Lista de Poemas

Naquele quarto

E o coração permanece conforme o quarto de antes.

À cama, lençóis debruçados em lágrimas exauridas.

A toalha molhada deixada sobre a poltrona ressecou, juntamente com a pele desgastada.

O rádio na pequena escrivaninha não mais se envaidece com tua voz.

O silêncio é absoluto!

Da janela as nuvens continuam as mesmas. O sol com todo o seu brilho, arde da mesma forma de sempre.

O corpo permanece execrado em dor.

As paredes cansadas da ânsia das lamentações, continuam em pé e se tornam as mais fiéis das confidentes.

De fora as folhas das árvores arquejam sobre o vento, mas à estante, páginas do poetinha e Neruda repaginam os poemas mais tristes.

No retrato empoeirado sobrevive todo o discurso, envelhecido com as marcas do sofrimento.

O quarto continua o mesmo, o ar ofegante se esvaiu, a voz emudeceu na face, mas tudo continua.

Nos olhos fitos ao nada, isolada na tua presença, ouço as histórias, deitada ao colchão ao teu lado vazio.

E o sentimento permanece conforme o quarto de antes.

E a presença da falta, faz mais falta que antes.

E a dor que consome, dói mais que antes.

E em meu olhar há mais lágrimas que outrora.
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Desespero

Porque me desfaleço em cada pensamento que elevo a ti. Nas pálidas paredes das lamentações.

A falta! Não há olhares, nem brios, não há vida.

O sofrimento acompanhado, em conjunto, junto à carne fúnebre.

Na música sem melodia, na voz que não mais alcança, na cegueira do ventre. Todos estão surdos!

A dor, extensão do âmago irreprimido.

A luxúria do devaneio futuro.

Acabou! Não há palavras, nem vento, não há sol.

O nada que preenche o coração vazio, cárcere de um corpo decomposto.

Na sublime decepção, na lágrima andarilha, na doença maldita.

Todos estão mortos!

A medicina, declínio que insurge.

A mentira vomitada no inferno.

Escondeu! Infimamente, a solidão dos muitos, incontida nas entrelinhas da face dilacerada.
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Perdoa-me

Perdoa-me pelo sorriso perdido, que ora se compõe nos lábios inesperadamente. Pelo riso não dado, fuga dos pensamentos hostis.

Pelo beijo que adormece o anseio, que como um raio inebria o inconsciente e padece na solidão da língua traiçoeira.

Perdoa-me pelas mãos que tocam e sentem e afagam e distorcem. Pelos dedos que acariciam, que prendem, envolvem e cessam o devaneio.

Pelo corpo que busca, objeto do prazer desmedido. Da carne impura, que sana a vontade da tua.

Perdoa-me pela saudade que esconde o breu da contemplação. No coração que desperta no gozo infindo.

Pelas manhãs arranhadas na desilusão dos sonhos.

Perdoa-me!

Só não perdoe o amor! Esse inconstante que tece no peito o desejo do olhar.
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Reencontro

Recomeço de ilusões, punição da carne insolúvel. Diversas versões inebriadas em dor.

No medo que persegue a insensatez dos sonhos. Em tons suaves, minúcias dedilhadas na pele eriçada.

Desbravado em nus de almas. Somente sós!

Olhares desconexos se despem em versos.

No toque que arqueja o ar e tremula o desejo.

Em lágrima, exprime o cais do corpo. Marcas debruçadas, expressão perdida!

Em voos esplêndidos, na língua flutuante dentro de caminhos sinuosos.

No tempo que consome e some, adormece na antiga fadiga.
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Saudade

Hoje há mais dor na minha angústia; há mais solidão na minha saudade; há mais amor do que possa carregar.

Hoje o passado se revigora, o sentimento não cria forças e rouba a minha esperança. O coração partido carrega o que tanto martiriza. O corpo sobrevive da sensação de te ter como abrigo.

Hoje o sonho se distancia da realidade, a lembrança se apossa da fraqueza e torna o meu mundo mais solitário.

Sem sentir a lágrima torna à face, como súplica do tudo que foi tirado.

As palavras fogem perante o aperto e o ontem se tornou o presente mais doído.

Hoje há mais escuridão no meu olhar; há mais tristeza na minha decadência; há mais imagens do que minha mente possa aguentar.

