Escritas

Lista de Poemas

Total de poemas: 12 Página 1 de 2

A face da percepção

 “to tell the truth the way words lie”
         Robert Duncan

Até que o musgo venha a nossos olhos
e nossos longínquos nomes oculte,
a réstia de alegria é cinza que subsiste.
                           *
Estou tão, tão furioso connosco!
Não nos julgo. Só sinto a nossa falta.
                           *
Esse fundo deserto onde mergulhámos,
"that is a place of first permission,
everlasting omen of what is".
                           *
Não me julgo. Só tenho a culpa assim.
Vou amar-te até ao fim dos meus dias.
                           *
Esta percepção é, em si própria, a derrota,
o poema que se reduz à devoção.
Não o julgo. Nem à sua audaz verdade.
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Em Finais de Março


Em finais de março o poema deteve-se
em seu obscuro relicário de joias raras.
Os deuses não apreciavam os céus
e o corpo agredia a terra como um pugilista
que agride o alento em que está ancorado.
                                *
Proclamava coisas prováveis, a inércia
do mundo onde éramos afago de nascente.
Uma jura, uma crença, uma alegria,
somente coisas mal-entendidas e irreais.
Há apenas alguns interlúdios curtos de ilusão.
                                *
O poema fixava na goiva uma chama ao centro
com a silhueta de Eros, uma silhueta una,
a fluvial sanguínea potência em propagação.
Amo a energia com que ilude o invisível,
desse exímio pânico de corpos nus no centro.
                                *
E, porém, na terrifica elegância dos estilhaços,
não esqueço os instantes, esqueço os dias,
não me lembro dos poemas, lembro-me de ti.

inédito
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Ars Poetica


Afirmam que a poesia é a distância mais curta
entre dois seres, invisíveis,
mas tal voz idílica será um engano,
os poetas nunca largaram o fólio dos desertos,
nunca ousaram o incandescente indulto dos pomares
nem o seu oblíquo circuito de chamas,
e a secura tem os teus olhos a fazer de sol.
                           *
O amor é o silêncio e também a blasfêmia
e o evangelho:  vós, que sonhais,
escrevei matéria à altura
das vossas crenças, o passar do furor no trecho
que nunca subsistirá sob os olhos,
“o dom do luto” em sua exercitação muda,
pois as “coisas inúteis ficam” sempre para os poetas
onde a ilusão, semeada, em fala, andeja.
                           *
Acerco-me por instantes da língua
mas o canto é mudo, o fogo que te retoma
já só se reconhece na íntima deserção da mão,
o coágulo onde o instante se faz e desfaz em última prece.
                           *
Na susceptível ausência de deus no poema eu vivo,
na tua ausência no meu corpo eu desvivo,
e o verso é a solidão, o teu rosto mais frondoso,
a pura ars poetica: a chama que na dobradiça não arderá.

inédito
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Autopsicografia II

“Mais alto ainda, sempre mais alto”, 
a cotovia soprou o seu mágico canto
no exposto e febril cortiço do poema.
                            *
A fingida tristeza retracta a autêntica
com tal mestria em sua língua de vozes
“a entreter a razão”, que a distinção
presente entre o fingido e o autêntico
é ilícita, a fingida tristeza que se apega
ao passadiço do poema é autêntica
e a autêntica é absolutamente fingida.
                            *
Mas em certas verdades obscuras
onde aferir a distinção “que se chama
coração”, qual das duas é a exactidão?
                            *
O tumulto é longínquo em toda a língua
e língua nenhuma, “e assim nas calhas
da roda gira” a tua triste ausência, a única
e inteira verdade, a minha triste solidão.

inédito
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O único estilo para a morte

                                    “colinas tão próximas como se guardassem
                                     os nossos próprios olhos e logo depois
                                     leva-as o vento para adjectivos longínquos”
                                     Herberto Helder

