Escritas

ESCREVER

Nilson Lattari

ESCREVER

Menção honrosa Prêmio UFF 2012

Num canto qualquer do Oriente,

em uma rua populosa e congestionada,

um homem sentado na calçada

manipula com destreza uma serpente.

Com movimento sinuoso e perfeito,

sob o suave som do instrumento,

o réptil atento e ardiloso

eleva-se do fundo da escuridão do cesto.

Mantendo a plateia em suspense,

tentando adivinhar o movimento seguinte,

manobrando com alto grau de requinte,

o salto que a cobra porventura tivesse.

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Em uma esquina do tempo se encontram,

de um livro pego ao acaso

retirado de uma prateleira, leitor e personagem,

juntando encantador e encantado.

Brandindo o lápis com maestria,

vai o narrador discorrendo maravilhado,

em riscos e letras desenhadas,

o prazer que a plateia única saboreia.

O movimento mais importante,

movido pela força atrativa,

escondido na folha seguinte,

que se vira ao sopro da narrativa.

Haveria algo mais que aos dois faltasse

e, ao mesmo tempo, os aproximasse?

Ao primeiro, faltou dizer o tapete,

onde se exibe para o público extasiado,

ocupando no espaço reservado,

o controle do imponderável.

Mas, ao segundo, o que lhe falta?

O objeto que lhe completa o quadro!

Não está no traço das letras ou no lápis.

Nem no pequeno espaço do livro em questão.


Com certeza, aquele que, escrevendo,

os leva todos juntos, compenetrados,

nesse suposto tapete encantado,

à terra da imaginação.

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