Escritas

Lista de Poemas

pequena prosa poética...

agarram-me pelo braço... e eu e as recordações fugitivas do tempo, o coração dando asas ao desejo de atravessar a fronteira ver de novo os instantes que alguma vez amei, e os pássaros avisam-me que a memória tem de ser audaz, capaz de fugir ao tempo que me rouba o meu mundo, que hipnotiza as minhas horas...este tempo que é anjo e demónio que me vigia em qualquer canto onde me abrigo, a maior parte das vezes me deixa criança confusa, que não distingue o sonho da realidade...então, deixo o pensamento ganhar asas.e aguardo que o sonho me abrace.

natalia nuno
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estremecem madrugadas...

as tuas mãos são aves do paraíso
que voam na paisagem do meu corpo
percorrem os trilhos sem juízo
até às portas da madrugada
e o tempo é terno enquanto caminhas
ressuscitando a minha vontade
dos tempos de loucura
de que nos resta saudade,
mas voltas e é sempre nova aventura
e a tarde arde ao rubro
e é aí que eu descubro
que o nosso amor é de verdade

quando as tuas mãos se afundam
exprimo o meu desassossego
o tempo ri de mim e de ti
mas o nosso sonho ainda mora ali
o amor fica de sentinela
e a serenidade na alma
- o tempo o coração gela.
atormenta-nos ver a vida a cair
nossas mãos estão carregadas de doçura
e há estrelas nos nossos gestos
e infinitamente nos amamos com loucura

e amando-te assim infinitamente,
descubro que invento palavras meiguíssimas
esqueço tudo o que é triste dou um passo em frente
e carinhosamente voo no sonho enlouquecida
assim corre a vida,
estremecem as madrugadas
quando nos amamos...

natália nuno
👁️ 151

liláses tardios

amanhece, o quarto de sombra carregado
é a solidão dos dias cinzentos
em mim, lamentos, o pensamento calado
mergulhado num mar profundo
onde a luz não faz morada
penso na vida sem regresso
para a terra fria virada,
na manhã tropeço
no orvalho escorregadio
saio do submerso vazio onde perdida
vejo a vida a envelhecer
só o coração guarda a vontade de viver
a janela nem vou abrir
olho por dentro do vidro a lacrimejar
e não é nada, absolutamente nada o meu sentir
é o tempo... o coração a esquartejar.

como se pode matar as memórias de vez?
como pode este dia ser tão triste...
talvez, que os liláses tardios esquecidos
no jardim, falem por mim...
deito a cabeça sobre a almofada
sinto-me avezinha assustada
o vento ronda a janela fazendo alarido
fala-me uma língua estranha em tom comovido

ficam as horas penduradas
esqueço a janela a lacrimejar
foram-me as lembranças arrancadas
que faço da saudade quando ela chegar?!

natália nuno
👁️ 193

chove na minha alma...

há arbustos que obscurecem minhas tristezas
sentei-me à janela a olhar o presente
sem certezas, cansada das madrugadas
enquanto meu sonho dormia
e na minha alma chovia.
passavam as nuvens no céu cinzento
deslocavam-se para o fim do mundo
enquanto meu pensamento por mim
passava moribundo...
a noite foi minha companheira
tudo ela silencia, traz no ventre um novo dia
de sonhos é mensageira
depois virá esse dia com névoa, que m' arrasta
e da vida mais me afasta...

tudo é absurdo nesta alma nostálgica
o corpo insiste em lembrar que não vale a pena
na expectativa de coisa nenhuma
continuo, meus passos...serena!
minha inspiração determina
que me sinta sempre menina, menina ágil
uns dias forte, outros dias frágil.

com minhas mãos toquei o céu
perguntei-lhe como seria a eternidade
desceu um pouco até mim e respondeu
vive a vida, vais ter dela saudade.

natalia nuno
rosafogo
👁️ 93

morrem nenúfares no meu peito...

no telhado a chuva cai miudinha
e ao ouvido parece ladainha,
os gatos escondem-se debaixo dos beirais
as chaminés fumegam
lá em baixo recolhem-se os pássaros
nos canaviais,
densas as imagens na memória
meu chão e meu tecto
minha história...e as lembranças
me pegam,
nas asas do outono adormeço agora
morrem os nenúfares no meu peito
quase do inverno é chegada a hora
na primavera deixei o amor perfeito

passam os dias por mim e eu teço
estrelas, à noite me dou
deixo-me apanhar, no amor tropeço
e em rosas cadentes a saudade chegou

e a chuva miudinha bate no telhado
em mim o amor toda a noite dormiu
e no fim do dia aparece o sol molhado
tingido de medo todo o dia não abriu
vai o outono caindo ao chão
traz desnorteada a claridade
amanhã será outro tempo já de pensar
a solidão, e lá surgirá a saudade,
de novo ao coração.

natalia nuno
👁️ 187

círios da memória...

na cómoda antiga
havia sempre flores
e imagens de santos,
e minha avó em prantos
lembrando de seus amores
rezava uma ladainha
em voz baixinha.

grandes alguidares de barro
no forno
amassava-se o pão
benzendo-o com oração
«Deus te acrescente,
que és alimento de muita gente»
aqui ali um adorno,
uma sertã, uma cafeteira,
e na quinta feira
da Ascenção, um raminho de oliveira.

nas vigas da chaminé
penduravam-se os enchidos
e nas brasas fervia-se o café
enquanto a trovoada, zumbia aos
nossos ouvidos.

