Lista de Poemas
O século paradoxo
Eu sou de um século em que se pedem direitos iguais e, ao mesmo tempo, cavalheirismo e prioridade;
Onde o amor é substituído pela ambição e o bem pela vaidade;
Onde se confundem as coisas importantes com as urgentes;
E as pessoas que se queixam de assédio são as mesmas que se dedicam a ser atraentes.
Este século é um paradoxo!
Um século com tantos meios de comunicação e tanta gente e, ainda assim, com tanta solidão;
Com tantas estradas e meios de locomoção e, ainda assim, com pouquíssimas visitas e tanta solidão;
Com tantas informações e, ainda assim, com tanta ignorância;
Com tanta riqueza e tecnologia e, ainda assim, com pobreza em abundância.
Este século é um paradoxo!
Onde todos querem a paz mundial, mas cada um busca apenas o seu próprio bem;
Onde todos querem e amam o bem, só não mais do que desejam ser alguém;
Onde quem pouco tem, tem pouca importância;
E esperam colher a paz semeando armas e intolerância.
Este século é um paradoxo!
África, Angola - Luanda, 2020.
Nostalgia
Oh, Madrugada!
— Por que me acordas quando as lembranças me procuram?
Pois elas ferem-me nas feridas que não curam,
Sequelas das partes arrancadas de mim pelo tempo de maneira dura,
Causando-me grande dor, que me leva à loucura.
Oh, Tempo!
— Quanto devo pagar-te para que me leves de volta à minha infância?
Para rever meus colegas e amigos de criança,
E os professores que nos enchiam de esperança,
Acalmando a dor da saudade causada pelas lembranças.
Oh, Tempo!
— Quanto devo pagar-te para que me leves de volta à minha adolescência?
Para rever meus ex-colegas e amigos, com os quais perdi a inocência,
Ansiando a idade adulta, desconhecendo as consequências,
E traçando metas para o futuro na mais absoluta inconsciência...
Na inconsciência de que o amanhã a Deus pertence, e que para a vida não há bis;
Cá estamos hoje, separados, e não foi isso que a gente quis.
Cada um sem saber quem já partiu, quem ainda vive, e quem vive bem ou infeliz,
E, com certeza, alguns desistiram nesta dura caminhada, sendo que a meta era vencer e ser feliz.
Oh, Tempo!
— Onde estão o Fulano, o Sicrano, entre outros? Responda, não adianta mentir,
Pois há quem testemunhe, dizendo: "Foram com o tempo." E eles não podem estar a mentir.
Leva-me até eles para, só mais uma vez, vê-los, abraçá-los e ouvi-los,
E dizer-lhes que, dentro em breve, partirei definitivamente — e, definitivamente, mataremos as saudades quando eu estiver ali.
ETERNAS SAUDADES!
África, Angola - Luanda, 2020.
𝑺𝒊𝒍ê𝒏𝒄𝒊𝒐 𝒔𝒐𝒃𝒓𝒆 𝒂 𝑻𝒆𝒍𝒂
Às vezes, apetece soltar o peso,
Abandonar a terra e seus laços,
Saltando entre estrelas como quem procura abrigo,
Bater num asteroide — como quem desfaz os traços.
Mas até o vazio tem gravidade.
A fuga só muda o tamanho do buraco.
Sem as memórias que nos pintam por dentro,
A vida é um retrato lavado — sem vinho, sem dor, sem matiz.
Nuvens escuras formam-se por dentro,
Como pensamento denso ou ausência estendida.
E chove —
Não água, mas lembranças que se infiltram nas frestas do peito.
É estranho:
Num universo em expansão,
o homem encolhe.
Como pode a alma naufragar em tanto céu?
Há quem afunde sem deixar espuma,
Tenta tapar com silêncio o grito invisível.
Mas a ausência não morre com a morte —
Ela cresce onde o amor é trocado por ambição.
Deus, Complexidade e Amor —
Três fios que costuram o véu da existência.
Quando um deles se rompe,
o quadro perde sua luz.
Talvez não falte cor,
mas olhos que ainda saibam ver.
Talvez o mundo não esteja em branco,
mas nós — desbotando por dentro.
Luanda, Maio de 2025
Apocalipse
Oh, Deus nosso, Pai nosso que estás nos céus!
Qual é o Teu maravilhoso plano?
— Pois até hoje homem nenhum o compreendeu.
Ilumina-nos, Senhor, pois o mundo escureceu!
A salvação está somente em Ti. Salva-nos, oh Deus!
Quando virá o Salvador? — Daqui a um ano ou dez?
Que Jesus venha e acabe com tudo de uma vez!
Há tanto sofrimento quanto há tantas almas perdidas!
Tanta vaidade, tanta maldade sem medida!