Uma nova manhã de Março, ainda que cedo
para ler-te, mas talvez já muito tarde para retornar
à cerejeira que me inebria os sonhos cegos.
                            *
Ler-te, deixar de ler-te, ler-te ou não ler-te
não é decisão humana que se exija à fala ou verso,
à quase paixão “travada em carne da língua”.
                            *
E ainda que o gorjeio do mundo já seja ensurdecedor,
está tão próximo de mim que é nele que resfolgo,
há o momento, não o corpo, o dia e as suas margens.
                            *
É Março, a manhã propaga-se como um vulcão,
e o meu corpo, canhoto, jaz adiado como a primavera
na tua ausência, aguarda o espasmo da cerejeira.
                            *
Ler-te, deixar de ler-te (ontem morreu-me o vizinho
do 3º andar), “não é o mesmo que meter a cabeça
num buraco abissínio”: em rigor, tudo está fora de mim.
                            *
As vozes erguem-se ferozes e indistintas, o céu chora
em dilúvio alagando a língua, o poema morre,
“morrer por uma rosa é que fia mais fino:” ergo-me
                            *
e cuspo-te, o único estilo para a morte vertiginosa e crua!
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Solstício de Dezembro


                        O mundo jamais é parecido consigo próprio
                        tão inesperada é a noite,
                        mesmo quando em sua rotação se repete,
                        efectiva e extingue,
                        no corpo e cinzas de uma criança,

                        não vos espanteis por isso senhores,
                        Dezembro é um solstício que nos sobrevive
                        e nada mais se anseia
                        do que abraçar todo o tempo do tempo
                        para seguir uma estrela viva,
                        um frágil e divino coração de criança
                        em homens aturdidos pelo afago da entrega,
                        guardai pois um Natal,
                        nada mais se reterá no cheiro do orvalho
                        que aconchegamos dentro de nós,

                        o seu leito evidencia a inquietude do fogo
                        e a poesia parece a puerícia do verbo:
                        ainda que nos céus
                        em seu nome o nome do mundo se cante,
                        o que é sagrado e profano,
                        o que é rei e pastor
                        e se planta e adolesce
                        e se percorre até à extrema boca do advento,
                        mundo de júbilos e prantos
                        que como o sol nas trevas se revive.

                        Uma criança nos aquieta o corpo,
                        a noite atravessa o mundo,
                        obscuros e formais viajantes,
                        se as quimeras se ofuscam sob os céus
                        a culpa é dos corações e não da luz das estrelas.

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BRANCO & PRETO

O corpo é a infinita planície das cinzas onde as mães largam o coração e partem para outra casa, resignadas ao murchar da flor, sem a beleza antiga e o rosto sem o último clamor do tempo. Corpo inóspito que alastras incomensuravelmente, as tuas díspares texturas de areada voz e de rochosa memória da alegria são a vocação ténue dos teus tristes olhos. A estiagem da fonte buscando perdurar numa ausência sem tréguas nem pausas.
.
in, A Rose is a Rose is a Rose et Coetera, Edições Sem Nome, 2017 (2º ed. 2018)
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NO PRINCÍPIO FOI O HOMEM

.I.
No princípio foi o homem (com um cão espetado numa estaca brilhando sob as áscuas da sua solidão para o resto dos seus raiados dias), e o homem criou um Deus, e o homem inflamou Deus na essência de rosas da sua perversão: a peregrinação sobre a argila e água impura para que não seja lembrado o seu mísero nome. No princípio sobreveio o homem, a chaga mais negra que a carne e também que a torpeza viva do crepúsculo: um esplêndido cântaro de purulência, uma hástea em fogo com a floração dos credos. No princípio era o homem, e a opulência do sopro.
.
in, acrónimo, Edições Sem Nome, 2015
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É ISTO A SOLIDÃO

Sentir como uma insuprível perda
o findar de cada dia na tua ausência,
este impossível, ainda mais impossível.
                          *
É isto a solidão, o corpo como uma pedra
de ti em mim, a grande noite do mundo,
e toda ela é tudo, e toda ela é nada.
                          *
O que sobra é nada e mais o que te destece.  
.
in, O amador ao rés das águas (inédito)
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LIMPEZAS


Serenamente, como se detivesse todo o tempo
do mundo e toda a luz do astro-rei
Jorge Luís Borges lavou toda a biblioteca
mergulhando os livros em água de rosas brancas,
era o tempo do expurgo, do exílio da traça,
há de certeza maneiras bem piores
de nos despirmos da inutilidade dos dias
passados em improfícuas quimeras.
*
Ah, só o livro “Historia universal de la infâmia”
escapou ao genocídio das limpezas
nessa nebulosa aurora de 6 de Agosto de 1945
quando Buenos Aires ainda abria a noite
pois “os poetas, como os cegos, podem ver no escuro.”

in, Ruídos e Motins, Palimage, 2016
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