Lista de Poemas

Desalento

E na melancolia da dor, se estagna a saudade, não do que se foi, mas do que se eternizou no peito.

As lembranças não se apagam, mas se confundem numa fúnebre procissão dentro da memória. No incabível. Na solidão perene. Na insensatez do pranto. No arquejar sôfrego.

A lágrima que reaviva os sentidos, o pulsar que instiga o coração cansado. E o nada que perpetua e preenche indecente o amargor da inexistência.

E na ausência do beijo, na amnésia das palavras, no carinho contido, morre a sanidade.

Invenção que atordoa, demência dos devaneios perdidos.

No ímpeto da clemência, a angústia roga uma prece. Que de olhos marejados, se junte os pedaços, cansados de andar descalço.
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Nenhum

Nada do amor, senão nos passos lentos de uma caminhada, dentro das curvas da memória.

Sonhos perdidos em veredas inalcançáveis.

Na brusca interjeição do voo do pássaro longíquo.

Na falta escalvada dos beijos enraizados na solidão da boca.

Onde se esconde o abraço da dor.

Em cada pulsar do peito faminto, em cores desbotadas no cerne da carne.

No fogo ateado de tarde no alvorecer.

Nada que o amor ao amor se complete. Nada senão abotoaduras desnudas, que nos versos de Neruda percorrem à brisa da tez.
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De olhos fechados

Nos olhos em que as lágrimas embalam ao som de soluços, desbravam a face cálida. O que não se pode ver! Desespero do mundo.

Na tristeza que persevera, a saudade instaurada na dor, repugnante.

Aflição do desejo incontido.

A pele insensível, insolente. Acabou a arte!

No pensamento que vive, na morte que aprisiona a vida, sozinha.

No retrato empoeirado, sem importância.

Os dias são anos, o tempo tênue. Na alma esmorecida, incabível no horizonte.

A música que canta e não encanta. Relembra o sorriso perdido na face. Do dia que a noite roubou, da noite que escureceu os suplícios.

No grito ensurdecedor, âmago arrasado no precipício.

A destruição revelada no pessimismo insistente.

Na esperança da desesperança.

Do luto infindável que carrega-se por si e só.

A êxtase do martírio, no pulsar do sangue que não mais queima.

Na frieza, na rijeza dos sonhos inexistentes.

E a poesia soberba, de versos hipócritas. Na melancolia exibicionista, sem efeito.

A traição no abandono.

Da respiração que não mais alcança o perfume, intenso, evaporou, se desfez!
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Liberdade

Podes escrever os mais belos versos esta noite, mas os meus certamente serão os mais tristes.

Na riqueza da alma, nasceu um oceano de amarguras.

E autoproclamo a angústia a fiel e mais imperfeita das piedades.

De palavras fervorosas fiz um mundo e no mundo vi um espelho, no espelho o meu submundo.

No clamor havia a súplica, tal qual era o desejo.

Do meu corpo belicoso, vive o mar de fronteiras e caminhos. Dissolutos!

Em olhares sombrios construí uma muralha, onde cinzas do sangue derramado sobrepujam a razão perdida.

E no singular mais que plural me fiz exígua de mim.

Libertei-me!
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Carmenere

Posso degustar do vinho que bebes, e embriagar-me nos taninos do teu beijo.

Passam-se noites e luas e sóis, no carmenere que escorre por dentro. E no gole do desejo, à meia taça, às costas nuas, delicada como a seda transparente.

Na limpidez dos dedos, o toque que traspassa...

Na nuca dedilha adágios e compõe melodias, desce no dorso levemente, harmoniza versos em poesias, estrutura do corpo na pele.

Flui e juntamente inebria o véu do íntimo.

Pulsa no peito o que esvai das entranhas.

E goteja na tez, sublime!

E no enredo de nós, tecem caminhos e abrem-se mares.

Na taça que finaliza e se finda o pensamento exaurido.
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Incrédula

E ela rezou com todo o fervor de sua alma.

Clamou o mais alto que sua voz poderia alcançar.

