Lista de Poemas
Solidão e medo
Olhei a torre em meioà neve,
Eu estava só na cena.
O mar silenciado pelogelo.
Europa fria a me doer,
Meu mundocongelado...
Amedrontado,
Tudo em volta tãotriste,
Nada de banho dechuva,
Nada de ciúmes da tuaroupa,
Nada de arrancarsuspiros como na canção.
Só... Solidão e medo.
Lembranças...
Dos beijos
Do perfume,
Dos teus chiliques,
Das noites chiques.
Fondue, vinho,passeios...
Eu e você.
Excitante barulho dochuveiro,
Do show animado,deslizes gelados,
Sorrisosfotografados,
Carícias e olhosmolhados.
Tempos de amor,tempos de ser amado,
Tempos pelo própriotempo sepultado.
Colorau
Ito andava muito impressionado com os peitões apetitosos da Fer.
Basta ela chegar perto que ele fica desconsertado, sem jeito e atéconstrangido.
Tentava ser discreto para evitar que outras pessoas notassem, masno pensamento viajava e sonhava até em se casar com ela, “ter dois filhos e umcachorro”, (eca)....
Havia decidido cantá-la na primeira oportunidade que surgisse.Queria sair daquela situação meio platônica e, como ele mesmo pensava partirpra cima dela.
Aproveitando a festa ele a fitava direto, discreto, mas atento.
Precisava esperar um momento em que ela se afastasse do grupo paraagir.
- De hoje não passa, chega a falar pra si mesmo.
O dia ia passando e nada. Conferia o relógio e constatava que jápassava do meio da tarde e se bobeasse não cumpriria o pretendido.
Pensava até em tomar “umas” pra facilitar.
A tarde tinha música de bandinha, pessoas dançando e as mulheres viúvasde maridos bêbados dançando entre si. As mais desacostumadas ficavam de pésdescalços já que estavam inchados de ficar de sapato. Ito até observa oambiente embora bem desconcentrado.
Decidiu sair do salão paroquial e entrar na igreja que ficava bemao lado. Ficou com ar de professor Girafales ao avistar Fer próxima ao altar.
Aproximou-se, tentou conversar meio monossilábico. Fer boa deconversa (e muitos outros atributos) puxava assuntos e mais assuntos, falavacom facilidade e tornava as coisas mais fáceis.
Ito nunca saberá ao certo o que falou neste tempo em que sóconversavam.
Lembra perfeitamente do beijo e de ter feito uma única pergunta arespeitos dos seios dela:
- Silicone?
- Imagina, toca pra você ver.
Tonto com o convite ele tocou levemente com o dedo indicador.
Destemida Fer pegou a mão dele e colocou embaixo do próprio seio
– assim ô.
Com o rosto parecendo um pacote de colorou sentiu como seestivesse com um pudim de leite condensado na mão e sem coragem para degustá-lo.Era como se tivesse buscado o troféu e agora não sabia o que fazer com ele.
Totalmente sem jeito pediu um tempinho.
Em passos largos deixou a igreja, a porta fez aquele tradicionalrangido enquanto o vento a empurrava forte de volta.
Se afastando ouviu a pancada e sentiu covardia e alívio.
Talvez não nesta ordem. Que caminho tomou ninguém sabe.
O que é público, sabido e notório é que os peitos de Fer continuamlindos... Muito lindos.
Laço
Um laço no buquê de rosas
Entrego pra que possas desatar
Puxando certo vira amor
Puxando errado vai enozar.
E o laço quando ata
Ninguém mais desfaz o nó
Morrem as flores sufocadas
E as pétalas viram pó.
Neste caso as demais rosas
Choram meio desesperadas
Do jardineiro elas fogem
Para não morrerem amarradas.
Viver é uma experiência incomparável.
Vamos deixando um tanto de nós nos sorrisos que distribuímos vidaa fora, um pouco de amor mesmo nos mais breves romances, um tanto de confiançaem cada melhor amigo que as fases da vida acabam escolhendo. Um tantinho deagradecimento aos ingratos que tornam possíveis certas comparações e que criamcertos medos bons até nas manobras mais seguras que vamos tendo que fazer.
Adquirimos uma porção de experiência em cada passo que temos quedar e isso possibilita entender que caminhado nos tornamos maduros, mas nãovelhos.
Ficamos, também, com um pouco do abatimento, é preciso dizer, emcada rosto triste que fitamos no dia a dia, mas isso é para vermos que sorrirpode ser mais benéfico.
Quanto a mim, deixo um pingo de essência em cada poema que escrevoe que talvez só eu sinta, contudo, isso me permite entender de quantas sílabas métricasse faz uma existência de versos livres.
Mesmo que eu tenha sepultado um mínimo que seja da minha própriaalma junto a cada amigo que partiu, e nas minhas próprias partidas, continuovivo e o melhor: vivendo.
