Lista de Poemas
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Disco Arranhado
Mas não rugas idade, essas eu admiro
Falo de marcas internas, do vazio corrosivo
Algumas são profundas, outras arranhões
Ambas sangram, a distinção ocorre no hematoma.
Sinto a apatia das horas que passam lentamente
E fazem estrondoso barulho de trovões
O silêncio emite sons fortes, já não ouço
A leveza das árvores confundem meu destino
Plantando sementes de conforto, carinho
Não sei mais ser flor, sou pétala murcha
Ninguém regou.
O tempo brincou de dor, se escondeu e me levou
Despertei calada, aos berros
Só meus pensamentos me dão ouvidos
E eles falam, falam como nunca
Me dizem coisas que não quero ouvir
O barulho é tanto que me perco nas vozes.
Me encontro na multidão da minha casa
As paredes são belas companhias
Limpas, sórdidas, espertas
Elas são como eu
Guardam pinturas, cores, momentos
Hoje verdes, amanhã adeus
Rabiscos da infância, colas da juventude
Tabuada do oito, poemas de Drummond
Mesmo com toda a carga sobreposta por novos ares
Elas guardam tudo, e se renovam a cada pincelada
Sou uma parede de várias camadas.
E agora, mais velha ainda.
Eu era boa em dar títulos
Após iniciar licenciatura em Letras, senti certa dificuldade em continuar a escrever mais um de meus tantos poemas, ou crônicas, ou pensamentos. Até mesmo agora sinto-me repulsiva ao esclarecer minhas ideias amontoadas no caixote da memória. As deficiências do amor já não saem com tanta franqueza,o lápis ousa desapontar, quando não resolve sair correndo por entre minhas mãos. Como dizem, ‘’ você perdeu o fio da meada’’. Não estou sendo uma boa operária. Já não sei mais o que fazer com as linhas, na realidade, eu sempre sei. Mas a desordem é tamanha, que acabo me enroscando e tecendo um cobertor de verão ao invés demeias para o inverno. Quem será que criou as meias? Talvez na época a população não achara confortável andar só de sapatos largos e borrachudos. Prefiro a creditar que o motivo para a criação desse artefato aconchegante e misteriosamente curador de resfriados tenha sido em decorrência da arte e poder.Imagine, os barões mais respeitados da aristocracia, sentados na alta nobreza com suas meias cor de laranja lima que quase atingem os joelhos. Seria artefato real de respeito. As baronetes passeando com suas pequenas meias contrastantes com a pele, não querendo chamar a atenção da elite, pois as bordas de lã antecipariam a demonstração de sua superioridade. Poderia criar milhares de teses a respeito de minha vestimenta favorita sem nunca saber da real. Às vezes a verdade desmistifica os processos de criação, e ao invés de ir ao palanque com meus tons de tirania, chego apenas até a esquina com o novo modelito idade média que tampa o pescoço. E realmente eu prefiro ficar deitada com meus pés quentinhos, ao sair pra qualquer lugar, a próxima esquina parece estar na França, e como Rainha da Corte Imperial das Empresas Teceleiras de Lã de minha avó, permaneço enroscada de fios com meu título de anciã das meias furadas.
Delírios de um enema
O resto, sabe? Era feito de refugos, sobras, comida de quinta passada, palavras espalhadas nos muros da cidade.
Nada lhe servia, mas aceitava o estreito moletom de anos atrás, era quase uma desculpa para não encarar a nova moda, o novo mundo.
Acordava e sentia estar dormindo. Dormia e pensava estar vivendo.
Será um pensamento comum? Singelo e simples nunca foram palavras presentes.
Se perdia quando precisava, não se achava quando queria.
Essa vida é mesmo escassa, corriqueira, com demandas abusivas.
Pensava em quão medíocre as coisas eram, em como os fatos são sórdidos e sem validade.
Ah, mas a paixão. A paixão lhe tornava uma compulsiva sorridente, uma amante sem aluguel.
Doava-se por um minuto, dois segundos, três noites, um ano.
Os sentimentos tomam conta. Quando ela se entrelaça por entre flores junto a lua, o mundo se abre, as cores lhe abraçam, o ar puro surge com os mais belos pedidos: fique, se emane, ame, desame, cure, abuse, siga, corra, vá logo! Arrebente essas correntes, deixe que elas te prendam, ache a chave, sinta estar livre, sinta estar presa.
Sinta tudo.
Sinta muito.
Mulher bamba
arrepiam
incerteza do sangue
da vespa
do erro humano
do pecado de tentativa falha
dos olhos moribundos
esperança?
duas
dentro da mulher bomba
bombeia
Bambeia
o que é dela
e o que nunca mais será.
Solitude
vícios decepados
senso violado
Beco na saída
três rumos
e o destino
Chão
a parede arreada é lembrança do agora
enquanto eu escorro
transpiro
de baixo da cama
no mar salgado do Nilo
flutuo
entre os pés de areia e a cabeça salgada
o mundo se debruça
corpo fodido
estraçalhado
sem sentido literal
só a linguagem apagada
de um dialeto entre Deus e a morte
eu invento coisas que não existem
se existe a tua boca
em alguma esquina longa dessa cidade
pairar
comigo
esquece o réu primário
vamos converter o mundo
ao nosso amor imaginário
beirando a woodstock da loucura
Rasgo
eu queria te manter, seria amor a terceira vista
E minha maior perdição
desculpa
que os céus me perdoem
E que a dor não vingue
depois do coito de três paradoxos
eu não sou mais a mesma
o correto machuca
mas nas estradas da vida
quem não enlouquece é maluco
Comentários (1)
É você que passa pela vida ou são as coisas da vida que passam por você ?
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