Escritas

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E, no fim, acabou

E, no fim, acabou. 
E ressoou o porquê… 
Depois dele, nada. 

No fim, houve gritos. 
Houve uma escuridão 
que absorvia toda a luz. 

Um vento que arrancou cabelo 
que arrastou todas as árvores. 
Chuva ácida, dolorosa, na pele, 
a corroer… 

Quando acabou, o chão abriu-se, 
rápida queda para o Inferno. 
Calor desesperante que não deixa respirar. 
E o vermelho do sangue, e a chama que tortura. 

E, dentro, veias geladas. 
Um esqueleto saliente. 
Boca cansada de não falar… 
Toda a expiração agonia. 

Uma minúscula semente. 
Num pequeno pedaço de terra, 
discreta, no fundo… 

A água das lágrimas rega. 
O tempo do choro que espera. 
A semente invisível… 

O sol do deserto, 
que com as tempestades de areia magoa, 
também alimenta a pequena semente. 

E os ponteiros giram e causam náusea. 
Mas o deserto vai-se tornando terra fértil 
e a semente agora é planta. 

A semente agora é verde. 
A planta cresce bonita. 

Deixou de se ver esqueleto. 
E o ar já não magoa. 
E o chão vai fechando… 

A tempestade acalma 
e já não há chuva ácida. 
Só água que aborrece. 

A planta cresce. 
A flor surge tímida. 
E, pequeno, a esconder-se, 
à partida irreconhecível, 
um minúsculo fruto. 

Há de crescer e ser grande. 
E será o mais doce. 
Fará chorar de alegria 
porque foi um dom divino. 

Quando acabar… 
E, depois disso, acabar mesmo… 
Chegará a gratidão.
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Pesou tanto

Pesou tanto 
que as pernas cederam. 

Ficou estatelado no chão, 
à espera de que alguém parasse, 
que lhe tirasse a carga densa. 

Não foi o peso que cresceu, 
foram as forças que esvaíram. 
Alguns homens não aguentam maratonas. 

O peito foi-se esvaziando 
como resposta a uma ausência de resposta. 
Foi tanta a procura, tantos os círculos... 

Primeiro queixaram-se os pés, 
rasgados, tortos, 
os joelhos amassados, 
as costas num arco acentuado. 

O espírito ainda emana 
a energia necessária para avançar. 

Mas lentamente se apaga 
um fogo que já ardeu forte... 
As brasas na brisa fresca. 

Expectavelmente 
cederam as pernas. 
E largou-se o choro amargo. 

Restaria saber, se fosse um conto, 
quem passará para o levar. 
Chegará ele ao seu destino? 

Mas ninguém escreveu essa história. 
Muito menos alguém a leu. 
Tivessem olhado para ele, 
soubesse ele que a história tinha um fim, 
e talvez nem tivesse caído. 

Mas no meio das brumas, 
não há história, 
com princípios e fins. 
Há vagas memórias, poucas esperanças, 
e um jugo que cada vez mais pesa.
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Estrume

A arte é como a Natureza: 
do estrume faz flores.
 
Pelo menos em mim, 
a arte faz flores 
da merda que sou. 

Antes de ser fezes 
também eu sou flores 
com belos odores, 
formatos e cores.  

Mas sou também o porco 
que as pisa, 
que as mastiga, 
que as cospe para a lama 
onde rebola 
e nada faz para além disso. 

De flores a estrume puro, 
Faço-me seco e duro. 

E depois escrevo. 

Numa mão sempre o esterco, 
e noutra a pena. 

Não crescem na bosta rosas, 
mas surge uma flor não feia.
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