Deixo (me permitam) um naco de amor a cada um que entra em minhatrajetória, pois não se vive de acasos e no amor - em todas suas variantes - oque se diz é muito menor do que o que se sente.
No fundo, me atrevo a dizer que somos todos diversos e, ao mesmotempo, parecidos em humanidade, pois dentro da sensibilidade de cada um vamosmoldando-nos no íntimo e quem mais sensível for mais intensamente vive.
Não devemos nunca buscar a bandeira da felicidade em nenhum lugarfora de nós pelo simples motivo dela não existir. Seria uma grave ilusão deótica, se quiser vê-la, senti-la e vive-la olhe para dentro, ela sempre esteveali – Acredite: chegou a sua hora de visualiza-la e ser feliz.
Sou fã
Sou fã de foto sem edição,
De frutas sem polimento,
De pedras brutas.
Sou fã de pessoas de cara limpa
E alma transparente
Que não aparentem o que não são.
Sou fã de um mundo mais autêntico
Do olho no olho
Do contato real,
Sou fã de gente
Que não deixa o orgulho e
A soberba consumir a
Própria humildade.
Separa
O que a poesia uniu poeta nenhum separa.
Folhas secas
Insisto na tecla desbotada,
Deslizo a deriva - Nem perdido nemdestinado.
Não importa onde estão as divisas
O que ficou pra trás já percorri,
Nem a luz da ilusão permitirá repetir.
Ao meu grito segue-se o insano silêncio,
Saliento, me sento, me ausento.
Mesmo de alma limpa falta a paz,
Enterro-me já em ossos e pelos.
Minha carne não é pra vermes
Se não tenho nobreza, tenho orgulho,
Sou superficial, mas também mergulho.
A eles ofereço minha indiferença
Que degustem - fartem-se iludidos –
De vocês eu ganharei - nada mais sei –
Cutucam-me as folhas secas
Envoltas à raiz que tropecei.
Não salvar
Aquela clicada em não salvar pôs todo o trabalho da manhãpor água abaixo. Pior que não foi a primeira vez - Shit.
Que cagada!
Não iria refazer – não mesmo.
Sorte que o tapa pegou no meio da tela. O computadorpermaneceu inteiro. Mas o resto do dia foi de branquear o cabelo de raiva.Justo este que tinha ficado perfeito:
- ô se tinha.
Até tentou buscar na memória o básico do que tinha escrito.Pouco lembrou além da parte onde ela, já na ala feminina do Madre Pelletier tinha assumido o romance com a Lorenona, sua colega decela.
Faltava-lhe a certeza de como ela tinha acabado na penitenciária.
Se estivesse certo, ela tinha matado o Alemão com um golpede taco de snooker na noite da natal de 2008.
Apavorada escondeu-se nos fundos da casa, mas os policiaisna primeira investida já a avistaram.
Além de prendê-la acabaram com o pé de chuchu que cobria acerca. No dia seguinte Dona Inácia vasculhou o terreno, mas não encontrou nadaque pudesse ajuda-la na defesa.
Na primeira audiência alegou legítima defesa, mas aacusação trouxe uma testemunha chave que derrubou esta hipótese.
O advogado, naturalmente, recorreu. Mesmo que livrá-la seria impossível, tentava apena mínima prevista por lei.
No presídio Tonha não se encontrava consigo mesma. Sentia-sefrágil. Sofria ameaças de toda ordem. Por ser uma mulher atraente despertavainveja e desejos nas próprias colegas.
Em busca de carinho e segurança aceitou a aproximação deLorenona.
Aliás, não demorou muito para todas ficarem sabendo disso.Um programa de TV propôs entrevistar o casal – Lorenona concordou – e assimfez. Tonha ficou chateada.
Sabia que já tinha dado um final para as duas, mas já queperdeu tudo o que escreveu podia mudar.
Estava convencido por si só que deveria retomar o texto,refazer com o pouco que lembrava e criar as outras partes.
Poderia uma delas, matar Odete Roitman, assim finalmente omistério seria desfeito.
A cabeça a mil já bolou o final para as duas. Riu feliz da vida.
Ligou o PC, reabriu a página e decidiu escrever primeiro ofinal pra não esquecer. Elas iriam...
Caramba, pensou, preciso saber como faz para salvar automaticamente.
Foi pro Google tentar descobrir.
Tentar
Tentar escapar da morte parece ser umaconstante normal em nós.
O problema é quando, inadvertidamente,escapamos da vida.
Só
Distância é só um pontode partida.
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Autor do livro Cabernet - 2013, Interlúdios - 2014, Horizontes -2019 e Charnecas floridas - 2021. Premiado no concurso Literário Cidade de Passo Fundo em 2017 e 2019 na categoria poesia. Publica em vários sites literários nacionais.
Membro correspondente da ACL- Academia Carazinhense de Letras.
Membro fundador da Academia de literatura música e artes (ALMA)