Escritas

Lista de Poemas

em solidão me queixo...

sinto a marcha dos meus passos
e ouço o som que o vento move
sinto a falta dos abraços
murmúrios que ninguém ouve
arrepia-me o pó da estrada
duma lembrança à outra o pensamento vai
enquanto triste, baloiçando,
vão-se os meus braços embrulhando
e o desejo com a idade cai...
arrasto-me como uma sombra inquieta
meu coração abre-se às mágoas de todas as mágoas
o mundo piora, murcham as flores da paz hora a hora
meus dedos escrevem saudade, dor, também alegrias
com a força que inda resta nestes meus dias.

ainda assim, o alento de hora a hora me vem
sempre me restam algumas vãs esperanças
exausta fujo para a terra de ninguém
levo comigo apenas lembranças
assim na minha alma chove outra doçura
recordo com saudade o que me treme na mente
e o passado trago ao peito ligado com laço docemente
então meu rosto de ternura e nostalgia se tinge
e o sonho suavemente a mim se cinge.

e em solidão me queixo de sentir-me tão frágil
barca..........
se nem sei o que quero, quando a vida já me é tão
parca.........

natalia nuno
rosafogo
https://nataliacanais.blogspot.com/
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pedaços de mim...

No meu país há uma aldeia como não conheço outra, aos meus olhos surge sempre a velha ponte sobre o rio tão velho quanto ela, sempre lá volto todas as manhãs a fio em pensamento, olho as mulheres lavando no rio, os homens levando a carroça o burro o carro de bois, mas tudo isto só existe no meu pensamento, no entanto tudo o resto lá está inalterado, as margens com os velhos salgueiros, as flores que brotam livremente, as águas correndo transparentes, os moinhos moendo, volta não volta até as mesmas andorinhas nos beirais.
No trajecto vou escrevendo páginas da minha vida, como se fossem um chão de estrelas que me alumiam no caminho, ou contas dum rosário que por mim reza e me salva.
As notícias locais passam de boca em boca sem jornais, o sino avisa dos que estão de partida, os que nascem logo a velha «curiosa« espalha a notícia, os que casam têm seus pregões colocados na porta da igreja, e assim se vive na paz do Senhor.
Por debaixo do casario a aldeia assenta em filas de grutas que são labirintos tão extensos que há quem diga que vão até à cidade próxima...seriam os mouros, ou os celtas que teriam feito estes esconderijos subterrâneos? Para mim em criança eram povoados de fantasmas e no meu imaginário criava longas histórias com o dom de coisas secretas, gemidos, procissão de passos, olhos incendiados, mãos arrependidas, e depois na minha inocência concluía que eram almas penadas.
Às vezes ainda me espanto com a facilidade que a criança tem de inventar, dava comigo a cantar e a imaginar que estava perante uma assistência a ovacionar-me desencadeando em mim um grande triunfo, tudo sonho na minha imaginação.
Tantos sentimentos que se vivem, o amor a alegria, e outros que nos enchem de força, tomo sempre fôlego e desato a falar de saudade numa esperança cega de que não me fuja a memória.

natalia nuno
rosafogo
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ouve as marés...

ouve as marés nas areias mordidas pelo sol, e ali encalhadas ficam-lhe as ideias, procura então renovar-se dando asas ao seu vôo, sonha , palpita de saudade, agarra-se à vida com tenacidade, estende o olhar ao dia que ainda lhe pertence...há dias em que a existência lhe parece obscura, tem o desejo e a necessidade fremente de claridade, do sol primaveril, e num despertar absorver o ar puro e fresco que lhe chega do mar...e nessa luz matutina recordar a menina, ouvir o galo cantar notas duma bela sinfonia, olhar o infinito com o ouro a queimar, tudo a penetrar-lhe a consciência, deixar-se a flutuar num céu lavado e límpido por entre os salgueiros, e os cheiros das rosas selvagens... o vento traz-lhe mil recados, mil imagens que voam com leveza dentro dela...e a maré recua, no céu, em êxtase a lua.

natalia nuno
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no norte das minhas palavras...

no norte das minhas palavras abandonei a inocência, lá onde tudo era sonho onde lavrava a alegria, onde havia lufadas de sol, onde era seara e girassol, onde via regressar as papoilas vermelhas e os pássaros construíam ninhos nos beirais dos telhados...as estrelas vazaram, e trago agora os olhos molhados...fico a secar os olhos embaciada de emoção, sigo por entre a maresia à minha procura, porque me dói não saber quem sou nem onde estou, não me reconheço, e sempre que a mim regresso há um desajuste entre o sonho e a realidade, parto com velocidade... que mal fiz eu... quem secou a flor em mim? de trigo eu era... hoje sou girassol que morreu, assim... morreu-me também o tempo, sou pássaro no escuro à procura dum pouco de primavera...sigo caminho com o afago do vento não me deixo entristecer, não quero mais palavras, que já nada têm para me dizer...

natalia nuno
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no exílio da memória...

No mar alto da minha vida
Há um marulhar incessante
Que me deixa esquecida
Numa solidão gritante.
Minhas horas solitárias
e fugidias
Povoadas de sombras
e agonias.

Mas as sombras se vão!
Foi apenas um sonho ruim,
agora tudo é leve.
Tudo floresce nos canteiros
secretos de mim.
Lembrei meu riso inundado
de pureza
Adormecido numa fotografia
Trazendo a mim a certeza
Que a vida já foi macia.
Se agora a vida definha
desabrida
Semeando no meu corpo
sinais.
Deixando minha pele ressequida
Já me iluminou o coração
por demais.

