Lista de Poemas
Quando se faz poesia
Quando a gente faz poesia, a gente inventa. Inventa histórias, romances e lugares aonde nunca iremos. Às vezes até inventamos uma coisa triste só para poder falar de tristezas, quando, logo depois, vamos para um lugar alegre, deixando a tristeza para quem lê. Às vezes até inventamos alegrias só para esconder nossas tristezas, e as gentes acreditam que estamos alegres, só que não estamos não.
Às vezes inventamos que alguém nos ouve, a bailar com as palavras doces, buscando rimas, formando versos, esperando a hora de dizer nos ouvidos certos, o improviso que a gente já fez antes.
Às vezes a gente só está querendo desabafos, desses que parecem gritar pelas janelas, mas, falta coragem. Outras vezes a gente só vai escrevendo versos e palavras, que no fundo não querem dizer nada, só um poema que vai desenrolando como se fosse um novelo pelo chão a distrair um gato. O duro é quando a gente cisma que isso é poesia, quando, no fundo, é só versalhada.
Outras vezes parece que é uma coisa ritmada, que vai numa cadência, parece que numa batucada, e vai ficando pra lá de animada, essa coisa lúdica, brincada, e descobrimos que estamos fazendo letra de música, e de poesia não tem nada.
E a papelada vai se acumulando, com um monte de versos a subir na mesa, que a gente esquece que é poeta e no fundo somos apenas escribas a enganar a gente mesmo.
Tem tudo nesta vida, todo mundo, de repente, sabe de tudo, é receita de médico que cura tudo, essas coisas de doença, é solução dos problemas do mundo, economia, antropologia, sociologia, todo mundo tem o caminho certo, para que o mundo melhore. Tem gente que até a vontade de Deus sabe, e cabe direitinho no que a pessoa pensa.
Mas, poeta, gente, é diferente. Não acha pelos cantos, ou sai da faculdade, pronto. O poeta não nasce, ele é nascido, já vem de berço, quando a menina ou o menino parecem enxergar diferente o que o mundo acha o mesmo.
O poeta é um tipo de fênix que se deixa queimar por dentro, e começa a brotar palavras, como brotoeja que se alastra, uma alergia que não cabe dentro de si. O poeta é um mágico que tira da cartola, da manga, sei lá de onde, uma maneira de falar que não esconde, um espírito que lhe adentra, se assenta e deita a falar de mundos distantes.
Fala de amantes que teve e que nunca tocou, e parece que deu beijos longos e deixou saudades que não houve. Poeta aparece assim, de repente, nem ele sabe que é. E sai inventando histórias de amor que não teve, fala em três palavras tanta coisa, que parece aquela pílula que a gente toma, danada de pequena, mas que quando entra dá um alívio estranho e se espalha no corpo da gente.
É um médico, o poeta, só que ele fabrica o remédio, e nem sabe quem toma. Somente quando se abre o livro, é que o paciente percebe que uma doença que não sabe existir, lhe toma.
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Declaração de amor
Não te amo porque você é bonita. Mas, te amo porque você é linda, não dessas belezas que fascinam, nos deixam boquiabertos, olhos perdidos. A tua beleza me impressionou não sei se por causa dos olhos, dos cabelos, da voz, ela me deixou impressionado pela indiferença tua, pelos meus olhos que não paravam de te olhar.
Amor à primeira vista? Foi amor por eu ter te visto, te encontrado, de repente, quando nada de diferente parecia que ia me acontecer. Foi por causa das noites mal dormidas, sonhos interrompidos, olhares fundos, vontade de construir poesias, enxergar vida e sentimentos onde já existiam, e que passavam ao largo: passei de egoísta a perdulário.
Foi pela vontade de chorar, só de imaginar que você poderia desaparecer, simplesmente acordar e me convencer de que o que eu sentia não era amor, era paixão, e paixão é efêmera, e essa confusa mistura de sentimentos não ser longa o suficiente para sobreviver.
