Lista de Poemas

Saudade

Hoje há mais dor na minha angústia; há mais solidão na minha saudade; há mais amor do que possa carregar.

Hoje o passado se revigora, o sentimento não cria forças e rouba a minha esperança. O coração partido carrega o que tanto martiriza. O corpo sobrevive da sensação de te ter como abrigo.

Hoje o sonho se distancia da realidade, a lembrança se apossa da fraqueza e torna o meu mundo mais solitário.

Sem sentir a lágrima torna à face, como súplica do tudo que foi tirado.

As palavras fogem perante o aperto e o ontem se tornou o presente mais doído.

Hoje há mais escuridão no meu olhar; há mais tristeza na minha decadência; há mais imagens do que minha mente possa aguentar.

Hoje o teu infinito permanece em mim; o teu amor se instaurou no peito e a tua voz tilinta em meu pensamento.

Hoje é o fim da minha estrada, mas meu caminho segue os teus passos, silenciosamente.

É o início da luta constante, com tudo o que faz arder na alma. O teu olhar, o teu sorriso, as tuas maiores lições, findaram em tudo que me compõe.

Hoje há mais angústia na minha dor; há mais saudade na minha solidão e há mais do ontem do que consiga suportar.
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Momento

Da janela de visão contorcida, enquanto se enchem os lençóis.

No pensamento devastador!

A árvore embala as folhas, mas não saem do lugar. No contorno do céu sombrio, de ventos tenros e nuvens secas.

Nada mudou! O clamor da súplica, os versos da poesia, as ilações da solidão.

Estagnou no mundo que não passou!

A dor que preenche, até o vazio inabitável. Na escuridão da manhã, que segue o olhar marejado.

O poeta que carrega e deixa os versos em lágrimas.

No luar apagado em cortes e da luz longínqua que abarroa o cenário intenso.

Nos movimentos sinuosos inalterantes dos sentidos.

Ao som diáfono de um Neruda desconhecido, onde o corpo se aninha sem abrigo.

Em ópera do amor total, desfalece em prece inconstante.
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Soturno

E quando o olhar se torna impenetrável. No que foi dominado pela letargia.

Na lucidez desmoronada.

Nas mãos intocáveis, abstinência do zelo incompreensível.

Nas asas corroídas, no voo imperfeito.

Do medo da fé perdida.

E das constelações lúgrubes que escorrem das lágrimas imprecisas.

Na dor interminável que dispersa na morte incontida.

No tempo etéreo, que passa despercebido.

Do sangue que queima, rasga a malha sem vida. Do corpo que carrega a existência. Dos lábios que desconhecem o beijo.

E não precisa falar das rosas, elas já murcharam. Perderam o viço.

A solidão acompanhada da penúria.

Na penumbra do dia que perdeu a manhã.  Da noite que não amanhece. Estagnado!

Das luas e sóis que se passaram no toque.

E na música que toca, que sorva, destrói pensamentos, arrasa sinfonias, descama orquestras e finda na melodia do alento.
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Visões

A solidão aprisionada nas têmporas do desejo. Submerso na acidez do mar. Revolto!

Cachos que deslizam, dançam, na tez úmida. Dedos que enlaçam, cerram, na fria brisa da neblina.

De tempestades e trovões que ensejam, impregnados no deleite.

Retranca nas ancas aveludadas, teso. No contorcionismo das cores. Embriaga-se nas cataratas da língua, lânguida, lábil.

Na firmeza do toque, na saliência dos pelos. Luz que chama, clama, no choque da carne.

Da chuva no corpo, literal. Somente! No sal escorre o sabor do cálice, fonte inesgotável.

Na rigidez contínua, desfigura, absorto. Cárcere maldito, preciso, inconsequente. E no canto que ameniza, revela-se o ápice mor.
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Personificação

O sorriso escorre da lágrima perversa. A falta da carne lateja entre os dentes.

Na sobridez do calor. O corpo títere em tuas mãos, na leveza que o conduz, macias na pele. Pluma suave que cavalga minuciosamente nos tênues flancos.

A língua cálida, na saliva branda que banha os delírios pérfidos, derrama-se nas costas nua, despida de candura. Lampeja no silêncio e se esvai.

Nas ondas abscônditas, perdem-se vias e estradas, definham-se em avareza.

Nos olhos entreabertos, os sonhos ébrios estancam na saudade ofegante.

Na tez que dança, nos movimentos inconstantes, na fúria amotina, corrói caminhos e prumos sem rumos.

O vento embala e balança os cabelos que caem nos dedos, aglutina.

No dédalo de martírios, a imagem se transfigura, rostos se confundem, se encantam, se perdem no esplendor da euforia.

E na sinfonia do sussurro, o canto se dissipa em melodia.
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Adágio fúnebre

Segue o cortejo no peito, como um adágio infinito.

Como encontrá-lo onde não mais caminhas?

Na estrada perdida, só há escuridão na imensidão do olhar. No soturno alento do desalento, desalinho entre os versos lúgubres de Albinoni.

Ofuscado! O perfume das rosas se esvaiu do sepulcro.

No tormento insolente, da embriaguez indecente, a cegueira da desilusão. Metade do coração! Nada mais que a carne petrificada.

