Escritas

Lista de Poemas

Definição de Esperança

Definição de esperança


Breve, o dia em que decidi ser alguma coisa,
Espuma de mar cavado na sarração do vento.
Acordo no meio de uma conspiração d'ondas e horas
E dedico os últimos minutos a tentar definir o tempo
E lembro-me de não querer ser capitão d'coisa alguma
Sobretudo no dia de hoje que acabará d'manhã bem cedo,
Ainda me pus a olhar o futuro, sem solução à vista ou relógio d'pulso
E, na vigia baça da embarcação, abocanho um curto sonho,
Um sonho em vão, de quem espera horas e horas o fio,
Mas breve, breve como as ondas no bojo preto deste navio
Cargueiro. Vi passar o rápido, das nove e um quarto,
Branco, branco...Tinha na face, a expressão da glória antiga,
E eu aqui no porão, como um rato num ínfimo labirinto,
Hostil e angustiado sob o peso da máquina universal do atraso.
Ah, se eu estivesse atrasado dezoito horas na vida,
Começava tudo outra vez, à meia-noite e vinte em ponto
E seria mais um livro, posto na prateleira, sem paciência
Pra ser lido, contudo, sinto-me vivo como um nado-morto,
Embalado pelo dever de viver, ao lado de cada dia, de cada segundo,
Sem força para detestar tudo o que me é imposto,
Pela absurda tripulação de estibordo.
Ah, se eu tivesse ambição, provocaria um motim de praças
E partiria de malas feitas, por esse mundo sem fim,
Decerto seria alguma coisa, com mais sabor que não engodo
De peixe balão, batata de sofá, asceta gordo de time-sharing
Ou marajá da sanita. Descubro que sou, metade, tempo perdido,
Metade, escrita ilúcita e imaginação no intervalo, mudo de cor,
Ao estilo de camaleão do campo... sem título.
Breve, o dia em que decidi ser, coisa alguma,
Um zero, num fim metafórico de cena, uma réplica de sino,
Uma causa pequena, onde o vento, faz tempo não sopra
E dedico os últimos minutos, A TENTAR DEFINIR A ESPERANÇA.
Joel Matos
(01/2011)
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Sombras no nevoeiro




(Sombras no nevoeiro)
Sinto que sou um poeta falhado,
E escrever tornou-se uma tarefa
Balofa, à qual me não dou de todo,
Sinto um receio que m'atabafa,
No que digo, como se fosse eu, Rossio
De vão d'escada, fico-me p'las deixas,
Bem lá no meio duma seara de joio,
Aonde se não diferença vultos e névoa.
Não espero troco nem pago de saldo,
Justo por algo que não tem pra'mim custa
Nem apego, julgo que me sinto dividido,
Entre o que digo e o que dizer me basta,
É como é, o reverso e a medalha,
De um lado, vem algo inscrito,
E do outro nada que o valha,
Apenas o dom e o dia de morto.
Sinto que sou um poeta falhado,
Por todas as razões e d'outras,
Apregoo estas de telhado em telhado,
Mas confesso-me cansado d'inventar desculpas,
Pois nem tenho assim tanto de escritor,
Como um louco
Tem, do cajado dum actor,
Ser o seu sólido especo...
Jorge santos (01/2013)
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Em tempos quis o mundo inteiro





Em tempos, quis o mundo inteiro,
Hospedado no peito, redondo e obeso,
Perpétuo como um relojoeiro,
Um peito de soldado raso, desconhecido...
Era criança e havia amar,
Eternidade, justiça e razão...
E um lar... um veleiro vulgar,
E um timoneiro sem tripulação.
Hoje sou ilícito e estrangeiro,
Partido fui; metade do coração, eu entendi...
E o mundo que já cobicei como o ouro, era outro
Ficou perdido, em nenhum outro lado, fora d'mim.
Acabei por fim, a não pensar em nada,
Até que acabou o meu tempo,
Escondido numa caixa enganosa, redonda...
Num habitual descontentamento.
Eu...a quem o mundo não bastava,
(Se nem eu, nem ele sabíamos que o outro existia)
Agora, pouco do que tenho e sinto, é seu...
Nem isto que escrevo, indefinido e a eito, sem serventia...
Basta hoje o dia não ser tão feio,
Pra ver no céu fiel a alegria que sinto ainda no peito,
Porque na terra, o que esperava não veio,
A minha alma foi sepultada num árido e seco deserto.
Joel Matos (04/2011)
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Ao menos que sobre o antes ...

Ao menos que sobre o antes,
Se a própria Terra ainda chora,
A má memória das suas gentes,
ao menos q'a minha fé nelas, não morra
Ao menos que só sobrasse o antes,
Porque manhã-cedo haverá guerra,
E acabemos por colher as únicas flores,
No morro ond'ausência de Deus já mora.
Ao menos que sobrasse do ontem...
A liquidez do dia, a noite anuncia mau tempo, vento,
Má sorte ao pobre que nem lar tem,
E um pote d'ouro, á porta do nobre convento.
Ao menos que sobrasse do ontem
Pão, quando não havia fome de trigo,
Agora as florestas entristecem,
Por não morrerem de pé e inclinarem cedo, ao machado.
Ao menos que sobrasse do inda'ontem,
O não haver medos.
Pois dos tempos qu'aí vêm,
Ecoam já os gemidos,
d'outros bem mais antigos.



Jorge Santos (02/2012)
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Ainda hei-de partir por esse mundo afora


Tenho a alma tosca d'um estivador,
Que tanto me dói de tão dura,
Não fosse furada por uma grossa goteira,
Não teria maneira d'achar outra dor,

E eu estimo o que por ela andei,
P'las milhas em meu redor,
Amachucando no íntimo a lei,
Que dizem que existe no país do rancor.