Permita que o teu príncipe não se ponha de joelhos, ele vai te olhar de frente, e seguir adiante, desde que você esteja ao seu lado.
Não quero que você seja o meu passado, não quero que você seja uma história para contar no futuro, quero que você seja o presente que eternamente eu leve sempre dentro de mim, em lugar seguro.
Comecei a te amar não sei por quê. E foi por tentar descobrir que não consigo deixar de te querer.
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A PROCURA DA POESIA
Não. Não te esgotes em parir a poesia
Deixe que ela venha como um espírito pedinte
O barco partido por longo tempo à espera do porto
Ou mesmo os passos solitários no bater da porta
Não te esgotes em querer a poesia
Deixe-a só, isolada e pensativa
Um dia, ela, votiva, alça o voo e vem
Te buscar.
Ela é a Julieta que te espera no alpendre
Aguardando o som da cotovia
Ela tem seu meio de anunciar-se
Está na solidão que te assalta
É o conflito, o desabafo da alma
É a própria maneira de pensar
É a lágrima que vem te enxugar
Deixe que ela venha como um espírito pedinte
O barco partido por longo tempo à espera do porto
Ou mesmo os passos solitários no bater da porta
Não te esgotes em querer a poesia
Deixe-a só, isolada e pensativa
Um dia, ela, votiva, alça o voo e vem
Te buscar.
Ela é a Julieta que te espera no alpendre
Aguardando o som da cotovia
Ela tem seu meio de anunciar-se
Está na solidão que te assalta
É o conflito, o desabafo da alma
É a própria maneira de pensar
É a lágrima que vem te enxugar
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A busca da verdade

Foi dito que a procura da verdade é a nossa libertação. A verdade pode estar em muitos lugares ou em lugar nenhum. Afinal, o que seria a Verdade, e qual Verdade está no contexto da primeira afirmação? Aquela que nos libertará!
A árvore do conhecimento que está na história bíblica do Paraíso tinha uma maçã como o fruto principal. A ela foi proibido o acesso, por ordem de Deus. Mas, e a dúvida está aí. Por que alertar o ser humano para não acessar a árvore do conhecimento, se a própria curiosidade é um dos traços dados ao Homem, é o principal motivador para a busca dele, o conhecimento? Um paradoxo celeste?
Eva, a culpada pela humanidade, e que tornou todas as mulheres as responsáveis por nossas mazelas, que tanto vemos nas culturas, as formas como as mulheres são mantidas, enclausuradas de forma física ou não, sob a forma de janelas e portas fechadas ou restritas aos olhares machistas, finalmente resolve ter acesso a ela. Será que por esse motivo a sociedade patriarcal mantém as mulheres afastadas, por que podem trazer o conhecimento? Talvez não haja um paradoxo celeste, mas uma forma velada de Deus mostrar como o homem é frágil. Quieto, calado, obedecendo, enquanto a mulher resolve ver o que está acontecendo.
Porém, aquela que dá a maçã para que Eva prove é uma serpente, mais uma no rol da culpa. Mas, também, podemos fazer uma pergunta sutil: afinal, o mal está no conhecimento que traz na maçã, ou o mal está naquele ou naquela que usa o conhecimento para seu desfrute individual. Em suma, a culpa está na maçã ou no seu portador?
A verdade, com certeza, liberta, mas que preço se cobra por essa liberdade. A diferença está no portador, sem dúvida. O conhecimento transmitido por cérebros, digamos, um pouco afastados de uma ética e respeito, é mais uma arma contra o receptor do que uma liberdade.
A procura da Verdade é uma arma poderosa contra nossos medos e receios. A curiosidade é um recurso importante, sempre se atualizar, reler, ponderar e criticar, colocar nossos valores e crenças em xeque. A verdade, trazida pelo conhecimento, é uma busca constante, e ter conhecimento é conhecer de verdade o portador, a fonte que vem até nós, muitas vezes travestida de serpente.
