Escritas

Lista de Poemas

Total de poemas: 20 Página 1 de 2

A marche do enfant Rimbaud


Um militar  

Tem tendência a passarinho

Pode ser a saíra

Ou o soldadinho

Todo dia carrega seu fuzil

Engraxa suas botas

Canta o Hino à Bandeira

Um dia descuidaram 

E fugiu o passarinho

Levou cantil, botas e fuzil

Encontrou outros tantos

Companheiros 

Foi fazer revolução

De passarinhos.
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Nanquim


Aprendi com as árvores

A escolher um dia de chuva para tombar

E pôr a culpa no vento

Para que ninguém desconfie

Da minha imensa vontade de cair.
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Tanger


Uma fina chuva cai sobre a estrada que vara os pastos

Há uma voz em tudo

Na chuva, no capim-gordura, no boi que não se move

A voz nunca se cala

Tange a tudo e a todos

 

Na pequena estrada enlameada

O homem segue sem ouvir a voz.
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Amantes


Nossa infâmia começa cedo

A luz devassa,

A cama bisbilhotada

 

Os corpos esquartejados

De ontem

 

Precisamos nos remontar

Já é dia.
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O mesmo ainda


Um menino sentado na cerca do curral

Menino é tempo enorme

Só as vacas conseguem.
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Cada batida na tecla do piano é uma ausência


Os vizinhos reclamam do barulho

Mas nunca reclamam do silêncio

Dos imensos vazios entre uma nota e outra

É neles que a pianista está gritando.
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Solfejo de coisas quase apagadas


Quando um menino bebe a água do rio
O rio corre para dentro do menino
O menino discursa o rio
Até que mije o rio outra vez.
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Tentativas para ausência de chão


A pedra é para o musgo repouso
O musgo é para a pedra o tempo

*

Às vezes recebia no quarto um sanhaço
E despia-se para o enleio
Olvidava o que tinha de casca,
Preferindo a brisa
O traupídeo, porém, tinha dogmas de asa
E partia
O vento e a noite encolhiam-na
A residuozinho de gente.

*

Um dia houve um cismar de adélias
Na beira do rio
Os peixinhos se regalaram de sol
Os bem-te-vis de azul
Sob o sol da tarde as cercas crinavam de éguas
E os arames se resignaram das farpas,
Como rosas
Os canários ignoravam os espinhos
Para docemente pegar cabelos baios
E nidificar o mundo
Os canários chegavam o mundo para o amarelo
Do outro lado, o rio plangia.
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Prorrompimento da poesia


Todo calendário venta em maio

Todo vento existe até que as coisas caiam 

Uma jarra é um vento no chão  

Todo dicionário é museu de palavras  

O homem que lê dicionários visita

Os vestidos da palavra 

Mas palavra tem vestido

Pergunta alguém

Sim, palavra tem vaidade

De loja 

Só o poeta conhece a nudez da palavra

A palavra nua em brasas de dicionário

Um vento derruba a jarra 

Em maio.
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Assentamento


Com o tempo meus pensamentos criaram raízes

Porém ainda meus olhos eram livres

Até que meus olhos criaram raízes

 

Minha boca dizia coisas

Até que as palavras criaram raízes

 

Meus braços balançavam no vento

Minhas mãos remexiam uns cabelos bonitos e negros

Minhas mãos criaram raízes

 

Minhas pernas partiam

Nem bem amanhecia e minhas pernas partiam

Até criarem raízes.
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