João Rasteiro

João Rasteiro

n. 1965 PT PT

João Rasteiro é um poeta cuja obra se caracteriza por uma exploração profunda da linguagem e da condição humana. Com um estilo que transita entre o lírico e o experimental, Rasteiro dedica-se a desvendar as complexidades do sentir e do existir, utilizando metáforas e imagens que ressoam com a experiência contemporânea. A sua poesia convida à reflexão sobre temas como a memória, o tempo e a identidade, solidificando o seu lugar como uma voz importante na literatura portuguesa.

n. 1965-07-03, Coimbra

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Deus, ecce deus

“Penso no que o medo vai ter
e tenho medo que é justamente
o que o medo quer”
Alexandre O’Neill



Rubro soltou-se o vírus.
O medo aspira o corpo
para dentro dos bofes da palavra.
Asfixia as coronárias.
Enxerto-me na rendição à luz
e “penso no que o medo vai ter”.
A garganta busca a rosa.
               *
Dias cerrados mesmo a deus.
Poemas brancos, por inaugurar.
Veneno, de cal virgem.
Nossa débil e última guarida.
               *
À submissão da sombra a língua
larga os rebentos.
Assédio das casas mudas.
Onde escavar a saída?
               *
Espiga, Deus!
Entre as duras colunas de um vírus
e não receies a sua insolência.
Espiga, Deus!


Março, 2020
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Poemas

1

Deus, ecce deus

“Penso no que o medo vai ter
e tenho medo que é justamente
o que o medo quer”
Alexandre O’Neill



Rubro soltou-se o vírus.
O medo aspira o corpo
para dentro dos bofes da palavra.
Asfixia as coronárias.
Enxerto-me na rendição à luz
e “penso no que o medo vai ter”.
A garganta busca a rosa.
               *
Dias cerrados mesmo a deus.
Poemas brancos, por inaugurar.
Veneno, de cal virgem.
Nossa débil e última guarida.
               *
À submissão da sombra a língua
larga os rebentos.
Assédio das casas mudas.
Onde escavar a saída?
               *
Espiga, Deus!
Entre as duras colunas de um vírus
e não receies a sua insolência.
Espiga, Deus!


Março, 2020
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