a roupa mil vezes passajada
as iguarias poucas
às vezes imensa comoção
e todos os dias
a sopa e o pão.
na paz do alheamento,
se repousava em frente à lareira
deixava-se correr o pensamento,
e faziam-se contas duma vida inteira.

as silvas já formavam amoras
comê-las? Só quando maduras
em doce caseiro comido nas horas
de menos farturas...
a cor vermelha era como cilada
para atrair a passarada...
já se ouvia o barulho dos carros
o chiar dos eixos,
fugia a passarada, atordoada
abandonando os freixos.

e a lua aparecia e desaparecia
o sol nascia e morria
e assim a fé crescia
enquanto a vida corria..

natalia nuno
👁️ 138

tarde lírica

pequena prosa poética

Sinto-me agora na proa da vida, leva-me esta como um barco duma margem à outra margem, neste rio caudaloso faço travessia, dia e noite, noite e dia, ora em águas claras ora em águas turvas com redemoinhos no seu leito num murmurar sereno vou resistindo às intempéries de cada instante...
Ouço a canção do vento que se faz ouvir, as horas correm como se não tivessem cansaço nos pés e eu, à sua frente um tanto fatigada, tentando exaurir minhas forças e não me deixar levar ou cair nesta subida.
A saudade se encarrega de me trazer de novo recordações e eu poeta me sinto, vou criando com o segredo ou o mistério que só meu coração conhece e entende, também porque a esperança ainda não se fartou e o amor à vida não morreu...sinto-me agora com o peso dos anos nos ombros, meus braços pendem como os galhos das árvores ao peso da chuva e do vento, mas no meu horizonte há ainda raios de sol vermelhos que me aquecem a alma e meu corpo sente-se a saltitar com a agilidade duma cabrita montesa, entretanto escrevo, escrevo quando a lua se passeia p'lo céu, além , muito além, e o outono vai adiantado, o sol no ocaso inflama, avermelham as folhas que vão caindo atapetando o chão e o meu coração ama...ama...e as palavras vão amaciando meus dias, são como armas frágeis com que enfrento a monotonia, até que os pássaros regressem e cantem na minha boca ou até que o sol da manhã me traga de novo o desejo de voar.

natalia nuno
👁️ 128

a cor do outono...

hoje não ouvi o pintassilgo, talvez porque o ramo verde onde costuma pousar se encontra nu, não houve acordes de violino, e nem a minha mão indigente e cansada quis escrever palavras macias no poema onde eu pudesse o sol emoldurar... mesmo com a coragem a desabar... retrai a mim o silêncio e o coração descompassou, minha voz voltou à mudez, também eu perdi o ramo, irreparável descuido de meus olhos sombrios, entre a folha de papel e eu...poema feito ao acaso, muito breve e muito raso, com memórias cheirando a alecrim, pedindo que não esqueças de mim...quase, o tempo outra vez de ternura, fecho os olhos e logo a nostalgia a fazer doer! - - com a cor do outono e a maldição do tempo a passar, como eu precisava ouvir agora o pintassilgo tocando os acordes de violino para o coração ressuscitar... e tu, ousasses vir de novo me abraçar... enquanto meu olhar se perde no ramo que era verde...

natalia nuno
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noite de Natal...

uma alegria estranha
vozes diluem-se à distância
ecos ao longe, vindos da
infância...gente ordeira e
submissa, tocam os sinos
não se escolhe o destino
lá vão todos à missa.

é noite de Natal
grande paz, bulício de estrelas
música irreal, oração
origem da minha verdade,
verdade que não desejo perder.
e do lado de cá da vida
a saudade...não quero esquecer!
uma noite fria,
a brisa fina e eu menina,
todos presentes... *agora ausentes*
são um todo real
nesta noite fria de Natal,

tudo envelheceu perdeu o encanto
e, o eco espectral leva-me a memória
às longínquas noites de Natal...que
eu ainda lembro tanto.


natalia nuno
👁️ 172

tão inimiga de mim...

com as mãos estou escondendo
os olhos com que me vejo
sendo amada ou não sendo
o que vejo,
traz-me sentimento que não almejo
sem graça, nem formosura
tão inimiga de mim
a que vejo é uma tortura
que vai comigo até ao fim
para que não me diga a dor
que de vê-la fica louca
encubro os olhos melhor
e assim menos sou, menos estou
nesta vida que é já pouca.

mudaram-me minhas vontades
e é já vã a minha esperança
escondo-me em mim com saudades
e aceito qualquer mudança

e assim com as mãos escondendo
suspiro imaginando
que a outra, sou eu morrendo
meu coração de aço gritando
deixei há muito a nascente
já no outro extremo estou
antes que a morte me atente
ou em tal desventura me veja
meu rosto emudece, menos sou, 
menos estou...
queira Deus que assim seja!

natalia nuno
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Comentários (11)

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natalia nuno
natalia nuno
2021-11-06

Grata por todo o apreço dado à minha Poesia, a todos desejo muita felicidade e que vossos sonhos se realizem. Um abraço

rosafogo
rosafogo
2018-12-15

A todos agradeço o apreço precioso aos meus poemas...obrigado! Abraço-vos

charlesburck
charlesburck
2018-12-14

A distância não nos impede as canções, vc canta lidamente ao teu amor

atal66
atal66
2018-10-22

Fica-se com o gosto de mel e amoras ao ler os seus pensamentos ...um momento de puro deleite

quaglino
quaglino
2018-10-17

Poeta forte! Muito bom, muito bom mesmo. Quem sabe um dia chego lá. Parabéns de novo.