Lista de Poemas

Chuva II

ॐ   Funesta era a manhã de hoje, milhares de Almas desoladas cometiam suicídio coletivo. Uma acinzentada nuvem ranzinza, carregada com os mais pretumes sentimentos e os mais lúgubres pensamentos, se estendia por milhas e milhas de distância no Céu. Tão densamente entristecida e tão severamente rancorosa era, que não permitia se quer que os gracejos calorosos de Apolo arrancassem-lhe um só sorriso matinal e atravessassem, por um só segundo, as suas toneladas existenciais de sua mortuária imensidão. Os murmúrios de teu íntimo, ocos e blasfêmicos, ecoavam impetuosos, intempestivamente fatais às Vidas dos mortais que abaixo residem, fazendo com que as estruturas na Terra vacilassem ao tremor do Medo que as assolava.  Era mais que claro no consciente tempestuoso mundano, que ninguém ousava sair de suas casas quando o Colosso estava impassível, aflitos ficavam recolhidos embaixo de suas camas frias de madeira – estavam as famílias e os animais. De baixo das pontes os descrentes sem-tetos se escondiam do julgamento dos Céus, segundo o senso comum – mas a estes , o fim do dia nunca chegava após tais implacáveis tormentas, hirtos e gélidos padeciam sem Esperanças, apenas desejos utópicos, uns tinham fieis companheiros, cachorros ou gatos, unidos pela mesma miséria até a Morte. – Decido sair de meus devaneios racionais e torno meus soturnos olhares ao Infinito –. Tristosos saltavam das nuvens gélidas de concreto acinzentado os inconstantes orvalhos joviais, para o grand finale do espetáculo de horrores da Natureza, em seus últimos resquícios de existência antes de se transmutarem em milhares de partículas, expectativas e predições ao colidirem contra a minha embaçada janela de vidro. O Céu hoje está em Luto, meus sinceros sentimentos a cada Gota de Chuva que agora jaz na Terra em mais uma manhã amarga de Quarentena. ॐ
 
Um fragmento do projeto Chuva, o texto "Chuva II", por Niaxe Augusto ॐ
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A Morte literária d’um Poeta

E, então, nas entranhas de minha escuridão indômita, o Céu se mostrara por um fraco feixe de luz vindo de minha varanda. A alvorada de traços perfeitos, pigmentada por algum mestre das Artes superiores, que eu não saberia ao certo dizer-lhe quem seria ou até mesmo o que seria – tal entidade agênero – Cético eu era até o momento em que encontrei-te verdadeiramente pela primeira vez, tamanha serenidade e formosura deleitaram os olhos meus, olhos estes, que antes volviam-se ao Orco de meu Ser com desgosto. Aquele dia tinha um odor forte de café amargo, eu aproximei-me lentamente da janela, os únicos sons existentes a me circundar eram o do Silêncio mútuo e ensurdecedor da sala de estar, o das minhas companhias mais íntimas balbuciando falácias que transpassavam os meus ouvidos em direção à minha mente e retornavam ecoando no vazio meu em formas de afirmações sólidas envenenando o meu cálido coração e o do barulho quebradiço de ossos não mais lúbricos, por conta da corrosão do Tempo e da flacidez da carne a se arrastar pelo chão gélido de cerâmica cor bege. Uma odisseia homérica de músculos a praguejar, que sugara noventa e nove por cento de minha expectativa de vida. Lembro-me, que com o um por cento de anseio a vida que me restara pude eu romper novamente os limites predefinidos ao meu corpo físico e consegui abrir as dobradiças da janela empoeirada, o suficiente para que o Sr. Vento acariciasse a minha negrume cabeleira com um último cafuné e trouxesse a doçura do olor das roseiras às minhas narinas –saudades terei da brisa do litoral. E, também, fora o necessário para que o Lume vindo do Céu transpassasse a barreira de carvalho bruto entalhado ano a ano por cicatrizes e desilusões na superfície janela de minh’alma, apaziguando assim, a Dor remanescente.
"A Morte literária d’um Poeta" por Niaxe Augusto.
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Direitos

Direito de ver-te, não o tenho;
Direito da fala, calaram-me pelas pragas;
Direito da privacidade, tiraram-me e lançaram aos porcos;
Direito de escutar-te, não permitiram, e, tornaram-me um andarilho surdo;
Direitos estes negados, decretados por aqueles detentores da ditadura que me oprime.
 
A ti, biltre, celerado: – Amor dou-lhe!
Grasno as minhas palavras, mas, conto-lhe que o amo.
A mim, ser negado: – Hei-me a conjurar toda essa cólera aos pútridos que governam.
 
"Direito" por Niaxe Augusto.
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Quatro Estações

ॐ Amanheço Inverno sem ti ao meu lado,
Mesmo inconformado, caio no conformismo corriqueiro
Aquecendo-me à medida que o dia passa, hei-me Verão.
A luz esperançosa beira-me nos raios do meio-dia,
Novos tempos hão de contemplar minhas planícies,
Floresço vespertino em ramos límpidos
E alimento-me com meus frutos não pecaminosos, hei-me Primavera.
Porém, à medida que avanço pelo antro da noite sem ti,
Um vazio avassalador adentra em meu íntimo
Meus frutos diários apodrecem, minhas raízes perecem
E os galhos, ovantes, que revestem o peito meu secam.
Cansado bebo fluidos, em vão, nada me completa, hei-me, então, Outono.
Em fúria, minha natureza derrama tempestades madrugada adentro.
Esgotadas, minhas nuvens, cessam a gélida chuva e os trovões,
Caindo no conformismo corriqueiro.
Então, amanheço, novamente, Inverno sem ti ao meu lado. ॐ
 
Poema "Quatro Estações", por Niaxe Augusto. ॐ
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O vômito

ॐ Hoje eu vomitei palavras,
Letra por letra,
Sílaba após sílaba,
Palavras e mais palavras,
Fonemas, granados e gemidos estranhos,
Sem coerência, nem coesão suficiente
Para que o mundo exterior ao meu redor pudesse entender.
Acadêmicos até tentaram especular,
Ou melhor, qualificar,
O conteúdo exposto em minha bile,
Com seus termos científicos e (pré-)julgamentos pessoais, todos em vão.
Eu expeli tudo que retive,
O remanescente,
O evanescente
E a nascente de rio que mantive em segredo no meu antro, agora já oco.
Regurgitei, até mesmo, o que viria de incerto no enigmático futuro.
Sem alívios...
Tenha certeza disto...
Isto estava a romper as minhas cordas vocais.
Eu expurguei todo o Caos de meu íntimo
Até chegar ao ponto final de minh’alma,
O período em que me afoguei em exclamações, desculpas e duvidosas mágoas
Que não mais liquefazem-se em poesias,
E, nem ao menos permitem-me deleitar minha visão
No translúcido reflexo meu
Nessa miscigenada poça de lágrimas, lamurias e vômito verbalizado.  ॐ
 
Poema “O vômito” da coleção “O poder da Ansiedade e o reflexo do corpo”, por Niaxe Augusto. ॐ
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Chuva III

Morreu...
Simplesmente, tu morreras...
Morreste, meu jovem...
Quantas fichas precisarei deixar cair...
. . ..Para acreditar que partiras?......
 . . . .  ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 . . . . . . . .   . . . . . . .   . . . . . . .
     .  .       .     .    .     .    . .
    .... . . . . . . . . . . . . . ....
     . .  . . .   . . .
     . . . . . . .
    . . .
    ॐ
Um fragmento do projeto Chuva, o texto "Chuva III", por Niaxe Augusto ॐ
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