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Enquanto eu penso em você

O que você faz, enquanto eu penso em você? Você vai ao shopping e começa a olhar as vitrines, será que me imagina dentro de algumas dessas roupas, ou então imagina a roupa que poderia usar para poder me encontrar?
Enquanto eu penso em você, o que você imagina quando senta em um café e pede uma bebida que poderíamos curtir juntos, quem sabe colocando uma pitada daquele condimento desconhecido e que poderia me surpreender com um sabor inesperado, que me deixasse com o olhar perdido enquanto você riria com as minhas adivinhações absurdas?
Enquanto eu penso em você, você olha a sua carteira buscando as chaves do carro, apoiando a bolsa no seu joelho levemente levantado, com as minhas mãos lhe oferecendo apoio para que não caia, e o seu fingimento prolongando a procura, as minhas mãos firmes a te proporcionar um porto seguro?
Enquanto eu penso em você, você poderia estar na sua casa ouvindo uma música, aprendendo uma receita nova, procurando no jornal um lugar para viver a noite, uma peça de teatro, um novo filme, um show com um artista desconhecido, despontando em um barzinho perdido, mas badalado e famoso?
Enquanto eu penso em você, você abre a janela e olha a multidão passar abaixo do seu apartamento, apertada entre as luzes dos carros e das lojas, entre os barulhos de buzinas e conversas animadas, ou simplesmente em silêncio na sua casa vazia, ou então cercada de parentes, amigos, alguém que te interesse, algum vizinho, uma reunião de condomínio chata, preparando uma discussão ou um barraco com o dono do gato que importuna o passarinho que você mantém na varanda?
Enquanto eu penso em você, você estaria deitada no sofá da sua sala, ouvindo uma música, baixinho, se lamentando por que eu não disse o que você gostaria de ouvir, frustrada, chorando de raiva ou se consolando no ombro de alguém querido?
Enquanto eu penso em você, o que você gostaria que eu estivesse fazendo? Saindo da minha casa na direção da sua, pegando no telefone que você olha desolada, mudo, calado, sem sinal de vida?
Enquanto eu penso em você, você estaria pensando em mim? Enquanto eu penso em você, você imagina que eu existo?
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A ideia, o amor e o 2018 dos próximos dias
Já perguntou o poeta Augusto dos Anjos, de onde vem a ideia. A mesma pergunta fazemos sobre o amor. Ninguém sabe de onde eles vêm. Mas, é na imaginação nossa que eles progridem, crescem, ganham corpo e asas. Ideias e amores nascem não sabemos onde, mas eles têm um destino a cumprir que é de nos fazer tomar decisões, de nos fazer humanos e participar da comunidade em que vivemos. Nenhum solitário sobrevive, senão tendo ideias e amores escondidos. E se eles estão escondidos eles ainda não existem, porque não foram colocados à prova no embate da existência humana.
Nos próximos dias, novo número passará a contar e a fazer parte dos nossos dias. Alguns chamam de Ano Novo, e festejam, mas é apenas um novo número a requentar os mesmos dias.
Desejos de um novo ano são apenas desejos, assim como as ideias e os amores que não vicejam se são solitários, não vicejam como flores nos jardins de nossos contatos, aos ventos e dissabores dos nossos dias.
Nassin Taleb, em seu livro A Lógica do Cisne Negro, disse que nossos dias e nossos destinos são determinados pela sorte e pelo azar, nada está escrito, nem nas bolas de cristal e mãos humanas, e nem nas estrelas. Tudo se resume à sorte e ao azar.
Para que a sorte ou o azar se manifeste, antes de tudo devemos participar da festa: ninguém dança com alguém se não participar de uma festa. Ao mesmo tempo, participar da grande festa da humanidade, a solidão não tem vez; o motivo para o mundo nos descobrir é vir à luz dos salões do grande festejo humano.
