiga!”
Para as novas gerações: ainda não baixei a informação)
O problema é que minha mãe não era uma pessoa só
– ela era um exército –
E isso não facilita nada
Minha irmã falou:
“Ela não facilita, né?”
E eu disse que não, não mesmo
Ela falou a vida toda em ir para a Patagônia
E agora eu quero ir por ela
(e também porque deve ser bonito)
Lembro de minha mãe com muitas coisas
Poemas, histórias, fotos, retratos e eu tento nem ver muito
“Ela só foi viajar”, é o que a voz na minha cabeça diz, “logo volta”
E deve voltar mesmo
Mas acho que, na verdade, sou eu é que vou encontrá-la
Mãe,
fiquei de falar umas coisas, mas não consegui
Filmes que eu ainda não vi
Livros que eu ainda não li
Como posso te perguntar o nome dos atores dos filmes que
vejo?
Tem e-mail no céu?
Eu não tenho saudade
Porque ela está tão viva
Tão, tão viva em mim
No rosto da minha irmã
No sorriso da minha tia
Nos olhos da minha avó
E o papagaio ainda fala com a voz dela.
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