Lista de Poemas

Querer, que de ti espero


Reconheço teu ser, 
Em mim querer austero, 
Causa de tua vontade a adolescer. 
Queda-se-me o querer, que de ti espero, 
Na farsa de meu ser em ti sincero. 
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Nascemos para vivermos

Recordo-me de um dia,
Que me encontrava a beber tranquilamente o meu café,
Sentado numa mesa de esplanada
Junto à janela,
Onde sentia o sol de Verão
A massajar a minha face,
Quando ouvi um cliente ao balcão
Afirmar, convicto, o seguinte:

"Meu amigo, nascemos para morrermos."

Discordo totalmente.
Acredito que nascemos para vivermos.
A morte deve ser apenas considerada
Como uma consequência inevitável
Deste processo químico que é a vida.

Tal como a morte,
A vida é só uma.
Não permitam que a vossa vivência
Seja confundida com existência.
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Alinhei o meu olhar com o teu


Alinhei o meu olhar com o teu 
Ligação direta à tua alma onde, no reflexo do teu olhar, 
Vi o amor que já foi meu 
Reparei no teu cabelo dançando sozinho 
Nos teus lábios de beijo de azevinho 
Relembro a viagem da nossa vida 
Em que o comboio se perdeu, 
Relembro as tuas mãos românticas 
E o toque que já foi meu. 
Dissolve-se o meu pensamento que um dia em ti habitou, 
Vivendo agora na silhueta que o tempo apagou 
De senhor feudal a plebeu 
Perdi tudo o que um dia foi meu. 
Sobra uma réstia de lembrança passada 
Que guardo desesperadamente 
Agarrando o futuro com uma mão cheia de nada. 
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Pedaços de ser



Somos pedaços de ser, 
De ser que é e que foi, 
Somos Filho-avô 
Somos Filho-pai 
Somos Filho-mãe 
Somos quem somos e quem por nós passou. 
 
Somos um todo incompleto, 
 Que se unifica em alguém. 
Como universo complexo, 
 Num país de ninguém. 
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Insónia



Recordo esse teu ensurdecedor pensar, 
Que invadiu o meu silêncio. 
Desde então,  
Não mais pude discernir  
Sonho de realidade. 
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Esquisso de calçada


Sigo cauteloso, 
Sem qualquer pretensiosismo no meu andar, 
Por esta estrada que vou alongando, 
Passo a passo, 
Desde o primeiro suspiro. 
 
Perdendo-me em mim, 
Não mais sei por onde vou. 
E como poderia saber, 
Se a filosofia da estrada que percorro nunca é a mesma? 
 
Contento-me em revisitar o meu diário de bolso, 
Como personificação da vida, 
E folheá-lo até à ínfima página, 
Perscrutando-a até ao derradeiro ponto final. 
 
Rege-se a sinopse da minha existência, 
Pelo abraçar desta frágil certeza 
De que a estrada por onde vou, 
Não mais é que um esquisso de calçada 
Que nem é esquisso nem é nada, 
É uma moldura sem quadro 
Que Deus a mim me confiou. 
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Amanhã, serei


Amanhã já não serei quem sou hoje. 
Nem eu o quero ser, 
Nem os tempos vindouros o desejam. 
 
Amanhã leio um livro novo, 
Ouço uma música que ontem desconhecia, 
Observo de maneira diferente, 
Desejo de maneira diferente, 
(Porque a vontade não é a mesma) 
Apaixono-me e desapaixono-me novamente. 
 
No fundo, 
Vivo. 
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A casa ao fundo da rua


Ao fundo da rua 
Surge uma casa sem teto 
Tendo no passado sido casulo da inocente larva 
Que, vítima do processo evolutivo, virou borboleta, 
Realizando o ciclo de vida completo 
 
Vislumbrando as consequências 
Que a nova realidade acarreta, 
Desvanecem-se as vivências gravadas 
Nas paredes agora rasas 
Pois o corpo virou borboleta 
E a alma mudou de casa 
 
Nessa casa ao fundo da rua 
Onde o Sol se pôs  
Para dar lugar à Lua 
Que, ao amanhecer, 
transita novamente  
Para o mesmo Sol,  
Num dia diferente. 
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Sociedade sem dicionário


Prazer de curta duração desprovido de sentido, 
Num breve momento de fantasia 
Que aumenta o vazio, por o querer em demasia. 
 
Visão reduzida à superficialidade do juiz sem formação,  
Que sentencia a moralidade por falta de razão, 
Condenando quem da jaula do pensamento influenciado escapa, 
Ilibando o leitor que lê o livro pela capa. 
 
Assemelhando-se à pintura rupestre da cultura passada, 
Evidencia-se o humano de saber primário, 
Que se serve da linha de pensamento estagnada, 
Na esperança de encontrar o vocábulo correto 
Numa sociedade sem dicionário. 
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2020


Do toque reza a lenda 
Que se desenvolve no pensamento incompleto 
Da ilusão do amor esperado, 
Substituído pela ausência de afeto 
 
Domínio carnal, 
No labirinto da memória perdido, 
Reside no presente fugaz 
E remonta ao passado do beijo esquecido. 
 
Condenado ao pedaço de pano, 
Que divide o ser do humano, 
Agarra-se à esperança esquiva do brilho intermitente, 
Pedindo que este não brilhe só quando o sol consente. 
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