Nossas ideias, nossos amores existem como participantes da festa, submetidos a todo tipo de sortes e azares, celebrações e aprendizados. Enfim, se deixar ver para ser visto.
O novo número que se aproxima, e que passará a ditar nossas futuras datas, é, antes de tudo, um convite para a festa. Repetir as mesmas fórmulas, esperando que o suposto novo ano se modifique, é achar que a humanidade vai se comportar como os nossos desejos, e isso é uma afronta para quem deseja ter suas ideias celebradas e a se preparar para novos amores.
Repetir as mesmas fórmulas é faltar à aula na grande escola da vida. E aqueles que faltam perdem um dia ou dias de aprendizado, e não podem delegar ao azar o fato de permanecerem sozinhos. Quando nossas ideias ficam guardadas na gaveta, quando nossos amores permanecem dentro de nós, com o medo da rejeição, o novo ano será apenas mais um número a contar os dias faltosos nas aulas.
Permita-se entrar na festa e a participar do grande salão iluminado, confronte-se, prontifique-se a mudar, encare o azar como acidente de percurso, porque existe uma ideia pulando por aí, existe um amor andando por aí, loucos de alegria para te encontrar.
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Uma história sem fim

No fundo sempre esperamos um final feliz para qualquer história: seja do menino pobre que vence na vida; do herói que, finalmente, salva o dia; do empregado que consegue alcançar o maior posto de comando em uma empresa e, por que não, do final feliz entre dois amantes, dois apaixonados que juram por todas as juras que o seu amor será eterno, enquanto durar.
De todas as histórias, mesmo o menino pobre que não vence na vida, acaba aprendendo uma lição, do herói que, apesar de não salvar o dia, mostra a coragem na luta e do empregado que, mesmo não alcançando o posto de supremo mandatário da empresa, coleciona as amizades e a admiração de seus pares. De uma certa forma eles têm um final feliz.
Ah! E os amantes?
Quando o final feliz adiado sine die, finalmente, encontra um final, a lição que se aprende é transformadora. Uma história de amor ao seu término invariavelmente deixa, para um dos lados, a dor da perda. O que se ganha em experiência, por mais que se transforme em lição, na verdade, fere o ser naquilo que a razão não se sobrepõe: A razão não se sobrepõe às razões do coração.
Para esse ser que sobra da relação, resta a dor da perda. Levar por um longo período da vida, mesmo que outras relações se estabeleçam, uma história sem fim. Uma história que nunca acaba dentro de si mesma. Uma história que a mente traz à tona no cheiro do perfume, no tom da voz, e nas fotografias que são deixadas de lado, mas que o manuseio traz a maciez da pele, do toque fino dos cabelos e no macio adocicado da boca.
Uma história sem fim é uma história que ultrapassa o final feliz. É a história interminável que sempre cai na conversa com os amigos, na visão distante do ser que se foi, do ser que não quis fazer mais parte da história.
Para os outros, a matéria da perda é sempre recuperada adiante, trazida pela experiência vivida. Para o amor não. Para o amor, um amor verdadeiro não consegue ser substituído. Ele é sempre cobrado, comparado, e pune mesmo aqueles amores que venham a habitar o coração abandonado.
Uma história sem fim de abandono é uma história que nunca vai terminar. Os atalhos, os caminhos que se trilham mais adiante são mais uma busca pelo amor perdido do que propriamente o encontro de um novo amor.
O novo amor vem mais maduro, não tão emotivo, mais preparado para a decepção, mais pronto para o soerguimento, vem com a sensação da perda já embutida nos beijos e nas promessas.
Paixões são vividas ad eternum, buscadas e conquistadas. Mas, são sempre calcadas na prudência, na preparação da perda. Ou são tratadas com desprezo, como se uma vingança interna estivesse sempre de tocaia.
