Lista de Poemas
Pelas entranhas do mar
Vejo uma fraca linha no horizonte,
Sussurros agoniados de ventos se ouvem,
Sente-se as gentes gritando poesia
Em meio ao inebriante cheiro a maresia;
Consigo até imaginar o seu gesto,
O seu corpo esculpido banalmente,
Pelas entranhas do mar vejo
A minha esmeralda no meio desta gente;
O seu corpo balança ao som das ondas,
Numa dança envolvente que me cega,
O meu olhar de desejo reprimido
Culpa-me e entrega-me d'alma a ela;
Enfim, sua sombra se dissipou,
Resta-me contemplá-la no meu pensamento,
O mar agita-se bruscamente
Para dar ínicio a todo este tormento.
Não mais fiz depois que amei
Vivi em ilusões desmedidas,
Rodeada por quem pouco exerga,
Vivi somente para ver o sol se erguer,
Alumiar um conectar de vistas,
Que a volúpia e luxúria faz crescer;
ao que move a minha amargura,
De nao ter ocio no amor e na poesia,
Que amo tanto e tudo o que respira,
Que é como cantiga sem partitura,
Uma doce, vil, alma insegura;
Encontrei-me na lira que escrevi,
Sonhei e prometi Mundos somente
A quem não soube dar estima,
Que amor e lágrimas lhe tive,
Tanto que só chora quem ama
E só ama quem nada sente;
Perder-me em sôfregas palavras,
Desaparecer num abraço sentido,
Tocar-lhe, sorrir-lhe e sussurrar-lhe,
Bem baixinho ao ouvido,
A melodia de um coração partido.
Padecer no Mundo
Minha alma despe-se
Com esta chuva que cai,
Relâmpagos e trovões,
Esta desgraça arruinai;
Foi Senhor que se revoltou
Com este mundo desconcertado,
Nesta manhã de pleno deserto,
Os vilões rezam por seu belo estado;
Quem tirou ao Mundo
A paz dos nossos corações,
Que seja sugado pela tormenta,
Que repousem nas chamas, seus ladrões;
Seja preto ou branco,
Gordo, alto ou de boa mente,
Ninguém pode fugir deste Mundo,
Só resta padecer nele descontente.
Para sempre hei de amar!
Para sempre hei de amar!
Para sempre hei de recordar
Quando diante de mim sentavas,
Cabisbaixo no olhar, mirando
Os rabiscos que nos papéis desenhavas;
Para sempre hei de amar!
Ao redor tanta mocidade e eu só te via a ti,
Contemplava-te como se fôssemos sós no mundo,
Tu, tão diferente de todos eles,
Seria o começo de um amor profundo;
Para sempre hei de amar!
Quando cantavas,
Ah quem o visse cantando!
Voz forte, robusta, meia anasalada,
Fazia-me ajoelhar pelo seu encanto;
Para sempre hei de amar!
Só não me permito esquecer
quando tocava as cordas da guitarra,
Via-me eu, perdida num canto, acanhada,
A deixar que a minha alma fosse quebrada;
Para sempre hei de amar!
Com a alma em pedaços
Tomada pela louca paixão,
Amarei devotamente
Tudo o que chegar ao meu coração;
Sofro!
Sofro porque te amo a ti,
Sofro porque amo e não sei amar,
Sofro porque tenho medo,
Medo de o tempo a mim te levar.
E levou.
Quanta dor
Quanta dor não faz sentir,
Em cada fibra do meu jeito,
A dor da rejeição,
Essa que me fere o peito;
Orgulho ferido num leito desenhado,
Pingas do que te corre nas veias
Que caiem, piedosamente, em mim
Sob a sombra d'um gesto quebrado;
Vejo-me leda e formosa,
Tamanha é a minha fantasia,
Quantos dias eu não conto
Para sanar de mim tal agonia;
Some-te dos meus pensamentos,
Que de ti não quero que não me queiras,
Quem seria eu, meu anjo,
Se a ti não te quisesse?
Sopra o vento
Sopra o vento,
Que amaina as lágrimas que caiem
Sedentas dos teus olhos cor de mar,
Descem por teu gesto, já rugoso,
Com traços do tempo que ninguém faz parar;
Olhos opacos vidrados no além,
Contavas-me o quão triste foste toda a tua vida,
O quanto choraste ao céu que ouvisse
As tuas presses de puritana rendida;
Avó, que lindo nome o teu!
Maria dos meus encantos
Por quem me apaixonei um dia,
Aquela que me permitia olhá-la
A entrançar belos e ondados fios de ouro,
Aquela que diante de mim sofria!