Mas não sabia que a fé era ineficiente.

Foram muitas e tantas orações milagrosas, mas que perderam o valor diante à insensatez da vida.

Ninguém ouviu a sua súplica!

E ela chorou com todo o ardor que irradiava o seu ventre.

Mas as lágrimas não acalmavam o coração.

E foram muitas e tantas, mas que desfaleceram-se diante o desgosto da vida.

Ninguém enxergava o seu pranto!

A devoção remota ainda era a única salvação de suas forças.

Mas a esperança já a estrangulara.

Nesse tempo, as valsas de Tchaikovsky se apagaram, Neruda perdeu seus versos, a tragédia nunca pertenceu à Ésquilo e todas as flores amaldiçoadas por Baudelaire eram as únicas que exalavam o buquê resplandescente.

Diante do precipício, nem Deus, nem fé, nem esperança e nem devoção.

Era somente ela e sua dor.

E assim segue o cortejo!
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Perdoa-me

Perdoa-me pelo sorriso perdido, que ora se compõe nos lábios inesperadamente. Pelo riso não dado, fuga dos pensamentos hostis.

Pelo beijo que adormece o anseio, que como um raio inebria o inconsciente e padece na solidão da língua traiçoeira.

Perdoa-me pelas mãos que tocam e sentem e afagam e distorcem. Pelos dedos que acariciam, que prendem, envolvem e cessam o devaneio.

Pelo corpo que busca, objeto do prazer desmedido. Da carne impura, que sana a vontade da tua.

Perdoa-me pela saudade que esconde o breu da contemplação. No coração que desperta no gozo infindo.

Pelas manhãs arranhadas na desilusão dos sonhos.

Perdoa-me!

Só não perdoe o amor! Esse inconstante que tece no peito o desejo do olhar.
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Acabou

Nos olhos púrpuros que transfiguram a falência do abandono. Caídos, sem brio, mal acabados em saudades. Das lágrimas insólitas, que jorram a escassez do amor.

Somente de prantos sobrevivem!

Na fúria da falta, na falta constante. Na presença, que permeia o vão da solidão. Do sombrio, que a alma não mais preenche.

Ausência do elo perverso.

Remanejam-se sonhos, perdem-se os devaneios.

Do instante em que o coração trafega nos martírios incabíveis do impreenchível. Desfez a vida infinda no destino infiel.

As asas se partiram. O voo se tornou imperfeito.

A morte não é o fim da vida, que não mais a possui.
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Reencontro

Recomeço de ilusões, punição da carne insolúvel. Diversas versões inebriadas em dor.

No medo que persegue a insensatez dos sonhos. Em tons suaves, minúcias dedilhadas na pele eriçada.

Desbravado em nus de almas. Somente sós!

Olhares desconexos se despem em versos.

No toque que arqueja o ar e tremula o desejo.

Em lágrima, exprime o cais do corpo. Marcas debruçadas, expressão perdida!

Em voos esplêndidos, na língua flutuante dentro de caminhos sinuosos.

No tempo que consome e some, adormece na antiga fadiga.
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Tempo

E ela olhava pelo vão da janela com olhos desconhecidos.

No pensamento que se esvaía da mente.

O cheiro do perfume exalava de sua pele, aveludada.

Sob lágrimas exauridas, sublime face da tristeza vencida.

E ela findava, fixamente. Na saudade que confundia os martírios. As imagens debruçadas ao vento, levada pelo tempo perdido, o ar que não respira sozinho.

Perda dos sentidos. Desencanto perfeito da inesperança.

E ela gritava silenciosamente! E no clamor de sua alma, ápice do maior devaneio. Ninguém a ouvia, nem ela mesmo.

Amnésia das ilusões profundas. E no amargor da língua, na profusão do amor. No último pulsar.

E ela! Ela ainda menina, ainda perdida. Desconhece a si. A criança se desfez!
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Comentários (1)

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jrunder
2020-06-03

Uma grata surpresa encontrar versos dotados de tanta poesia. Parabéns!