Confesso que sonhei
E nada mais há para ser contado
Neste meu silêncio entardecido
Da saudade não falarei
Fechá-la-ei no coração a cadeado.
Já nada do que escrevo faz sentido.
E à medida do que esqueço
No exílio da memória adormeço.

Neste silêncio empedernido,
nas palavras me aninho.
Sou como um menino perdido,
Ou pássaro sem ninho.

rosafogo
natalia nuno
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doem-lhe os pulsos ...



doem-lhe os pulsos de tanto rasgar o medo que a envelhece, oxidam seus olhos que correram mundo, e nas ribanceiras do seu peito há dores sem jeito...na mente memórias em labirinto, a morrer de cansada a vida a leva, e a travar-lhe a estrada o tempo que a ameaça... numa tristeza sem idade, sente a saudade da perdida graça... leva o rosto carregado de nuvens mas não se deixa desfalecer, chegou à fronteira, tanto faz um passo à frente ou outro atrás, tudo parou de correr, traz o olhar envolto em poeira, e jamais se vê como era, mas ela espera...fala-lhe o coração da voz das manhãs, dos lírios a abrir, dos moinhos de vento, das heras a trepar, ainda não é o definitivo anoitecer, há labaredas que a fazem aquecer, e um jardim de ideias onde se procura por dentro da madrugada, até voltar a ficar cansada...

natalia nuno
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o mar devolve-lhe os sonhos...

o mar devolve-lhe os sonhos de criança, remenda-lhe os dias sulcados de nostalgia, a neblina inunda-lhe o olhar e o pensamento repousa no silêncio, há nele mares de esquecimento, mas movem-se nele silhuetas de pessoas amadas que já partiram... inundadas de mágoas as mãos que escrevem e deslizam como um pássaro por sobre o papel, e com um arrepio na pele sente o peso da saudade a pernoitar no seu coração... fica a inventar, a ouvir a chuva a cair e o mar revolto é cúmplice da sua tristeza, do seu resistir, do seu ficar sem chão...velejam os afectos no peito, os mesmos que lhe esmagam o rosto e lhe deixam a contravento o pensamento...neste balançar como onda do mar, ficam-lhe os dias a morrer de tédio e sente-se folha caída sem remédio...

natalia nuno
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horas mudas...

o amor é onda que vai...
amor é onda que vem!
quem nele cai já não sai
é flor... e espinho também!

partido em mil pedaços
fica o coração desfeito...
sem amor e sem abraços
a vida assim não tem jeito.

passa o dia a noite passa
rezo as contas do rosário
aos céus suplico a graça
não seja a vida calvário.

quando minh'alma partir,
e o meu corpo aqui ficar,
os versos se farão ouvir
já não me verão chorar.

se o sofrimento purifica,
deixem-me só na saudade
o amor... sempre vivifica!
amor quer-se de verdade.

 natalia nuno
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meu caminho...

Meu caminho é já uma imensidade
Trago nele um cheiro a terra molhada
À noite, descanso na saudade
De dia sinto a vida a fugir, lembrança passada.
E há lembranças no meu peito em brasas
Me abandono nelas como se fossem tempo presente
Lembranças chegadas de longe, trazem asas
Impossível é o regresso é sonho sómente.

As desenrolo nas insónias, e me deleito
E nasce um sonho imenso maior que o mar
Sou livre nesta morada onde me deito
E onde fico livre só para amar.

Estas lembranças mantêm vivo meu caminho
e meu querer.
E eu persisto que meu corpo há-de resistir
Hei-de desdobrar o tempo vizinho
hei-de viver
O tempo esse ignora o meu querer,
serei contradição, saberei fugir.

Memórias que são lenha p'ra me aquecer
Que ao recordar me deixam enfeitiçada
De madrugada me deixam adormecer
Para redobrar forças nesta minha caminhada.

rosafogo
natalia nuno
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irei por aí...

Vou por aí ... o tempo escasseia
o caminho difícil antes do fim,
vou urdindo teia a teia...
procurando horas de felicidade
ainda que o tempo fuja de mim,
e só reste um pouco de saudade.

Hei-de ir por aí mesmo cansada
este é meu caminho a percorrer
n' quero perder o fio à meada
e se um dia me hão-de ver
a seguir por outra estrada
não foi...a por mim traçada!

Vou por aí neste meu sentido,
seja ou não grande m' loucura
a vida é fantasia e pouco dura
se no caminho tiver adormecido
ou se me virem por aí caída!?
Levo amor, não levo dor fingida!

Se a morte me quiser engolir
ainda irei por aí, pra lá de tudo,
cabe-me a mim a vida conduzir
andando neste meu passo miúdo.
Não deixarei nenhum recado
levo presente, futuro e passado

Não, não desisto de ir por aí!
Levo comigo tudo que me resta
levo as rimas que um dia escrevi
sobre alecrim, madressilva, giesta
e as outras que ao amor dediquei
gestos, afectos, o que cantei e chorei.

natalia nuno
rosafogo
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Comentários (11)

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natalia nuno
natalia nuno
2021-11-06

Grata por todo o apreço dado à minha Poesia, a todos desejo muita felicidade e que vossos sonhos se realizem. Um abraço

rosafogo
rosafogo
2018-12-15

A todos agradeço o apreço precioso aos meus poemas...obrigado! Abraço-vos

charlesburck
charlesburck
2018-12-14

A distância não nos impede as canções, vc canta lidamente ao teu amor

atal66
atal66
2018-10-22

Fica-se com o gosto de mel e amoras ao ler os seus pensamentos ...um momento de puro deleite

quaglino
quaglino
2018-10-17

Poeta forte! Muito bom, muito bom mesmo. Quem sabe um dia chego lá. Parabéns de novo.