Lista de Poemas
MALDITO FRIO
Maldito frio que vadio, vais vadiando nos meus sapatos
Arrefecendo os dedos rotos nas meias andanças
Atrasas-me a mensagem, que trago envolta nos trapos
Que finos um dia, são agora rasgões expostos às lembranças
Maldito frio que vadio, no beco mostras a minha pobreza
Sei que a garrafa que envergo, meia cheia de esquecimento
É também meia cheia de céu cinzento que recordo,
bebendo na certeza de esquecer gentes que amei
quando sem trapos nem rasgões, no sentimento
Maldito frio que vadio, me lembraste de partir
Para pedir moeda quente que te faça fugir
Pois pobreza, meu corpo e alma estás a cobrir
E o bendito sol hoje tarda, por muito dormir
Todos os dias tem sido nublados e opacos
Mas frio assim só hoje que aqui desisti
Das andanças que não eram meias de dedos rotos esfriados
POR MEU PORTUGAL
Por um mundo devasso, quase hipócrita
Uma seta no coração da liberdade
Sangrando por uma Pátria, na carótida
Oh Meu Portugal, que eras um mundo
O orgulho de Afonsos e Henriques
Como te vejo agora, abismo sem fundo
Caindo, embora a tudo te sacrifiques
Altiva o teu estandarte, recruza os mares
Expulsa o Adamastor que suga o teu viver
pois se por nós e gerações não recuperares
mais vale esquecer, de novo os Mouros chamar
Alentai, escutai! Escutai a nostra que é Patria
Caminhai com a altivez do passado honrado
Não deixeis o Graal dourado, desvelado
Vivemos só de um orgulho, do chuto na área
Mas somos mais que onze vestidos de sangue
Somos meio mundo que vive de nós expetante
Lembrai que o passado é um presente rasgado
No tempo esgotado a chorar com a mão adiante
Não! Eu esmolar por erros de outros não!
Prefiro a espada envergar, e matar o meu dragão
Saudações Poéticas,
P'lo Jomad'o Sado
António J.P. Madeira
Dias Sombrios
Daquelas que por vezes nos vêm acordar
Dia chato e longo em que o meio dia parece ser o fim do dia
Pleno de abandono onde impera apenas, o puro azar
Existem apenas para grosseiramente compensar
Aqueles dias radiosos, inundados de luz e cor
Para tudo à sua volta apenas negativizar
Para abalar o teu espirito e aumentar a tua dor
Na penumbra do limbo espesso que os envolve
Tudo fica apenas estagnado, nada se resolve
É melhor esperar, pacientemente aguardar
Pelo próximo dia que tenha uma manhã azul a brilhar
Tenho tido muitos dias assim, com manhãs sombrias
Nem mesmo a força do poema consegue forçar as alegrias
Pois o cinzento está bem fundo, cravado bem forte
Entre os vitais sensores que regem agora a minha sorte
Depressivamente sinto-me incapaz
De aguentar nem mais um dia sem qualquer paz
E hoje é apenas mais uma manhã sombria, um longo dia
Em que a vida me sufoca e me agonia.
101 Profissões de Jomad
Que vos conto mais um bocado
Da historia de Jomad’o sado
Feliz poeta mas, triste desempregado
Podia ter sido um doutor
Mas do sangue tinha pavor
E tremia-lhe demais a mão
Era do álcool pois então
Pensou depois em ser engenheiro
Dizia que se ganhava muito dinheiro
E ele até tinha algum talento verdadeiro
Pois projetou e criou até um belo fogareiro
Mas quem queria um engenheiro
Que só sabia técnicas de fogareiro
Que passava o dia a cantarolar
Há espera da hora do Jantar
Ser politico também foi sua ambição
Pois tinha a manha e a voz de papão
Tentou na praça um dia discursar
Foi logo preso por andar a vadiar
E os anos passaram sempre devagar
Sem o seu potencial no fundo explorar
Mas marcado no seu rosto e pleno no olhar
Ficaram as mágoas de nunca se encontrar
A primeira parte da história já a contei
E sobre ela nada mais agora direi
Apenas um pouco do véu levantarei
Ao dizer que em breve um livro publicarei
Mas para não perder o fio da meada
Que a história não estava terminada
Saibam também que fui motorista
Num belo táxi cor de alpista
Tudo corria bem até que um dia
Fiquei com a caixa do dinheiro vazia
E por pouco a vida não a perdia
Lutando com um malandro que não fugia
Também fui consultor de telecomunicações
Nome pomposo dado por aldrabões
Pois andar de porta em porta a enganar
Quem apenas quer descansado jantar…
estão a ver de quem estou a falar?