Nas ruínas da ausência, a saudade se reconstrói, no martírio da súplica não atendida.

A canção perdeu a poesia mais bela! A alma não mais acampa na paixão!

No fim, da fotografia despedaçada, das palavras indescritíveis, dos amores inalcançáveis, onde mora a modéstia da angústia.

E no que dissipa os conceitos, preceitos, cai nas asas de voo intenso. Desenfreadas sem rumo, nas alças da solidão, preâmbulo do calabouço das inverdades não ditas.

E na lágrima insolúvel, rodopio da bailarina, vertigem do pensamento. Vai-se a desgraça abstrata, descabida, desprovida nas lamentações.

Na inconstância do que se perdura. Encanto! Onde se perdeu o espelho do vislumbre?
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Segredo

A saudade invadiu o escondido, onde os olhos penetram marejados.

A mão que percorre sozinha o corpo, calejada se esvai.

A mente que traz na lembrança a doçura do beijo tentador. O mel escorre no fel da boca.

O vinho do sangue derramado nas curvas, estala na língua atraente. Perdeu-se no último suspiro, no ar que respira ofegante no ouvido, suave, descrente.

Lateja nas entranhas, o gozo irracional, no suor do crepúsculo, que goteja ao anoitecer. A carne que desliza nos dedos, na firmeza do toque, no que prende, repreende, repuxa.

Nos cabelos emaranhados, na saliva obscena, afogada na angústia.

No ímpeto que viaja, embriagada. Sufoca!

No pensamento que maltrata.

No calor da tua sombra, no brilho do olhar insano, lascivo dentro do que preenche.

No arrepio que cai na pele perspicaz.

No que acompanha cada detalhe, nos sentidos que aguçam o pecado engasgado no mistério.

No que faz derramar sagazmente, na chuva inóspita dentro de mim.

Naquilo que a fraqueza não apaga. E novamente o beijo! Ah! O beijo que enclausura alheiamente. Sem querer, forçadamente!

E toma, me tomas, nos tomamos! E na língua se proclama o veneno que alimenta, desnuda, sobrevive!

No sal que mata a sede. No silêncio que declara. E no que retrai, traz vida, incansavelmente!
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Perdida

O desejo imprudente que sobe nas vísceras. Ardente e obsceno; fugaz e sereno. Cobiça da pele que queima e ateia o juízo.

Da saudade perdida no meu refúgio e liberta da insensatez do teu sorriso. No grito cerrado, preso na garganta do meu silêncio.

Na voz que ensurdece, declínio da carne, se entrega, me entrego no eclipse da boca que enseja a língua travessa. E percorre o meu infinito afoito, envolto, dentro de nós, se desfazem os nós.

Imersa, submersa, na saliva que penetra no horizonte dos devaneios. Nas curvas tênues, sinuosas da aurora do meu domínio.

E com o corpo tece o meu ímpeto, costura, desenha, remodela o poente. É do teu sabor diluído por dentro, que se adentra, devora, derrama o clamor e embriaga a volúpia concisa, onde me perco na veemência dos teus lençóis.
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Fim do mundo

Navegaste em minhas ilusões e acorrentaste as lamentações.

No suplício da tua angústia, desbravaste o meu mar.

Deixaste pedaços de ti em minhas ilhas. Uma a uma.

Ancoraste a tua voluptuosidade nas ondas do meu corpo perverso.

O desejo impuro foi fisgado pelo o meu chamariz.

No lampejo dos sonhos afogo-me em teus furacões. Devassa, nefasta, impura, mundana na tua fruição.

As terras se dispersaram, o dia anoiteceu, a lua enclausurou o sol no meu paraíso. As nuvens carregadas do profano.

Relâmpagos e trovões do meu íntimo. Jorram-se águas dos mares infindos da nossa lascívia.

Universos  destruídos, nosso leito, meu mar no teu mar, fim do mundo!
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Livros, apenas

Não desejo ver-te pelo ângulo de livros definhando nas prateleiras e nem na poeira enraizada nas mãos trêmulas.

Ainda não consigo ler-te!

O cheiro que traz vívida as lembranças de outrora. Pensamento enclausurado na ânsia do amargor.

Nas páginas folheadas, uma nova história. A mesma, a de sempre. Palavras que não descrevem a angústia indescritível. Nem Poe, Baudelaire, Neruda ou Shakespeare, meros apenas em sua própria arte, desdém dos sentimentos, apenas isto.

Não quero lembrar os momentos que apenas ficaram e fincaram. Nem ao menos sentir novamente o que já tomas demasiado e inexplicavelmente.

O toque é imortal e basta apenas enxergar o que os olhos jamais atingirão.

O caminhar das letras que se formam, na palavra ilegível que surge a cada delinear, no pulsar paulatinamente da carne que ouve Chopin, o mesmo, o de sempre, igual e diferente a cada noturno.

Não desejo ver-te! Não preciso lamentar-me!

Mas há pedaços em todos os cantos, em todos os contos, em todas as poesias, nas lágrimas de solidão e no coração dilacerado.
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Comentários (1)

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jrunder
2020-06-03

Uma grata surpresa encontrar versos dotados de tanta poesia. Parabéns!