A primeira paixão marca, é profunda, penetrante em um coração desavisado, aberto ao mundo, sem um colete para a flecha perdida lançada por um Cupido inconsequente.
A primeira paixão, essa sim, é uma história sem fim.
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Meu tálamo

MEU TÁLAMO
Meus braços desenham um abraço
e envolvem teu gemido doce
E tua respiração ouço,
enquanto minha boca
roça em seu ouvido,
e bem devagar desço ao teu pescoço
Absorvo teu cheiro, teu gosto
Minha mão percorre teu labirinto
lendo as imperfeições, os sinais,
as pistas que me guiam por instinto
pelos caminhos curvos do teu corpo
Meus dedos seguem essa pista
São os bailarinos no meio de uma dança
Querendo guardar na lembrança
Todos os segundos que passo contigo
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A história de um ateu
Era um ateu, assim considerado porque não via nenhuma espécie de conserto em alguma coisa. Coisas como fraternidade universal, bem estar da comunidade ou mesmo amor ao próximo. Dizia essas coisas aos quatro ventos. Muitas vezes saía dali e vinha pela madrugada levando cobertores para os moradores de rua, que ficavam à mercê do frio. Ela distribuía os cobertores ou mesmo fazia serviços colaborando com uma sopa, enquanto praguejava dentro de si mesmo, se afastando até mesmo quando algum grupo se juntava para rezar. Ele se afastava, e saía pelas ruas se compadecendo de algum cão que perambulava pelas ruas, ficando na eterna dúvida se deveria levar somente mais aquele para sua casa, e vê-lo se reunir a outros que o aguardavam cheios de mimos, latidos e agrados.
Festejava, quando lhe diziam, que o seu comportamento de ofender a Deus o levaria ao Inferno, e ele respondia que ainda bem que não se misturaria com quem não concordava. E não via nenhum problema em blasfemar, até porque não blasfemava, porque até mesmo se fizesse isso aceitaria a existência de Deus. Logo não perderia tempo com isto.
As lágrimas corriam de seus olhos, silenciosamente, quando via negros e pobres, crianças serem afugentadas por seguranças e policiais dos locais mais nobres, e quando se sentiu mal, resolveu morar perto deles, para que de alguma maneira pudesse ajudá-los. E não aceitava um agradecimento em nome Dele. Achava absurdo, porque ele o fazia porque queria, movido por alguma coisa que desconhecia.
Retribuía dizendo que se Deus existisse não teria permitido as injustiças no mundo. E que as ações de cada um é que poderiam mudar o mundo, e fazia todas elas dando o exemplo de como seria possível.
Se dizia infeliz consigo mesmo, quando olhava no espelho, apesar de, escondido, um sorriso chegar à sua boca, vendo que uma ação que fizera antes com alguém, com algum animal havia surtido algum efeito benéfico. Era o seu momento de alegria, se sentia o melhor dos homens, mesmo que quando olhasse para os lados não houvesse ninguém para festejá-lo. Para os outros era apenas um ateu incorrigível, mas, para ele, e somente para ele, era o melhor de si que poderia fazer. E enquanto as lamentações de outros era não ter conseguido algum bem material, para ele a lamentação era não ser possível fazer mais.
Outras vezes conseguia algum benefício para alguém, e atribuía à sorte ou ao destino, afinal de algum jeito a vida tenderia a mudar. Era alguma coisa inexplicável, como se viesse do nada. A sua explicação era de que o mundo era como é, sem nada a acrescentar e nada que se pudesse fazer para alterá-lo. Simplesmente, ninguém poderia fazer a diferença.
Ninguém acreditava nas suas boas ações, diziam que quem não acreditava em Deus, com certeza, nenhuma boa intenção poderia existir.
E ele seguia seguindo seus próprios passos e o que o seu coração mandava, ações, para ele, era o que importava, e em Deus, simplesmente, não acreditava. Mesmo que Deus continuasse a procurá-lo, porque acreditava nele.
