𝑪𝒂𝒔𝒕𝒆𝒍𝒐 𝒆𝒎 𝒓𝒖í𝒏𝒂

Quando eu era pequeno,
morava num castelo —
de pilares firmes,
cheio, seguro e belo.

Havia grandes árvores,
davam sombra e fruta;
e flores, tão pequenas,
que o olhar de todos escuta.

Maldito o tempo
Que por lá soprou.
O jardim secou,
Foi-se o ar de júbilo
Que ali por mui tempo pairou.

Os pilares, que se abraçavam,
hoje jazem separados.
A cobertura que nos escondia da noite,
e as paredes que do frio nos guardavam,
foram ao chão,
e com elas — tudo.

Nada resta, senão chorar
E, quando puder, visitar
O lugar que outrora era paraíso
Mergulhar nas águas dos tempos idos.

As manhãs frias, devido a cama molhada
Xixi feito às madrugadas
Quando pelo culpado se procurava
Pois quase tudo, inclusive a cama,
Se partilhava

Levávamos “cocos” das manas
no banho forçado.
Duras, zangadas —
era delas o fardo
de lavar quem já corria pelado.

Ah, aquando da alimentação:
Jantar, almoço e mata-bicho,
A luta por melhores pratos
Pelo pão mais comprido.

Quando éramos inventores:
De brinquedos, nomes e palavras,
Quando era fácil bater polícia
E receber-lhe a arma.

Quase não havia doença,
nem a maldita morte,
nem essa separação surda
que hoje ronda cada porta.

Havia só esperança,
uma dor que nem pesava,
brincadeira, aposta,
e um mundo que nos bastava.

Por isso, é lá que me escondo,
quando o mundo pesa mais.
Na ruína do castelo antigo,
só se ouve — paz,
e amor demais.

Luanda, Maio de 2025

 

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