Lucille

Lucille

.close my eyes and pass away.

n. 0000-01-16, Joinville/SC

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Delírios de um enema

Se despia de seu passado, arrancava a pele das lembranças e sabores que já degustados se tornavam sonhos sombrios. Não queria mais falar de dor, sendo tudo o que lhe restava.
O resto, sabe? Era feito de refugos, sobras, comida de quinta passada, palavras espalhadas nos muros da cidade.
Nada lhe servia, mas aceitava o estreito moletom de anos atrás, era quase uma desculpa para não encarar a nova moda, o novo mundo.
Acordava e sentia estar dormindo. Dormia e pensava estar vivendo.
Será um pensamento comum? Singelo e simples nunca foram palavras presentes.
Se perdia quando precisava, não se achava quando queria.
Essa vida é mesmo escassa, corriqueira, com demandas abusivas.
Pensava em quão medíocre as coisas eram, em como os fatos são sórdidos e sem validade.
Ah, mas a paixão. A paixão lhe tornava uma compulsiva sorridente, uma amante sem aluguel.
Doava-se por um minuto, dois segundos, três noites, um ano.
Os sentimentos tomam conta. Quando ela se entrelaça por entre flores junto a lua, o mundo se abre, as cores lhe abraçam, o ar puro surge com os mais belos pedidos: fique, se emane, ame, desame, cure, abuse, siga, corra, vá logo! Arrebente essas correntes, deixe que elas te prendam, ache a chave, sinta estar livre, sinta estar presa.
Sinta tudo.
Sinta muito.

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Poemas

95

Servidos

bebo o café morno

com o corpo te esperando 

em latte
161

eu invento coisas que não existem

sentido pra que?

se existe a tua boca 

em alguma esquina longa dessa cidade
152

Rasgo

tantas margens pra que a sanidade escorra

eu queria te manter, seria amor a terceira vista

E minha maior perdição

desculpa 

que os céus me perdoem 

E que a dor não vingue

depois do coito de três paradoxos 

eu não sou mais a mesma 

o correto machuca 

mas nas estradas da vida

quem não enlouquece é maluco
138

pairar

vira número do infinito 

comigo

esquece o réu primário

vamos converter o mundo

ao nosso amor imaginário 

beirando a woodstock da loucura
187

Mundana

E nas imagens perduram os sentidos mais obsoletos 

Eu lembro quando era pequena

Que o mundo era grande 

E a água acabaria em anos 

Das acerolas  penduradas por paisagens passadas

O cheiro azedo e doce - derramaria   

a piscina cheia do pânico imediato 

A água submersa em casos mal resolvidos 

Era eu ou o mundo? 




Hoje sou bicho que voa

Quero o ninho em qualquer árvore 

que seja eterna 

Segura

E de raizes soterradas
178

passarinho

minhas filhas são as mais belas 

uma tem toque sútil, mas emocionado 

a outra se reflete em paisagem de passarinha curiosa 

curió 

um dia inda bate asa.

pousada no meu braço 

canto pra elas 

que lembrem nossa sinfonia

e meu coração meio joao de barro. 
136

Incendiário

Longa tua cruz 

nas minhas pernas 

Ora de trás pra frente 

inverte as preces 

 o vinho escorre 

no palato viscoso 

da tua súplica 

 

pega o Rosário 

sao doze ave marias 

dentro de mim 




goza e diz que santo não existe 

só a pele quente 

e coração que sai pela culatra
154

xx

Transcorre tempo na inundação de meu barco

Passa,  desregulado num instante só

Se vibra, se chora, semeia

No auto da compadecida eu não me compadeci

O instante virando passas 

Murchas, na torta de domingo 

Se eu ainda me reconheço?

Talvez na semana seguinte 

Quando os pássaros voltarem em nova estação 

Aterrissando para encher a boca de seus filhotes 

A escuridão trêmula 

Se esvaindo…
146

perdão divino

o que foi aquilo? 

Eu vou olhar a resposta em meu ventre pro resto da vida. 

e a falta dela.

a vida é tão bela

e dolorosa em ausência
145

x

Mirei a xícara 

vi seus olhos rodopiando 

em busca de algo que lhe tirasse a paz 




Existe maneira de conter um furacão?
168

Comentários (1)

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haha ;)
haha ;)

É você que passa pela vida ou são as coisas da vida que passam por você ?