Lastimo estas dores ilegais,
P'lo que delas na alma ainda perdura,
Mas da pele tesa dest'estivador do cais,
Gretou apenas a branca rija salmoura,

Por dentro, ond'era mais precisa,
Permanece fluida e convive,
Comigo de forma branda, religiosa
E leve...

Tenho alma d'estivador sem terra e sem destino,
Olhos prenhos do que no mar em redor
Encerra, embarquei na noite, clandestino,
Numa caravela e posso finalmente rir sem pudor...

Por esse outro mundo afora...

Joel-matos (01/2013)
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Pressagio de tudo por quase um nada

Eu sei que pressagio de tudo por "quase um nada",
E se de alguma coisa haja que me desconvença,
È porque nem mereça quiçá a pena
Profetiza-la, sabendo-a provisória, resma miúda.
Tudo o que já foi e ficou dito não mais o é nem será,
Desde que não mais me soe ou sinta essa má sina,
Mas se parece doer a dor que já me não dói até,
É porque o ontem falhou, findou a trégua, acabou ...
Pra trás ficou enterrado o palio vício, da simples fé
Do ontem, que me deixou assim vencido, prostrado, cansado.
Mas o que me deixou sim, vazio... foi uma filha doutra fé,
Só porque endoideci, me deixei ir e fui, na maré...
E hoje o dia é já outro, embora com este pouco se pareça,
Nebuloso e frio que nem a margem do cadafalso, sem armistício,
Pálido como o jugo de perfil da rês, pouco antes da matança,
Lírico, como o lúcio litúrgico banhando-se nu, num rio..
Entretanto o público troça, a corda roça, lassa, o meu coração,
Parecia distante mas, de perto, vejo tece-la, uma cobra branca...
Negro o cortejo e os gritos do gentio,-morte ao charlatão-morte-
Mas alguém, d'entre estes viu, o sorriso nesta minha boca...
Eu sabia que est'alma encarnaria uma outra
Porque pressagio tudo por "quasi nada"...
Joel Matos (01/2013)
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Hoje mudei

















Hoje mudei
Do mercado pra baixa,
Mudei a subtileza
Dos gerúndios
E me surpreendi.
Mudei nas frases
Que esfalfei de graça
E por mau hábito,
Hoje sou outro,
O tipo
Que volta da praça,
Com flores espontâneas
Num caixote
Sempre Aberto,
Em ti...
Hoje passei por mim
E mudei por ti...
Hoje...
Mudei do mercado pra baixa.
Jorge Santos (09/2013)
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Pudesse Eu



Pudesse eu, não ter laços
Ou esperança,
Cair no poço sem fundo,
Com que sonhava em criança,

Pudesse eu, na garganta sentir,Torturante,
A dor no parir, perto ou distante
E o choro aflito dos qu'hão-de vir.
Pudesse eu, fazer-"O que me dá na gana",

Não morreria numa cama,
Escolheria viver enterrado,
Sentindo o peso da terra,
Amontoada na tumba,
E os caniços, varando-me a cara nua,
Numa sensação boa,

Pudesse decepar eu, os braços
E salvar a dor
Na alma,Não seria estranha,
A sensação tamanha de sentir,
Que deveras sinto...

Joel Matos (10/2013)
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Nem os olhos me lembram

Nem os olhos me lembram, o que quero eu ver,
Nem nos braços repouso do viver sem fundo, contudo
Se tudo não passa de um desejo escavado
No abandono desta forma concreta do meu ser,
Não será consagrado o dia em que morrer

Nem o modo, nem o que de bom ou menos mal fizer,
No meio. O mistério do céu nocturno sugere aconchego,
Por saber que isso é tão verdade, o nego.
Porque não quero acreditar em nada do que realmente vejo

Não me serve de alívio ocupar ainda mais os sentidos,
Sinto por vezes que até os loucos ou cegos eu invejo,
Mas tal como os mastros somente se tornam úteis aos ventos,
Talvez tenha eu apenas o peso na Terra que me compete,

Se os olhos me lembram do que não posso ser,
Acaso ainda troque esta por outra vida menos torpe
Ainda que o engano seja a única parte íntegra... a meu ver.
Cedo deixou de ser incógnita a madrugada,

A nortada e o vento, são quem sou, inconstante ...cada instante,
Dono de uma ilegítima alma dividida,
Que não sabe se há-de ser, triste ou ...contente.
Se nem os olhos me lembram o que quero eu ver,
A confissão da noite ou a convicção do dia...

Joel Matos (06/2012)
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Quando eu morrer actor







Anónimo o que recito mas não o que aceito,
Como meu, anónimo o que visto doutrem e dispo,
Alegando meu porém, anónimo tatuado por delito,
No peito, anónimo tenho todo o meu falso corpo.
Nada me ocorre que não seja d'outrem,
Sou a aragem do logro que percorre a tumba
Dum morto, dando vida aos que jazem e aos que sobrevivem,
Faço parte dessa paisagem lobrega e romba
E de que, os pertences escritos rouba
Aos notáveis mortos, um pilhador de túmulos,
A eito, profanador até do sagrado kaaba...
Ignoto o suor dos meus impuros poros...
E o acto de escrita pouco lógica e de louco...
Se nem, o colchão em que me deito, é meu... o poluto
Fato, roubado no museu teutónico.
Por isso, quando eu morrer actor,
Jamais a noite se tingirá de luto preto...




Joel matos (01/2013)
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Comentários (4)

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nilza_azzi
nilza_azzi
2019-08-22

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

namastibet
namastibet
2019-01-09

obrigado a todos que me leram

ricardoc
ricardoc
2018-04-23

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992
131992
2017-10-26

muito intenso seus poemas, adorei.