A Vizinhança do Vizinho

Me avizinhei do vizinho que sempre viveu sozinho
Fiz um café para ele, conversei com ele
E disse que ele podia frequentar minha casa
Se quisesse, claro

Ele é um homem velho
Com dificuldade para andar e ouvir
mas é tão fácil ganhar seu sorriso
é só ler poemas

Quem diria?
Eu aqui, labutando nos meus versos
batendo na pedra bruta para tirar algo que preste
e alguém que quer ouvir na mesma rua

Li vários dos poemas desse livro
e contei histórias de como eles surgiram
o homem vizinho ouviu com atenção
(mas não tenho certeza se ele de fato ouvia)

Sou novo na cidade, então conheço pouca gente
Mas passei horas na cozinha daquele vizinho
Tomando café e ouvindo histórias
De como a esposa faleceu de câncer
O filho de acidente de carro
E de como ele ficou sozinho

Eis então que o homem vizinho
Não tinha sido assim sempre tão sozinho
(eu deveria dar um pito em quem me contou isso)
Tinha tido uma família
Mas o tempo passou e ele ficou

Gostava de cuidar do seu jardim
Gostava de colocar um pedaço de manteiga no prato
e amassar o pão em cima
Gostava de pele de frango, mas sabia que não podia comer
Gostava de seu cachorrinho, o Pileque
(e ele nunca me contou o motivo desse nome)

Chamei então o vizinho de amigo
E ele veio aqui e leu muitos poemas
de tantos e tantas poetas
E riu, riu tanto aquele homem

Hoje passei pela casa dele e não o vi na cadeira da varanda
E me preocupei
Soube depois que ele nos deixara
Um ataque fulminante no jardim
E o Pileque agora vive comigo

Um enfermeiro me confidenciou no dia
Que o homem vizinho sorria
quando o encontraram
Gosto de acreditar
que tenho algo a ver com isso

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