Lista de Poemas
Não sabe de amor
Não sabe de amor, exceto sevocê já...
Ficou acordado a noite todaesperando um filho voltar da festa...
Adiou ou desistiu de umprojeto pessoal para dar atenção aos seus pais, tios ou irmãos...
Sentiu a angústia intrínsecaao ouvir as histórias de um idoso, e ainda assim aprendeu com elas...
Chorou com o abandono e atristeza de uma criança que nem conhecia e deixou de almoçar para alimentá-la...
Convenceu a família a deixarum cão de rua na sua casa por uns tempos... Tempo infinito.
Foi a um show sem a menorvontade apenas para ser parceiro...
Admitiu meio encabulado quese emocionou com o carinho de um amigo num dia em que estava de mal com omundo...
Duvidou de Deus, mas nuncadeixou de acreditar Nele e temê-lo...
Apanhou uma rosa de e acabounão entregando a quem pretendia...
Escreveu e reescreveu mais dedez vezes um poema que nunca mostrou...
Ouviu músicas românticas paraprovar e provocar lembranças...
Sentiu saudade...
Sentiu saudades...
E sentiu mais saudades aindade tudo o que viveu, pois viver é construir a própria história, orgulhar-sedela e relembrar sorrindo quando as recordações povoam a mente.
Não sabe de amor...
Exceto se destinou algumtempo para vivê-lo.
Noite
No meio da noite a vida se ativa.
Nos dedos perfume de rosas.
Agora repousam no vaso cristalino.
Ao menos assim imagino.
Aproxima-se delas para cheirá-las,
odor nostálgico dali exala
eu sinto, eu toco, inspiro,
invisível como o ar que respiro.
Lobista
- Olá doutor. Como vai?
- E aí grande Zé das Moças?
- Onde tens andado Doutor?
- Estou na capital.
- É mesmo? Fazendo o quê?
- Sou lobista.
- Bah Doutor. Eu nem sabia deste teu lado destemido.
- Imagina. Nada disso Zé.
- Mas só tem bicho grande nisso aí doutor.
- Isso é mesmo. Só tem feras.
- E como faz para alimentar todos? Custa caro não é doutor?
- Ah sim, não é barato. Mas sempre se dá um jeitinho. Temmuitas obras e outras oportunidades nestes pais.
- Isso é mesmo...
- Até mais Zé.
- Uma boa tarde Doutor.
Enquanto o finório se afasta Zé pensa: pelo jeito estenegócio de lobos dá bem mesmo. Tá por cima da carne seca o doutor.
Carrão importado.
Beca impecável... Bela loba.
- Bem cuidado aí doutor!
Formigas
A preciosidade é sempre interna
Não depende de externos fatores
Não é pela cor da pele que se
definem-se os louvores.
Na sombra dos escurecidos cílios
pálpebras se abrem reticentes,
o mundo se deslumbra em brilhos
iluminando os olhares carentes.
Na sombra das folhas verdes
formigas marcham exuberantes
despontam raízes na profundeza do mundo
buscando a água da vida,
que corre nas folhas divididas
da vida que alimenta outra vida.
Na sombra dos versos iludidos
repousa o poeta que sonhou
sente seu tempo perdido
marcado pela vida que murchou.
Certo
Certodia é qualquer dia.
Qualquer,quem diria, é o dia certo.
Portanto,certo é qualquer dia.
Saudades
Com o passar do tempo
acabamos nos afastando de váriosamigos.
Saem suave como a leveza do vento
e alguns nunca mais voltam.
Com eles vai o futebol dosfins de semana,
histórias de amoresfantasiosos,
na mesa de muitas falas ebebedeiras.
Mais tarde as lembranças
Provocam saudades enormes.
Alguns nunca mais veremos;
Outros, um alô e nada mais.
Também há os que ficam porperto
Fieis e leais, outros quemesmo longe estão pertos
destes, permita Deus,
não quero me afastar... Jamais.
Silente
Teus olhos gritados já me disseram tanto...
Emudeça o eficiente penetrar
Teu olhar falante me leva ao desencanto.
Olhar fixo e destemido
De cumplicidade assumida
Finalmente num visual resumido
Brilhou um olhar para a vida.
Meus olhos mergulham na verdade
Que pode não ser a mesma tua.
Ardem de cegueira e saudade
Em cada passo que dou nesta rua.
Flambar
Cresce na fronte a pulsação.
Minha emoção entra no clima
O ponteiro do sim sufoca o não.
Ainda busco o verso perfeito.
Que expresse, no momento o que sinto.
Que tire a angustia do peito
E desvende da alma o labirinto.
Flambe teu beijo apaixonado
Deixa a chama de amor aquecer.
Quero gosto etílico na boca entranhado,
Dos lábios bons não dá pra se esquecer.
Entre, como sempre, sorridente.
Esbanje a sensualidade só tua.
Meus braços são como rosas ascendentes
Cipós que te entrelaçam e te deixam nua.
Maçã podre
O cálice amargo do licor condensado.
A magia transformada em vultos derramados
Vozes se transformam em gemidos sussurrados.
Quem sente mais forte não entende
A fraqueza pragueja nos arredores.
Estica-te na suavidade que me rende
Prece vazia de filme de horrores.
Aquele que feliz sorri na vida
Que toca o pandeiro da alma contente
Tem minha inveja assumida,
Ah, não quero ver nem mostrar os dentes.
Junto no chão a maçã mais podre.
Escuto ao longe fortes gargalhadas.
Sento a beira da margem salobra
Sem força e sem rumo pra pegar a estrada.
Voz
Que faz a pele arrepiar.
Que mobiliza multidões.
Que inflama na hora de protestar.
Voz que enaltece e condena
Que também fala o que não quer.
Que identifica em cena
O homem e a mulher
Voz que aproxima pessoas,
Que de amor faz declarações.
Que canta melodias boas,
Pra espantar solidões.
Voz que unifica o mundo
Na ternura da canção.
Que toca a alma bem no fundo.
Que provoca uma lágrima de gratidão.
Voz que ovaciona o ídolo.
Que agradece os favores.
Que diz coisas sem sentidos.
Que reconquista os amores.
Voz que faz o rádio viver
Que enaltece a fé,
Voz que saúda ao receber,
Que ao partir dá um breve até.
Voz silente na tristeza,
Que na rua se pode ouvir,
Que quer um pão para a mesa.
De quem se humilha pra pedir.
Voz que fertiliza pensamentos.
Meiga, doce ou agressiva,
Que expressa desenhada nos ventos
Ideias diretas ou subjetivas.
Voz baixa e romântica,
Aveluda ou sensual.
Voz que na intimidade encanta
Voz única tocante sem igual.
Voz humana que imita
Voz rouca ou disfônica
Insana que chama e que grita.
Na rotina narrada em crônicas.
Voz grave ou aguda,
Voz gritada ou sutil
Voz que na memória gruda,
Amadas vozes do nosso Brasil.
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Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais.
Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras.
Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)