Lista de Poemas
Total de poemas: 20
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A marche do enfant Rimbaud
Um militar
Tem tendência a passarinho
Pode ser a saíra
Ou o soldadinho
Todo dia carrega seu fuzil
Engraxa suas botas
Canta o Hino à Bandeira
Um dia descuidaram
E fugiu o passarinho
Levou cantil, botas e fuzil
Encontrou outros tantos
Companheiros
Foi fazer revolução
De passarinhos.
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Nanquim
Aprendi com as árvores
A escolher um dia de chuva para tombar
E pôr a culpa no vento
Para que ninguém desconfie
Da minha imensa vontade de cair.
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Tanger
Uma fina chuva cai sobre a estrada que vara os pastos
Há uma voz em tudo
Na chuva, no capim-gordura, no boi que não se move
A voz nunca se cala
Tange a tudo e a todos
Na pequena estrada enlameada
O homem segue sem ouvir a voz.
👁️ 110
Amantes
Nossa infâmia começa cedo
A luz devassa,
A cama bisbilhotada
Os corpos esquartejados
De ontem
Precisamos nos remontar
Já é dia.
👁️ 167
O mesmo ainda
Um menino sentado na cerca do curral
Menino é tempo enorme
Só as vacas conseguem.
👁️ 108
Cada batida na tecla do piano é uma ausência
Os vizinhos reclamam do barulho
Mas nunca reclamam do silêncio
Dos imensos vazios entre uma nota e outra
É neles que a pianista está gritando.
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Solfejo de coisas quase apagadas
Quando um menino bebe a água do rio
O rio corre para dentro do menino
O menino discursa o rio
Até que mije o rio outra vez.
👁️ 119
Tentativas para ausência de chão
A pedra é para o musgo repouso
O musgo é para a pedra o tempo
*
Às vezes recebia no quarto um sanhaço
E despia-se para o enleio
Olvidava o que tinha de casca,
Preferindo a brisa
O traupídeo, porém, tinha dogmas de asa
E partia
O vento e a noite encolhiam-na
A residuozinho de gente.
*
Um dia houve um cismar de adélias
Na beira do rio
Os peixinhos se regalaram de sol
Os bem-te-vis de azul
Sob o sol da tarde as cercas crinavam de éguas
E os arames se resignaram das farpas,
Como rosas
Os canários ignoravam os espinhos
Para docemente pegar cabelos baios
E nidificar o mundo
Os canários chegavam o mundo para o amarelo
Do outro lado, o rio plangia.
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Prorrompimento da poesia
Todo calendário venta em maio
Todo vento existe até que as coisas caiam
Uma jarra é um vento no chão
Todo dicionário é museu de palavras
O homem que lê dicionários visita
Os vestidos da palavra
Mas palavra tem vestido
Pergunta alguém
Sim, palavra tem vaidade
De loja
Só o poeta conhece a nudez da palavra
A palavra nua em brasas de dicionário
Um vento derruba a jarra
Em maio.
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Assentamento
Com o tempo meus pensamentos criaram raízes
Porém ainda meus olhos eram livres
Até que meus olhos criaram raízes
Minha boca dizia coisas
Até que as palavras criaram raízes
Meus braços balançavam no vento
Minhas mãos remexiam uns cabelos bonitos e negros
Minhas mãos criaram raízes
Minhas pernas partiam
Nem bem amanhecia e minhas pernas partiam
Até criarem raízes.
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