Hoje o teu infinito permanece em mim; o teu amor se instaurou no peito e a tua voz tilinta em meu pensamento.

Hoje é o fim da minha estrada, mas meu caminho segue os teus passos, silenciosamente.

É o início da luta constante, com tudo o que faz arder na alma. O teu olhar, o teu sorriso, as tuas maiores lições, findaram em tudo que me compõe.

Hoje há mais angústia na minha dor; há mais saudade na minha solidão e há mais do ontem do que consiga suportar.
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Liberdade

Podes escrever os mais belos versos esta noite, mas os meus certamente serão os mais tristes.

Na riqueza da alma, nasceu um oceano de amarguras.

E autoproclamo a angústia a fiel e mais imperfeita das piedades.

De palavras fervorosas fiz um mundo e no mundo vi um espelho, no espelho o meu submundo.

No clamor havia a súplica, tal qual era o desejo.

Do meu corpo belicoso, vive o mar de fronteiras e caminhos. Dissolutos!

Em olhares sombrios construí uma muralha, onde cinzas do sangue derramado sobrepujam a razão perdida.

E no singular mais que plural me fiz exígua de mim.

Libertei-me!
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Nenhum

Nada do amor, senão nos passos lentos de uma caminhada, dentro das curvas da memória.

Sonhos perdidos em veredas inalcançáveis.

Na brusca interjeição do voo do pássaro longíquo.

Na falta escalvada dos beijos enraizados na solidão da boca.

Onde se esconde o abraço da dor.

Em cada pulsar do peito faminto, em cores desbotadas no cerne da carne.

No fogo ateado de tarde no alvorecer.

Nada que o amor ao amor se complete. Nada senão abotoaduras desnudas, que nos versos de Neruda percorrem à brisa da tez.
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Desalento

E na melancolia da dor, se estagna a saudade, não do que se foi, mas do que se eternizou no peito.

As lembranças não se apagam, mas se confundem numa fúnebre procissão dentro da memória. No incabível. Na solidão perene. Na insensatez do pranto. No arquejar sôfrego.

A lágrima que reaviva os sentidos, o pulsar que instiga o coração cansado. E o nada que perpetua e preenche indecente o amargor da inexistência.

E na ausência do beijo, na amnésia das palavras, no carinho contido, morre a sanidade.

Invenção que atordoa, demência dos devaneios perdidos.

No ímpeto da clemência, a angústia roga uma prece. Que de olhos marejados, se junte os pedaços, cansados de andar descalço.
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Lápide

Sob a solidão do sepulcro, de folhas secas e mortas.

O vazio das vozes surdas.

Na chama apagada da vela petrificada. Sombras de vultos arquejados no olhar sôfrego e contido.

De joelhos dobrados num pranto regado de martírio. Júbilo da escassez da vida!

A flor perene que cresce na morte, graceja da dor alheia. Covarde carne que sova o amor.

Segredos escusos na própria alma. No choro perverso, que destrói o olhar sem brio.

O abrigo desgraçado que restou da infâmia. Rastejo da incoerência.

Palavras ofuscadas pela visão já distorcida.

Pensamento que aos poucos se esvai. Temerosos ao esquecimento.

Lamento do tempo que contorce as ilusões.

Onde a tristeza fez morada, o cortejo segue etéreo.
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Soturno

E quando o olhar se torna impenetrável. No que foi dominado pela letargia.

Na lucidez desmoronada.

Nas mãos intocáveis, abstinência do zelo incompreensível.

Nas asas corroídas, no voo imperfeito.

Do medo da fé perdida.

E das constelações lúgrubes que escorrem das lágrimas imprecisas.

Na dor interminável que dispersa na morte incontida.

No tempo etéreo, que passa despercebido.

Do sangue que queima, rasga a malha sem vida. Do corpo que carrega a existência. Dos lábios que desconhecem o beijo.

E não precisa falar das rosas, elas já murcharam. Perderam o viço.

A solidão acompanhada da penúria.

Na penumbra do dia que perdeu a manhã.  Da noite que não amanhece. Estagnado!

Das luas e sóis que se passaram no toque.

E na música que toca, que sorva, destrói pensamentos, arrasa sinfonias, descama orquestras e finda na melodia do alento.
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Comentários (1)

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jrunder
2020-06-03

Uma grata surpresa encontrar versos dotados de tanta poesia. Parabéns!