Finalmente uma ultima tentativa
E talvez de todas a mais agressiva
Em que mais tempo tive voz ativa
Fui empresário, coisa que todos cativa
Mas empresário que nasce pobre
Infelizmente logo depois bem descobre
Que embora tenha quem por tudo lhe cobre
Para ajudar ninguém, nenhum que no fim sobre
E como a informática corria-me nas veias
Em vez de sangue tinha bytes e lógicas cadeias
Tive mais uma disparatada de minhas ideias
Fui consultor bancário, programador e tudo a meias
Mas quem o curso tirado não o têm
Não é com bons olhos que os colegas o vêm
Fiquei de novo sem um vintém
E acabei no desemprego e aqui me têm
Valeu a vivência, a grande experiência
Valeu agora ter-vos como audiência
Contando pedaços de minha vivência
Apertando as pernas com alguma urgência
Pois por falar de tanta porcaria passada
Fique com uma opressão e a barriga inchada
E é melhor não fazer demorar mais a coitada
Aquela que na casinha dará uma bela cag…
Para minha Mãe (Baseado numa Pessoa)
Ô Mãe mui amada, quanto do teu chorar
são lágrimas do meu olhar.
Por tanto gostares, quanto de ti abdicaste
Quantos sonhos, em teu rosto secaste
Quantos sorrisos feitos de Sal, envergaste
Para que no mundo fosse Pessoa, ô Mãe
Valeu o esforço? Sempre vale o esforço
Quando se é a alma de outra alma
Se luta contra um mundo Adamastor
nos cabos de Tormentas dobradas em dor
Que Deus te dê mais anos que a eternidade
Pois eterna já és, presa na minha felicidade
Parabéns, Mãe
Estejas onde estiveres,
no meu coração sempre morarás
J. P: Madeira
Assassinaram um poema, coitado!
com três golpes, na estrofe caiu fulminado
sangrou no papel que o embalou numa rima
até não ser mais que palavras sem significado
Assassinaram um poema, coitado!
Eram três prosas e um haikai mal-encarado
Apenas para lhe roubarem um predicado
Para fazerem trova dele, que era pequeno e delicado
Nunca os autores apanharam
Que nas palavras traiçoeiras fugiram
Num cinco três, meio encadeado
De cor azul escrito e declamado
As testemunhas que liam o Poema
Dizem que ele era inovador, ousado
Não merecia tal destino… assassinado
As paisagens da vida
Avida por ser ouvida
São paletas de odores
Que odorizam as cores
Azul fui na infância
Pois azul é inocência
Ausente pela distância
Que o crescer faz-nos perder
O som que a coloriza
É o riso após chorar
Quando aprendemos a amar
Amando sem pressa, na brisa
Brisa que tudo harmoniza
Estabilizando a lembrança
Da alegria, tristeza, mudança
Da infância, fica-me essa lembrança
O verde da Rebeldia
Verbaliza a adolescência
Em que a calma e a energia
Fluíam na raiva da violência
Oiço o som da mudança
Que colora a lembrança
Pois foi marcante no ser
Servindo a dor e prazer
Sim, foi também por aqui
Que o meu corpo descobri
Descobrindo que o sexo
Nos anjos e nós é complexo
Ganhei a sabedoria
Mas perdi a fantasia
No vermelho que agora sou
Cor do adulto que ficou
E nem sei se é a paisagem
Que adoro nesta viagem
Rumo ao negro profundo
Quando partir deste mundo
Fome das palavras
Mas não delas já escritas
Enquadradas em tercenas benditas
Não! quero-as ainda a ferver
Imaturas, sem ritmo…sem o seu poder
Que as obriga o ato simples de escrever