Quanto mais o tempo passa, menor é a esperança divina.
Pastor, as Tuas ovelhas estão em um beco sem saída!
Quando virá o Pastor? — Daqui a um ano ou dez?
Que Jesus venha e acabe com tudo de uma vez!
Devido à amargura existencial, meu coração está partido.
A melhor coisa que me aconteceu é a pior que poderia ter me acontecido!
Pai, estou incompleto, pois estou dividido
Entre o desejo de ser salvo e o de nunca ter existido!
Quando virá o Senhor? — Daqui a um ano ou dez?
Que Jesus venha e acabe com tudo de uma vez!
África, Angola - Luanda, 2020.
A beleza da alma
A beleza do corpo atrai a atenção,
E, com ela, o desejo da satisfação sexual.
A beleza da alma atrai o coração,
E, com ele, o desejo de construir uma relação.
O corpo atrai,
E o coração prende.
Quem apenas pelo corpo casa,
Pelo resto da vida se arrepende.
África, Angola - Luanda | 2020
O que é o homem na natureza?
Um homem, na natureza, é como um dia no tempo.
Um homem é um dia!
Hoje existe, e amanhã já não existirá, assim como ontem não existia.
Mas cabe a cada um ser um dia especial ou só mais um dia!
Africa, Angola - Luanda, 2020.
𝓢𝓮 𝓕𝓸𝓼𝓼𝓮𝓼 𝓜𝓲𝓷𝓱𝓪
Se fosses minha,
Entre estrelas moraria.
De outra face não saberia,
Só teus olhos me bastar.
Das tempestades, te guardava,
Nem o vento te tocava,
E até dragões enfrentava
Só pra te poder amar.
Teu rosto, anjo em forma pura,
Obra santa, sem censura.
Rejeito o ar — só tua doçura
É o que me faz respirar.
Luanda, Junho de 2025
𝓥𝓲𝓭𝓪
Vida,
É tão real,
E tão linda,
Pra ter fim
E findar assim.
É amarga,
Quando apenas contemplada;
Mas, se é saboreada,
Torna-se sublime.
Talvez a justa medida
Seja viver uma vida
Que, ao soar da despedida,
Tenha valido ser vivida.
Luanda, Junho de 2025
𝑽𝒊ú𝒗𝒂 𝒏𝒆𝒈𝒓𝒂
Tão invisível, que passa despercebida.
Tão real, que a carne sente sua vinda.
Só há paz quando está ausente —
E, se aparece, ninguém a brinda.
É natural que o drama nos assombre:
Não se teme apenas o fim,
Mas o modo como se aproxima,
Com sua teia de lodo e fim.
Silenciosa, fria, contida,
Repousa à margem da alegria.
“Só cumpro meu papel”, murmura,
Enquanto assiste a agonia.
Mas sorri — discreta, felina —
Quando alguém ama o que ela domina.
E então, sem luta, sem pressa,
Você a acolhe… e com ela dança.
Nesse instante, ela já não apavora.
É remédio amargo, mas preciso.
E o medo que antes gritava alto
Desfaz-se em um sussurro submisso.
Luanda, Maio de 2025
𝑴𝒖𝒏𝒅𝒐 𝒐𝒖 𝒗𝒆𝒏𝒕𝒓𝒆?
Vida de príncipe:
Tudo lhe é servido,
Até do frio é protegido,
Só alegria e paz de espírito...
Ah, que felicidade!
Até a impetuosa tempestade —
Sem oxigênio, corpo moído,
Seu mundo em completo desastre.
Agora, só dor e choro,
Privado de tudo o que conhecia.
Era tudo o que amava,
Era o mundo que tinha.
Num lugar, outrora,
De segurança e conforto,
De vento em popa,
A lugar algum, agora...
Até os olhos se abrirem,
Com o fluir do tempo.
Desfrutar a verdadeira alegria
E compreender o processo.
Quiçá, ó céus,
Esse mundo é um ventre?
Talvez, quando morremos,
Na verdade, nascemos.
Luanda, Maio de 2025
Comentários (3)
Tens uns poemas de arrepiar mano
Olá, irmão! Obrigadão, tuliodias!
Olá irmão!
Kanienga L. Samuel (José) é um pensador e poeta que escreve com o coração ferido e os olhos bem abertos. Entre a filosofia, a crítica social e a poesia, suas palavras nascem do espanto diante da dor humana e da esperança teimosa de que ainda podemos ser mais do que produtividade e aparência.
Crente de que a poesia é um sussurro de eternidade no barulho do mundo, seus versos abordam temas como a solidão, a pressão social, a fé, o fracasso e o brilho — esse novo imperativo silencioso que aprisiona gerações.
Nascido em Angola, escreve para não sufocar e para acender, com outros, uma pequena chama no meio da escuridão.