Tinhas um cantar de encantar, Chorava eu de fininho,
Tardes passadas no terraço
A ouvir as melodias da primavera,
Sentada a olhá-la, formosa,
Maria a lavar as vestes
Quando para mim dissera:
Sempre tão chorosa;
Minha Maria enchia-me a leda alma
Quando, de noite, sussurrava ao ouvido
Tudo o que um coração não ouve;
Com os seus braços em volta de mim,
Nas noites gélidas de Janeiro, Jurei que dali não sairía nunca mais,
Juramento matreiro!
Vim saber que o tempo não parava,
Vim saber que nunca mais cantaria para mim,
Vim saber que perdera a minha circe;
Soube que te irias
Quando parada a olhar para ti,
Maria, quase sem vida,
Me pedias, sofregamente,
Para sanar a tua dor;
Despedi-me.
De ti, do tempo e das lembranças.
Vim afogar as malditas mágoas
Daquela que costumava ser a minha rainha,
A velha das fartas tranças;
O teu olhar sem vida lembra-me
Do fastidioso tempo que passou, Queria poder também amar-te,
Mas o meu coração não ajuda
A amar a quem me deixou;
Hoje, olho para ti com a saudade do passado,
Com a esperança de voltar a olhar a minha Maria,
Que tomou o meu coração despedaçado!
Hoje sou eu quem faz as tranças,
Quem canta aos céus
que te leve completamente de mim
E deixe somente as boas lembranças.
De frente ao mar
Aqui me sento
De frente ao mar,
Não sabendo o que há de vir,
Não sabendo o que hei de esperar;
Dedilhando a areia,
Deixo-me levar por pensamentos,
Deixo-me molhar pela água,
Deixo que ela leve os meus tormentos;
E se o meu amor fosse tão bom
Quanto a formosura deste lugar?
E se o meu amor fosse alcançável
Quanto o medo que tenho de esperar?
A dor da incerteza é bem pesada,
Cuidarei do meu pássaro
Ou deixá-lo-ei voar?
Mal sabe ele que d'ele não espero nada.
Suspiros sôfregos
Suspiros sôfregos,
Uma linha de suor
Compondo a testa,
Face pálida de rubor;
Cabelos desgrenhados
Que instigam tal desejo meu,
O meu coração palpita
Só de ouvir o som do teu;
Nossas pernas enroscadas,
Nossos corpos livres de qualquer pano,
Nossas almas compenetradas,
Deste jeito tão insano;
Agora vejo-me triste,
Cerro os olhos, bruscamente,
Com ganas de continuar a ver minha Circe,
Que se dissipou do meu sonho tão friamente.
Tirai os meus olhos e o coração
De ti cansada estou,
Cansada estou de esperar por ti,
O meu descaso e cansaço
Vem da mágoa que já senti;
A paixão a ir-se pelas entranhas,
Chorando a minha alma
De servo inexperiente,
Enquanto espero por ti amargamente;
Passei a celeste madrugada
A contemplar aquilo que não é meu,
De jeito nenhum me pertence,
Tal amor que Senhor me deu;
Rogai a Deus que peço:
Tirai os meus olhos e o coração,
Que para mim só o desprezo chega
Para acabar com esta sansão.
Um dia encontrar-te-ei
Um dia encontrar-te-ei
Sozinho, todo apressado do outro lado da rua,
Seremos dois outra vez,
Eu a olhar-te e tu na tua,
Voltaremos ao que sempre fomos,
Música sem harmonia,
Vida sem poesia;
E depois de passados anos
Vejo-me de novo perdida,
Segurando o meu coração em prantos,
Que relembra o quanto doía;
Talvez agora te possas lembrar de mim,
Voltar atrás no tempo
De onde eu te via do banco do jardim,
Tu, com aquele brilho nos olhos
Parecias feliz;
E hoje quem és tu?
Que ainda me fazes arder no fogo,
Que me puxas, agrides e magoas,
Que me rasgas o peito sem palavras boas,
Que me fazes ter dó de mim;
Talvez, daqui a uns anos,
Eu possa esquecer como me fazias sentir,
Vou mais além,
Talvez enquanto passo a minha vida a escrever-te,
Tu sejas feliz com outro alguém;
Talvez possas pensar em mim
Enquanto olhas a lua,
Talvez um dia serás meu
E eu não serei tua.
Comentários (5)
Muito prezo as tuas palavras miuda, não tens só beleza exterior, o que sai de ti é bem mais forte e bem notável. 17 anos e muita boa escrita :D Um Abraço
Lindos poemas!
Suas palavras são verdadeiras e sinceras, consigo sentir quando algo é bom, mas isso é ótimo
Suas palavras são verdadeiras e sinceras, consigo sentir quando algo é bom, mas isso é ótimo
Tão jovem, tão bela e tão talentosa. São três ingrediente mágicos e incendiários. Parabens!
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