O peso que tem cada uma delas
Contido em métricas constantes
Emparelhadas ou dissonantes
Apenas embala a minha caneta
Que em sincronismos de cinco dois três
Cria mundos e sonhos de uma só vez
Ás vezes não sei como optar
Se será bom sempre rimar
Ou seria bom por vezes prosar
Mas não sou eu quem mando
Apenas obedeço ao seu comando
Aguardando o seu sinal, ansiando
Escravo voluntário até desfalecer
Cingido ao papel, fadado a escrever
Sem puder parar, ou sem o querer
E os sonetos que agora imagino
Talhados em brocados de ouro fino
Falam novamente delas e eu desatino
Saciei a fome das palavras
Mas não a vontade de escrever
Colocá-las em linhas, o prazer de as ver
O seu andamento galopante
Que ilumina o livro mais errante
Que contextualiza o mais importante
Mas uma questão avassala-me
Nestas cenas dignas de um filme
E com a alma cega pelo ciúme
Questiono o porquê das palavras
Porque as procuro até na solidão
Quem segura e guia agora a minha mão…
Eu não sou não… sou escravo delas, pois então!
Simplesmente Mulher
É algo que perfuma o teu amor
Seres mãe e esposa com delicadeza
Somente Mulher com muita nobreza
O teu olhar diz mais que mil palavras
O rosto reflete os sonhos que em ti gravas
Bem fundo, aninhados no teu imenso coração
E chorar? Sempre choras com vera emoção
Mas o teu riso é também pleno de satisfação
O teu carinho fonte de nossa inspiração
A tua abnegação algo que é inexplicável
Que te torna mais, maior, alguém formidável
A tua pureza, que afasta a incerteza
O teu sorriso que nos toma de improviso
Faz com que te amemos na saúde e doença
Que busquemos ao infinito a tua presença
Pois,
Seres mãe, é a vida a ti te dever
Seres esposa, é contigo florescer
Seres mulher, somente por o ser
Parabéns!!!
é pouco para tudo te agradecer
Nesta fria noite vadia
Povoada por fantasia
Fantasio sobre a Poesia
Ela que busco e aspiro
Aspirante a um seu suspiro
Tal como ar que respiro
Mas a Poesia é arredia
Foge de mim, quem diria
Eu, que a trato com simpatia
Neste quente dia presente
Cheio de cor latente
Sinto-me algo diferente
Pronto para ela capturar
A poesia perfeita encontrar
Mesmo que isso me possa custar
Mais que o meu olhar…
…morreria feliz sabendo
Que vivi com ela no pensamento
Angustiando mas amando
Amando mas também chorando
Agora que sou apenas eu
Um fino elo que a tudo cedeu
Lamento o que não amadureceu
Que ficou gestante e não cresceu
Mas ainda fugaz sinto
Sentimento que não minto
Pois a mentira foi capaz
De me levar com ela atrás
Nesta fria noite vadia
Procuro a minha poesia
Em vão no vão da escadaria
Mas não encontro nada
Deixo para sempre a escada
Lamentando deixá-la abandonada
Pois sei que bem perto
Estava ela por perto, decerto
Também buscando-me, é certo
E sei que a Poesia
Nem sempre é alegria
Carrega em si mais do que podia
E que pesado fardo por vezes lhe dou
Quando nela espanto os meus fantasmas
Que assombram a minha existência
Mas é uma questão apenas de sobrevivência
Que ela me perdoe um dia
Ou nesta fria noite vadia…
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Prisioneiro em Mim - Janeiro 2014
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