Lista de Poemas
Querer, que de ti espero
Reconheço teu ser,
Em mim querer austero,
Causa de tua vontade a adolescer.
Queda-se-me o querer, que de ti espero,
Na farsa de meu ser em ti sincero.
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Nascemos para vivermos
Recordo-me de um dia,
Que me encontrava a beber tranquilamente o meu café,
Sentado numa mesa de esplanada
Junto à janela,
Onde sentia o sol de Verão
A massajar a minha face,
Quando ouvi um cliente ao balcão
Afirmar, convicto, o seguinte:
"Meu amigo, nascemos para morrermos."
Discordo totalmente.
Acredito que nascemos para vivermos.
A morte deve ser apenas considerada
Como uma consequência inevitável
Deste processo químico que é a vida.
Tal como a morte,
A vida é só uma.
Não permitam que a vossa vivência
Seja confundida com existência.
👁️ 175
Alinhei o meu olhar com o teu
Alinhei o meu olhar com o teu
Ligação direta à tua alma onde, no reflexo do teu olhar,
Vi o amor que já foi meu
Reparei no teu cabelo dançando sozinho
Nos teus lábios de beijo de azevinho
Relembro a viagem da nossa vida
Em que o comboio se perdeu,
Relembro as tuas mãos românticas
E o toque que já foi meu.
Dissolve-se o meu pensamento que um dia em ti habitou,
Vivendo agora na silhueta que o tempo apagou
De senhor feudal a plebeu
Perdi tudo o que um dia foi meu.
Sobra uma réstia de lembrança passada
Que guardo desesperadamente
Agarrando o futuro com uma mão cheia de nada.
👁️ 256
Pedaços de ser
Somos pedaços de ser,
De ser que é e que foi,
Somos Filho-avô
Somos Filho-pai
Somos Filho-mãe
Somos quem somos e quem por nós passou.
Somos um todo incompleto,
Que se unifica em alguém.
Como universo complexo,
Num país de ninguém.
👁️ 238
Insónia
Recordo esse teu ensurdecedor pensar,
Que invadiu o meu silêncio.
Desde então,
Não mais pude discernir
Sonho de realidade.
👁️ 251
Esquisso de calçada
Sigo cauteloso,
Sem qualquer pretensiosismo no meu andar,
Por esta estrada que vou alongando,
Passo a passo,
Desde o primeiro suspiro.
Perdendo-me em mim,
Não mais sei por onde vou.
E como poderia saber,
Se a filosofia da estrada que percorro nunca é a mesma?
Contento-me em revisitar o meu diário de bolso,
Como personificação da vida,
E folheá-lo até à ínfima página,
Perscrutando-a até ao derradeiro ponto final.
Rege-se a sinopse da minha existência,
Pelo abraçar desta frágil certeza
De que a estrada por onde vou,
Não mais é que um esquisso de calçada
Que nem é esquisso nem é nada,
É uma moldura sem quadro
Que Deus a mim me confiou.
👁️ 213
Amanhã, serei
Amanhã já não serei quem sou hoje.
Nem eu o quero ser,
Nem os tempos vindouros o desejam.
Amanhã leio um livro novo,
Ouço uma música que ontem desconhecia,
Observo de maneira diferente,
Desejo de maneira diferente,
(Porque a vontade não é a mesma)
Apaixono-me e desapaixono-me novamente.
No fundo,
Vivo.
👁️ 238
A casa ao fundo da rua
Ao fundo da rua
Surge uma casa sem teto
Tendo no passado sido casulo da inocente larva
Que, vítima do processo evolutivo, virou borboleta,
Realizando o ciclo de vida completo
Vislumbrando as consequências
Que a nova realidade acarreta,
Desvanecem-se as vivências gravadas
Nas paredes agora rasas
Pois o corpo virou borboleta
E a alma mudou de casa
Nessa casa ao fundo da rua
Onde o Sol se pôs
Para dar lugar à Lua
Que, ao amanhecer,
transita novamente
Para o mesmo Sol,
Num dia diferente.
👁️ 250
Sociedade sem dicionário
Prazer de curta duração desprovido de sentido,
Num breve momento de fantasia
Que aumenta o vazio, por o querer em demasia.
Visão reduzida à superficialidade do juiz sem formação,
Que sentencia a moralidade por falta de razão,
Condenando quem da jaula do pensamento influenciado escapa,
Ilibando o leitor que lê o livro pela capa.
Assemelhando-se à pintura rupestre da cultura passada,
Evidencia-se o humano de saber primário,
Que se serve da linha de pensamento estagnada,
Na esperança de encontrar o vocábulo correto
Numa sociedade sem dicionário.
👁️ 244
2020
Do toque reza a lenda
Que se desenvolve no pensamento incompleto
Da ilusão do amor esperado,
Substituído pela ausência de afeto
Domínio carnal,
No labirinto da memória perdido,
Reside no presente fugaz
E remonta ao passado do beijo esquecido.
Condenado ao pedaço de pano,
Que divide o ser do humano,
Agarra-se à esperança esquiva do brilho intermitente,
Pedindo que este não brilhe só quando o sol consente.
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