Escritas

Lista de Poemas

Outono quente

A praça espera pelo teu sorriso,
Todos as luzes adormeceram sufocadas por um choro surdo,
Ansiosas pelo resplendor ao sol que cada passo teu representa,...


Já não há noites estreladas,
Só dias iguais ao entardecer
E diferentes na ânsia de quererem calor morno de um sol desenhado a tons de alegria,...


Volta,
Levanta te desse sono indissociável do silêncio que me arranha a alegria de estar vivo ...
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Se de hoje a mil milhões de anos

Se de hoje a mil milhões de anos eu ainda estiver aqui sentado à tua espera,
Não me irás ver mais,
A tua memória ficará no éter do que o universo for na altura,
Eu serei pó,
O resto do que foi a experiência de te ter sorrindo,
Capaz de me desfazer no mais pequeno átomo de felicidade,
Que com a explosão das coisas reais me devolvia à infelicidade da felicidade desenhada,...

Se de hoje a mil milhões de anos eu ainda aqui estiver sentado á tua espera,
Olha em frente e verás que estás a um segundo de não me largares na infinidade do para sempre..
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Cidade pequena

Foi o pior dia de vidas que estavam unidas, naquele corrupio de eternos anoiteceres ocorrido quando as costas se viraram. Da calma de uma praça de cidade pequena, de repente, surgiu a tempestade do saber-se que nunca mais olhares apaixonados se cruzariam. Lágrimas rolavam até se partirem, como cristais, na calçada portuguesa endurecida por décadas. Só restou a enviesada sensação de que às vezes é assim que se desfiam os pormenores da tristeza como costela imprescindível da condição humana...
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Rosa e quem a vê

Ontem à noite houve amor, a julgar pelo sorriso transversal. Uma boca assim diametralmente oposta ao pescoço, esforçando-se por assegurar os primeiros raios de uma madrugada preguiçosa. Se calhar é Rosa, porque Margarida é branca.
Sem sal.
Incongruências que não há, quando se observa de perfil.
Salta à vista um golpe.
Não, dois.
Com certeza três.
Estão na coxa translúcidamente morena, pouco acima da rótula.
Rosa é recatada, da porta para fora. Mal o último fio de cabelo cor de noz se escapa à prensa da porta do apartamento, muda. E muda porque sim. Simplesmente, porque o mundo não tem nada a ver com um universo de petulâncias auto-impostas. E Rosa gosta.
E Rosa delirou na noite passada. A tranquilidade da auto-confiança, ajudou a que caísse peixe na rede. Foi trazido para casa, dissecado toscamente.Abusado, mas não violado. Rosa gosta do vento que lhe afaga a boca quando tem na mão o coração de um homem. Por isso deixa a janela do quarto aberta. O ângulo é o suficiente para o néscio olho do mundo ver tudo o que se passa. E depois comentar.A manhã rompeu, não particularmente.
Observatório de emoções, não contundentes.
E quem escreve sobre o que vê, assume que adora o que descreve. Mede a profundidade dos supra-citados golpes de paixão. Admira curvas que não são dizíveis na retórica de um criador.Participa, quanto muito, na acção. Na côncava descrição de factos. Não opina sobre eles. Relata-os, esperando que eles se desfaçam na bruma da aceitação de quem lê.
Rosa é por muitos, aquilo que nunca foi por ninguém. Espera pelo mundo, quando ele já há muito que não espera por ela. Nota-se isso, quando deixa cair um toque sensível nas costas de quantos estranhos lhe passam por casa. Afaga-os, dilata-os, diminui esperanças. E hoje saiu de casa com uma vida invisível pela mão. Um, dois, três golpes para trancar o seu mundo, e dois passos para entrar no outro. Aquele que despreza, e dava tudo para exterminar.
Segura a bolsa dos desejos reprimidos, enquanto passa olhos de amendoa pelas primeiras da manhã. Rosa queria que o mundo estivesse sempre de pijama. Que fizesse amor com ele numa perspectiva de desvario cósmico, talvez porque o homem é um eterno apaixonado pelo contínuo da criação. E a mulher imita, porque sempre imitou tudo, para fazer melhor que o homem.
A história acaba, porque tem de acabar. Quem descreve, não é omnipresente. Quem é descrito, não pode perceber que é dissecado.
E Rosa vai voltar logo à noite
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Big Bang só

Dessas nuvens que não são céus mas são profissões de sumida lealdade,
Desceram falos,
A ideia justa do fim da humanidade,
E tudo voltou ao começo,...

Com animais feitos pessoas animais,
E pessoas animais desfeitas ao sol quente dos idos de um Natal arredondado,...

C hoviam nuvens de vapor cozido,
Para vir a morte doce da tal explosão,
Que fazia tudo voltar ao princípio,
Doente,
E desfasado do que acabamos de conversar em choros de bebê velho..
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Escrito sim, vivido não

vi gente a escrever
com polegares,
algarviadas,
assobiadas,
pela celeuma de dias pesados,...

a serem frutos carunchosos,
foram polpa de sangue,
porque vi desnorte,
senti composições fúteis
e de sentido inexpugnavelmente
triste,....

li até os olhos
me doerem mais
que maviosos ses colaterais,....

foram tertúlias que me
mergulharam para não me afogar,...

e no fim sol referente,
dias que laqueavam as
singelas tentativas de
mudar o mundo,....

pus-me de menos
por tentar cingir-me
em posição de feto
desiludido,...

nasceu o sol,
log-off, obra fechada,
e consciência morta,....

menos uma noite para
despedir o mim
feio e corrupto....

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Astrofelicinauta

Desembainhado das calças de sol,
Desfeitas as golas de estrela de uma camisa
empoeirada de luar,
E feitos os aprumos num colete desenhado a fios de constelações,
Sobrou o silêncio do limite do universo esquadrinhado a lápis de morte...
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...de dentro de tudo

De dentro de tudo, de dentro do tempo, por fora dos segundos perdidos,
Na roda,
Dos minutos ganhos enviesados a mirar,
De dentro de tudo sobes por qualquer coisa difícil nos rebordos que o
Vento deixa,...
Faço-me de pintor do Sol que é juiz de toda esta contenda,
E com cuidados de som,
Fica abafado,
O rumor que a morte deixa,
Por dentro de tudo...
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