Lista de Poemas
Total de poemas: 20
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Palíndromo
Encontro sombras nos olhos negros
Sob a copa da árvore
No fundo do rio
Posso sair do rio
Mas estaria sob a copa da árvore
Posso cortar as árvores
Lá estariam os olhos negros
Posso fechar os olhos
Só restariam sombras.
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Etimologia da palavra romance
Pegam uma coisa
E a chamam de pedra
A ela atribuem substância
E passamos ao convívio
Dessa coisa
De matar passarinho
De colocar no trilho do trem
De fazer casa
E de calçar as coisas pensas
E toda vez que pegamos
Uma dessas coisas
Chamada pedra
E a atiramos ao rio
O fundo da coisa nominada rio
Já não é mais só fundo
Porque uns pés inesperadamente
Podem tocar a pedra e cair
E inventar uma outra coisa
Que alguém, com a mão estendida, possa
Atribuir substância de fazer casa
E de calçar as coisas pensas.
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Stravinsky
Agora temos uma casa
Larga e vazia
Uma casa com um único objeto, no centro da sala
{o piano
Uma casa feita para reunirmos o silêncio
Nenhum outro som do mundo
Apenas a contingência do piano
E com o passar do tempo, se no móvel
{habitassem abelhas
Um pequeno ruído nos incomodaria
Por horas, dias, meses resistiríamos em reconhecer
Nossa impontual virtude.
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Degredo
Deste país nada sei
Nele não respiro
Moro no país das árvores caídas
Dos banheiros sujos
Das escolas que enganam
Tropeço nas manhãs sóbrias
E infames deste lugar
Que não reconheço
Quero as noites sem pátria
Dos copos vazios
Do país de ontem.
👁️ 161
Flores de Kafka
As cores sequestradas
Mistificadas em jardins
Ciano, magenta, amarelo e preto
Adesivos, banners, catálogos, prospectos
Brindes, camisetas, painéis
Uniformes anunciam a impossibilidade
De não estar mais dentro daquelas cores
De viver além do azul ou do vermelho
De fugir da identidade
De jogar o corpo fora da escala.
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Retrato com abelha no cabelo
Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.
👁️ 93
A bailarina literata
A bailarina literata não se move
Os músicos tocam apreensivos
Algumas tosses
E olhares inertes
Duas horas transcorreram
Até os agradecimentos
Poucos aplausos
Poucas visitas ao camarim
Ninguém percebeu
A beleza daquele Romeu e Julieta
Dentro dela.
👁️ 162
Terra sem males
Todas as palavras rudes
Formam as montanhas que foi um dia
Minas Gerais
Toda máquina renasce
No contingente ser das máquinas
Todo o embaraço humano
Ignorado pelos gatos
Todo vazio entre átomos
Tudo que se rompeu
Fios, barragens, amores
Tratados
Restos de construções gramaticais
Anais das instituições
A promessa de vir e não vir
Vidas em corpos arrestados
Presos a esse imenso vazio
Que desmatamos
As cidades são pastos cinzas
Sem onças
Apanha-se a vida no chão
Até que haja o consenso de que todo pasto
É cinza
Fica mesmo é um mato
Um imenso
De precários rebocos.
👁️ 171
Antes...
Antes do antes somos bloco de pedra
Se nascemos, àquele que detém o cinzel nos destinamos
Aos pequenos golpes diários: contratos, telefonemas, juros
Antes pedra, antiguidade e templo, agora forma e obra
A ausência de virtude do escultor nos enfeia
De narizes, bocas e olheiras fundas
Presos em reter um dia a pedra que fomos
Em salas fechadas ao público
Aguardamos a retrospectiva dos artistas menores.
👁️ 180
Passarinho
Só sei fazer poemas com passarinho
Todas as palavras cabem em passarinho
Dor, por exemplo, é uma palavra que
A gente não pensa em passarinho
Mas dor é passarinho
Na palavra gaiola
Saudade é uma palavra passarinho
Que procura terras distantes
Deus é passarinho no mamão
Amor é a palavra passarinho disfarçada
De passarinho.
👁️ 173
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