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Bem-vindo desconhecido
Batem na porta. Me pergunto quem seria aquele ou aquela que vem me importunar, me tirar do conforto do desconhecido que prefiro levar diante dos olhos. Logo eu que estou aqui vendo o mundo confortável e sem dinâmica, vivido nas aventuras de outros que se aventuram por mim. Conhecendo terras distantes, alguém trocando palavras com gente desconhecida que não eu, desnudando as informações que os jornais trazem, com a sua linguagem própria de mudar o que é verdadeiro, transformando verdades de acordo com os interesses de outro alguém e não de mim.
Vejo esse desconhecido e não procuro conhecê-lo porque esse desconhecido me conforta, me é trazido sem pensamentos de ordem, apenas são desconhecidos e o fato de desconhecê-los por completo é uma forma simples de conhecer, de idealizar e estar idealizado dentro daquilo que eu compro, assistindo a televisão, o telejornal ou a ficção que se derrama em palavras no papel em frente.
Batem na porta, novamente, a minha impaciência transborda. Afinal, quem será aquele ou aquela que vem me importunar naquela hora, ou em qualquer outra hora? Levanto e me dirijo até a porta, pronto a espantar aquele desconhecido que insiste em ter algo a me dizer.
Defronte de mim, alguém se apresenta e diz: Sou o desconhecido. De tanto você conviver comigo venho enfim conhecer você.
Me espanto, ao ver alguém que seria aquele ou aquela, sem um rosto, sem um sorriso aparente, mas com a voz vinda do desconhecido a conversar como gente.
O que quer você? Que se diz o desconhecido, se nem mesmo o fato de não ser tem a capacidade, a vontade ou sei lá o quê, de vir até minha porta, bater sem cerimônia e se apresentar como o desconhecido e querer me conhecer?
Eu o conheço e você não me conhece? Que estranho paradoxo é esse que você diz, conhecer a mim, e ainda ter a curiosidade extrema em vir me ver? Que queres enfim, inoportuna visita a esta hora, que seria inoportuna em qualquer momento, que me traz o desalento de vir te atender?
Gostaria de levá-lo até o desconhecido. De pisar com os pés descalços uma terra estranha e colorida. De ver nuvens passarem onde sua vista jamais alcançou. De molhar as mãos em águas que lá estão e você desprezou. De ver sorrisos e linguagens diferentes, e mesmo sem compreendê-las, parecerá, para você, um diálogo estranho, com mímicas e gestos. De sentir outros cheiros, de saborear outras comidas, de ver a vista estendida em horizontes onde o sol se põe, o mesmo sol que nasce em todos os lugares. De ver o outro lado da ponte, o que está além do morro distante. Sou a curiosidade e vim curar-te, de vez.
Deveria dizer-te bem-vindo? Nem eu saberia o porquê. E se depois de conhecer-te, onde haveria desconhecido para conhecer?
Antes de tudo, é preciso coragem para encarar o desconhecido que se estende a sua frente. Prepara-te, anima-te, vem. Enfim, encha-te de coragem e faça comigo a definitiva viagem, e saiba que sempre haverá um desconhecido para conhecer, como a aventura que se desdobra em folhas e páginas, memórias, viver o desconhecido é fazer história. E eu vim até aqui para te levar, e você descobrir com seus próprios olhos, a refletir com suas próprias palavras. Se desfaça do cobertor onde você, covardemente, se aconchega. Enxergando o mundo sempre dos olhos e palavras de outro, sem fazer a crítica das informações que você recebe, de enxergar o mundo e compreendê-lo como só o mundo pode ser.
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Sou graduado em Literatura, com especialização em Estudos Literários, sou escritor e alguns textos foram premiados em concursos de literatura, no Brasil. Meu maior prazer é escrever crônicas e artigos sobre comportamento político e social. Meu primeiro romance "Maíto" está disponível em ebook na Amazon.com.br
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