Escritas

Pesou tanto

jorgebadalo
Pesou tanto 
que as pernas cederam. 

Ficou estatelado no chão, 
à espera de que alguém parasse, 
que lhe tirasse a carga densa. 

Não foi o peso que cresceu, 
foram as forças que esvaíram. 
Alguns homens não aguentam maratonas. 

O peito foi-se esvaziando 
como resposta a uma ausência de resposta. 
Foi tanta a procura, tantos os círculos... 

Primeiro queixaram-se os pés, 
rasgados, tortos, 
os joelhos amassados, 
as costas num arco acentuado. 

O espírito ainda emana 
a energia necessária para avançar. 

Mas lentamente se apaga 
um fogo que já ardeu forte... 
As brasas na brisa fresca. 

Expectavelmente 
cederam as pernas. 
E largou-se o choro amargo. 

Restaria saber, se fosse um conto, 
quem passará para o levar. 
Chegará ele ao seu destino? 

Mas ninguém escreveu essa história. 
Muito menos alguém a leu. 
Tivessem olhado para ele, 
soubesse ele que a história tinha um fim, 
e talvez nem tivesse caído. 

Mas no meio das brumas, 
não há história, 
com princípios e fins. 
Há vagas memórias, poucas esperanças, 
e um jugo que cada vez mais pesa.