A Morte literária d’um Poeta
O Homem Morto - Niaxe Augusto
E, então, nas entranhas de minha escuridão indômita, o Céu se mostrara por um fraco feixe de luz vindo de minha varanda. A alvorada de traços perfeitos, pigmentada por algum mestre das Artes superiores, que eu não saberia ao certo dizer-lhe quem seria ou até mesmo o que seria – tal entidade agênero – Cético eu era até o momento em que encontrei-te verdadeiramente pela primeira vez, tamanha serenidade e formosura deleitaram os olhos meus, olhos estes, que antes volviam-se ao Orco de meu Ser com desgosto. Aquele dia tinha um odor forte de café amargo, eu aproximei-me lentamente da janela, os únicos sons existentes a me circundar eram o do Silêncio mútuo e ensurdecedor da sala de estar, o das minhas companhias mais íntimas balbuciando falácias que transpassavam os meus ouvidos em direção à minha mente e retornavam ecoando no vazio meu em formas de afirmações sólidas envenenando o meu cálido coração e o do barulho quebradiço de ossos não mais lúbricos, por conta da corrosão do Tempo e da flacidez da carne a se arrastar pelo chão gélido de cerâmica cor bege. Uma odisseia homérica de músculos a praguejar, que sugara noventa e nove por cento de minha expectativa de vida. Lembro-me, que com o um por cento de anseio a vida que me restara pude eu romper novamente os limites predefinidos ao meu corpo físico e consegui abrir as dobradiças da janela empoeirada, o suficiente para que o Sr. Vento acariciasse a minha negrume cabeleira com um último cafuné e trouxesse a doçura do olor das roseiras às minhas narinas –saudades terei da brisa do litoral. E, também, fora o necessário para que o Lume vindo do Céu transpassasse a barreira de carvalho bruto entalhado ano a ano por cicatrizes e desilusões na superfície janela de minh’alma, apaziguando assim, a Dor remanescente.
"A Morte literária d’um Poeta" por Niaxe Augusto.
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