Lista de Poemas
Mulher -ascendente
Mulher – ascendente (À memória de Marielle Franco)
Urge o teu retorno, mulher - criatura
Do princípio das eras, do âmago.
Urge a tua liberdade, a tua voz
Abafada pelos ditadores do mundo.
Urge tempo consagrado a ti mesma,
Mulher criadora de marés e ventos,
Espírito galáctico de amor,
Na sua dança circular, maior
Do que os limites de qualquer sistema.
Urge o teu regresso, ó mulher-poema
Vinda dos campos, vinda do espaço,
Proferindo versos não programados
Contra a hipocrisia de quem corrompe
A liberdade, a justiça, o respeito.
Urge a sinapse, o salto, a catapulta,
A transformação desta vida bruta:
Acordar não pode ser um martírio
Transmitido em direto nos aquários.
Urge o teu Verbo, só reverberado
Num regaço de mãe, após o parto.
Assim, enquanto não gritas, o teu nome
Vai constando nos autos, nos jornais,
Nas redes pesqueiras de vãos perfis:
“Vítima de homicídio”, de violência,
Morta na estrada, em casa, em decadência.
Assim, enquanto em ti dormir a Deusa,
O desnorte é um quotidiano demente
na bruma que trazes ainda suspensa.
Desse nevoeiro secular, novos genes
Trazem links de vitória e de mudança
Que dentro do teu ventre esperam vez:
Que nasçam Pioneiras e não Primevas,
Que sejam mais Elas e não as Evas
Pecadoras, culpadas e então expulsas
Dos paraísos que havia dentro delas.
A cada mulher cabe uma cambiante:
Água que lhe lave o curso da história,
O curso da mente, o semblante pesado,
Água de rosa que no rosto avive
A curva expressiva e rubra, ascendente.
Marília Miranda Lopes
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Terça -feira: Mercúrio
Terça-feira: Mercúrio
Este tempo invernoso omite
claridades nos teus olhos vivos:
palavras que rebentam nas bolhas
que raiam dos anéis das íris.
Não precisas, pois, de suster
a respiração nesse augúrio:
a mensagem vem de Mercúrio,
segue já na corrente, a ver
as margens e o mar ao longe:
aguarelas ternas que flambam
o verbo calado, em suspenso,
sem vontade de se debruçar
da tua boca que consente
salitre nos lábios e bruma
do dia em que fomos navio
e vela, e mastro, e terra una.
Este tempo invernoso omite
claridades nos teus olhos vivos:
palavras que rebentam nas bolhas
que raiam dos anéis das íris.
Não precisas, pois, de suster
a respiração nesse augúrio:
a mensagem vem de Mercúrio,
segue já na corrente, a ver
as margens e o mar ao longe:
aguarelas ternas que flambam
o verbo calado, em suspenso,
sem vontade de se debruçar
da tua boca que consente
salitre nos lábios e bruma
do dia em que fomos navio
e vela, e mastro, e terra una.
Marília Miranda Lopes
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Nakba
Nakba *
Talvez fosse fácil encerrar o dia,
a ouvir o caiman islands dos kings,
como é habitual, na mesa do café
que me está reservada,
com vista para a nídia da papelaria,
com acesso aos miseráveis viandantes,
como diria yourcenar.
Oratória e paciência: traçar durezas
que denunciam álcool, drogas, sal, açúcar,
rostos ambulantes saturados
que me chegam à berma dos olhos
como ataques de pânico, despistando-se
mesmo com motores revestidos a inviolável
aço inoxidável.
!Ó existência prolífera em mortes lentas e súbitas!
Os miúdos que vou ouvindo dedilham bem:
a melodia leva-me para outras ilhas
onde me divirto em cartoons
de muito desprendimento,
alegria e pés descalços.
Talvez fosse fácil encerrar o dia,
a ouvir o caiman islands dos kings,
como é habitual, na mesa do café
que me está reservada,
com vista para a nídia da papelaria,
com acesso aos miseráveis viandantes,
como diria yourcenar.
Oratória e paciência: traçar durezas
que denunciam álcool, drogas, sal, açúcar,
rostos ambulantes saturados
que me chegam à berma dos olhos
como ataques de pânico, despistando-se
mesmo com motores revestidos a inviolável
aço inoxidável.
!Ó existência prolífera em mortes lentas e súbitas!
Os miúdos que vou ouvindo dedilham bem:
a melodia leva-me para outras ilhas
onde me divirto em cartoons
de muito desprendimento,
alegria e pés descalços.
Talvez fosse fácil encerrar o dia,
se não fora o massacre
ou a abominável tragédia
de se matar o próximo
- essa loucura amarga
que a crueldade segrega
e faz estremecer de Urgência
a precária humanidade.
* Catástrofe em árabe
Marília Miranda Lopes
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Quarta-feira: Kairós
Quarta-feira: Kairós*
Chove abruptamente: Kairós.
Além, Lisboa que deixo em transe,
como se a perdesse de vista,
e alguém dissesse “que descanse.”
Revolvo-lhe os cabelos brancos,
luzes revoltas em abismo
do antigo tempo que a refez
erguer-se dos escombros, do sismo.
Despeço-me, já embarcada,
dos murmúrios todos do cais,
onde atracou um amor breve.
Hoje, levantou vela quem o teve:
vento que subitamente apita
ali, já distante, no mar,
onde nenhum coração grita,
enquanto houver paz e um Lugar.
Chove abruptamente: Kairós.
Além, Lisboa que deixo em transe,
como se a perdesse de vista,
e alguém dissesse “que descanse.”
Revolvo-lhe os cabelos brancos,
luzes revoltas em abismo
do antigo tempo que a refez
erguer-se dos escombros, do sismo.
Despeço-me, já embarcada,
dos murmúrios todos do cais,
onde atracou um amor breve.
Hoje, levantou vela quem o teve:
vento que subitamente apita
ali, já distante, no mar,
onde nenhum coração grita,
enquanto houver paz e um Lugar.
*Em grego: καιρός, "o momento oportuno", "certo" ou "supremo".
Marília Miranda lopes
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